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MINHA VIDA GAY

Um gay e o olhar para a diversidade.





Por: MVG


•Namorados precisam ser necessariamente bonitos, quando a estética tem aquela relação midiática? Claro que não e arrisco a dizer que a beleza, quando o envolvimento afetivo (magicamente) se estabelece, não está relacionada a apenas a atração física (que sim, é fundamental), mas há outros elementos. Eu, por exemplo, me envolvo demais pelo intelecto e pelo jeito da pessoa, pontos que não tem conexão com a aparência diretamente. Funcionamos todos assim? A maioria, provavelmente;

•Sexo casual tem muito da beleza física e fetiche: não é à toa que – cada vez mais – fotos apenas de peitos e abdomens povoam os aplicativos. Tem muita gente que transa pelo corpo e isso é uma realidade. Dependendo da libido do indivíduo ou de sua personalidade, o aspecto do desejo pelo desejo se resolve em si;

•Quando entramos no cardápio dos aplicativos, notamos que muitas fisionomias podem ser atraentes. Ficar numa função de arranjar um namorado – e repito, função – deve ser algo bastante desgastante pois – além do modelo privilegiar algo mais informal – do ato das primeiras mensagens para a realidade de um namoro existe toda uma história. A maneira que as pessoas se comportam pelos apps, quando nos incomoda, é basicamente porque elas não funcionam do jeito que a gente gostaria. O meio em si tem suas restrições. Já falei que os usuários de aplicativos dão um “tom para a dança”. Se a gente não sabe entrar, pode até criticar, mas quem não sabe jogar fica de fora mesmo;

•É possível sim encontrar um namorado pelos aplicativos. Conheci o Rafa por lá (Hornet) e namoramos 7 meses. Mas, mais do que conhecer alguém por lá, é saber se depois que se estabelece uma relação vinda originariamente de um aplicativo do tipo Grindr, o par vai saber lidar (ou não) com a existência dos mesmos, os apps. App não deveria virar motivo de DR entre um casal;

•A sauna gay, a princípio, é uma ideia chocante para uma grande maioria. Afronta diversas simbologias da moral Cristã (que está enraizada em nossa cultura). Mas quando normativa (e pensar que os grandes filósofos que definiram a moral filosófica no Ocidente deleitavam-se em orgias em tempos antigos) superamos determinados símbolos e nos deparamos com uma realidade interessante: no estado de nudez, somos todos iguais. Na meia luz, as etnias, formas físicas e idades diferentes se interseccionam, rompendo com preconceitos e tabus. Fico pensando se, numa sociedade menos quadrada, o branco que adora o negro, o novo que tem desejo pelo maduro e o rico que se envolve pelo pobre não criariam mais laços. Porque na sauna, onde todos se nivelam sem os trajes e adereços que nos classificam, as pessoas se permitem;

•Tenho notado um número cada vez maior de g0ys na sauna. Uma boa parte desses homens se reservam a carícias, beijos e uma pegação. Parte, provavelmente, pelo medo de contágio de doenças. Outra parte, por viverem a “vida estilo g0y”: curtem um nível de relação sexual com outro do mesmo sexo mas vivem uma vida heteronormativa. Já dei a minha opinião sobre g0ys em outros posts. Não os condeno e acho que o gay não tem autonomia nenhuma para julgar esse tipo de padrão;

•Tenho notado um movimento (provavelmente recorrente a essa dinâmica atual de uma sociedade maniqueísta e dividida) de crítica ao que se tem chamado de “gay heteronormativo”.  Acho interessante deixar aqui um registro antecipado: o maniqueísmo no contexto gay (que antes era mais subentendido) se estabelece no momento que um gay com mais trejeitos – e é tido como afeminado – critica o gay que tem toda uma forma de se apresentar e hábitos heteronormativos. Vale a pena entrar nessa discussão? Nessa afronta de via dupla, um criticando ao outro, quando todos nós gostamos do mesmo biscoito? Não seria uma partidarização desnecessária ou exacerbada neste contexto nacional? Fica a reflexão para o próximo texto;

•O “mundo lá fora”, digo, fora de um namoro normativo (e poderia ser fora do armário também), não mudou nada. Digo sobre os lugares, os hábitos e os estereótipos que continuam praticamente cristalizados. O que tem mudado muito, ou melhor, aumentado, é o número de gays ou de homens que estão se permitindo viver experiências homossexuais. Pode ser uma impressão que, se estiver certa, me parece que a medida que a diversidade sexual e a informação sobre a liberdade sexual cai nos ouvidos das pessoas, os padrões machistas e conservadores vão dando espaço para que o indivíduo tenha mais autonomia e segurança para experimentar. Os gays, ou os homens que sentem atração por outros homens em algum nível, estão se permitindo mais. Pelo menos em São Paulo que é onde meu radar alcança. Não tenho dúvidas que esse fenômeno, da sociedade pegar mais leve com o desejo sexual de um indivíduo, vai trazer cada vez mais à tona a discussão se o termo “gay” tem se sustentado. Orgânica como é a sociedade, talvez o conceito “gay” se perca naturalmente (com um embate ou outro, aqui e ali). As coisas no mundo “lá fora” tem se movimentado de maneira bastante rápida. A mídia não dá nenhuma abrangência (ou sempre trará um viés preconceituoso) a esse assunto e quem se restringe a enxergar tais movimentos com os olhos bloqueados ou fechado às idealizações não percebem esse movimento. Talvez a crítica contra o “gay heteronormativo” já seja fruto de toda essa dinâmica.
 
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Postado por Andy | (1) Comente aqui!

Um comentário:

  1. Belo texto. O autor me parece um visionário de uma sociedade mais evoluída do que a nossa. Sim, em que pese todo o preconceito moralista contra a sauna, guardada a devida prevenção e higiene, é um dos poucos espaços realmente livres e democráticos, um óasis de prazer que pode até originar grandes ideias.

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