terça-feira, agosto 05, 2014

HOMOSSEXUALIDADE

"A pior doença causada pelo HIV não é a AIDS"




Por Eliseu Neto (super pride)

Eu não sou HIV positiva, mas e se eu fosse? Eu teria mais medo de como a sociedade iria me tratar por ter a doença do que da doença em si. Se é com isso que eu tenho que lidar por causa do meu envolvimento na luta contra esta epidemia, então que assim seja. Eu não tenho medo de ser associada a pessoas que são HIV positivas e eu não tenho medo de amar as pessoas que são HIV positivas. Porque a aprovação delas no mundo é mais importante do que a minha, porque a coragem delas é maior que a minha, porque o que elas estão enfrentando é real. E se pudermos aprender a lidar com o real e com nossos medos, eu estou esperançosa de que podemos conquistar esta doença."
 
Em 11 de dezembro de 1991 Madonna já falava sobre o terrível estigma que recai sobre os portadores de HIV. Mesmo sendo uma doença que hoje tem controle e mata menos que o câncer, a pessoa que convive com o vírus se torna um pária, como se o fato de andar com alguém infectado fizesse com que a pessoa se infectasse.
 
Meu melhor amigo se enforcou uma semana depois do dia dos namorados. Era soropositivo desde os 18 anos e foi capaz de aguentar as fofocas e maledicências até os 34. Então, mesmo saudável, não suportou a solidão e o desprezo das pessoas. “Não aguento mais”, dizia a carta dele.
 
O Superpride recebeu uma carta de um leitor soropositivo, na qual ele relata o dilema em que vive: não quer esconder sua condição dos parceiros; mas, assim que conta, eles somem. Consigo entender a atitude de ambos. Um não quer pôr a vida de terceiros em risco e decide contar. Já o outro, como defesa, foge, pensa que não precisa viver nesse risco.
 
Não sei bem como opinar sobre o assunto, acredito que ambos tem as suas razões.
 
Mesmo sabendo do fato de que o HIV hoje é quase uma doença crônica, o estigma em que ela se transformou no universo LGBT faz com que à sua simples menção todos se afastem. O preconceito, a falta de informação e as fofocas são mesmo mais doentias e dolorosas que o vírus em si.
 
É necessária muita maturidade para estar numa relação sorodiscordante (na qual um parceiro é HIV e o outro não) e ficar tranquilo, mas isso é possível, conheço casos.
 
Acho que no fundo é uma decisão pessoal, que leva em consideração o afeto que se sente por aquela pessoa, mas que não deve esquecer a consciência de que devemos sempre, mesmo em relações monogâmicas, utilizar preservativo.
 
O pior de tudo é, a meu ver, a exposição da vida pessoal de alguém que já sofre uma dor. Precisamos mesmo falar da vida de todos? Sobre quantas pessoas saudáveis eu já ouvi fofocas que juravam que elas eram portadoras... Os LGBTs, de certa forma, criaram um obsessão com o HIV, mesmo que hoje ele seja um vírus que se propaga mais por causa de um comportamento de risco; e não por se fazer parte de um estereotipado grupo de risco.
 
Não vou falar aqui para ninguém namorar ou casar com alguém infectado, mas acho sim que devemos dar todo afeto e suporte para quem terá que conviver anos à fio com um vírus, com tamanha polêmica e ainda ter que lidar com esse afastamento social.
 
Vamos ser solidários, amigos, dar o carinho necessário. Não somente de amor sexual vive um ser humano. Um abraço no momento certo pode salvar uma vida.
 
Ao meu amigo que morreu eu dedico esse texto. Queria ter te dado esse abraço, ter lhe dito que você poderia contar comigo pra sempre. Sei que sabia disso, mas eu queria ter dito as palavras.
Não percam essa oportunidade.
 
"Aids: o vírus do preconceito mata mais que a doença." Paiva Netto
 
*Psicólogo, psicanalista, gestor de carreiras, professor de Pós gradução, membro do Comite LGBT carioca e gestor da coordenadoria nacional de combate à homotransfobia do PPS.


