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RELATOS PESSOAIS



Rafael Nova ou Nova Rafael – A história de um escritor trans
(PARTE II)

  Começando o tratamento! 

Decidi me apoiar nas certezas. O que eu sabia é que eu tinha horror aos meus pelos e barba, portanto fui buscar o tratamento com um Endocrinologista para verificar meus níveis hormonais e ver se era possível fazer alguma coisa, e também ter uma aparência mais feminina. Foi difícil encontrar um médico que topasse me ajudar, alguns se diziam não preparados, outros usavam artifícios para negar indiretamente o auxílio. Quando finalmente encontrei uma médica em fevereiro de 2014 que se propôs, estava quase desistindo de tudo, mal pude acreditar. Naquele dia chorei e agradeci a Deus.

No início de tudo minha pele começou a se modificar: tornou-se mais seca (eu a limpava ao menos umas três vezes por dia em função da oleosidade). Meus pelos com os meses foram ficando mais finos e quando os raspava levavam um tempão pra nascer e em algumas áreas desapareceram (se eu tirasse tudo antes, em uma semana ou duas, voilá). O peito aumentou um pouquinho. O cabelo parou de cair e começou a crescer mais rápido. Notei que quando chorava as lágrimas caíam sem parar, jorravam. Meu corpo foi adquirindo um desenho diferente.

Eu e meus amigos no meu melhor aniversário ever!
A terapia hormonal (TH) já tinha começado.
Estava me tornando "Nova" aos 29 anos

Além disso, fala-se pouco sobre porém efeitos na personalidade também vieram. Percebi que estava menos ansiosx, que não tinha aquela agressividade de antes embora mantivesse o temperamento forte. Ganhei uma suavidade que foi além da textura da pele, e que me fez sentir "em casa", confortável comigo. Minha relação com a sexualidade também se modificou e ficou menos crua, menos sujeita ao visual, e passei a admirar bem mais aquilo que ia além da aparência dos homens.

Meus níveis de Testosterona (T) e Dihidrotestosterona (DHT) eram altíssimos, e com a medicação caíram, e o hormônio feminino subiu um pouco. Contudo, minha libido praticamente zerou, e em função disso e da certa dificuldade de sentir prazer, o tratamento passou e passa por adaptações até que eu consiga chegar num ponto em que fique tudo bem, e possa estar em uma composição confortável ao meu organismo e à aparência.

 
  No antigo consultório
 
Durante um período eu pensei que poderia manter isso tudo só para mim, afinal eu queria acreditar que estava apenas alterando o modo como eu parecia e o corpo era meu. O que eu não contava é que eu passaria por diversos momentos de dúvida, de vontade de parar, de me sentir acuadx diante dos desafios. Num dos retornos na minha médica, vi que realmente estava "acontecendo" e tive uma crise, tive medo do novo, medo de deixar de ser "eu", e tinha a impressão que perderia a família e as pessoas que eu amava se eu fosse em frente.

De novo me muni de coragem, e ao invés de fugir, tomei a decisão de passar a falar com pessoas além da especialização. Tive meus amigos e namorados, que reagiram com uma aceitação que nem eu esperava. Alguns levaram um tempo, outros logo "reconheceram" que era aquilo que eu realmente era.

 
"Hello, stranger!"



No entanto, essa se provou ser uma viagem solitária. Houve uma ocasião de um conhecido que falava comigo me dizer que eu tinha um problema e precisava de ajuda psicológica ou psiquiátrica, porque querer ficar diferente não era normal. Ouvi várias vezes "mas você é/era um homem tão bonito, pra que mudar?". Entendo que as pessoas não conseguiam imaginar como era pra mim. O apoio terapêutico que encontrei com amigos terapeutas, consultores espirituais, uma ex-psicóloga e conversas com psiquiatras, diziam o contrário do meu conhecido: eu precisava ser o que eu era.

Só recentemente neste 2015 consegui chegar a uma definição a respeito de mim mesmx, a melhor que pude encontrar. Sou uma pessoa Transgênero, por dentro me vejo uma pessoa feminina, sem me sentir exatamente mulher, tampouco homem. Só que isso me faz gostar da aparência feminina, andrógina, e de quando as pessoas me tratam no feminino como Nova. Até hoje eu sorrio quando me escrevem na página do Facebook ou se referem a mim por este nome.

Contudo, ocorre também que sou genderfluid, isto é, minha Expressão de Gênero se altera conforme o dia, ocasião e até pessoas que interajo. Há episódios que acordo e me sinto no feminino e noutros no masculino. E com isso muda meu desejo de vestir, meu jeito e até as sensações; ainda assim, mesmo "travestido" de homem, ainda sou uma pessoa feminina o tempo todo.

