Slide 1 Slide 2 Slide 3

MINHA VIDA GAY

O beijo que desafiou neonazis em Madrid.




No sábado passado, 21 de Maio, decorreu no centro de Madrid uma manifestação de um grupo auto denominado neonazi e neofascista. Marcaram presença mais de um milhar de pessoas vindas de toda a Espanha. No final da manifestação, no ponto de encontro, dois rapazes deram um caloroso beijo na boca, desafiando os manifestantes que não se coibiram de os insultar.

O beijo ocorreu quando se fazia sentir uma grande tensão entre os manifestantes do grupo de extrema direita Hogar Social Madrid e os moradores do bairro vizinho de Malasaña. Os jovens beijaram-se de forma simbólica para mostrar o seu "repúdio" face à concentração, onde se gritavam vivas ao ditador Francisco Franco e "espanhóis sim, refugiados não".

Segundo o que contaram ao jornal El Español, David Fernández e Gregor Eistert, deram o beijo em protesto contra o que estavam a presenciar. Contaram  que o beijo surgiu “de forma totalmente espontânea, fruto da raiva”, depois de uma manifestante lhes ter chamado “maricas e sidosos” quando, de mãos dadas, observavam a chegada da manifestação à Praça 2 de Maio.

Como eu superei a dor, a vergonha e o sofrimento de um abuso sexual na infância.




Antes de mais nada, desculpem-me o anonimato. Em certos casos de abuso sexual, é muito menos dolorido não envolver pessoas que, indiretamente, estão ligadas com o acontecido, algo que se aplica ao meu caso, com meus pais. Desculpem-me o anonimato, também, porque por muitos anos o que eu mais quis foi gritar, para quem quisesse ouvir, as histórias de alguns anos que continuam ainda engasgadas na minha garganta; só que ainda não posso fazer isso por completo.

Eu também não vou me mostrar hoje porque não espero que quem passou pelo que eu passei faça o mesmo tão abruptamente, não sem antes pensar muito. Eu vivi quase uma década calado até conseguir contar para alguém que fui vítima de abuso na infância; e só eu sei o que se passa na cabeça de alguém nos momentos anteriores a tamanho desabafo, à escancarada exposição.

Eu devia ter por volta de oito anos de idade quando as ‘brincadeirinhas sexuais’ começaram. Boa parte das pessoas sabe do que eu estou falando, muitos aqui já ‘brincaram de médico’ quando jovens, e isso no meu caso não chegou a ser um problema. E talvez você não saiba, mas existem inúmeras formas de abuso. Não sofri as maiores consequências disso quando criança, até porque naquela época eu não percebi muito bem quando um membro bem próximo da minha família me apresentou ao sexo.

O abuso sexual.

Com oito anos eu nem mesmo sabia o que era ser homossexual. Hoje, me assumi perante a todos, inclusive a meus pais. E mesmo que eu não tenha mais contato diário com eles, me libertar deste segredo, contar que sou gay abriu ainda mais as janelas do meu coração, e me permitiu respirar um pouco mais aliviado ao mesmo tempo em que me mostrou que tudo o que nos acontece está ligado entre si.

Se você me perguntar se eu acredito que alguém nasce ou se torna gay, não ouvirá de mim uma resposta. Eu simplesmente não sei; só sei que sou gay. Não estou gay, sou gay! E talvez tudo o que me aconteceu na infância tenha sido importante para este meu auto-conhecimento. Afinal, só nos descobrimos maduros quando nos tornamos, de fato, prontos para agirmos como tal.

As brincadeiras começaram com primos, mas depois se tornaram ainda mais íntimas. Foi meu irmão mais velho o responsável por toda esta iniciação. E quem tem irmão mais velho sabe que ele é um grande exemplo a ser seguido. Você o imita, você observa seus atos e quer ser igual a ele. Então para mim, fazer sexo naquele momento era uma espécie de iniciação, uma mostra do que eu deveria aprender com ele, a pessoa que eu mais confiava na vida.

Lembro ainda que não era algo forçado. Eu me recordo que até gostava daquilo, afinal, uma cabeça de oito anos é um tanto quanto deslumbrada e não consegue medir as consequências de tal ato, considerado por mim como uma espécie de brincadeira divertida entre pessoas que se gostam.

Não tinha penetração completa e insisto: não era algo forçado. Mas de resto, era como qualquer preliminar sexual mais apimentada, que começou a rarear à medida em que crescíamos. A diferença de idade entre meu irmão e eu é de seis anos, e enquanto ele crescia e ia se conhecendo, eu achava que poderia acompanhar no mesmo ritmo. Mas não é assim que esquecemos ou passamos por cima de traumas. Eles voltam. Muitas vezes, por sinal.

