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HOMOSSEXUALIDADE

Frei católico e gay fala sobre casamento, celibato, suicídio e muito mais.





(COMO A ENTREVISTA E´EXTENSA, DIVIDIMOS EM 3 PARTES QUE SERAO POSTADAS NAS ATUALIZAÇOES SEGUINTES. HOJE, A PARTE 1)


No final do dia chegamos no lugar combinado, eu estava um pouco ansioso, pois não sabia como seria a pessoa que iriamos encontrar e não lembrava da maioria das perguntas que tínhamos escolhido.

Entrevistar um frei católico, homossexual, que nunca tinha visto antes me colocou em uma situação muito peculiar. Cresci em meio a evangélicos e conheço pouco da tradição católica, então fiquei animado com a oportunidade.

O lugar público escondia nossa entrevista secreta e ele, barbudo, com roupas leves, era também um homem muito atraente.

Tocamos a conversa com leveza, como velhos colegas que se encontravam. Arrisquei algumas piadas para tentar descontrair aquele começo de papo, mas não acho que fui muito feliz.

Nos sentamos para a entrevista, e agradeci mentalmente o Herbert começar o papo.

Herbert – Qual sua idade? Você já exerceu alguma atividade profissional antes do clero? Tinha alguns planos de iniciar a vida religiosa?

Frei – Tenho 27 anos e já trabalhei na área financeira. Trabalhei em uma rede de supermercados como fiscal de caixa, emissão de cheques e demais atividades do setor financeiro, mas era algo que eu nunca gostei, fazia mais pela questão da necessidade de independência dos pais.

Heller – Você estava com quantos anos?

Frei – Bem, tem dez anos que eu sai de casa, deveria estar com 18 anos.

A questão da vida religiosa eu sempre tive dois sonhos. Talvez se torne realidade ou não. Se eu não fosse padre eu queria ser médico veterinário ou trabalhar na área de gastronomia. São duas coisas que gosto, comer (risos) e lidar com animais, mas o objetivo principal sempre foi ser padre.

Heller – Como foi o despertar desse desejo? Como foi a transição para a vida religiosa?

Frei – É interessante. Eu venho de uma família Cristã não muito praticante, o mais praticante sou eu, mas desde criança minha vó, uma espanhola bastante tradicional – eu tenho origem espanhola e portuguesa –, era ela quem me levava para igreja e desde então eu dizia que queria ser padre.

A princípio acho que uma criança, com seis ou sete anos, que participa muito da igreja, vai ter essa vontade até mesmo por causa dos paramentos do padre, que acaba despertando a vontade e chamando a atenção, e eu dizia que queria ser padre para usar aquelas roupas.

Só que com o passar do tempo eu fui amadurecendo a ideia e até com doze, treze, quatorze anos eu ainda tinha essa vontade de ser padre, mas com dezessete anos em diante você tem outros objetivos, que é trabalhar, namorar, ter seu carro, que são objetivos que vão sobressair e que causam a mudança de ideia, mas hoje digo que quando você tem uma vocação primeira, mesmo que se dê toda uma volta de 360º, você sempre voltará a sua vocação inicial.

Mesmo que se faça mil coisas, você não terá uma satisfação e no seu psicológico sempre terá a necessidade de voltar ao inicio, e foi isso que fiz.

Heller – Você começou há muito tempo na carreira religiosa? Por que acredito que você teve que abandonar os outros empregos e se dedicar exclusivamente a isso.

Frei ­– Eu diria que a vida religiosa não é uma carreira, costumamos chamar de vocação. Eu sempre fui muito ligado à igreja. Fiz catequese, crisma e também já dava catequese.

Fui coordenador de um grupo de jovens, coordenador de catequese e sempre estive inserido na igreja enquanto eu fazia outros trabalhos, eles nunca estiveram distintos da vida na igreja, por que eu tinha um objetivo, eu queria ser padre e a ocasião me pedia outra coisa, pois eu queria sair de casa e precisava de um respaldo para isso, mas a questão de ser padre nunca adormeceu e os conflitos só apareceram depois, mas tudo voltou ao normal posteriormente.