  Um dia recente de gênero Masculino
(até os brincos eu repudiei)

Então preciso falar dessa pessoa. A começar pelo nome.

Nova era parte do meu pseudônimo de autor (Rafael Nova), e surgiu na época do início da faculdade. Nova me lembra a renovação, aquilo que nasce, e também as estrelas - sempre fui apaixonadx pelo céu da noite, pela ideia de fazer desejos a elas, e seu brilho. Quando me perguntaram que nome eu teria no feminino, pensei nele. E na realidade ele também é um nome neutro, o que me apraz.

Meus amigos acham legal minha expressão andrógina, mas vários deles me veem como menina, e adoram (por algum motivo muito doido) bem mais quando tiro minhas fotos nesse gênero. Cabe aqui ressaltar que foi só com minha "nova" aparência que passei a ter as primeiras vezes de me olhar num espelho ou numa fotografia e me sentir legal com o que via, de ficar feliz, e realizadx. Você pode nunca ter passado por isso, mas imagine quantos anos passei sem nunca ter sentido algo assim plenamente. Era um milagre!

Um dia recente no gênero Feminino

Eu não me importo quando eventualmente alguém me trata no masculino. Com algumas pessoas e na minha família eu me sinto estranhx eu mesmx de me expressar no feminino. Já com outras se dá o oposto. Em português não temos um pronome neutro, eventualmente vamos para o "o" ou "a" no verbal, entretanto no escrito temos a possibilidade de usar a "@" ou o "x" para permitir a ambivalência (e agora você entende porque em alguns momentos do texto uso o "x"). O que me chateia muito é quando alguém me atira um "fera" e afins, esses esterótipos masculinos que é uma identidade com a qual não me identifico.

Do mesmo modo, fico chateadx por eu ainda ter barba, e isso só é possível resolver com remoções de Luz Pulsada ou Laser que nesse instante não estão mais acessíveis para mim. Tento fazer quando posso. Também gostaria de ter mais roupas andróginas ou peças mais femininas além das tradicionais, mas estou sem muitos recursos pra isso, e pra completar meu guarda-roupa foi especialmente devastado pela minha perda de peso - saí dos 93kg para 62kg (com margem de erro de 1,5kg para mais ou para menos). Perdi todo esse peso porque fiz as pazes comigo e comecei a notar tudo que meu corpo "queria" pra se sentir bem, fosse exercício, alimentação ou outros, e me tornei vegetarianx e adeptx do veganismo.
  

Não saio na rua assim, mas achei a ideia
"conceitual" para uma foto

Nos dias que eu estou mais "menina" gosto de ter as unhas coloridas, ou de usar brincos mais complexos, e roupas mais ajustadas. Também passo mais tempo (tentando) arrumar o cabelo, e uso mais maquiagem (embora eu ainda precise aprender mais sobre isso).

Ademais, há tanto a meu respeito além de ser Trans! Talvez existam coisas específicas sobre os dias que me sinto neutrx para fora mas ainda não as explorei devidamente. Só sei que ainda sou uma pessoa que gosta de desenhar, mexer com arte, escrever histórias, ver seriados, visitar a família, conversar com os amigos, estudar e ler, cozinhar, rir e falar besteira, lidar com a espiritualidade, trabalhar atendendo e fazendo minhas palestras quando recebo convite... Há muito sobre mim além da minha aparência ou sexualidade.

Com adesivo, lógico!

 
Você poderia pensar, portanto, que pela Androginia ser só uma das minhas partes que eu poderia simplesmente ocultar isso. Só que eu percebo que sempre que me abro e falo sobre o assunto, me sinto mais inteirx nas minhas relações, e sinto que as pessoas se tornam mais verdadeiras comigo. Procuro não temer a violência embora saiba que ela exista, e apesar dela e da intolerância e da transfobia, ainda assim a maioria esmagadora de tudo que recebo em comentários e conversas sempre é de muito carinho, acolhimento, apoio e incentivo. As pessoas acham "legal" eu ser assim!

Por outro lado, não saio por aí "vendendo" ou enfiando nas pessoas o que sou gratuitamente. Se não quero que ser Trans seja um segredo é porque hoje gosto muito de mim, e não me importo de falar sobre ou responder dúvidas das pessoas. Isso realmente gera curiosidade, às vezes uma estranheza positiva, porém como eu falei, logo as pessoas vão me conhecendo e vendo que junto com isso, eu sou essx Nova e Rafa um tanto doida que é uma pessoa como qualquer outra.
  
(CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA - PARTE FINAL)

 

 
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Postado por Mac Del Rey | (0) Comente aqui!

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