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RELATOS PESSOAIS



Rafael Nova ou Nova Rafael – A história de um escritor trans


Quando eu nasci dia 11 de maio de 1985, às 15:05 no interior do Rio Grande do Sul, minha família me deu o nome de Rafael por ser este um nome de "anjo". Creio que isso não foi uma coincidência... Dizem que os anjos não têm sexo. Sou assim, uma pessoa diferente. Sinto-me uma alma feminina, mas sem me sentir mulher, ou homem (embora meu sexo biológico seja masculino). Sou uma pessoa Transgênero Andrógina.

Antes de mais nada, preciso esclarecer algumas coisas para quem talvez nunca tenha ouvido falar alguns termos. Sexo Biológico, Orientação Sexual, Identidade de Gênero e Expressão de Gênero são coisas diferentes e independentes. Sexo Biológico diz respeito ao genital, ao fato de você nascer homem, mulher ou intersexo (hermafrodita). Orientação Sexual se trata daquilo pelo qual você se sente sexualmente atraído (mesmo sexo, sexo "oposto", ambos, nenhum, etc.). Identidade de Gênero é forma como você dentro de você se sente e percebe (homem, mulher, neutro, masculino, feminino, outros). Expressão Sexual é a maneira como você se apresenta ao mundo (homem, mulher, andróginx, outros). Isso vai facilitar a você entender quem eu sou.
 
Variações e controvérsias à parte, é mais ou menos assim!

Até alguns anos atrás eu não tinha uma opinião tão positiva sobre tratamentos e pessoas que visavam modificar sua aparência por não se sentirem adequadas à forma como nasceram e socialmente foram criadas. Tinha contatos e colegas Transexuais e Transgêneros (viu a letra "T" do LGBT aqui?) e os adorava e respeitava, apenas não me via fazendo o mesmo. Nunca naquela época eu imaginei que iria passar por um processo de trans-formação como eles.

Porém, de certo modo, quando olho para trás acho que tudo sempre esteve ali. E afinal, como uma pessoa espiritualista, acredito que meus pais já tinham de certo modo "previsto" algo assim - cresci ouvindo minha mãe contar que eles me viam como uma nuvem cor-de-rosa antes de eu nascer. E a despeito do meu nome, o apelido Rafa (a maneira como todos me chamavam) bem podia servir para um menino ou menina.
 


  O poema que meus pais escreveram se referindo a mim como
uma nuvem cor-de-rosa!
 
 

Quando criança lembro de sempre querer ter o cabelo comprido (não tive), de achar os brinquedos de menina mais legais, e também as atividades como ballet (não fiz). Eu gostava de coisas tradicionais de meninos também apesar de detestar futebol, como jogos de videogame (especialmente RPGs) e desenhos como os Cavaleiros do Zodíaco (da minha época - estou entregando a idade), mas meus personagens preferidos sempre eram meninas ou andróginos. Já o meu jeito sempre foi mesmo mais sensível e emotivo, e noutros momentos bastante irritável e temperamental.

Na adolescência, eu comecei a ter muitos pelos (muitos mesmo). E não só isso: minha barba começou a crescer e ficar cerrada. Uma das experiências mais ruins que recordo foi ter de fazer a barba pelas primeiras vezes. Por algum motivo não senti orgulho ou satisfação por tê-la; sentia de fato uma humilhação quando tinha de pegar a gilete e raspá-la. Com o tempo fui aprendendo a relevar essas características, sem ter noção do peso que elas teriam na minha vida.

Há uns anos atrás eu era assim



O problema é que embora nunca passasse pela minha cabeça "mudar", eu não me sentia feliz comigo. Quando eu olhava no espelho eu não me achava um cara bonito. As pessoas me diziam que eu era, falavam que minha barba e meus pelos eram atraentes. Me ver masculino me fazia sentir infeliz, tanto quanto ser visto assim, e sequer entendia o porquê disso. Mesmo se me vestisse com roupas que eu curtia, minha satisfação era rasa. Tinha alguma coisa errada comigo.

O que começou a acontecer cada vez mais, especialmente quando comecei a namorar a partir dos meus 19 anos (homens, identificando-me como gay - um outro processo custoso), foi uma frustração tremenda. Eu me sentia menos, me sentia inferior em relação aos outros caras. Meu corpo e o que eu era, tudo isso não era suficiente para me fazer sentir num mesmo nível. Olhava para o mundo e me sentia "do lado de fora" dele e condenado à infelicidade. Com isso vinha a raiva, e eu descontava na na comida e nas pessoas próximas (as mais íntimas), era agressivo, arredio, me isolava, passava por situações de fobia social.

Estava fugindo e brigando com o mundo.

  A cada ano eu ganhava mais peso
 
Com o tempo fui percebendo que acabava me encaixando em vários traços e coisas femininas. Isso também foi relevado  e não exatamente gostado. Assim que entrei na faculdade em 2006 e passei pelas disciplinas de Arteterapia I e II, e também na produção pessoal dos meus desenhos, era comum o tema de mulheres em situações de sofrimento, presas, chorando, ou machucadas. E com isso começou a surgir meus primeiros sintomas de "disforia de gênero", que entre nós, trans, é um termo usado para definir os momentos de angústia em relação ao que somos, ao que não somos, ao que gostaríamos de ser, e como gostaríamos de ser vistos e tratados.

