sexta-feira, setembro 27, 2013

MINHA VIDA GAY

Relato de um amigo: Os desdobramentos da vida de um gay

Por: M.V.




Em 21 de junho de 2012 o leitor “P” entrou em contato por e-mail para narrar sua história. Na época, namorava com uma menina ainda e foi inspiração para o post “Relato de um gay que namora uma menina”, texto que teve bastante visibilidade.

Tive a oportunidade de conhecer o “P” pessoalmente e levar conselhos, ideias e apoio frente a frente. Surgiu uma amizade, ganhei o livro “Mãe sempre sabe?” da autora Edith Modesto e tenho acompanhado a evolução (evolução mesmo!) da vida de “P” desde aquela época.

Não temos nos encontrado com tanta frequência, fruto de momentos diferentes da vida, natural. Mas o “P” mandou recentemente um e-mail amplo e detalhado que merece destaque por aqui, para que os leitores possam enxergar – de maneira muito positiva – o quanto assumir a homossexualidade a si mesmo e encarar as realidades como gay podem ser bom para nós. Imagine que em junho de 2012 o amigo “P” era “heterossexual” e cultivava um namoro de mais de 5 anos. Vejam só a virada que fez em sua vida em um ano. Me enche de orgulho! =]

Relato do amigo P:

“MVG, meu querido amigo, tudo bom?

Faz certo tempo que quero te escrever, como nos velhos tempos, ou não tão velhos assim, mas a vida vai passando… até nos encontramos nesse meio tempo, mas sem chances de falar o que aqui te escreverei. Eu que quase sempre vim pedir conselhos, pedir ajuda e claro sempre receber as palavras certas para os momentos errados, hoje venho num tom diferente: venho dividir com você minha felicidade, dividir com você o momento bom que venho passando na minha vida. Para não perder o costume vou provavelmente escrever um e-mail enorme e puxar alguns flashbacks. Acho que, no final, escrever para você acaba sendo um balanço que eu mesmo faço em minha cabeça.

Vou voltar para o final do ano passado, muitas travas ainda me faziam sofrer e quando eu achava que estava me destravando, fatalmente caia nas armadilhas que estavam armadas dentro da minha cabeça. “Fulano”, o carinha que eu fui no apartamento depois de 2h de papo pelo Scruff (noite muito agradável) aparentou ser uma pessoa muito bacana. Minha cabeça começou a pensar muito e pronto – apaixonite – minhas ações podem ter assustado ou ele não queria nada mesmo. Sofri e, ainda sofrendo, Scruff novamente: conheço o “Cicrano”. Já jogou nos primeiros dez minutos de conversa o que ele queria – um namorado – não pensei duas vezes (talvez eu deveria ter pensado umas dez vezes) me joguei, encontrei nele coisas que não me agradaram, sim, mas resolvi seguir o meu coração e os seus conselhos, fui meio sem medo, ele me proporcionou um final de semana bastante agradável, não vou negar, me proporcionou a sensação de namorar alguém em público (ainda que na Augusta) sem medo de ser feliz e de fato eu fui, apesar do tempo limitado. Não faço a menor ideia do por quê, mas ele simplesmente saiu da minha vida. Talvez a vida tenha o tirado do meu caminho. Sofrimento, sim, compartilhado, sim e sim, tive o teu apoio, do Sammy e pela primeira vez da minha ex e depois que comecei a me levantar, iniciei um processo reflexivo muito grande sobre o que eu estava fazendo comigo mesmo em relação ao que eu queria, como eu estava me comportando com relação a isso e como você mesmo já falou, o “caranguejo” voltou para a toca. Voltou por bastante tempo.

Fiquei quase três meses meio fora da cena gay. Para falar a verdade, fiquei fora da cena social, mas não fiquei à toa. Foi um período de grande reflexão sobre a minha vida, não somente sobre eu ser gay e querer namorar. Foi um período de análise do que eu estava fazendo com a minha vida, sobre o que de fato é viver, o que é felicidade. Alguns livros me ajudaram, assim como conversas e conselhos que direta ou indiretamente chegavam até a mim e veja como é a vida: o “Beltrano” teve uma grande contribuição neste momento. Uma das primeiras coisas que ele me fez perceber foi que eu precisava de um porto seguro, algo que me ajudasse a manter o equilíbrio quando a vida apresenta um grande problema ou um sofrimento. O amigo Beltrano, por exemplo, tem no Reike este porto seguro, que o equilibra. E eu, qual seria o meu porto seguro?

