terça-feira, agosto 12, 2014

HOMOSSEXUALIDADE

DIA DOS PAIS- Como é ter um pai gay? Filhos respondem




Publicado pelo iGay

Mariana, Bryan e Dalila explicam como lidaram com a homossexualidade dos pais e com uma nova estrutura familiar

Há dez anos, a designer Mariana Ribeiro, 27, chamou o pai, o empresário Marco Antônio dos Santos, 56, para ter uma conversa. No papo, sem muita cerimônia, ela o convidou a sair do armário e se assumir gay. “Não precisa sentir vergonha, nós somos uma família, para que esconder?”, recorda Mariana, sobre o que disse na ocasião para Marco, que aceitou o convite da filha.

Mãe solteira, orgulhosa da sua família que foge do perfil tradicional, Mariana já sabia que o pai era gay há alguns anos, até pelo fato dele morar com outro homem. A designer conta que sempre foi muita apegada a Mauro e queria mostrar que estava ao lado dele.

“Eu me identifico muito com meu pai, sou a mais parecida com ele. Não só fisicamente, mas também emocionalmente. Mesmo vivendo longe um do outro, a ligação é muito forte”, conta Mariana, que mora em Cotia (SP), há 20 km de Marco, que vive na capital São Paulo.

Marco, que teve mais duas filhas com a ex-esposa, além de Mariana, demostra orgulho da cabeça aberta da filha. “Nós sempre criamos nossas filhas para o mundo”, observa. “Uma das melhores coisas de ser pai é nos ver refletido em nossos filhos, lembro até hoje quando a minha outra filha, com uns oito anos, me falou que eu ria pouco, desde então tento rir mais”, prossegue ele, casado há nove anos com o também empresário José Antônio, 56.

Aliás, José cobra do marido quando ele deixa de ligar para as filhas. Fã dos almoços de domingo em família, o padrasto gosta de receber a enteada Mariana e filho dela Caíque, 2, no apartamento em que mora com Marco.

“O que interessa não é o formato da família, mas as pessoas que a compõem. Eu não mudaria absolutamente nada na minha vida”, constata Mauro, sem conseguir conter a emoção. “Nós nos escolhemos, poderíamos ter nos negado não é mesmo?”, concorda José. “Se não fosse assim, não seria minha família”, arremata Mariana.

Renasci quando sai do armário

Diferentemente de Mariana, o estudante Bryan Asfora Coutinho, 21, ficou sabendo que o pai era gay quando ainda era criança, aos 8 anos. O fotógrafo Mau Carlos Correa Coutinho, 47, decidiu se assumir durante uma viagem com filho Bryan e um antigo namorado.


Mau e o filho Bryan: 'É difícil ver uma relação com tanto amor e carinho como a deles'

Com o apoio da ex-sogra e da mãe de Bryan, Mau fez a revelação e se surpreendeu com reação do filho. “Eu contei, ele começou a chorar, então entrei em pânico. Mas logo depois, ele me disse que estava preocupado porque iam me zoar”, conta o fotógrafo, emocionado.

Mau diz que a emoção de sair do armário para o filho só é comparável a que ele sentiu quando Bryan veio ao mundo. “Guardo com muito carinho dois momentos: O primeiro é o nascimento do Bryan. Depois, o meu renascimento, ao me assumir gay para ele”, revela o fotógrafo.

Depois de viver desde criança com a mãe, Bryan se mudou para casa do pai, que fica mais perto da faculdade de cinema que ele cursa, na Zona Sul do Rio de Janeiro. “Temos conflitos de quem vive junto, mas tenho muito carinho pelo meu pai. É uma relação como de qualquer outro pai e filho”, relata o estudante.

Quando ouve alguma provocação sobre a sexualidade do pai, Bryan se acanha em responder. “Se alguém faz manda uma indireta, eu respondo com uma direta. A pessoa percebe logo que está sendo desagradável”, explica.

Marido de Mau, o designer Matheus Madeira Queiroz, 28, fala com admiração da relação de cumplicidade do parceiro com o filho. “Eles falam que tem uma relação como qualquer pai e filho, mas não é verdade. É difícil ver uma relação com tanto amor e carinho como a deles”, exalta Matheus.

Tenho dois pais gays

A estilista Dalila Pedreira Viana, 25, se orgulha ter uma dupla paternidade gay. O pai biológico, o engenheiro Rafael Santa Viana, 55, tem o mesmo status familiar que o padrasto dela, Marcelo Lyra,51. “Eles resolvem tudo juntos. Me dou muito bem com Marcelo, eu gosto do que ele fala, do que ele pensa, o admiro”, elogia Dalila.


Dalila e o pai Rafael em um Carnaval que passaram juntos em Salvador

Aos 12 anos, sem saber que ele era o marido do pai, Dalila, que foi batizada na pré-adolescência, escolheu Marcelo para ser o seu padrinho. Um ano depois, ela descobriria que os dois formavam um casal, quando Rafael se assumiu.

“Chorei muito, nem sei por que. Depois, me dei contai que era por isso que eles dormiam no mesmo quarto desde sempre”, se diverte a estilista, lembrando-se da situação.

Hoje, Dalila vive em São Paulo, enquanto Rafael e Marcelo administram uma pousada no litoral baiano. “Falo com meu pai toda a semana, muito mais do que falo com qualquer outra pessoa que ficou na Bahia. Ele sabe tudo que acontece na minha vida, do trabalho aos namorados”, pontua a estilista, que só reclama de um impedimento causado pela distância. “Sinto muito falta de tomar uma cervejinha com eles”.