Percebi que eu queria nos meus relacionamentos ser valorizado pela minha parte sensível, e mais: ser tratado a partir dela. No entanto, até isso me era insuficiente e de novo o entendimento era pouco. Ainda faltava alguma coisa.

Acho que muito do meu bloqueio de entender a mim mesmx veio a partir da cultura gaúcha em que fui criado, e a época. Naquele meu mundo sem internet e sem muita diversidade na televisão era difícil para uma criança pensar em ser gay ou qualquer outra coisa. Nosso pensamento infantil era treinado já para a divisão dos sexos, o certo e o errado para cada um. Portanto, eu em primeiro lugar não considerava razoável adentrar a feminilidade ainda que ela estivesse em mim. Somente na graduação em Naturologia, como dito, é que me permiti começar a questionar algumas coisas.

  Hoje vejo um cara bonito nesta imagem,
mas não era como me sentia

Eu vivi então seis anos em Santa Catarina, me formei no início de 2011 e meu retorno ao sul no meio de 2012 foi decisivo para o início do que seria minha jornada de autodescoberta. Mas eu  estava no meu pior quando cheguei em Camaquã (cidade natal). Nos meses anteriores eu tentara a todo custo me sentir orgulhoso por ser um homem, reforçar minha masculinidade, e isso só foi arruinando minha vida. Eu estava sem trabalho, sem ideias, sem motivação, com mais de 93kg (e eu tenho 1,74m - imagine), e com a sensação de ter fracassado na minha curta vida.

Para minha sorte eu tinha começado o curso de especialização em "Arteterapia no Contexto Social e Institucional" no Instituto da Família de Porto Alegre (INFAPA).

Através da pós-graduação, com suas dinâmicas e informações terapêuticas, junto dos meus estudos de trabalho em consultório voltado para energia e espiritualidade, fui percebendo que eu tinha de melhorar minha relação comigo mesmx para ter uma existência melhor, Fui deixando de "relevar" quem eu era e passando a gostar das coisas que tinham a ver com meu coração, e parei de me infringir aquelas que não eram. Passei a cuidar do visual, a fazer academia, cuidar da alimentação (especialmente meu vício em Coca-Cola), e até me animei a ir atrás de uma CNH.

(Confesso que esse giro em 2013 foi uma das melhores épocas!)
 

Um dos primeiros módulos que tivemos. Os símbolos
não foram bem decifrados na hora, mas hoje vejo todas as
alusões que trazem. A própria borboleta é um símbolo das
pessoas trans, e eu não sabia disso
 
Então, foi exatamente numa aula da pós que tudo começou a acontecer.

Estávamos em dezembro de 2012 numa proposta de resgatar os nomes pelos quais éramos chamados, e observar nossas reações interiores a respeito deles. Por "acaso" esqueci o Nova (de Rafael Nova, na época meu pseudônimo de autor). Constatei que meus nomes oficiais e até meu apelido me traziam mal-estar. E por algum motivo bobo lembrei do nome que minha mãe teria dado a mim caso fosse mulher, e quando trouxe ele à mente, meu peito aliviou. E ver isso naquele momento não foi nada bom.

Como de praxe, registramos a experiência artisticamente. Fiz um desenho de um ano em verde (imagem abaixo). Enquanto o fazia, entendi que havia um lado feminino meu que eu não me permitia ouvir e estava renegando. Naquela aula, ao contrário de outros encontros, não queria partilhar. Estava envergonhado, assustado, triste, ir embora rápido do curso Com muito apoio das minhas colegas e professoras que nunca me viram daquela forma, deixando-me à vontade se quisesse falar ou não pois gostavam muito de mim e se preocuparam com minha reação, eu fui corajoso e decidi me abrir. E tudo saiu com muito choro e lágrimas.

O interessante a respeito do anjo que desenhei - e isso só posso ver nele hoje - é que ele tem o verde, uma cor associada à neutralidade de gênero; já o anjo em si representa a androginia. Ademais, ele parece oferecer luz à árvore seca, e todo o entorno oferecia água, no mar e nas nuvens de chuva. Quando concluí a representação eu me senti mal, queria descartá-la. Hoje vejo como minha alma precisava de água e luz para crescer e me renovar.

Em dezembro de 2012 quando o mundo acabou,
eu fiz esse desenho na aula de Arteterapia

Me dispus a aceitar e me comprometi a fazer tudo o que esse lado feminino quisesse de mim. Daí em diante, ao longo de 2013, descobri que eu queria me tornar fisicamente mais feminino. Pode parecer bobo mas o reality show RuPaul's Drag Race foi onde comecei a aprender que ser diferente poderia ser muito legal, e até ser divertido brincar com o gênero. Fui passando por fases.

A princípio pensei que eu podia ser uma Drag Queen, alguém que era homem e eventualmente se travestia como mulher para fins artísticos e performáticos. Não era isso. Depois indo além pensei que talvez poderia me encaixar como uma Transexual MtF (male to female), e isso foi mais palpável e me motivou a buscar o tratamento em 2014. Também não era bem isso. Depois eu pensei que o termo Travesti me definiria, já que engloba alguém que se sente ok com o sexo biológico, e tenta fazer de seu look algo mulher, sem desconsiderar a origem masculina. Outro engano. Por que eu me sentia tão confusx?!

(CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA) 



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Postado por Mac Del Rey | (1) Comente aqui!

Um comentário:

  1. Nossa, texto carregado de emoção! Ansioso para o restante do relato

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