Eu não tinha porto seguro e fui mais fundo: percebi que não tinha nada na minha vida que me fizesse vibrar, que me desse muito prazer em fazer, nada, e isso foi bastante angustiante. Essa preocupação entrou em minha cabeça e na mesma intensidade a vida começou a me mostrar opções temporais e atemporais. Comecei a abraçar projetos que me deram prazer, comecei a estudar para me tornar um LEED GA (três meses de estudo e um resultado muito bom na prova). Comecei a fazer a pós-graduação (consegui uma bolsa pelo contato com meu diretor) e por um golpe do acaso (ou não) o Teto apareceu na minha vida.

Pouco a pouco fui deixando a motivação entrar em minha vida, não porque não estava namorando, mas porque estava fazendo coisas que faziam sentido para mim. No caso do Teto, uma energia muito, muito positiva do trabalho voluntário. Eu comecei a ver que a vida era muito mais bela do que eu jamais tinha imaginado (me emociono só de escrever para você). Por mais que algumas pessoas me dissessem que eu precisava de um pouco de tempo para mim, ocupar minha agenda mensal com uma boa dose de Teto, um final de semana com a pós e horas de estudo a noite com o LEED GA me faziam ser cada vez mais positivo. A vida me devolvia essa positividade na mesma intensidade. Não me lembro exatamente quando, mas neste período, eu já melhor, sentei uma vez para ter outra conversa com o amigo Beltrano. Ele estava meio mal com o namorado e eu fui dar certos conselhos. Num dado momento eu falei a ele que na vida o que importava era o amor das pessoas, o resto era suporte: “exercite o amor pelo próximo”.

Aquelas palavras martelaram minha cabeça por alguns dias, não fui eu que falei aquilo para ele, aquela não era a minha opinião, mas aquilo fez muito sentido para mim. Lembrei que essa conversa com o Beltrano foi pouco depois de entrar no Teto. Então acreditando nisso eu comecei a mudar ainda mais a minha postura em relação as pessoas, comecei a sorrir mais, expressar mais o meu afeto, seja para quem fosse e incrivelmente a vida devolveu isso numa intensidade incrível (e novamente eu me emociono), me aproximei muito mais dos meus pais e dos meus irmãos, comecei a cultivar uma relação muito positiva com meus colegas de trabalho, em casa o clima comigo sempre estava bem, no Teto eu fazia tudo sempre com um enorme prazer e as crianças (que são mais suscetíveis ao afeto) não saiam de perto de mim. Isso gerou até um apelido entre os voluntários do Teto numa das atividades em campo que participei e nada me dava mais prazer do que ouvir que as crianças perguntavam onde estava o “Tio do Mapa” (eu participo da equipe de mapeamento no Teto) quando eu não ia a campo.

Namorado, não obrigado, estava muito bem naquele momento, mas é claro que este assunto ainda era algo que no fundo da minha cabeça me chamava à atenção e me dava pequenas doses de desânimo, ainda que controlados.

Lá por Abril/ Maio, acreditando nesse meu estado muito positivo, com vários portos seguros definidos, uma família/amigos maravilhosos sempre dispostos a me entregar o afeto que eu precisava, resolvi dar margem para a questão que ainda não estava tratando e quase que seguindo a mesma regra de antes: instalei o Scruff no meu celular, fiz um perfil dando a entender o que eu queria, uma foto não apelativa e fui em frente, claro, querendo achar alguém bacana e tal – não que lá não tenha – mas não é bem o propósito de quem tem um perfil por lá.

