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SAUDE

Funciona! Estudo com uso do truvada como prevenção ao HIV tem resultados animadores no Brasil.





As equipes de infectologia da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e do Centro de Referência e Treinamento em AIDS – SP estão comemorando os primeiros resultados do estudo do Prep Brasil, estratégia que adota o uso de um comprimido por dia para prevenir a infecção com o HIV. O projeto está avaliando a aceitação da Profilaxia Pré Exposição em cerca de 500 voluntários, homens gays e mulheres transexuais, recrutados desde 2014 nas duas maiores cidades do país.

De acordo com Ricardo Vasconcelos, médico infectologista da USP e um dos responsáveis pela implantação do projeto no Brasil, nenhum dos voluntários que não conseguiam usar camisinha e tomam um medicamento antirretroviral diariamente foi infectado com o vírus. Na entrevista a seguir, o médico fala sobre essa primeira experiência com voluntários brasileiros, as dificuldades da implantação do projeto no nosso país e quais os próximos passos do Ministério da Saúde no controle da epidemia da Aids por aqui.

DD – Os primeiros resultados da Prep Brasil são animadores?

Sim. Estamos em um momento de muita festa aqui na equipe, pois completamos um ano desde que o primeiro voluntario foi incluído e todos que seguiram o tratamento à risca não foram infectados. Ano passado começamos a recrutar 500 gays e transexuais em São Paulo e no Rio de Janeiro. Eles passaram por uma triagem, fizemos entrevistas e constatamos que todos tinham um alto risco de serem infectados pelo hiv.

Após uma experiência bem sucedida nos Estados Unidos, o Ministério da Saúde decidiu que poderíamos fazer esse estudo aqui. Então, por um ano, demos um comprimido de truvada diariamente para cada um. Nossa dúvida seria sobre a aceitação do projeto por aqui, na aplicação dessa estratégia na vida real. Até agora, nesse primeiro ano, correu tudo bem. Vale salientar que ainda temos voluntários no meio do caminho. Nós esperávamos pelo menos 25 infecções por HIV nesses 500 voluntários, mas isso não aconteceu. Nenhum se infectou. Ou seja: conseguimos evitar 25 soroconversões e isso é fantástico. Estamos em festa.

Outra razão para se comemorar é que, há alguns meses, o Truvada obteve seu registro na ANVISA, permitindo que seja comprado em território brasileiro para o uso em PrEP. Isso é um marco muito importante, pois permite a significativa ampliação da oferta dessa estratégia extremamente eficaz de prevenção do HIV. Logo que chegou no país, um frasco de 30 comprimidos de Truvada ainda custava um preço impeditivo de R$ 2.000, entretanto, depois de grande negociação brasileira com a Gilead, fabricante do comprimido, foi possível obter redução de 5 vezes o valor inicial. A partir dessa semana um frasco de Truvada para uma pessoa que se vê em risco de infecção pelo HIV por não conseguir se proteger apenas com os métodos tradicionais de prevenção sai por R$ 412,50.Por mais que não esteja nem perto de ser barato, o novo custo já aumenta cinco vezes o acesso à medicação.

DD – Quais são as maiores dúvidas de alguém que procura pelo tratamento?

Sobre os efeitos colaterais, que são mínimos e variam de pessoa pra pessoa, e também sobre o uso do preservativo. As pessoas devem entender que só o comprimido não protege das outras DSTs. Não adianta abandonar de vez a camisinha.

DD – Porque que o estudo não incluiu heterossexuais?

Os gays e as mulheres transexuais são desproporcionalmente acometidos pela epidemia e se você for ver a porcentagem da população gay do Brasil que tem hiv chegamos ao alarmante número de 10 %. Na população hétero esse número é muito menor: 0,5 %. Temos bem menos heteros infectados e, ao contrário do que muita gente pensa, isso não é um castigo de Deus. A população gay é bem menor, então o número de pessoas que relacionam entre si é menor também. Imagine que uma cidade tem 10 homossexuais, sendo que 6 deles tem o vírus. Quando um dos 4 que não tem for para uma balada, conhecer alguém e transar, a chance de ela conhecer e transar com alguém que seja soropositivo é bem maior.

É diferente do gigantesco universo de heterossexuais. A chance de um hétero encontrar outro hétero soropositivo é bem mais difícil. Outro motivo é que a prática sexual que os gays fazem , o sexo anal, tem um risco muito maior de transmissão. Se os homens héteros fizessem sexo anal com as suas parcerias com a mesma frequência com o os homens gays fazem, teríamos um número maior de héteros infectados. Isso não quer dizer que, no futuro, quando tivermos Prep aqui no Brasil, todas as pessoas não vão poder ter acesso.

DD – Pessoas que usam camisinha, mas que de vez em quando esquecem de usar, podem ter acesso ao tratamento?

Cada pessoa tem que saber gerir o seu próprio risco de infecção ao hiv. O importante é se proteger de maneira adequada. Se um indivíduo consegue usar preservativos todas as vezes que transa, ok. Ele está de parabéns. Se ele só consegue usar camisinha a maioria das vezes, mas de vez em quando dá uma bobeira e não usa, ele precisa recorrer a Pep (Profilaxia pós exposição), estratégia indicada para quem teve uma exposição de risco, onde uma combinação de medicamentos é receitada por 28 dias. Mas tem gente que não consegue de jeito nenhum usar camisinha, ou porque aperta demais, perde a sensibilidade ou até mesmo porque não tem tesão e o tesão importa, sim. Nesses casos a Prep é indicada como a melhor estratégia.
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Dr. Ricardo Vasconcelos: “Cada pessoa tem que saber gerir o seu próprio risco de infecção”

DD – Podemos dizer que a Prep é um grande passo no avanço para o controle da epidemia?

Sim, mas ela não é a única solução. A Prep é para quem tem exposições repetidas, frequentes. Só a camisinha é eficaz para todas as doenças. Ela tem um papel importante no controle, mas só ela não está adiantando. Não dá pra achar que a Prep sozinha é a solução, nem que o preservativo sozinho é a solução. Temos que estar atentos também ao TCP (Tratamento como Prevenção). É importante tratar uma pessoa que já tem o vírus para que ela não o repasse quando transar com mais alguém. Um indivíduo com uma carga viral indetectável tem menos chance de contaminar outra pessoa. Se tudo isso junto funcionar, já podemos falar em controle.

DD – Com os resultados obtidos pelo Prep Brasil, qual o próximo passo agora?

O próximo passo é esperar a burocracia enorme do SUS para que isso esteja disponível para quem de fato de fato precisa. A parte mais difícil é organizar os serviços que vão fazer esse atendimento. A gente tem um déficit de lugares que atendem soropositivos no Brasil. Tem lugares aqui em São Paulo que algumas pessoas podem ficar até um ano esperando uma consulta com infectologista. A estrutura de laboratórios e profissionais é ruim. Organizar a estrutura de laboratórios para atender a pessoa que precisa da profilaxia como tratamento será um grande desafio para o Ministério da Saúde.


Saiba mais sobre a Prep no site oficial: www.prepbrasil.com.br

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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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