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CONFISSÕES DO DIVÃ







Os textos apresentados nesta seção buscarão ilustrar situações, angústias, problemas e experiências vivenciadas por alguns homens gays. Não existem experiências universais, comuns a todos os homens gays, cada um de nós é constituído e atravessado por diversas características que tornam a sua experiência única.  Nossa principal ideia aqui é pensar em possibilidades de enfrentamento para as questões aqui representadas, que em menor ou maior grau podem ser semelhantes com alguma das histórias vivenciadas por você. Essas histórias não são uma representação literal de histórias reais e sim textos fictícios.


O Dr. Alexandre é formado em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua como psicólogo clínico no Espaço Recontar na região de São José / SC. Fundamenta seu trabalho pelos princípios da Psicologia Sistêmica. Compreender os fenômenos psicológicos sistemicamente significa, literalmente, “colocá-los” dentro de seu contexto, estabelecendo a natureza das suas relações.


Você pode fazer perguntas e sugerir temas que nosso psicólogo responderá com todo prazer.

Bem, vamos ao tema de hoje:


Eles me dizem que “não curtem” negros...

Alexandre de Souza Amorim, Psicólogo
alexandresouza.psicologo@gmail.com





Meu nome é Ivan e tenho 25 anos. Sou um cara de bem com a vida, comigo não tem tempo ruim... Ou não tinha. Era assim que eu começava me apresentando até perceber que isso não é o mais importante. Tanto nas baladas como nos aplicativos de relacionamento o que tenho escutado e lido é “não curto negros”. Sou um cara bonito, divertido, interessante e não tenho problema nenhum com minha auto-estima... Ou não tinha. Hoje nas baladas eu espero que os caras “cheguem em mim” e nos aplicativos começo logo dizendo que sou negro. O racismo é uma constante na minha vida, alias na vida de todos nós e sempre consegui enfrentá-lo de cabeça erguida. Porém estou cansado disso, meu único namoro até hoje foi com outro negro e isso não é um problema. Eu me interesso pelas pessoas, independente da cor de sua pele, o problema é ver as minhas possibilidades restritas pelo problema que o outro tem com a minha cor, sem me dar a menor chance de mostrar o cara bacana que habita aqui dentro. Já iniciei terapia e estou melhorando, mas senti a necessidade de escrever, pois na internet e em algumas redes sociais parece uma terra de ninguém e queria ver esse tabu abordado aqui no blog.

Ivan, 25 anos

           
Oi Ivan, obrigado por escrever e compartilhar sua experiência com os leitores do blog. Você tem muita razão quando aponta o racismo existente e oculto por falas do tipo “é uma questão de gosto”, “eu apenas não curto, mas não tenho nada contra” ou “é minha opinião pessoal (sim dessa maneira redundante!)”. Podemos observar que principalmente nas redes sociais discursos preconceituosos e discriminatórios são veiculados fortalecidos pela cultura da “liberdade de expressão”, parecendo permitir que todos os “achismos” e “gostos” possam ser ditos e/ou escritos sem nenhum problema.


Começo esclarecendo um ponto importante: Liberdade de expressão não da o direito a ninguém de violar os direitos de outra pessoa, de empreender violências e cometer crimes. RACISMO É CRIME e você pode denunciar crimes virtuais nos sites do Humanize Redes (Denuncie mensagens preconceituosas, racistas, xenófobas e que violem os Direitos Humanos), no Digi Denúncias (Canal para denúncias de crimes eletrônicos do Ministério Público) e Safernet (Organização não governamental que reúne especialistas para combater crimes digitais). Você também pode procurar por delegacias especializadas em crimes virtuais, já há algumas espalhadas pelo país.


Infelizmente algumas sociedades desenvolveram mecanismos eficazes que trabalham incessantemente para construir os desejos e necessidades de quem vive nelas. Somos estimulados a lutar e ter coisas das quais não precisamos e não é fácil conseguir fugir desses mecanismos. Isso por que eles atacam de maneira pulverizada e desde a infância, e se isso não fosse suficiente há toda uma forma de rejeitar e excluir aqueles que tentam resistir às essas “necessidades”. Se você não tem um celular de ultima geração você é olhado e apontado com estranhamento, é pensado como fracassado...