5 segredos gays que todo hétero deveria conhecer




Brasil Post

O caro não vive sem o barato e o hétero não vive sem o gay. Nossa cultura precisa de opostos para conseguir definir as coisas -- já que definições são uma obsessão humana -- e para hierarquizar conceitos, o que é outra das nossas (lamentáveis) manias. Evidentemente que isso gera muitos problemas, mas tanta catalogação também nos divide em subgrupos com culturas próprias, o que pode ser enriquecedor ou só divertido mesmo. O que filatelistas podem aprender com oceanógrafos? Velhinhas chinesas do Tai chi chuan podem contribuir com o Bonde das Maravilhas? Seguindo essa lógica, apresento os "5 segredos gays que todo hétero deveria conhecer". Enjoy!

1. Fazemos mais sexo do que vocês!




Essa é óbvia. É claro que uma das grandes lutas da comunidade gay é para mostrar que podemos ter relacionamentos convencionais e temos o direito de validá-los com contratos de casamento, mas o "status desviante" da homossexualidade nos liberta para que tenhamos um número maior e mais diverso de experiências. Acredito piamente que uma parte do ódio aos gays seja puro recalque de um estereótipo de libertinagem, mas no fim das contas é tudo culpa do machismo. O patriarcado regula a sexualidade feminina e ao mesmo tempo estimula uma postura predatória no homem. Como resultado, mulheres heterossexuais pensam duas vezes antes de realizar algum desejo sexual e colocarem a reputação em risco, ao passo que alguns homens gays já "passaram na cara" o vizinho casado, o padre enrustido, o melhor amigo e o priminho mais novo! Não seria melhor liberar geral e deixar todo mundo ser feliz?

2. Somos homofóbicos também.



Outra consequência horrível do machismo. Sabe aquele fenômeno do negro racista? É a mesma coisa. A ideia de inferioridade é martelada na nossa cabeça de maneira tão absoluta que fica difícil nos livrarmos completamente dela, e às vezes acabamos por reproduzir o discurso higienista que procura controlar corpos e comportamentos. Não faz o menor sentido que homossexuais menosprezem "pintosas" e travestis, como se a feminilidade fosse algum pecado. Em que ano estamos? 1914?

3. Somos mesmo mais estilosos, e por isso suas mulheres nos amam!


Estereótipos só são considerados um problema quando são negativos. Como "onde há fumaça, há fogo", é evidente que algumas ideias gerais sobre gays -- e sobre héteros -- se justificam, mas isso vale para as coisas positivas também. O ideal de consumo sobre gays diz que somos bonitos, malhados, bem vestidos, cultos e talentosos, o que é uma bobagem muito da chata, já que qualquer pessoa pode ser assim. De qualquer forma, talvez para compensar a inferioridade que nos é imputada, nós gays procuramos estar sempre no nosso melhor.

E com o estereótipo hétero de que homem macho anda sempre largado, não tem nem disputa!

4. Somos versáteis!



Sim, ainda estamos presos ao binarismo ativo/passivo para definir nossas preferências sexuais. É outra idiotice do machismo, pois usamos os conceitos para recriar estruturas de poder e controle, mas na prática as coisas são menos severas. Ninguém morre por mudar de posição e todo mundo experimenta tudo pelo menos uma vez, até quando mente que não. Sabe aquela pergunta ridícula que alguns héteros fazem, sobre "quem é o homem e quem é a mulher", como se fosse apropriado questionar alguém sobre isso? Então, não importa. A construção de identidade não é abalada pelo poder mágico do pênis, esteja você em qual ponta dele estiver. Aliás, é por isso que gays não precisam redefinir a vida inteira caso fiquem com alguma amiga na balada...

5. "Estamos infiltrados!"



De RuPaul à Judy Garland, temos a nossa própria cultura. Entre ídolos, gírias e manifestações artísticas, criamos um legado que é muito presente na história recente da humanidade e que só cresce. Resistir é inútil! É lógico que os delírios alarmistas de uma "dominação mundial gay" ou do temível "fim da família" são apenas -- tcharam! -- delírios, mas mesmo que conquistemos a utopia de uma sociedade igualitária e livre de rótulos, deixaremos nossa marca.

Para encerrar, vamos falar sério. Nada disso importa. Experiências sexuais e identidades culturais diversas são interessantes e fazem parte do milagre que é a existência humana, mas no fim das contas somos todos iguais. Héteros e homos só terão aprendido alguma coisa uns com os outros quando não existirem mais essas distinções e as pessoas se sentirem livres para respeitar e apreciar seus desejos sem medo de julgamentos. Nesse dia, quem quiser fazer, simplesmente fará. Quem não quiser, vai ficar na sua. Não será muito mais divertido?

Sem diferenças, não há segredos.

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