Para pais de filhos gays: Não basta ser pai...




"É por isso que não somos respeitados: a triste sina da bicha moralista"




Por Fabrício Longo

Sempre me perguntei se uma das razões da homofobia não seria a inveja. Um tipo de recalque hétero, em relação às cores fabulosas de nossa liberdade de ser e de desejar, mas principalmente do nosso sexo. Um sexo que é safado, sujo, dos becos e saunas e boates, com toda a dor e a delícia que só o profano proporciona. Um sexo maldito e underground, tão diferente do “papai-e-mamãe” institucional que chega a causar repulsa, quase na mesma proporção em que gera fascínio. É, faz sentido. Ou pelo menos fazia…
 
Durante anos, o preconceito contra homossexuais foi alimentado por uma imagem de promiscuidade e libertinagem que criou o mito do “gay predador”, que estaria sempre disposto ao sexo e à espreita para devorar criancinhas ou converter um hétero.  Mais que isso, atrelou essa imagem – e todo o horror dela – à identidade gay em geral, como um tipo de “marca da espécie”.
 
A homofobia sempre faz esse caminho. Ela apaga a individualidade e transforma “os gays” em uma coisa só, uma espécie de monstro – ou ditadura – onisciente, pronto para o ataque.  É um tipo particularmente cruel de exclusão, que transforma a sexualidade em identidade e dita qual delas deve ser considerada normal e qual é a desviada, fazendo com que a diferença afete a visão de mundo de todos. Às vezes, quem detém o poder nem percebe isso, mas certamente não deseja perdê-lo. E quem é excluído passa a vida como um pedinte, de mãos estendidas por uma esmola de aceitação.
 
Ora, a homossexualidade só é invejável se for aproveitada! Envelhecer com o mesmo parceiro, criando gatos numa casinha com cercas brancas é uma opção maravilhosa, pois felicidade não tem receita. Entretanto, é só mais uma opção. A beleza da diversidade é a liberdade de escolha, e adequar-se a um padrão considerado “respeitável” não significa ser superior a quem pensa diferente. Ser um “gay limpinho” é bom, mas ser “bicha destruidora” também.
 
Não é curioso que o estereótipo aceitável seja masculino-branco-educado-rico, e que a definição do que é execrado seja afeminado-negro-sem estudo-pobre? É muito fácil julgar quando se está em posição superior, mas a triste sina da bicha moralista é justamente essa: gritar por inclusão em um sistema que nunca a aceitará.
 
Teoricamente, além de uma sexualidade mais liberal, a vivência da homossexualidade deveria nos fazer pessoas mais generosas. É compreensível que o privilegiado não tenha ciência de seu privilégio, mas é absurdo que o excluído não perceba sua posição. Mais bizarro ainda é quando esse excluído não tem capacidade de empatia para com outros “desviados” e pior, reproduz a discriminação para se colocar acima de alguém. Pisa para ser menos pisado, para sair melhor em comparação. Essa é a nossa vergonha. Isso sim é um desrespeito. E de quebra, ainda mostra o quão danosa é a nossa homofobia internalizada.
 
Um indivíduo postou uma selfie de dentro do motel, em plena ação. Outro dia, um ex-ator pornô foi “flagrado” em um aplicativo, com um perfil que procurava sexo a três com o namorado. Qual foi a reação do mundinho? Espanto! Horror! “É por isso que não somos respeitados, por causa desse tipo de gay!”
 
Ah, gente…
 
Sexo é ótimo, todo mundo adora. Madonna à parte, se existe alguma coisa que empresta unidade aos homossexuais é o desejo sexual, já que até a afetividade não é praticada por todos. Como grupo, somos definidos por nossa sexualidade. É ela que vira um marcador cultural de identidade, concordemos com isso ou não. Moralismo simplesmente não combina com o arco-íris, é muito cinza ou bege…
 
Temos radares de caçar homem instalados em nossos celulares e compartilhamos barbaridades em grupinhos do Face ou do Whats, e no entanto nos preocupamos com a “nossa imagem” para o mundo exterior. O fantasma da exclusão é tão grande que nos convencemos de que os héteros estão preocupados com o que fazemos.
 
Como assim, gente? Não somos respeitados porque o machismo se alimenta desse desrespeito, dessa generalização da inferioridade. Essa prática de “vigiar e punir”, apontando qual comportamento seria digno ou não, só nos mantém no lugar que foi designado para nós: o inferior.
 
Nós sempre seremos considerados inferiores porque a heterossexualidade – a norma – precisa dessa validação. É necessário apontar o reprovável para que seja possível colocar-se acima disso, e essa situação não vai mudar. Transformar atitudes individuais – sejam elas consideradas certas ou erradas – em ônus ou bônus para TODOS os gays é uma ignorância. É homofobia. É gritar que “essa bicha não me representa” tentando se diferenciar, apenas para reafirmar a ideia de que somos todos a mesma coisa. É um paradoxo.
 
Se somos tão diferentes, qual seria o porquê  de nos defendermos dessa forma? Se cada um é responsável por suas ações, que diferença faz que A ou B aja desse ou daquele jeito? Não se vê heterossexuais sendo responsabilizados como um todo por, por exemplo, crimes praticados por indivíduos, certo? Já disse uma vez que “respeito não se pede e nem se conquista, é um direito universal”. Então não há razão para aplicarmos esse tipo de julgamento tão ferrenho entre nós.
 
É claro, a não ser que concordemos com nossa inferioridade. Isso sim, além de vergonhoso, é digno de pena.

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