É algo tão perverso que a maioria das pessoas pensa que algumas de suas “vontades” são de fato “naturais” (alguns chamam de Gostos, outros de preferência, de personalidade, e muitas outras coisas). Portanto, essas pessoas acreditam mesmo que são livres de preconceitos – que é gosto e não racismo. Ilusão? Hipocrisia? Ignorância?


Os gays não escapam disso. Pode parecer estranho, mas é fato que o respeito às diferenças não é uma característica própria dessa comunidade e de nenhuma outra. E tudo bem, afinal os gays não nasceram em marte, eles também são produtos dessa sociedade excludente.


Eu sei que esse pequeno texto em resposta ao email do Ivan irá gerar muita polêmica, seremos xingados nos comentários, questionados, vão dizer que o preconceito esta na cabeça de quem não respeita o “gosto” do outro, etc. Mas isso não muda o fato de que quem diz “não curto negro” está sendo preconceituoso sim.

Todas as pessoas têm conceitos e preconceitos, estaria sendo hipócrita se afirmasse o contrário. Porém podemos mudar, melhorar e, sobretudo, respeitar o outro. Não é possível defender a ideia de que um cara (ou vários deles) é naturalmente atraído por homens brancos, sarados, “machos” e “bem dotados”. É absurdo, não é?


Digo aos racistas: Melhore! É preciso refletir e discutir sobre o racismo e sobre essas pequenas maneiras cotidianas de oprimir o outro. Você já pensou como se sentem as pessoas que se encaixam no “não curto negros”? Comece colocando-se no lugar dessas pessoas e se admitir e engolir seu racismo a seco ainda for um problema, pelo menos pense em maneiras menos danosas de expressar o seu “gosto”.


Você pode não ter escolhido ser um cara racista, mas você pode escolher o que faz com o seu racismo... E uma das possibilidades é eliminá-lo!





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Postado por Mac Del Rey | (10) Comente aqui!

10 comentários:

  1. Sou negro e realmente é isso que acontece. A gente tampa o sol com a peneira, mas no fundo é isso mesmo RACISMO! Adorei o texto, e concordo que ninguém escolhe ser racista, homofóbico e preconceituoso, mas não precisamos ser assim para sempre.

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  2. Sou negro e realmente o racismo é uma realidade lamentável mesmo. Já me deparei com situações mais virtualmente do que pessoalmente de pessoas cabeça fraca que atentam demais para esses detalhes. Porém, é importante não desistir, afinal nem todo mundo é assim. Posso falar por experiência própria, pois já fiquei com caras loiros, negros, magros, gordos, enfim, sem preconceitos extremos, hehehe. Mas, acima de tudo, não deixe o racismo te derrubar. Valorize-se sempre, não dando importância para alguém que não te merece.

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    1. Não entendo esse racismo, se pudesse eu namoraria com um.megro, vocês é que são os com fama de dotados, rola grande e que fodem bem.. porque eu negaria tudo isso, povo burro esse que diz que não curte, o que mais queria era ser arrombado por um negro e poder namorar com um pra todo dia fazermos sexo..

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  3. Esse tema é muito complexo, pois é muito difícil perceber dentro de nós o limite entre o nosso gosto é preconceito. Nem sei se esse limite existe... Vou colocar com outro exemplo. Você namoraria com um japonês? Não digo "ter amizade". Digo "namoro também é cama". Ou seja, sentiria tesão caso seu namorado fosse japonês? E se ele fosse albino? Seu tesão seria o mesmo? E se ele fosse anão? Ou se tivesse traços femininos? Bom, a lista é interminável. Sou branco, mas sou careca. Também já ouvi "não curto carecas". Não estou afirmando que essas situações pelas quais vocês passaram não configurem racismo. Estou apenas apontando como, dentro do campo afetivo e sexual, essa questão é muito complexa e não sei se podemos simplificar tanto afirmando "é racismo" ou "não é racismo". Uma coisa é sofrer preconceito no ambiente de trabalho, na escola, em um concurso público. Ser preterido por ser negro dentro do seu emprego É racismo. Todavia, não sei se esse padrão fica tão claro dentro da afetividade...
    Para se pensar...

