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HOMOSSEXUALIDADE

Homem trans e negro nas trincheiras do cotidiano.




Por Jarid Arraes


Em entrevista à Fórum, o escritor e ativista Marcelo Caetano fala sobre a experiência de ser um homem trans e negro: “Ser reconhecido como homem é algo que me deixa satisfeito, mas agora as pessoas me veem como um perigo”

É muito difícil abarcar toda a complexidade de quem vivencia discriminações em sociedade; sobretudo porque ninguém é apenas uma coisa nem possui apenas uma face de sua identidade. Pelo contrário, há cada vez mais a necessidade de se falar em intersecionalidade nos movimentos sociais, promovendo uma maior conscientização a respeito de experiências mais específicas. Dessa forma, a experiência de ser um homem negro ganha nova profundidade quando o referido homem é trans.
 
O escritor e ativista Marcelo Caetano sabe disso muito bem. Em seus textos divulgados pelas redes sociais, ele conta sobre suas vivências e chama atenção para a importância da militância, muitas vezes praticada pelo ato rotineiro de resistir. Em entrevista à Fórum, Caetano compartilhou algumas de suas ideias sobre questões raciais e de gênero:
 
Fórum – Na sua experiência, o que emergiu primeiro em sua identidade: a compreensão a respeito das questões de gênero ou a compreensão sobre as questões raciais no Brasil?
 
?Marcelo Caetano - A questão racial sempre esteve presente, afinal de contas, eu sempre fui negro. Cresci em uma região periférica de Santos?, cresci na rua e, junto com as outras crianças, fazia coisas como guardar carros e engraxar sapatos. Era curioso, porque eu era uma menina, normalmente no meio de um monte de meninos, mas isso me era muito útil. Nessa de engraxate, mesmo, eu ganhava bem mais dinheiro do que os outros meninos, porque as pessoas achavam graça de uma menina que engraxava sapatos tão bem. Nessa época, não tinha noção alguma sobre questões de gênero; hoje, olhando pra trás, consigo identificar vários processos e sentimentos que apontavam para a questão trans, mas eles simplesmente não tinham nome e eu só seguia a vida normalmente.
 
A primeira vez que ouvi falar em transexualidade, tinha 18 ou 19 anos. Foi numa aula na faculdade (eu fazia Direito na UFPR) e, de repente, tudo meio que fez sentido. Fui buscar mais informações e alguns meses depois decidi que era isso mesmo que queria. Mas, veja, eu já tinha 20 anos quando comecei o processo de transição. Então, por 20 anos da minha vida fui visto como uma menina e mulher negra e isso teve consequências muito práticas no meu cotidiano, especialmente na infância; a rua pode ser um ambiente bastante difícil para as meninas negras, há exposição a diversos tipos de violência.
 
Fórum – Como foi o seu processo de compreensão e identificação enquanto homem trans e negro? São experiências que andaram separadas?
 
Caetano – Por algum tempo, fiquei bastante focado ?em pensar só na questão trans; era um mundo novo que se abria e eu tinha mesmo um monte de coisas para descobrir, pensar e resolver. Mas assim que comecei a ser reconhecido como homem em espaços que iam para além das minhas relações pessoais (no ônibus, na padaria), a questão racial foi se tornando inevitável. Acho que dois momentos foram cruciais nesse processo: quando eu ganhei barba e quando deixei o cabelo crescer. A barba se mostrou como o signo que não deixa dúvidas, uma pessoa de barba é sempre um homem! Então, quando comecei a ter barba, em nenhum lugar as pessoas erravam os pronomes ou indagavam sobre minha identidade de gênero (mas lógico que quando se tem algum documento a ser apresentado, o problema se torna outro).
 
O processo do cabelo também foi muito importante. A primeira coisa que fiz ao começar a transição foi cortar o cabelo. Eu tinha um cabelo realmente enorme e, para mim, era bastante simbólico me livrar dele, ter um cabelo curto era uma marca importante da minha masculinidade. Mas resolvi deixar o cabelo crescer e comecei a usar black, o que se tornou uma marca da minha negritude. Temporalmente, esses processos (a barba e o cabelo) aconteceram meio que juntos e eu pude perceber a mudança ao andar na rua: as pessoas atravessam [a rua], os táxis não param, as mães trazem as crianças para mais perto.
 
