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MINHA VIDA GAY

Um convite ao namoro.




Por: MVG


Antigamente era mais fácil, embora hoje seja mais simples. Quando eu era um jovem gay de 20 e poucos anos, até meus 33, metade da consciência, autonomia e segurança que adquiri aos quase 39 anos eram inexistentes. Tinha muito ainda de apego, questões de autoestima para acertar e partes de um potencial para virar realidade. Era mais fácil porque o Flávio entrava mais nos encantos e jogos de relacionamentos que são normativos, ainda muito referenciados pelos padrões heterossexuais e por certas regras culturais. Hoje é mais simples, hoje é mais prático, mas ficou mais difícil. Muito das complexidades, dos “rolos e bolos” que viravam um namoro, ficaram para traz. Mas era tão fácil entrar num rolo!

Para a etapa da minha vida, aprender a não alimentar o gênio ruim do outro define muito do que é essa simplicidade. Ela nos ajuda e desenrolar as nossas complicações, as complicações dos outros e, para falar a verdade, nascemos e crescemos com um monte delas, mas quando enxergamos e vivemos mais simples, conseguimos até a desenrolar os outros sem necessariamente ter que entrar numa função.

Nesse ínterim, coloquei algumas definições de namoro na minha cabeça, depois que um último relacionamento terminou:

– precisa ser leve a maior parte do tempo, embora sempre pintem questões que viram certas DR’s;

– precisa ter a menor influência possível de familiares, pais e amigos, no sentido das opiniões não serem suficientes para influenciar o casal;

– não precisa ser uma obrigatoriedade para ter que anunciar o ir e vir individual a todo momento. As pessoas precisam abastecer suas individualidades;

– não existe o controle dos sentimentos que os outros possuem pelos indivíduos que formam um casal, ou seja, não adianta querer afastar o namorado de fulano que – por ventura – possa nutrir uma emoção diferente por ele. Amor e controle são água e óleo. Paixão e controle até podem fazer algum sentido;

– deve ser pautado na confiança e no respeito quanto as diferenças das pessoas. Ninguém pensa a ideia de “namoro” igual e ninguém é igual a ninguém;

– tem que ser construído mais pela lealdade do que a fidelidade. A lealdade é total, para o bem e para o mal, para os acertos e para os erros. A lealdade é expositiva sem subterfúgios. É aquela que emite o bom e o ruim da pessoa, o querer bem e uma hipotética traição; a fidelidade é uma regra máxima, quase que autoritária, que nos tira a humanidade. Onde se cobra muita fidelidade, sempre haverá uma sombra para alimentar a traição;

– tem de ser mais feliz enquanto dure. O eterno tem muito dos contos de fadas e, na verdade, duram apenas até o final do livro ou as duas horas de projeção;

– é conversa e é concessão, o que faz os tópicos acima não serem regras absolutas, mas (lealmente) colocadas a mesa, para que, enfim, um casal estabeleça as regras de um namoro.

E curiosamente, cheguei a esse entendimento sobre namoro porque, a mim, o resultado dessas práticas é a própria leveza das relações. Pode ser estranho ou não, e embora seja natural na maior parte das vezes, namoro é também um conjunto de acordos realizados entre o par.

Ontem me deparei com a situação, após 5 ou 6 meses de um relacionamento sem compromisso, em que me foi colocado a ideia da definição. De lá pra cá, serão quase 24 horas do “convite” e ficamos de ir sentindo como tal manifestação ressoará em nós. Eu, em doses homeopáticas, venho lançando o “te adoro”, “gosto muito de você” e “estou com saudades” durante esses meses e a medida que vem a vontade. Ele, sempre se privou dessas declarações a mim e retribuía com risadas ou gargalhadas a medida que eu pronunciava. Eu achava engraçada, interessante e inédita a reação, nada que abalasse suficientemente meu ego a ponto de entender sua postura como um desdém. Minha leitura era mais de um estado sem graça diante da minha espontaneidade. Mas daí que ontem, em algumas horas, ele lançou tudo pra fora! Me senti “nocauteado”. Em pouco tempo ele declarou tudo que sentia por mim.

Fiquei e estou tonto, ainda sentindo tudo e, de novo, reafirmo como as pessoas funcionam de maneiras diferentes. Fui incapaz de definir e assinar “namoro”, naquela hora que tudo veio porque, embora afetuoso, foi abrupto. Mas sugeri a ele deixar rolar os acontecimentos de ontem para “ajustar os ponteiros”. Ele, curiosamente, está aflito, se sentindo vulnerável e, eu, tenho lidado com minhas aflições e vulnerabilidades perante a ele, igualmente em doses homeopáticas há 5 ou 6 meses. De novo, as pessoas funcionam de maneiras diferentes.

O Rafa é bastante alternativo aos “tipos” de pessoas que me relacionei até hoje. Essa diferença me estimula por, justamente, me tirar da obviedade, do lugar comum, dos padrões comportamentais que eu vi e revi tantas vezes em mais de uma década de namoros.

Eu estou tonto, deixando os sentimentos aflorarem. Isso é muito representativo e, pra mim, tudo isso é muito simples, mas não é fácil.

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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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