Comecei o papo com um, com outro, me animei com um, me animei com outro, expectativas de um lado e frustrações de outro, me desestabilizei, pensamentos negativos, baixa auto-estima, tudo voltou a minha cabeça, quase como nos velhos tempos. Claro que dessa vez eu consegui me estabilizar muito mais rápido, mas comecei a perceber que o que eu queria era algo bom e portanto eu não precisaria passar por instabilidades negativas para chegar até lá. Então resolvi fazer um acordo (ou uma ordem ditatorial) comigo mesmo: “se você quer conhecer alguém, namorar, vai ter que ser no modo tradicional. Você está proibido de querer conhecer alguém por meios virtuais”. “Mas eu nunca cheguei em alguém”, “Eu fico nervoso só de trocar olhares, quem dirá coisas a mais”, “Eu perdi a fase da minha vida na qual as pessoas aprendem isso”, “Eu nunca vou conseguir”… pois é meu caro “P”, dá o seu jeito! A partir de agora internet não faz mais parte das suas opções.

Claro que um medo enorme e uma falta de referências veio até minha cabeça, mas eu fui em frente e de maneira muito tímida me peguei um dia olhando no metrô (detalhe, estava indo para uma reunião no Teto) um carinha bem lindinho e vejam só como são as coisas: ele retribuía o olhar, sem nenhuma expressão extra de ambas as partes, ficamos trocando olhares por um certo tempo, muito mais do que os 1-2 segundos que eu conseguia sem desviar o olhar até então. Claro que dentro de mim o meu sangue foi substituído por adrenalina, mas uma voz grossa gritava no meu ouvido “Continua”… e eu continuei, cheguei até em pensar numa abordagem, mas perdi ele de vista na multidão quando saímos do trem. Saí de lá aquele dia como se tivesse ganhado na loteria, sorriso de orelha a orelha, então comecei a praticar mais trocas de olhar no metrô. Via alguém bonito, ficava olhando, mesmo que fosse hétero. Fui ficando levemente mais confiante com isso, aquele sentimento de que eu não era capaz começou a diminuir e isso foi me deixando mais positivo, afinal aquele assunto no fundo da minha mente que me causava incômodo parou de mandar energias negativas. Afinal, eu sentia que eu começava a ter mais controle e que as coisas agora passavam a ser questão de tempo.

Fui no Gambiarra um dia com o Sammy, conversei comigo mesmo antes e me joguei e cai do cavalo. O ambiente de boate ainda me incomodava, eu não conseguia ficar a vontade, mal trocava olhares e não só isso: eu travava quando percebia alguém interessado em mim. Saí de lá mal, mas com um desafio na minha cabeça: precisava reverter aquela situação.

Nesse meio tempo surgiu a entrevista na “XYZ”. Eu entrei de cabeça nisso e fiquei um tempinho sem me preocupar com o desafio pós-Gambiarra. Acabei conseguindo a vaga, preparei a minha saída da “ABC” e a minha chegada na “XYZ”. Eis que como num passe de mágica o “Y” ressurge das cinzas depois de quase três meses sem dar sinal de vida. A última vez que eu falei/encontrei com ele foi no aniversário dele, no começo de Fevereiro. Marcamos de sair e depois de uma noite agradável eu tentei beijá-lo quando cheguei em casa. Ele recusou, mas eu fiquei tão feliz, tão feliz, não sei exatamente o por quê, mas acho que era uma mistura de ter tido iniciativa e coragem, desmistificação do que o “Y” sente por mim… não fiquei mal com o sentimento de rejeição.

No dia seguinte me senti um ridículo, tanto que dois dias depois eu quebrei o silêncio e mandei uma mensagem para o “Y” e ele amigavelmente respondeu dizendo para eu me concentrar na comemoração do meu aniversário/emprego novo.

