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HOMOSSEXUALIDADE

"Dando pinta e enfrentando a homofobia".



Por Jarid Arraes

Gays que “dão pinta” demais e não se encaixam em padrões de masculinidade são marginalizados até mesmo por outros homossexuais e lidam com uma grande carga de preconceito e violência. Essa questão, na verdade, tem tudo a ver com misoginia, o ódio contra mulheres.
 
A homofobia é um problema que atinge todos os homens gays de diversas maneiras. No entanto, há gays que sofrem com ainda mais menosprezo: os chamado afeminados (ou efeminados), aqueles que “dão pinta” demais e não se encaixam em padrões de masculinidade, são marginalizados até mesmo por outros homossexuais e lidam com uma grande carga de preconceito e violência. Essa questão tem tudo a ver com misoginia, o ódio contra mulheres e contra o que se remete ao feminino.
 
Conscientes das relações de poder exercidas por valores machistas e homofóbicos, os ativistas gays vêm criando ferramentas coletivas para auxiliar no combate à discriminação. É o caso da página “Sou/Curto Afeminados“, que não funciona apenas como facilitadora de debates e divulgadora de materiais relevantes para a compreensão do que é ser um gay “afeminado”, mas também ajuda a promover encontros e eventos presenciais onde há troca de conhecimento e propostas de resistência.
 
Um dos fatores mais relevantes para se compreender a discriminação contra gays que dão pinta está ainda no início da vida. Segundo o estudante Bruno Fortunato Lopes, de 23 anos, ser categorizado como afeminado é algo que acontece antes mesmo de que se tenha compreensão a respeito do significado de ser afeminado. “Desde o primário eu já era ‘xingado’ de gay, bicha, boiola e afins pelas outras crianças justamente por ser mais delicado e ter trejeitos que os outros meninos não tinham. Na época, eu até tinha alguma noção da minha sexualidade, mas só fui me dar conta de que esses estereótipos existiam muito tempo depois. Até o fim da escola, eu me policiava para não dar tanta pinta, porque sabia que isso ia ser motivo para me exporem”.
 
Lopes conta que o ambiente escolar sempre foi um ambiente de repressão, mas que algo mudou quando entrou na faculdade. “Foi lá que comecei a ter contato com movimentos sociais e desenvolver um senso crítico que eu não tinha antes. Me assumir e levantar a bandeira enquanto afeminado é, para mim, um ato de resistência”. A militância é algo que Lopes pratica também nas redes, onde recentemente aderiu a campanha lançada pela página “Sou/Curto Afeminados“, que tem a proposta de publicar fotos dos seguidores como forma de empoderamento. Lopes enviou uma foto em companhia do amigo Luiz Gomes, de 22 anos; nela, ambos vestem camisetas que provocam com a frase “As Afetadas te Afetam?”, ideia de Gomes: “Eu acabei criando a frase a partir de outra frase ‘O afeto te afeta’. Ela veio como uma tentativa de incomodar as pessoas, como uma provocação, mesmo. E também como ato de resistência e empoderamento. Logo que pensei na frase, criei as camisetas. Nós incomodamos e queremos incomodar, por isso resistimos”, declara.



Luiz Gomes também relata uma experiência similar a do amigo quanto a compreensão da própria sexualidade e expressão de gênero. “Na verdade, muito antes de eu me entender como um garotinho afeminado, desde a infância, foram as pessoas que perceberam isso e sempre me apontaram. Com o passar dos anos, a medida com que eu fui crescendo, isso ficou mais intenso e já não eram só os olhares, mas tinham também as palavras ou os ‘xingamentos’. Família, escola, igreja, em qualquer lugar. Isso fez uma completa bagunça na minha cabeça, porque eu não entendi muito bem meus desejos e a ligação que eles tinham com o meu jeito de ser. Eu só consegui tomar ‘controle’ da situação e me entender como afeminado e como gay a partir dos 16 anos. Mas até lá, ou até depois disso, eu sempre tive muitos conflitos no ambiente familiar e escolar e digamos que os conflitos nunca acabam, eles apenas diminuem. Então ser afeminado pra mim significa muita coisa. Significa resistência, coragem, vida. Significa liberdade! Porém sabemos que não somos livres, não totalmente, e ainda há muito o que se desconstruir no sistema que vivemos”.
 
