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HOMOSSEXUALIDADE

Frei católico e gay fala sobre casamento, celibato, suicídio e muito mais.



 ENTREVISTA: (PARTE2)


Heller – E na sua hierarquia, há alguém que saiba de você?

Frei – As pessoas da minha família religiosa jamais ouvirão da minha boca que além de eu ser religioso eu sinto atração por pessoas do mesmo sexo que eu. Elas podem muitas vezes entender por gestos, por que muitas vezes acabamos demonstrando algum gesto, mas jamais eu falei ou alguém veio me abordar nesse tempo que eu estou na congregação e dizer que por que eu sou homossexual eu preciso sair.

Na comunidade que eu estava anteriormente, fiquei seis anos e também ninguém nunca me abordou. Eu também nunca dei motivo para que viessem falar.

Em congregações mais antigas existe certo rigor e se você for homossexual, você é mandado embora. É preciso ter uma postura máscula. Isso acontece muito nas congregações monásticas, onde se você for afeminado tem que sair fora.

Por outro lado se você for muito afeminado pode acabar sendo desejado pelos membros da própria congregação.

Herbert – Você acha que é por saber que existem tantos homossexuais no clero que leva o papa atualmente a ser mais aberto a abraçar o homossexual para dentro da igreja?

Frei – Eu acho que não, ele não está agindo por ter ou não uma bancada homossexual. Uma coisa inesperada para todos nós é o papa Francisco. Eu acho que ele realmente se colocou no lugar de Cristo. Cristo quando andou na terra, pelos relatos que temos, amou a todas as pessoas e deixou o mandamento maior que foi o amor: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

O mandamento do amor já existia na terra, mas a palavra como é o ponto principal. Como ele nos amou? Morrendo por nós. E o papa se colocou na pessoa de Cristo e está acolhendo a todos, por que Cristo não excluiu ninguém.

Lógico que o papa enfrenta uma certa dificuldade por que a igreja sempre teve uma posição muito rígida contra isso, principalmente a questão do matrimônio para homossexuais. A igreja jamais vai permitir o sacramento à pessoas do mesmo sexo, por que a própria escritura diz que o homem e a mulher foram feitos um para o outro e o que Deus une ninguém pode separar. Então o sacramento à pessoas do mesmo sexo é uma contradição.

Mas o papa está tendo uma atitude fantástica, está sendo um paizão realmente por que ele está trazendo todos à igreja e depois que ele foi eleito, muitos homossexuais tem vindo à igreja e se mostrado mais presentes.

Herbert – E eles são bem aceitos pela sua paróquia?

Frei ­– Sim. Eu acredito que é nosso papel como religiosos acolher independente de quem for. Nunca olhar para cor, raça, condição sexual. Como religioso você se torna a Persona Christi, ou seja, você é a pessoa de Cristo e se você rejeita a alguém automaticamente não está sendo essa Persona Christi.

Se eu não aceito o homossexual, como eu vou pregar qualquer coisa sobre a paz, amor, perdão ou qualquer coisa nesse sentido?

Heller – Qual sua opinião sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo?

Frei – Na minha humilde opinião eu não vejo problemas, acho normal. Acho que é certo ter uma estabilidade e uma proteção civil. Por que as pessoas se conhecem, estabelecem um relacionamento duradouro e depois quando acaba as partes saem desamparadas.

Quando o Estado dá uma proteção, ambos têm mais segurança. E se duas pessoas se amam, se respeitam e estão dispostas a seguirem juntas, por que não ter um laço de união? Eu não sou contra isso, mas eu acho que precisa ter respeito, pois se não tiver respeito não existe o amor. O amor é baseado na fidelidade, respeito e privacidade.

Como você pode dizer “eu te amo”, estar casado e depois acaba traindo? Isso não é amor, se torna algo muito promíscuo.

Acho que gosto das coisas como antigamente. Se eu não estiver feliz com uma pessoa, vou conversar com ela e dizer que gosto dela, mas está faltando alguma coisa que precisamos buscar juntos ou nosso relacionamento vai acabar para que eu busque em outra pessoa.

Heller – Você não é favorável ao relacionamento aberto, então?

Frei ­– Eu sou totalmente contra. Não sei a opinião de vocês sobre isso, mas eu digo que sou muito antigo, por que esse negócio de suruba jamais (risos). Nada contra quem curte, isso é pelo que eu vejo pelas vezes que eu já transei. Estávamos só nós dois, foi super bacana por que teve tesão, atração entre os dois, foi um ato que não foi só sexual, teve um sentimento e no caso de estarem duas pessoas, rola o clima e aí chamar um terceiro para dividir? Não, sei lá, não se divide aquilo que se quer.

Heller – Você já namorou, já foi muito apaixonado?

Frei – Paixão acho que não, até mesmo por que paixão para mim é algo muito fútil, é algo que vai e vem ao mesmo tempo. Eu já amei, por que o amor é saber colocar as necessidades do outro acima das suas necessidades. Eu acho que na vida você vai amar apenas uma vez, o amor verdadeiro é único.