Pois bem, pela primeira vez em minha vida eu estava muito animado para comemorar o meu aniversário, e assim o fiz, e fiquei muito feliz de poder passar um pedaço do meu final de semana de aniversário com as pessoas mais queridas da minha vida. Vale um destaque: com a minha rescisão da “ABC” troquei meu guarda roupas e a vida me brindou com uma costureira perto do trabalho que cobra um preço muito bom, estou ajustando tudo, está ficando um arraso! A comemoração começou sexta-feira, no Gambiarra com a companhia sempre querida de Sammy… o “Y” levou um amigo bem legal, a noite foi ótima, música boa, lugar lindo, uns drinks aqui e outros ali, dancei como nunca tinha dançado antes. Me acabei naquela noite! A primeira pessoa que me encarou eu travei, mas na segunda eu não resisti, deixei ele vir até mim e me beijar, sim, saí, apesar de bonito ele nem fazia tanto o meu tipo (e eu também não sabia o que fazer depois de começar a beijar. Achei melhor dar um de “piriguete” e simplesmente sair). Noite vai, noite vem deixei que o mesmo ocorresse novamente, a mesma saída do primeiro. Fechei a noite muito feliz, não pelos novos passos, mas por que de fato a festa foi muito boa. No dia seguinte quando sai a noite com meus irmãos, “Y” e Sammy para o Ringue Lounge, tirei do armário a minha calça rosa e agora ajustada. Por esse simples motivo tive que me assumir para o meu último irmão que não sabia. Ele decidiu ir na festa meio em cima da hora. Sem grandes traumas ele entendeu e ficou bem com a notícia.

Apesar da decoração e das músicas o lugar era hétero. Aparentemente os únicos gays eram eu, Sammy e “Y”, mas a companhia de todos fez a noite ser maravilhosa. Dancei sem medo e meus irmãos adoraram me ver feliz. Fiquei sabendo até de comentários posteriores em casa através da minha mãe, que está louca para sair um dia para dançar comigo… pode isso?! Adorei saber disso, porque o comentário deve ter sido do meu irmão “L” (o último a quem me assumi) afinal, dos que estavam lá, é o único que ainda mora com meus pais.

Final de semana maravilhoso de aniversário, minha energia super positiva, meu sentimento de que eu era muito capaz na cabeça, comecei a ler “O Segredo (Lei da atração)” que o “Y” me deu de aniversário (sem dedicatória!) e fiquei chocado como mesmo sem conhecer o livro, eu já aplicava parte das coisas na minha vida. Devorei e comecei a mentalizar o que eu queria neste momento: um relacionamento. Saí com o Bletrano no sábado do feriado e fomos fazer umas compras. Ele estava meio mal (para variar) com o namorado e saímos para distrair. Comprei um sapatênis vinho (queria faz um tempo um vermelho, mas me apaixonei pelo vinho). Estávamos combinando de ir na Yatch Club na segunda do feriado. Festa nova, ambos animados. Naquela noite o Beltrano teve uns problemas com o namorado e eles terminaram. Fomos no Bar Volt, perto do Tubaína, ambos muito bem produzidos.



Papo vai papo vem, fomos para a Hot Hot. Fazia tempo que o Bletrano queria ir lá comigo.  Tudo que eu estava mentalizando a quase uma semana de maneira intensa viu uma válvula de escape, apesar do público ser bastante jovem. Eu beijei um carinha, na fila do banheiro, mas novamente a pessoa veio até mim. A noite foi bem divertida. Adorei o lugar, o Beltrano também e dançamos muito. Saí de lá feliz, mas pensativo, obviamente, porque eu não conseguia chegar em alguém. Vi pessoas interessantes na noite, mas não consegui chegar, estava feliz por não travar mais quando alguém chegava em mim, mas não satisfeito porque não consegui chegar em alguém.

Segunda feira chegou. Yatch Club no final do dia. Troquei uma informações com a minha ex e ela me disse: “’P', pesquisa na internet boas cantadas e dicas para chegar nas pessoas” – e fiz isso. Encontrei coisas muito genéricas, mas uma cantada muito boa, porém com um apelo mais voltado só para um beijo. Bem, para quem precisava se soltar isso parecia uma boa ideia. O Beltrano acabou voltando com o namorado no dia seguinte que eles terminaram. Ainda assim o amigo Beltrano foi minha companhia naquela noite. Estávamos muito felizes, tínhamos vários motivos para comemorar e iniciamos a noite com um “rasgando seda” para o outro e brindes com vodka com coca-cola.

A casa estava cheia, a música estava ótima, entramos no meio do bolo de gente e lá caímos na dança. Pensei: “quer saber, eu vou é me divertir”… não deu 5 minutos e um menino começou a passar a mão na minha bunda. Eu virei e lhe dei um beijão… larguei e voltei a dançar com o Beltrano. A música daquela festa estava muito boa, não demorou muito e outro carinha (um pouco mais longe) estava de olho em mim. Pedi licença para o amigo e fui até ele. Dancei um pouco e lhe tasquei um beijo. Sem muito, voltei até o Beltrano e assim foi passando a noite. Beijei um terceiro e um quarto, me senti a “piriguete”. Estava sim sobre o efeito do álcool, mas não estava completamente bêbado não, até porque não bebi muito.