De onde vem o ódio contra quem dá pinta?
 
Uma das propostas dos grupos que denunciam o preconceito contra gays afeminados é questionar a raiz dos desejos e preferências sexuais. Para eles, a ideia de que a rejeição contra homens considerados femininos seja simplesmente uma questão de gosto pessoal deve ser objeto de análise e reflexão; afinal, tudo aquilo que gostamos ou não é fruto das interações sociais e dos valores culturais que aprendemos em sociedade. “É preciso desmistificar a ideia do ‘gosto’”, argumenta Lopes. “O maior argumento usado contra nós e também contra pessoas gordas, negras, etc, é de que ninguém é obrigado a gostar de nada e de que gosto é pessoal.  Sabemos que esse mito provém do senso comum e é um grande equívoco, pois o que chamam de ‘gosto’ é fruto de construções sociais. O que falta é explicar isso detalhadamente às pessoas e, especialmente, a nós mesmos, afeminados. A aceitação própria e o empoderamento só vão correr depois da devida educação”.
 
A educação mencionada por Lopes também deve levantar questionamentos a respeito de problemas como a heteronormatividade, a ideia de que todas as pessoas são naturalmente heterossexuais e devem se comportar dentro de uma divisão binária de gêneros onde as mulheres são “femininas” e os homens “masculinos”. Além disso, é preciso refletir sobre a misoginia, que define a dita feminilidade como algo inferior, ao contrário da masculinidade, que é considerada uma característica de força e superioridade. Por causa da relação que se faz entre ser mulher e feminina e ser homem e ser masculino, a hierarquização desses papéis promove privilégios para os homens, sobretudo aquelas que se encaixam nos padrões preestabelecidos. Assim, tudo aquilo que é culturalmente relacionado a mulher é interpretado como pior, mais fraco, inferior e indesejável.
 
“Eu não ‘respeito’ esse princípio básico, logo, sou rechaçado por isso”, explica Lopes. “Esse preconceito, obviamente, parte dos heterossexuais. O problema é que a opressão funciona de forma tão perfeita que ela consegue corromper o próprio oprimido. A heteronormatividade nos atinge em cheio e molda nossos relacionamentos. Isso culmina no fato de os próprios gays terem preconceitos contra seus iguais que são afeminados. E o pior de tudo, para mim: até mesmo os afetados reproduzem o preconceito que eles mesmo sofrem. Essa é minha maior frustração”, lamenta.
 
Os mecanismos machistas ficam muito evidentes em situações onde homens afeminados são hostilizados. A compreensão desse fenômeno e o combate contra a misoginia são, portanto, de fundamental importância, e o Feminismo, em suas diversas correntes e lutas históricas, trabalha muito bem essas questões. Ainda assim, Luiz Gomes salienta que o papel dos homens afeminados deve ser bem compreendido: “Eu não gosto de me dizer mais como pró-feminista por questões de protagonismo dentro dos movimentos sociais. O feminismo é importante, claro, mas é um movimento de mulheres e para mulheres. Pautado em questões que dizem respeito a elas. Toda a desconstrução do machismo, do sexismo e de outras opressões é importante para todas as pessoas, mas isso atinge diretamente as mulheres, portanto, o protagonismo na luta é delas e não meu (dos homens, gays ou héteros). E não cabe a mim me classificar como qualquer coisa, cabe a elas. Eu apoio a causa, o movimento e as companheiras de luta”.
 