Desse modo, tudo sempre caminhou paralelamente.

Heller – Eu não sei como faz para se tornar padre. Tem um curso? Como é esse processo?

Frei – Quando você tem esse desejo de ser padre, frei religioso, um irmão consagrado, enfim, você deve procurar alguém na sua paróquia que te dê uma orientação, que pode ser o próprio padre. Se ele constatar que você tem vocação, ele te encaminhará para um seminário. Aí entra a questão, eu sou religioso, mas também tem o padre diocesano, que é o padre circular.

Entra-se em um seminário menor para fazer um ano, chamado de propedêutico, que é um ano de aprendizado para verificar se sua vocação realmente é essa. Se após esse primeiro passo você quiser continuar, você entra para a filosofia, são mais três anos. Depois você ingressa para a teologia, que são quatro anos e estará na fase do diaconato. Eu diria que na diocese você estuda nove anos e se torna padre.

Na vida religiosa o processo é muito mais longo por que você tem que ter uma missão primeiro. Você faz um ano de faculdade, depois você para e faz o sabático, um ano de pensar melhor, e depois volta para faculdade.

Então eu diria que você leva doze, treze, quatorze anos. Tem pessoas que levam quinze anos para ser um padre religioso, por que o carisma da missão vem primeiro. Ser a pessoa do próprio Cristo na vida do mais carente, daquele que mais precisa de você.

Heller – Atualmente você é frei, é isso?

Frei – Isso

Herbert – Qual o papel de um frei dentro da igreja?

Frei – Padre e frei são nomenclaturas. Tem os padres diocesanos e nós religiosos preferimos ser chamados de frei. Frei quer dizer que sou um irmão, que me coloco de igual com você. Não quero ser destacado, com uma nomenclatura que me dê mais poder. Sou igual a você e estou aqui para servir. Eu me coloco a serviço do outro.

Herbert – Fala para nós um pouco sobre os momentos mais difíceis para você nessa jornada, desde que você escolheu ser frei.

Frei – Uma das coisas que as pessoas imaginam ser mais difícil na caminhada de alguém que larga tudo – por que a gente tem que fazer um desligamento total para ser religioso –, é se afastar da família, mas no meu caso não foi assim.

Eu perdi meu pai com onze meses de idade, tenho um irmão mais velho, mas é com a minha mãe que eu tenho uma ligação muito forte, mas também não tão doloroso ficar longe. Acho que o mais doloroso é se sentir sozinho quando você está em casa, por que é angustiante.

Ontem mesmo eu estava no quarto escrevendo, por que gosto muito de escrever, de repente eu parei e pensei que estavam todos lá fora curtindo a vida, indo para baladas, tomando cervejas com amigos e eu ali sozinho. Pensei “o que estou fazendo aqui?”. E essa pergunta sempre vem à cabeça, mas logo vem o sentido de que a minha escolha me faz sentir completo e meu coração se transborda novamente de certeza e de amor, mas o mais angustiante é se sentir sozinho.

Mesmo morando em uma casa com mais seis freis e termos nossa vida em comunidade, é quando esses momentos acabam e cada um vai para seu quarto que os momentos de solidão se tornam mais difíceis.

Por que quem opta pelo casamento tem uma companhia, quem namora a mesma coisa, mas a gente não. Passamos o dia todo em função da paróquia, cercados de gente, mas quando chega a noite, chega também seu momento de solidão.

São João da Cruz diz que esses momentos de solidão, são momentos de escuridão em nossas vidas e é nos momentos de escuridão que muitas vezes nos perdemos pelo caminho e é verdade, por que muitas decisões frustradas são tomadas por você se sentir sozinho.

Heller – Você e sua família são aqui de São Paulo?

Frei – Não, sou do Sul, de uma cidade com quase cem mil habitantes. É maravilhosa.

Heller – Mas você tem algum familiar aqui em São Paulo?