No final, depois de dar muitas risadas, dançar muito, lá pelas 4:30 da manhã, resolvemos pegar mais leve e dançar num dos cantos da pista. O que eu mais queria naquele momento era um pouco de ar fresco

Foi então que minha vista travou num menino que estava numa rodinha, não muito longe de nós. Fiquei olhando para ele, achei muito bonito, dançava de maneira meio tímida, os amigos estavam se divertindo todos, felizes, não conseguia parar de olhar para ele e acho que ele percebeu assim como os amigos dele. Mas algo na minha cabeça falava que seria uma falta de respeito chegar nele beijando. Então, virei para o Beltrano e falei “Amigo, o que eu posso falar para chegar naquele menino ali?”. Ele me indicou o velho “OI, TUDO BOM?”. Eu não aderi a ideia dele e continuei flertando com o olhar. Ele virava para me olhar, fingindo só ver como o salão estava.

Eu ficava tentando pensar no que havia lido, mas nada me ajudava, nada. Então pensei: “se ele olhar mais uma vez eu vou lá…” e não ia, não sei te dizer quanto tempo fiquei nessa, mas foi um certo tempo. Até que lembrei dos arrependimentos de minha vida por não ter tomado uma atitude na hora certa e isso me deu uma energia. Fui até ele… vi que a cerveja que ele estava tomando havia acabado e ofereci companhia até o bar para pegar outra, ele sorriu e aceitou. Ele pegou a cerveja, eu fiz um elogiou, o levei até perto da parede e comecei a beijá-lo. Mas bem diferente do beijo que dei nos outros naquela noite e ele respondeu numa mesma frequência. Não vou negar que foi o melhor beijo da noite e o único que me deixou excitado.

Começamos a conversar entre um beijo e outro, e adivinha, ele é de Campinas, mas os melhores amigos dele são de São Paulo. Tem 29 anos.

Perguntei o que mais ele gostava de fazer além de ir na balada. Ele falou que gostava das coisas clichês como cinema e jantar. Então perguntei se eu o convidasse para vir para São Paulo fazer um programa clichê ele toparia. Novamente, aquele sorriso lindo dele e um sim! Aí, eu falei que precisaria saber o telefone dele. Ele me passou e nisso veio um amigo dele, estavam indo embora. Demos mais alguns beijos e nos despedimos. Depois dessa eu e o Beltrano demos um tempo e fomos embora. Eu fiquei feliz, sim, bastante, a noite não tinha como ser melhor. Além de me divertir muito, me destravar ainda mais, havia conhecido alguém bacana, exatamente o que eu havia mentalizado a semana inteira enquanto lia “O Segredo”.

Tentei ligar no dia seguinte, tivemos uns problemas de comunicação e só conseguimos nos falar na quinta. Ele disse que provavelmente iria em outra festa neste final de semana, me convidou para ir junto, eu aceitei, apesar de que preferia sair com ele em algo mais calmo para conhecê-lo melhor.

No final ele não vai vir mais para São Paulo. Trocamos algumas mensagens vendo outras possibilidades de nos vermos novamente e ele deixou claro que tem interesse em me ver, e eu o mesmo. Eu continuei exercitando “O Segredo” em minha cabeça. Ele vem se mostrando uma pessoa bem bacana viu, mas independente disso, estou bem tranquilo, gostando sim de estar conhecendo alguém, mesmo que bem no início. O sentimento de que eu não estou tendo sorte, mas sim colhendo o que plantei, me deixa bem mais tranquilo com relação ao “A”. Se não der com ele, ok, posso tentar novamente, sei que agora eu posso. Não vou negar, sempre que eu tenho alguém em mente eu fico com menos vontade de olhar e procurar outras pessoas e dessa vez não está sendo diferente. Mas ao contrário de todas as outras pessoas que entraram na minha vida, minha felicidade agora, sim nesse exato momento, não é só devido a ele. Outras várias coisas me deixam feliz e empolgado.