Bruno Lopes tem um posicionamento similar. “Acho que quando a gente (leia-se: gays, principalmente) descobre esse mundo da militância, muitos de nós nos empolgamos com a ideia de ser feminista, progressista, de lutar contra o machismo, etc. Parece ser uma ótima ideia e motivo de orgulho se declarar feminista. Eu passei por essa fase até começar a ler críticas mais contundentes sobre como isso pode ser problemático”, introduz. “Ora, nosso papel – enquanto homens – deveria ser, naturalmente, apoiar as mulheres no que diz respeito somente a elas. Quando esperamos que nos teçam elogios, que nos deem uma estrelinha por cada atitude (que deveria ser básica) que tomamos, soa como se nós fossemos protagonistas desse movimento que é feito por mulheres e para mulheres. Na verdade, eu nem acho que a maioria dos homens que se autointitulam feministas o fazem de má-fé; o que falta mesmo é mais consciência crítica e menos ego. É por isso que eu não me considero nada enquanto apoiador do Feminismo. Se cabe a alguém me identificar de alguma forma, esse papel é das mulheres, não meu”.
 
A consciência que ambos desejam promover também faz parte de uma postura mais crítica e mais diversa, que direciona questionamentos incômodos para o próprio movimento LGBT, onde homens gays ainda detém a maior visibilidade – mas mesmo o destaque para as pautas masculinas passa por crivos seletivos. “Eu acho que, enquanto o G na sigla, nós temos até que bastante visibilidade e receptividade em comparação as outras ‘letras’. Mas se formos analisar nossa própria comunidade, não é assim que funciona”, argumenta Lopes. “O movimento LGBT é guiado por gays brancos e ‘discretos’, eles representam aquilo que a sociedade aceita como tolerável: homens reiterando seu papel de homem e mantendo sua sexualidade entre quatro paredes. Muitas vezes, nós, afeminados, somos vistos como a escória dos gays. Como se a culpa da existência da homofobia fosse nossa, já que damos motivo pra que ela aconteça”, critica.
 
“O movimento LGBT, apesar de todas as suas falhas, é importante, mas precisa ser revisto e problematizado. Porém, não posso dizer que ele faz muito pelos gays afeminados; aliás, ele faz o que?”, indaga Gomes. “Os gays afeminados ainda são motivo de piada pra mídia, são motivo de vergonha na rodinha social dos gays machos, são a escoria dos homossexuais. E quanto mais afeminado você é, menos respeito você merece. É nojento o descaso. Há muito enfrentamento e resistência pela frente”.
 
Lopes exemplifica o privilégio possuído por gays que não dão pinta com um caso vivido por ele próprio: ainda que estivesse na companhia de um amigo gay, somente Lopes sofreu com a violência e foi espancado, mas o amigo não. “Eu apanhei porque eu dei pinta, porque eu desmunhequei”, protesta. “Veja, eu não preciso demonstrar nenhum ato de afeto com outro gay para sofrer homofobia, basta eu andar na rua sendo eu mesmo para estar em risco. Aqui o que está em jogo não são mais minhas atitudes para com outro homem, mas meu comportamento enquanto não-homem. É aí que mora o privilégio. Inclusive, acho que ele e o preconceito propriamente dito contra nós deveriam ser devidamente nomeados para termos ferramentas políticas mais contundentes a fim de discutirmos profundamente essa questão que é sempre deixada de lado”.



Nomear e destrinchar o preconceito é, de fato, mandatório para que ele seja combatido. Noções universalistas do que é a experiência de ser gay, homem, bissexual ou mulher, por exemplo, tendem a cair no mesmo equívoco: a marginalização dos indivíduos que não atendem aos critérios do que supostamente deveria ser universal, mas jamais será. Muitos tipos de opressão e ideologias de dominação se interlaçam, provocando violências que englobam racismo, misoginia, transfobia, gordofobia, entre outros tipos de discriminação.
 
“Pessoas LGBTs estão morrendo todos os dias e ninguém se importa. Costumo dizer que a culpa de toda discriminação, de toda agressão, de toda morte é de cada um de nós. O que nós estamos fazendo para mudar esse cenário? A minha contribuição, como indivíduo, é sim muito importante. E para começarmos a mudar, basta revermos nossos privilégios, revermos nossos posicionamentos e nossas opiniões. Isso faz diferença! Falta ainda muita empatia e união”, finaliza Gomes.

Põe Na Roda Repórter: AFEMINADOS



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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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