Frei – Ninguém. Estou sozinho aqui.

Herbert ­ – E como você tem observado os homossexuais dentro da igreja?

Frei – É uma pergunta comprometedora. Primeiramente eu me coloco como um irmão, de igual para igual, por que eu fiz uma escolha de vida que é ser uma pessoa religiosa e portanto, eu tenho que olhar para cada um com um olhar humanitário, independente da condição de vida dessa pessoa.

Eu procuro agir com carinho e acolher, seguindo até mesmo o conselho do papa que nos ensina a abrir as portas da igreja para todas as pessoas. Quando você está nesse trabalho como um líder religioso, um pai espiritual de uma comunidade, você não pode olhar as pessoas taxando-as pelo que elas são. Você tem que olhar todos como filhos de Deus, cada um com seus erros e acertos e a bagagem que eles trazem.

Se você olhá-las pela condição de vida, suas atitudes serão injustas e incoerentes para com elas, e passa ser semelhante aos fariseus que apedrejavam as pessoas.

Heller – Alguma pessoa nessa situação já te procurou, pediu aconselhamento?

Frei – Os homossexuais sempre nos procuram. Primeiro por que eles querem se inserir na igreja, depois pelo fato de não serem aceitos dentro da própria casa, não serem aceitos na sociedade e acabam vindo pedir aconselhamento para gente.

Sempre nos perguntam o que fazer, como agir e o conselho que eu dou é para pessoa agir naturalmente, ser o que é. Jamais alguém vai conseguir viver contrário a sua essência e a família vai ter que te aceitar da forma que você é. É difícil, mas você vai ter que cativar a família, por que antes de ser homossexual ou não, você é filho dos seus pais e pertence àquela casa.

Outro ponto importante é você não escandalizar as pessoas à sua volta. Há pessoas que por serem homossexuais acham que podem fazer de tudo em todos os lugares, por exemplo, mesmo em parques há homens que transam publicamente e isso é agressivo para quem passa e vê.

É necessário se dar o respeito e respeitar os ambientes que se está, por que a vida da gente é assim, qualquer pessoa tem que agir dentro do que o ambiente pede. Se estiver dentro da igreja é preciso agir com coerência com as regras da igreja, se estou em casa posso agir diferente, se estou com amigos é diferente, no trabalho outra coisa. Você não pode andar de sunga no parque como se estivesse na praia.

Meu conselho é as pessoas serem o que condiz com sua essência, jamais tentar deixar de ser o que sua condição impõe, por que quando você tenta essa mudança, você tem uma vida frustrada.

Herbert – E quanto a você, surgiram alguns questionamentos dentro da sua cabeça quanto a sua condição sexual e a vocação religiosa?

Frei – Quando você começa a conhecer a sua sexualidade, independente da vocação religiosa, você se frustra muito por que você imagina que o ideal aos doze, treze anos é sentir atração pelo sexo oposto e quando isso acontece diferente você tenta reprimir até mesmo por que não se tem a intensão de contar para os pais, porém comigo foi ao contrário por que eu contei para minha mãe.

Eu comecei a questionar e talvez por isso eu seja muito tranquilo na questão da sexualidade. Eu questionava por que eu tinha sentimentos diferentes e para minha mãe aquilo foi um bicho de sete cabeças, pois era algo anormal.

Em uma família tradicional isso é difícil e vieram as etapas de procurar por um psicólogo, mas conforme foi passando o tempo e eu fui me conhecendo melhor, eu fui aceitando e eu já tinha definido que seguiria minha vocação de ser padre. Eu sempre colocava na balança os meus desejos sexuais e o meu desejo como pessoa e eu sempre falo que dentro de nós há dois lobos famintos: um é o seu instinto sexual e o outro é representa seus ideais. Os dois caminham lado-a-lado e um quer se sobressair ao outro, mas o que vai falar mais alto é o que você mais alimentar.