Ontem fui num happy hour com o pessoal do antigo trabalho e me diverti muito, hoje a noite vou jantar com meu irmão mais velho e com sua esposa e depois vamos no cinema. Eu estou super animado de vê-los. Amanhã devo ir no Ibirapuera, sozinho, andar de bike e estou empolgado, assim como estou empolgado com o dia que eu e o “A” vamos nos ver novamente. Provavelmente não será nas próximas duas semanas, ambos estamos bastante ocupados, mas no que depender da minha vontade e aparentemente (até pelo que ele já falou) da dele também, esperar um pouco não será um problema.

E para além de tudo isso eu comecei a fazer academia a umas três semanas, estou me alimentando muito bem, tendo acompanhamento de vários médicos e cuidando com carinho da minha saúde.

Sabe, meu amigo, as vezes eu me pego pensando que viver é mais simples do que imaginamos e que a felicidade está ao alcance de todos.

Um grande beijo para você!

Com carinho,
‘P’”

MVG: Agradecido por deixar postar seu e-mail enviado a mim. Seu relato dispensa maiores comentários. Carpe diem e da maneira que você entender que te faz feliz. Como já disse: somos os autores de nossas histórias. ;)


Carlos Tufvesson: "O preconceito é democrático e atinge todas classes"




Em entrevista, estilista fala de seu casamento de 17 anos com André Piva e da luta pelos direitos dos homossexuais.
Carlos Tufvesson, um dos mais festejados estilistas brasileiros e que veste gente como Angélica, Ana Maria Braga e Vera Fischer, nasceu em 1968. Um ano antes de acontecer a chamada Batalha de Stonewall, quando no dia 28 de junho, grupos gays que frequentavam o bar Stonewall, em Nova York, se rebelaram contra a polícia que sempre aparecia no lugar para bater e cometer abusos. A data virou marco e ficou conhecida como Dia do Orgulho Gay no mundo todo. Para Tufvesson, 43 anos, homossexual assumido, casado há 17 anos com o arquiteto André Piva e responsável pela Coordenadoria de Diversidade Sexual do Rio de Janeiro, órgão da prefeitura do Rio, dia do orgulho gay é todo dia.

Pelo menos é com essa lógica que ele trabalha ao receber denúncias de gente que foi destratada ou agredida por tentar exercer sua orientação sexual, ou por ainda não ver direitos como o do casamento gay reconhecidos pela Justiça brasileira.

“Soube do caso de irmãos gêmeos que foram agredidos na Bahia porque estavam andando abraçados. Isso é crime de ódio. Até quando o Estado brasileiro vai permitir que isso aconteça? Que pessoas morram por sua orientação sexual? No caso em questão, nem gays as pessoas eram”, diz ele que, apesar de fazer parte da alta sociedade do Rio de Janeiro e de ser filho da estilista Glorinha Pires Rabelo, não foi poupado de situações de discriminação e preconceito

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“O preconceito é bem democrático e atinge a todo mundo, a todas as classes sociais, religiões e raças. Só foi mais fácil porque posso contratar um advogado ou ter acesso ao conhecimento e me defender. Mas, só. Não tenho os mesmos direitos que outros cidadãos brasileiros têm. Ainda não posso me casar de verdade. Eu até poderia casar na Inglaterra, por exemplo, já que o André é cidadão europeu. Mas não quero isso, não quero desistir de ser brasileiro por ser gay”, conta ele. Nesta entrevista ao EGO, Tufvesson fala ainda sobre a desistência da candidatura a vereador e de seu quadro, o “Fashion Express”, no programa “Mais Você”.







Por que desistiu de se candidatar ao cargo de vereador no Rio de Janeiro?

Percebi que não estava preparado para chefiar uma campanha política. Não era só ter uma ideia na cabeça e uma boa intenção. Teria umas 30 pessoas trabalhando diretamente comigo, mais umas 200 na rua. É uma empresa! Fechei a minha empresa porque percebi que era uma grande roubada. E, no final das contas, eu estaria de novo administrando uma. Não quero isso. Acho que cada um pode ser militante, um soldado, no front em que atua.

