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HOMOSSEXUALIDADE

Frei católico e gay fala sobre casamento, celibato, suicídio e muito mais.



(PARTE 3-ULTIMA PARTE)


Heller: E você tem amizades fora do circulo religioso?

Frei: Sim, meus amigos são de fora. Aliás, meus poucos amigos realmente são de outro estado, então eu só os vejo nos períodos de férias.

Nesses momentos, mesmo sendo religioso, eu aproveito como posso, eu vou a praia, vou ao barzinho, saio. Lógico que eu também não vou sair fazendo besteiras, mas eu aproveito ao máximo, por que são os poucos momentos que eu tenho durante o ano, as vezes em dois anos, para estar com eles.

Aqui eu tenho alguns amigos, que acabam sendo os paroquianos. A gente vai almoçar ou tomar um café, mas dentro da vida religiosa eu digo que você não tem amigos de verdade.

Você faz parte de um grupo de irmãos, mas na primeira oportunidade que um irmão seu tiver de te derrubar, de te puxar o tapete, ele puxa, disso você pode ter certeza.

Se você está se sobressaindo em alguma coisa, logo inventam uma fofoca para te destruir. É um absurdo, é errado, até por que dentro de uma comunidade religiosa, onde deveria ter uma união maior, é um padre querendo puxar o tapete do outro, é um bispo querendo ferrar o outro, sempre querendo se sobressair para ter um status maior.

Por isso a nossa igreja é tão falha, por que se prega o amor, mas não se vive o amor e quando não se vive o amor, você é vazio.

Herbert: Você já se perguntou se sua escolha pelo celibato foi para fugir da sua condição sexual?

Frei: Não, nunca foi para fugir. São escolhas, todos nós temos nossas escolhas e às vezes tem coisas que convém que eu faça e tem outras coisas que não convém.

Eu acredito que todo padre deveria ser celibatário, independente de ter um desejo muito forte ou não, isso para não ir contra aquilo que se prega, por que se prega nas homilias, e em vários outros lugares, o fato do padre ser celibatário.

Mas esse é um conceito muito meu, por que eu sei que se quisesse transar agora, eu sairia e ninguém ficaria sabendo, mas isso é algo meu.

Eu penso que se eu for transar, eu vou estar indo contra um princípio meu e vou ficar me martirizando por muito tempo.

Com isso não quero dizer que não vou transar nunca mais, até por que pretendo viver até os 112 anos (risos), portanto pode acontecer, mas enfim.

Herbert: Muitas pessoas vivem em conflito com sua sexualidade, algumas até tentam o suicídio por não conseguirem suportar o conflito da sua cabeça em aceitar sua sexualidade. Você já pensou em suicídio?

Frei: Jamais! Eu acho que quando isso acontece é primeiro um problema de estrutura familiar, de apoio, segundo é um problema psicológico da pessoa que tem essa intenção, por que ela não consegue se aceitar.

Primeiro de tudo você tem que se aceitar, enquanto você não se aceita você vai experimentar uma castração psicológica e vai viver automaticamente uma frustração.

Mas eu jamais pensei em tirar minha própria vida por que primeiro eu me amo, e eu sou muito bonito e muito jovem para morrer (risos).

Enfim, se minha escolha fosse outra que não ser padre, eu estaria vivendo feliz. Se eu fosse um veterinário, eu estaria vivendo lindo, maravilhoso, feliz. Poderia enfrentar alguma dificuldade de aceitação da minha família e amigos, mas fodam-se os outros.

Eu acho que a partir do momento em que você se entende como gente, que você tem uma estabilidade sua, própria, os outros são os outros. Você tem que decidir por você, viver por você. Se você for viver pelo outro, você não vive. A gente tem que se gostar primeiro, e aí você vai ver que os outros vão ser coisas pequenas.

A opinião da minha mãe, por exemplo, às vezes para mim não é nada. Mesmo minha mãe, que na Terra é o que eu tenho de mais importante. Eu acabo filtrando algumas opiniões absurdas dela, às vezes entra por um ouvido e sai pelo outro.

A opinião do meu irmão, por exemplo, que é advogado e homofóbico mudou. Ele chegava a dizer para pegar essas bichinhas e matar tudo, mas não é assim.