Não tive como me tornar um homem e, depois, me tornar um homem negro; acho que as duas coisas aconteceram juntas, mas é um processo muito louco mesmo. Uma coisa é me reconhecer enquanto um homem negro (algo que eu fazia desde que me entendi como trans), outra coisa é perceber que todo mundo me reconhece assim, mas que só sou capaz de perceber esse reconhecimento porque passo a ser uma ameaça. Então, ao mesmo tempo em que, para mim, isso é algo que me deixa satisfeito, ser reconhecido como homem, também é algo que me deixa incomodado; afinal, as pessoas agora me veem como um perigo. Antes de ser um homem negro, eu só sabia teoricamente o que era ser um, mas viver na carne é outra experiência.
 
Fórum – Com relação aos espaços de ativismo, você consegue identificar racismo no movimento trans ou transfobia no movimento negro? Você faz parte de algum movimento organizado?
 
Caetano - Sem dúvida, há racismo nos espaços trans e transfobia nos espaços negros, pois as duas violências são estruturais e se manifestam em todas as relações sociais. Essa é uma das coisas que me fazem ter certa dificuldade de militar em movimentos organizados. Já passou demais da hora dos movimentos perceberem que há diversos corpos que articulam em si mais do que uma única identidade.
 
De maneira geral, recentemente algumas militâncias têm discutido mais a questão da interseccionalidade, mas ainda não é suficiente, especialmente porque não vejo essas discussões reverberando nas práticas. E isso vai desde as práticas diárias e cotidianas dos movimentos até a hora em que se encontram em espaços oficiais de deliberação. Falta muita autocrítica e um pouco de humildade pra perceberem que precisamos rever nossas pautas e agendas programáticas para dar conta de outros corpos que se apresentam com questões tão legítimas quanto as nossas. Então, quando você é um corpo com múltiplas identidades políticas, é bastante difícil encontrar um espaço que realmente dê conta de tudo aquilo que você carrega, ou mesmo que esteja disposto a fazê-lo. Acho que é por aqui que podemos começar a consertar as coisas, nos dispondo a ouvir os nossos que também são outros.
 
Fórum – Como tem sido a experiência da militância para você?
 
Caetano - A militância acabou sendo um caminho meio que inevitável, mas foi também uma escolha. Já senti na carne diversas opressões, racismo e transfobia, mas também sexismo, classismo e mesmo lesbofobia; sempre me vi em locais de fala subalternizados, então não parecia haver muitas opções. Por isso, digo que foi inevitável. Mas foi também uma escolha, porque é um processo exaustivo. Primeiro que nem sempre é fácil assumir publicamente, sem restrições, que se é uma pessoa trans. Nunca escondi de ninguém, mas as pessoas tendem a achar que isso dá a elas o direito de fazer qualquer pergunta, a qualquer momento. Sou abertamente trans, pois esta é também uma identidade política e identifico a importância de se colocar assim no mundo, mas não significa que esteja aberto a discutir com todo mundo a minha vida íntima. E também porque o cenário político anda bastante complicado; é preciso ter muita convicção do que se defende para manter o ânimo.
 
Fórum – Você poderia elaborar a importância de se abordar as questões raciais no movimento trans e as questões de gênero no movimento negro?
 
Caetano - Raça e gênero são categorias elementares da estrutura social, que precisam ser sempre pensadas, em todos os contextos. Ser uma pessoa cis negra não é o mesmo que ser uma pessoa trans negra. Ainda que a raça seja um elemento comum, essa outra distinção (entre cis e trans) posiciona os sujeitos em lugares diferentes.
 
Acho que todos os movimentos tendem a centralizar a identidade que os mobiliza, o que é normal. O problema é quando essa centralização serve para operacionalizar o apagamento de outras especificidades. No movimento LGBT, as orientações sexuais e identidades de gênero é que estão em jogo, mas nenhuma dessas coisas pode ser pensada sem considerar a raça, a classe, as capacidades físicas, porque há sujeitos que carregam em seus corpos diversas dessas marcas e sempre ao mesmo tempo, tudo junto e misturado. Eu simplesmente não posso escolher entre ser trans quando estou no movimento LGBT e negro quando estou no movimento negro; não tenho condições de pensar em raça sem pensar em gênero, porque essas duas questões são elementares na minha vida, organizam minha percepção de mundo e estão inscritas em todas as minhas experiências: sou sempre trans e negro. Mas, por diversas vezes, os movimentos tendem a esquecer disso.
 
Ainda tenho muito dificuldade de pautar as questões trans no movimento negro, talvez porque nossas demandas sejam sempre tão urgentes, sempre de vida e morte. Sinto uma resistência grande das pessoas para entenderem a importância da questão trans. Só que não dá mais pra ignorar. Por exemplo, discutimos muito o encarceramento da população negra (em especial dos homens negros), mas ainda não vi nenhum debate realmente profundo do movimento negro que se disponha a pensar a articulação dessa pauta com as identidades trans, o que se faz urgente, pois o encarceramento para a população trans tem um significado bastante específico, uma violência que se manifesta de forma brutal e no sentido sempre da eliminação de nossa identidade trans. O caso da Verônica Bolina está aí pra jogar isso na nossa cara de uma vez por todas.
 