Como é o trabalho na Cordenadoria de Diversidade Sexual?


Tentamos combater a homofobia e conseguimos criar o programa “Rio sem preconceito”, que trabalha a cura da homofobia a partir de todo o tipo de preconceito e transforma a causa gay na causa de todo cidadão que já sofreu preconceito. Além disso, recebemos denúncias e tentamos encaminhar a questão. Aliás, essa é a nossa preocupação no momento, o baixo índice de denúncias que recebemos. A gente acha que o cidadão homossexual está tão acostumado a ouvir que ele não tem direito, que é um subcidadão, que ele acredita nisso. Temos leis que garantem a cidadania do cidadão LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros), como manifestação de afeto e isonomia de tratamento. Neste 28 de junho, vamos lançar uma campanha pra mostrar a importância da denúncia. Não adianta vir no meu Twitter ou no meu Facebook e falar que foi vítima de homofobia. Temos uma coordenadoria na cidade, com cidadãos homossexuais trabalhando nela, que vão atender com respeito, dignidade, conhecimento técnico e privacidade. Sem a denúncia, não podemos agir.

Como é transformar uma opção em uma bandeira política?


É muito simples: não é uma opção. É uma orientação. Ninguém na vida optaria por ser veado e tomar uma porrada na esquina, ter sua orelha mordida, ser esculachado na escola.

Formulei mal! Quis me referir a algo que deveria ser apenas uma decisão pessoal e tem que se transformar em uma briga por direitos civis para que seja garantido.



Não! Acho que você formulou bem. Acho que você deveria manter assim porque tem muita gente que acha que ainda é uma escolha. Desconsidera que a Organização Mundial de Saúde já declarou que não é doença. Acho engraçado quando algum parlamentar ou algum religioso vem opinar sobre isso e propor, por exemplo, que homossexualidade é doença e precisa de cura. Não quero a opinião deles falando sobre a minha condição. Quero uma opinião técnica. Existe um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional, que propõe isso. A cura para gays. Mas quero ver que médico vai curar isso já que é passível de perda do CRM do profissional. Quem vai curar se não pode? Como pode uma pessoa sem conhecimento técnico decidir a esse respeito?

Você acha que sua trajetória pessoal na luta dos direitos civis dos gays de algum modo foi beneficiada pela sua classe social?
Você e o André, por exemplo, são citados no anuário da Sociedade Brasileira.


O preconceito é bem democrático ele atinge a todo mundo, a todas as classes sociais, religiões e raças. Só foi mais fácil pra mim por ser de uma classe social mais favorecida porque posso contratar um advogado ou ter acesso ao conhecimento e me defender. Mas, só. Mas estudo também não está ligado a classe social. Tem muita gente da minha classe social, que é completamente ignorante. Acho que é mais fácil pela minha profissão, talvez. Sou um profissional respeitado, sou dono da minha empresa, assim como o André. A gente não tem que ficar preocupado se vai deixar de ser promovido ou não porque se assumiu gay. Mas é só isso. Não é fácil para ninguém. Preconceito a gente sofre desde criança. Quanto ao anuário da Sociedade Brasileira, o que aconteceu foi que a gente era citado em verbetes separados, mas no mesmo endereço, na mesma edição. Aquilo me incomodou. Liguei para a Helena Gondim, na época, e falei que não queria continuar no livro. Ou ela me colocava como um casal ou me tirava. Porque eu e o André somos um casal, temos um casamento e todo mundo sabe disso. Foi bacana porque ela topou e ainda ligou para outros casais perguntando se queriam a mesma coisa. Mas só eu e o Gilberto Braga topamos figurar como casal no anuário. Mas entendo que ninguém é obrigado a assumir nada. Eu só tenho que lutar para que as pessoas tenham o direito de escolher e exercer sua cidadania.

Como foi para você se assumir gay e contar para a sua família?