Quando ele soube que na família tinha um religioso e homossexual, ele mudou 100%. Parece que ele começou a gostar muito mais de mim, me respeita, cuida com as piadas e com as brincadeiras.

Eu jamais vi ele defender alguma coisa assim na frente dos amigos, mas quando eu estou em casa, em momentos comuns, se alguém faz alguma piada sobre esse assunto, ele já faz uma piada contra aquela pessoa, entende?

Eu acho que mudou totalmente. No nosso caso, nós erámos meio distante e isso nos aproximou. Hoje ele é outra pessoa. O único problema que nos temos é na religião, ele é muito a razão e eu sou emoção, então a gente briga muito nessa questão.

Um exemplo é a separação. Eu, enquanto religioso, vou fazer o máximo para reconciliar as pessoas e ele já diz que o Estado está aí para auxiliar, não deu certo, separa.

É o único ponto que a gente tem de briga, por que na questão da sexualidade, minha cunhada de boa, minha família toda hoje respeita e minha mãe sempre soube. Aliás, minha família sempre soube por que eu nunca escondi de ninguém.

Herbert: Que conselho você daria para um jovem que te procure dentro da sua paróquia e que esteja pensando em suicídio por causa da homossexualidade?

Frei: Primeiro de tudo dou um tapa na cara dele (risos).

Eu faço ele ver que a vida vale muito mais, que a vida é maravilhosa e pode ser vivida de muitas outras formas, que não precisa ser a morte.

Eu tento conhecer melhor a família dele, tento conhecer melhor a realidade dele. Se possível, e se tiver uma abertura, eu converso com a mãe, não diretamente sobre o assunto, mas eu tenho meus meios de ir conhecendo. Comentar “percebi que seu filho está um pouco desanimado na missa, o que está acontecendo?”, eu crio algum argumento sem que exponha a pessoa, mas para ajudar.

Já aconteceu esse fato que eu tive que levar ao padre, chamar a família, enfim, por que a pessoa tentou se matar.

A primeira vez se cortou, cortou os pulsos, mas não foi muito grave. Depois o pai o encontrou dentro do banheiro já desacordado por que ele tinha cortado uma artéria, ou algo assim, e a família foi conversar, disseram que não sabiam. Eu disse “não sabiam porcaria nenhuma, vocês fechavam os olhos. Precisou o filho de vocês quase se matar para que vocês o aceitassem” .

Eu procuro criar no jovem a confiança para falar com os pais, e nos pais a confiança para ouvir os filhos. Por que se tem essa confiança de chegar e falar “eu sou gay”, você vai se sentir muito melhor.

Eu tento sempre me inserir ao máximo quando alguém vem até mim abordando essa questão para fazer ela esquecer disso. E até chamar para fazer exercícios, passear em algum parque.

E não é só homossexual que pensa em se matar, tem muita gente casada, que acaba fazendo besteiras e acha que a morte é a melhor saída, mas não é.

Eu aproveito e já convido para fazer alguma coisa, outro dia fomos distribuir leite. A gente faz arrecadação de alimentos e roupas periodicamente, a gente arrecadou leite e eu convidei uma pessoa “vamos lá distribuir leite para você ver a realidade do povo de lá e pensar duas vezes antes de se matar”. E são coisas tem funcionado.

Herbert: E a última pergunta, o que você espera da reação das pessoas a sua entrevista? Você está preparado para as possíveis criticas que acontecerão? Uma vez que dentro do mundo gay as pessoas se apoiam, mas se criticam muito também.

Frei: Eu sei que vai ser muito polêmico, alguns pontos que falei vão ser muito polêmicos.

Como você disse, eu acredito que realmente há um preconceito da sociedade para com o homossexual por que os próprios homossexuais tem preconceito contra si. É uma disputa muito grande, tem coisas muito desenfreadas que acabam levando ao preconceito, mas se a entrevista tiver polêmica, ótimo, quer dizer que o assunto se difundiu.

Perguntas, se tiverem, melhor ainda, por que tem muita gente com necessidade e vontade de se aprofundar no assunto, no tema.

Herbert: Então, se algum dos nossos leitores tiverem dúvidas, podem mandar para você (por intermédio da nossa equipe)?

Frei: Sim, claro.

Herbert: Maravilha! Muito obrigado pela entrevista.
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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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