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    1. Penso de forma parecida!!
      Adorei sua resposta.

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  4. Não vejo isto como racismo, e sim questao de gosto, de preferencia. Ou seja, para não demonstrar que não e´racista e´extremamente necessário ´namorar`` o que não e´de sua preferencia?. Acho que ninguém farias isso. Nao ser racista e´agir da forma que TODOS somos iguais, naturalmente, com amizades, locais públicos , sem diferenciação, porque são pessoas iguais a nos que tem , tambem preferencias diferenciadas e que devem ser respeitados.

    Agora, se alguém não gostar de outra ,que seja negro, amarelo, ou outra etnia por questão ideológicas, personalidade, afinidade, não e´ racismo.

    Devemos saber separar as coisas e não colocar tudo num pote, porque sempre existem aquelas pessoas que , pra ela, tudo se volta contra ela, com pensamentos presos ao racismo.

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    1. Acho que só o fato de sua "preferência" ser condicionada por uma questão estética, exterior, já é um sério problema! Afinal é "natural" gostar de corpos sarados, de homem branco, srrsrsrsrsrs Por favor!

      Acho que você não entendeu o texto, mas você pode encontrar artigos e livros que vão te explicar bem didaticamente que sua "preferência" é racismo sim! Olha o absurdo que você disse: Todos somos iguais para amizade, frequentar locais públicos, que meigo! Agora namorar um negro seria demais né! Se todos somos "iguais", para namorar não importa a cor, o tamanho, etc.

      Dizer que por afinidade, personalidade ou questão ideológica tudo bem, até pode ser! Mas dizer que você tem afinidade com nenhum negro ou que não gosta da personalidade dos negros, É RACISMO SIM! Horas, todos os negros são iguais? Todos tem a mesma personalidade? Todos gostam das mesmas coisas? Não existe nenhum negro em todo mundo que goste da mesma coisas que você? que tenha uma personalidade que te agrade? Affff Por favor! Não fala merda!

      Não é fácil mesmo reconhece-se como racista! Mas isso é racismo, mesmo que vc ache que não.

      O texto é ótimo, o blog está de parabéns por publicar esse tema! E eu espero que o Ivan encontre alguém legal.

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  5. E como fica essa relação em relação aos "feios"? No campo amoroso e sexual o que mais leva em conta e aparecia física..Ainda mais no universo gay.

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  6. Anonimo, Quem ama, o feio e´belo. Ora, vemos constantemente casais heterossexuais , que podem ser aplicados a casais homoafetivos onde um deles e´ obeso ( nao que seja um defeito). Mas tem afinidades,. Se alguem conhece outro , (para ele com enormes defeitos) e se encontram frequentemente (por ex. numa empresa) e começam a se conhecerem melhor, pode surgir amor. Vemos este tipo de exemplo acontecerem realmente na vida real. Uma pessoa que nao se da com a outra, com o tempo e conhecimento, da personalidade ou algum atributo que o atrae, pode sugir o amor. O amor e´indecifravel, incoerente e sem logica.

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    1. Andy querido, você está se contradizendo cara. Se vc com o tempo pode se apaixonar por um feio, o mesmo não deveria acontecer com um cara negro?

      Esses comentários são interessantes pq a gente não sabe se é mais ignorância ou mais racismo!

      Tudo bem se o cara negro não consegue emprego pq a empresa PREFERE contratar brancos... Tudo bem se o cara negro não consegue conquistar um cara pq ele PREFERE caras brancos... Tudo bem se o garoto negro é o ultimo a ser escolhido na educação física pq seus colegas PREFEREM ter no seu time caras brancos...

      PUTA Q PARIU! É RACISMO VELHO! QUER QUE EU DESENHE?

      O racismo é tão naturalizado no Brasil que os idiotas chamam de PREFERENCIA.

      Parabéns pela coragem dos meninos do blog de abordar o assunto no texto. Simples e direto! Tocou na ferida, a prova disso é todo esse mimi nos comentários! PARABÉNS BLOG!

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