Meu caso é uma exceção. Minha mãe se separou do meu pai, que era militar, quando eu tinha seis meses de idade. Eu carrego o preconceito de ser filho de pais separados desde que eu tinha seis meses, minha mãe teve um segundo casamento, mas não tinha divórcio ainda, meu irmão era tido como filho bastardo. Então, todo o tipo de preconceito que você possa imaginar eu já passei. Tinha que ver na época em que frequentava o clube militar com o cabelo comprido. Confundiam-me com subversivo. Acho que na época, se pedisse para meu pai escolher o que eu seria, gay ou subversivo, não sei o que ele iria preferir (risos). Nos éramos uma família atípica. Mas minha mãe sempre me disse para eu lutar pelas coisas em que eu acredito.

É claro que tive dificuldade em dizer: “Sou gay”. Se bem que na verdade, eu não cheguei e falei. Voltei da minha pós-graduação na Itália e estava apaixonado por um cara. Até então, achava que um homem não podia se apaixonar por outro homem. Trepar podia, apaixonar, não. Mas voltei e estava mal, ficava só em casa, não saía. Até que minha mãe virou e falou: “Você está com saudade dele, né?”. Tomei um susto, mas foi assim. Mas acho que a pessoa tem que ter todo o tempo do mundo para absorver isso, se conhecer e entender a sua sexualidade, o homossexual se sente isolado no mundo, que a sexualidade dele é promiscua, suja. Enquanto ele achar isso, não deve falar com a família. Ele não está preparado. Só quando entender que o que ele sente pode ser o mesmo amor que a mãe sente pelo pai, que a irmã pelo namorado. Que é tudo normal.

E como foi contar para o eu pai?



Eu tinha muito pouco contato com ele. Quando ele morreu, eu estava só há um ano com o André. Não tivemos tempo de ter essa conversa. Mais novo, eu sempre tive muitas namoradas. Teve um dia que ele me perguntou: e aí, nunca mais me apresentou uma namorada. Eu virei para ele e falei: 'Você vai querer falar sobre isso?'. Ele mudou de assunto (risos). Mas é um direito. Não tenho que forçar ninguém a me entender, me aceitar. Só a me respeitar

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E como foi fazer da cerimônia do seu casamento, no ano passado, um ato político então?


Mas não foi, nem é. Meu casamento foi um ato de amor, não uma manifestação política.
Ficou frustrado pelo fato de a Justiça não ter concedido a conversão da sua união estável em casamento civil?

Acho que esse episódio serviu para mostrar até aonde vai o preconceito. O Supremo Tribunal Federal reconheceu por unanimidade esse direito. Aí você pensa assim: luto há 16 anos por direitos civis dos homossexuais. Pronto! Foi! Vou conseguir!
Mas aí vem o juíz que negou a minha conversão, e envia um ofício para o Supremo justificando a decisão dele dizendo que ele não sabia que a entidade havia d
ecidido sobre a união estável há seis meses. O mesmo aconteceu com um desembargador, que se disse impedido de julgar a causa porque teve uma educação jesuítica. É isso! Por mais que a gente lute, tenha leis, mas o preconceito abre suas brechas. Isso coloca a independência do judiciário em xeque.

Você acha que com o reconhecimento desse direito para todos os cidadãos brasileiros já dá para começar a descansar?


Não. É apenas o primeiro passo! Quando você reconhece o casamento, você diz apenas que eu tenho o mesmo direito que outros cidadãos brasileiros. Eu poderia casar na Inglaterra, por exemplo. O André é cidadão europeu. Mas não quero isso, não quero desistir de ser brasileiro por ser gay. Nós homossexuais não temos 120 direitos que nos são negados. Ou me dá meus direitos, ou desconto no imposto de renda porque só obrigação não dá. Meu estado civil continua solteiro ainda. Todo mundo sabe que sou casado com ele há 17 anos. Isso é uma falsidade ideológica, é patético, é uma situação vexatória. O judiciário vai ter que se pronunciar para evitar que mais crimes de ódio continuem acontecendo no nosso país

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Como rolou o convite para participar do programa da Ana Maria Braga?



Foi o Boninho que teve a ideia do quadro, dando dicas de moda e me chamou. É um tesão porque voltei a trabalhar com tecido, coisa que não fazia desde que fechei minha empresa. A moda não é só minha profissão, é minha vida.


2 comentários:

  1. Que história linda...bem legal...simpatizei ""P"""

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  2. 'Carlos Tufvesson: "O preconceito é democrático e atinge todas classes"'
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