Então se eu alimentasse mais meu lado sexual, eu estaria por aí fazendo loucuras, mas se eu entendo que eu tenho que ter certa restrição no sentido sexual, então vou alimentar mais o meu pessoal e reprimir o sexual.

Com o passar do tempo, vocês podem pensar que não, mas acreditem que sim, quanto menos você alimenta seu lado sexual, mais ele vai acalmando, falo isso por minha experiência de dez anos que me levaram a essa conclusão.

Herbert – Como você sacia sua necessidade sexual? Por que para nós, que não estamos em uma vida religiosa, se optarmos por não ter uma vida sexual ativa, nós nos masturbamos, mas e para você?

Frei – (risos) Não só comigo, mas qualquer um religioso que opta por uma vida celibatária a masturbação é o caminho.

Lógico que não vamos utilizar essa opção de uma forma desenfreada, tem amigos que dizem que chegam a se masturbar cinco vezes ao dia e eu pergunto se são malucos, por que quanto mais você se masturba, mas você alimenta seus lobos sexuais e de repente você vai ter uma fome insaciável que só será saciada se praticar o sexo com penetração.

Para mim é a convicção, o princípio e o autocontrole. Eu sempre tenho que ter em mente minha convicção. Quanto mais eu pensar na minha convicção, menos eu vou ter vontade de praticar o sexo.

Não digo que não seja um processo doloroso. A opção radical traz uma certa dor até mesmo por que surge a dúvida se você está no caminho certo ou não, mas são as consequências da minha escolha.

Heller – Você já teve experiência com homens?

Frei – Eu já tive experiências sexuais. Com ambos os sexos.

Herbert – Sua opção pela vida religiosa veio antes da sua atração pelo sexo oposto ou pelo mesmo sexo, certo?

Frei – Sim. Minha vocação é desde criança. Por isso que ressalto que é uma vocação verdadeira, por que não é algo que apareceu. Veio desde cedo e por mais que eu tenha desejo de ser outras coisas, como médico veterinário ou ir para área de gastronomia, mesmo sendo coisas que eu já poderia ter feito, mas não fiz ainda por que acredito que a vocação sacerdotal é uma vocação primeira. Quando você tem uma vocação primeira, você a cativa para que ela sobressaia.

Herbert ­– Você disse que já teve relação sexual com ambos os sexos. Foram muitas vezes? E algumas dessas pessoas são ligadas à igreja?

Frei – Muitas vezes não. Minhas experiências sexuais não foram muitas, são poucas e nunca me envolvi com pessoas ligadas a mim, nem que moram comigo ou trabalham comigo. Jamais alguém da igreja, até mesmo por questão de princípio.

Não acho ético me envolver com pessoas da igreja, por mais que eu sinta atração por uma delas. Como vou pregar depois diante dessa pessoa se ela sabe o que fiz? Por isso, minhas experiências sempre foram com pessoas não ligadas à igreja. Às vezes até com pessoas de religiões diferentes.

Herbert – Você acredita que exista uma bancada gay dentro da igreja católica? Homossexuais no alto escalão da igreja.

Frei – Não acredito que exista essa cúpula fechada. Acredito que há sim homossexuais dentro da igreja, mas não ao ponto de ter uma cúpula para se auto proteger. Pode até ser o caso de terem amigos e um proteger o outro (isso vai dar uma polêmica – o que estou fazendo aqui (risos)), mas não creio que chegou ao ponto de formar uma cúpula.

Talvez até tenha, mas eu não saberia por que eu, como frei religioso, me coloco como num padrão bem baixo, quase serviçal. É difícil imaginar o que possa acontecer entre bispos e cardeais.

Mas pode ser que tenha sim nesse escalão mais alto uma proteção da sexualidade, até mesmo pelo fato que quanto mais alto seu cargo na igreja, mais você precisa de uma proteção. Se não tiver quem o proteja você é derrubado. Então, se você é um cardeal ou um bispo gay, provavelmente haverá outros que o protejam, então de certa forma há.
(CONTINUA NA PROXIMA ATUALIZAÇAO)
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