Heller – E você já teve essa experiência?

Frei – Eu já tive essa experiência de amor. É interessante por que eu soube entender todas as etapas. Hoje ele é casado, têm filhos e cada um seguiu sua vida.

Heller – Você chegaram a ter um relacionamento?

Frei – Tivemos um envolvimento bacana sim.

Herbert – Era um homem?

Frei – Era um homem (risos).

Heller – Vocês acabaram se separando e hoje ele é casado com uma mulher e filhos?

Frei – Sim, e a gente é amigo até hoje. Às vezes ele me liga pedindo conselhos, falando que algo não está legal. Às vezes eu ligo para ele.

A gente mantém uma relação já de onze anos, uma história onde a gente se entende. Uma amizade muito pura, muito verdadeira. Acredito que de ambas as partes é um amor muito verdadeiro, até por que a gente relembra dos momentos juntos, a gente revive, mas entendemos que nossas opções foram outras.

Eu penso que escolhi ser padre, então tenho que ser um bom padre, e ele escolheu casar com uma mulher, então tem que ser um bom esposo, sendo fiel. Tanto que quando acontece algum deslize, e segundo ele, ele nunca traiu a esposa, mas às vezes com a questão do álcool, enfim, ele me liga e fala “poxa deslizei de novo” e minha obrigação e dar um puxão de orelha e falar “poxa, mas por que você foi fazer isso, se você a ama, tem seus filhos. Como você pode, como pai, se colocar dessa forma na frente da sua família?”.

É muito mais eu puxando a orelha dele, do que ele a minha. É algo muito bom, acho que todos nós deveríamos ter isso na vida, ter alguém assim, por que isso faz a gente crescer como ser humano.

Heller: A gente falou sobre casamento e eu queria saber o que você acha das igrejas inclusivas, que absorvem, que aceitam e até promovem o casamento entre pessoas do mesmo sexo?

Frei: E tem isso?

Heller: Sim. Inclusive temos duas aqui em São Paulo.

Herbert: São evangélicas, não católicas.

Frei: Eu não tinha o conhecimento. Eu sei que nos Estados Unidos tem uma igreja exclusiva para os homossexuais. Foi criada por um padre católico que acabou sendo excomungado. Mas eu não sei o que te responder, não acho que está errado, não sei qual é o principio deles, então é melhor não falar nada para não dizer algo errado.

Herbert: Como é para você, pregar o evangelho, a palavra de Deus, sabendo que essa mesma palavra é usada pela igreja para afirmar que a prática homossexual é considerada um pecado.

Frei: É uma pergunta complicada, por que eu não acredito que palavra de Deus diz diretamente que a prática homossexual é um pecado.

Eu, que leio bastante, nunca li um trecho que vá dizer isso. Diz sim, que Deus criou o homem e a mulher para que os dois fossem um só, e vai dizer também que pecado é tudo que te afasta da presença de Deus.

Eu acho que às vezes nós, enquanto religiosos, enquanto padres, acabamos falando por nós mesmos, pelo fato de termos um ego, um desejo de crescer diante da nossa comunidade, querendo estar em destaque. E alguns vão acabar metendo o pau, falar isso e aquilo sobre homossexual, sobre gay e tal.

Eu acho que é um equivoco muito grande quando se fala isso, por que nós não podemos julgar, pois a partir do momento em que eu estou julgando, eu estou cometendo um pecado. Por que julgar me afasta da presença de Deus.

Eu acho que deveríamos reformular nossas frases, nós deveríamos falar que um ato homossexual, um ato heterossexual, fora de um relacionamento comum, aí sim se tornaria um pecado. Agora a pessoa ser gay, isso não é um pecado.

Heller: Mas então, se eu, como homossexual, procurasse, não haveria uma indicação de eu me abster do ato homossexual?

Frei: De não praticar?

Heller: Isso.

Frei: Aí sim. A igreja ela vai dizer que você deve abster-se da prática homossexual. Mas eu diria o seguinte – e agora na minha fala pessoal –, é o mesmo que eu falar para uma pessoa heterossexual se abster de sexo, por que são dois humanos iguais, apenas tem um desejo diferente.

E como eu posso dizer para um homossexual para ele não praticar, por que se ele praticar é pecado, e simplesmente o outro pode. Há uma questão religiosa por trás, mas antes há uma questão humanitária.

Então me parece muito falho eu, enquanto religioso, falar isso. Lógico que eu vou sempre aconselhar que a pessoa não seja promiscua, que ela não sai transando com todo mundo, que ela tenha um equilíbrio de si primeiro, mas eu jamais vou orientar alguém a não praticar, desde que seja com consciência.

É o que eu falei no inicio, se você tem essa opção e não tem uma escolha de vida radical, como ser celibatário ou algo assim, e você tem desejo por sexo não praticado, vai chegar uma hora que esse monstro vai te consumir de tal jeito que você vai acabar se tornando um psicopata. Você vai acabar explodindo de alguma forma. Eu acho que pode ser vivido, desde que vivido com consciência, com respeito.