Fórum – Na sua experiência pessoal, como as situações de transfobia e racismo se relacionam?
 
Caetano - A transfobia e o racismo estão sempre presentes. Há poucas coisas na nossa sociedade (se é que há alguma) que não estão organizadas a partir da perspectiva cis e da perspectiva branca?, mas muita coisa tem mudado desde que passei a ter um maior reconhecimento da minha identidade masculina. Afinal, ser homem vem com alguns privilégios. Então, no início da transição, o que ocorria eram mais manifestações de transfobia, as piadas, pessoas errando o nome, fazendo graça da minha voz fina ou da minha cara de menino pela ausência de barba.
 
?Depois, quando passei a ser visto sempre como homem, o racismo se fez mais forte e tornou a violência mais cotidiana. Porém, tenho muita dificuldade de sinalizar em que ordem essas opressões acontecem. Acho que nos lugares em que hoje eu acesso alguns privilégios masculinos, o racismo vem primeiro, pois, diversas vezes, eu sou visto apenas como um homem negro e não como um homem trans negro. Ao mesmo tempo, já sofri agressões físicas que se deram em razão da minha transexualidade, mas que foram fortemente marcadas pelo racismo. O ponto é que, sendo identificado como homem, a transfobia muda bastante as suas práticas e, por isso, a questão da raça parece ficar mais evidente. Mas acaba que racismo e transfobia se retroalimentam, de modo que cada tipo de violência adiciona especificidades ao outro.
 
Fórum – Como você se posiciona no mundo quanto às suas identidades?
 
Caetano - É muito difícil se posicionar no mundo quando se carrega diversas identidades. Como já mencionei, apenas um quinto da minha vida foi vivida como um homem; no restante, me identifiquei e fui identificado como uma mulher negra e, ainda, por algum tempo, como uma mulher negra lésbica. Hoje, sou visto como um homem negro, mas as experiências que vivi sendo reconhecido de outra forma não simplesmente se apagaram; elas não deixaram de existir e são cruciais para quem eu sou hoje. Mas preciso identificar meu local de fala atualmente e esse não é um processo simples.
 
Ainda tenho uma dificuldade grande de discutir e pensar a masculinidade negra, pois essa nunca é pensada fora do padrão cisnormativo e isso muitas vezes me deixa em um vácuo de referências, onde o único ponto de apoio sou eu mesmo. Enquanto homem trans, também não posso me furtar a reconhecer alguns pequenos privilégios que surgem quando minha aparência física denuncia ali apenas mais um homem, mas também não posso permitir que todas as minhas outras vivências sejam apagadas, como se elas não tivessem se dado com este mesmo sujeito que sou eu. Esse privilégio é também bem específico e pontual; afinal, minha identidade trans é uma realidade, ainda que, hoje, pareça menos identificável.
 
Enfim, gostaria apenas de dizer que se entender enquanto um homem trans negro traz uma série de desafios às minhas práticas cotidianas, mas também um monte de aprendizados e possibilidades de existir no mundo de uma forma revolucionária.

Leitores elogiam capa da revista Exame que aborda o tema LGBT no trabalho.


“Chefe, sou gay” é a chamada da nova capada revista da Editora Abril


Desde esta quinta-feira 23, quando divulgou a capa de sua nova edição nas redes sociais, a revista Exame tem recebido muitos elogios dos leitores, e principalmente provocado o debate.

A chamada principal diz “Chefe, sou gay – surge a primeira geração de executivos brasileiros que tratam sem rodeios uma questão por muito tempo mantida como tabu nas empresas – e todos ganham com isso”.

“APLAUSOS à Exame. Tem que ter coragem e pioneirismo pra fazer a coisa certa”, escreveu Bruno Grimaldi. “Parabéns a revista pela coragem em trazer à tona um tema extremamente atual e relevante. Infelizmente, ainda há muitas empresas preconceituosas que discriminam seus funcionários com base na orientação sexual e não no seu desempenhoprofissional”, comentou Guilherme Vianna Bertola.

A reportagem menciona como exemplo do CEO da Apple, Tim Cook, que disse ter “orgulho de ser gay” e considera esse “um dos maiores dons que Deus lhe deu”, e traz como personagens Sérgio Giacomo, da GE, Ricardo Yuki, do Citibank, Gisela Pinheiro, da Química Dow, e Ezra Geld, da agência J.W. Thompson.

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