Heller: Se um dia você tivesse o poder de mudar alguma coisa na igreja, direciona-la de alguma forma, você mudaria algo nessa constituição?

Frei: Em relação a homossexualidade?

Heller: Em relação a homossexualidade principalmente, mas de um modo geral também.

Frei: Às vezes eu fico me perguntando, se eu tivesse um cargo maior na igreja que mudanças eu faria. Lógico que uma das mudanças que todo mundo espera que fosse feita seria a questão do casamento, do matrimônio, mas isso jamais poderia mudar por que isso não partiu de nós, partiu há mais de dois mil anos atrás, quando a igreja foi constituída, então isso é um princípio de lá.

Automaticamente, se eu tento mexer nisso, eu estaria dizendo que tudo aquilo é mentira, então esse ponto eu jamais poderia mudar. Mas eu mudaria muitas outras coisas, a questão de trazer pessoas homossexuais para participar ativamente dentro de pastorais, acho que essas pessoas acabam tendo um certo medo de participar ou não são convidadas por este fato.

Eu acho que não tem nada de mais uma pessoa homossexual ser ministro da eucaristia, ser um leitor, um ministro da palavra. A igreja tem varias pastorais que essas pessoas poderiam estar dentro, mas não há um convite dos líderes da igreja ou há o preconceito por outros membros das pastorais, então eu faria como decreto mesmo, que todo mundo tem direito de participar dentro da igreja, visando que igreja somo nós, seres humanos, e não só simplesmente o templo que está lá construído. A igreja é feita de pessoas, e isso quer dizer que são várias raças, várias cores, várias opções, então você tem que respeitar todos.

Como eu posso querer ter um diálogo inter-religioso, como eu posso querer promover um diálogo sobre paz se eu escolho quem eu quero que esteja do meu lado.

Eu acho que se Cristo voltasse à Terra hoje, ele sairia correndo de novo, por que as coisas estão totalmente mudadas do jeito que ele pregou, do jeito que ele queria. Só que o problema é que quando você pensa dessa forma, algo que pode acontecer é, por exemplo, o que acontece com padre Fábio de Melo.

Quando a gente pensa de uma forma diferente, quando tenta unificar, já dizem que você é gay, por isso está defendendo eles, e você deve ser excomungado da igreja, afinal como você pode falar uma heresia dessas?

E aí eu respondo, é herege quem tem esses pensamentos, essa atitude, por que eu, enquanto filho de Deus, herdeiro das coisas de Deus, enquanto religioso, enquanto alguém que luta, que almeja uma paz para todos, desejos iguais para todos, como eu vou pregar o contrário? Com certeza, se fosse no passado, eu seria excomungado por ser religioso e pensar dessa forma.

Herbert: Eu cresci na igreja e a gente vê um certo assédio em relação aos padres, isso acontece com você ou com seus amigos paroquianos? Você já foi assediado por mulheres e por homens, dentro da paróquia?

Frei: Todos os dias eu sou assediado, desde no momento em que eu ando num parque, no momento em que eu estou atendendo alguém, que eu estou chegando na sacristia.

Há uma fantasia muito grande com padre, tanto de mulheres quanto homens. Principalmente quando eu vou de batina de casa. As pessoas tem um desejo muito grande, às vezes andando as pessoas mexem, dizem “ah, deixa eu ver o que você tem debaixo dessa batina”.

As mulheres, quando vão me abraçar, apertam minha bunda, dentro da sacristia. Homens casados já puseram bilhetinho com telefone no meu bolso, aproveitando que iam me cumprimentar. Já chegaram a colocar dinheiro no meu bolso, mas eu sou muito ingênuo, inocente. A pessoa vai me cumprimentar, eu cumprimento.

Teve uma ocasião, inclusive, que alguém colocou o dinheiro no meu bolso no momento em que nos despedíamos. Ele disse “para você tomar um cafezinho”, e eu pensei “será que ele me convidou para gente tomar um cafezinho?”.

Quando cheguei em casa, troquei de roupa e a senhora que lava a roupa para nós encontrou R$ 100,00 dentro do meu bolso. Ela venho me dizer que achou dinheiro, mas eu não costumo deixar dinheiro no bolso – primeiro que eu quase não tenho dinheiro, religioso não é muito de dinheiro (risos) –, mas como ela disse que estava no meu bolso refiz o meu caminho e percebi que foi nesse momento que ele colocou o dinheiro lá.

E ele é um ministro da eucaristia, casado, com uma esposa muita bonita, uma família muito bonita. Ele também uma pessoa muito bonita, mas depois eu não conseguia mais olhar para ele com o primeiro olhar, entende? Eu sentia vergonha.

Enfim, muitos assédios.

Mas, por outro lado, há pessoas que não admitem religiosos como uma pessoa qualquer, que a gente pode fazer exercícios de bermuda, por exemplo. Algumas vezes eu estou fazendo exercícios de bermuda e ligam na paróquia falando “que absurdo, o frei está de bermuda”.

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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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