Dos dez aos quinze anos eu me tornei uma criança e um adolescente quieto, tímido. Poucos amigos, gordo e, de certa forma, afeminado. Aquele grande exemplo de criança que sofre bullying. Fui rejeitado no colégio e com isso também fui me rejeitando. Odiava meu corpo, odiava minha cabeça, e achava que o mundo era muito filha da puta por me excluir de toda interação social comum, quando qualquer criança entra na adolescência.

Descobertas desencadeadas.

Foi então que me descobri gay. Ter um amigo gay em uma cidade pequena também te força a lidar com tudo o que te acontece calado. Te força a esconder suas dúvidas e seus medos, expostos apenas para você mesmo, quando a noite chegava e a cabeça encostava no travesseiro. Eu continuava me sentindo um lixo e tendo nojo do meu corpo, de quem eu era até ali.

Esse sentimento só mudou quando saí de minha cidade e vim para a capital. Dizem que a faculdade muda sua vida e de fato foi o que fez com a minha. Longe de toda uma vida de dor e vergonha, descobri pessoas parecidas comigo, que também eram gays, e que se ajudavam, amando, conversando, se divertindo. Passei a entender melhor meu corpo e minha mente, mas algo ainda incomodava bastante.

Foi aí que eu percebi o poder de um trauma e de um abuso na infância. À medida em que eu me tornava jovem, comecei a perceber que todo o nojo que eu sentia de mim mesmo vinha de um mesmo lugar, ou uma mesma época. Com a cabeça mais adulta eu vi o quão absurdo é um irmão abusar sexualmente do outro. Quão doentio é descobrir que aquele que eu considerava um exemplo usou da minha inocência para realizar os seus próprios desejos sexuais.

Hoje eu não culpo meu irmão por tudo o que ele fez. Ele não me obrigou. Mas eu me culpo. Ainda me culpo. Mesmo eu não podendo fazer nada naquela época. É um choque quando você olha para trás e percebe que foi usado. Você realmente sente nojo de si, e não pode mais fazer nada para amenizar a situação. Talvez você possa conversar. Fiz amigos incríveis na faculdade e graças a eles eu comecei a me sentir seguro para me assumir gay e, posteriormente, para assumir o estrago que um abuso criou na minha vida.

Ter quase trinta anos e ainda ser inseguro com o próprio corpo, ser tímido e nunca ter conseguido namorar na vida, por medo, me fez ver que a situação ocorrida na infância ainda reverbera em algumas de minhas atitudes. E se você me conhecesse há oito anos, saberia diferenciar muito bem toda a mudança que o simples se abrir para um amigo me causou. Ainda tenho problemas psicológicos sim, mas hoje consigo controlá-los, na maioria das vezes, muito bem.

Ciclo vicioso

Mas a vida não é perfeita. Depois de me afastar do meu próprio irmão, me reaproximei dele cinco anos atrás. Estava disposto a perdoar tudo e, principalmente, a me dar uma chance. Voltamos a rir, a nos falar e eu estava feliz com isso. Até que um dia, ele sugeriu que fizéssemos sexo, e agora falava isso diretamente, franco, com todas as letras. Sei que ele sugeriu isso novamente porque agora sabia que eu era gay. E para ele, isso era motivo suficiente para que eu aceitasse aquele nojento convite.

Absolutamente tudo que eu apaguei e construí na minha vida depois de todo o trauma na infância voltou em minha cabeça numa fração de segundos. Ele se dizia hétero mas curioso em experimentar um homem. Eu, cordialmente, recusei. Neste dia, me tranquei em meu quarto e chorei. Saí apenas para desabafar com meu melhor amigo, justamente aquele que me ouviu contando meu trauma pela primeira vez.

No dia seguinte, tive coragem e não me calei. Procurei meu irmão e vomitei tudo o que estava engasgado. Tirei um peso das minhas costas, mas criei um novo abismo no meu coração. A insegurança voltou, a desconfiança também. E tal qual um castelo de cartas, vi tudo indo novamente ao chão. Eu teria que recomeçar a me amar mais uma vez, tendo a certeza que um trauma nunca se desfaz, e é algo que eu preciso aprender a conviver. Eu de fato estava mais preparado para lidar com tudo, mas a dor e a vergonha eram iguais às dos anos passados.

Lutar, sempre

Hoje não falo mais com meu irmão. Morar em cidades diferentes ajuda neste ponto, e agora apenas trocamos poucas palavras em ligações esporádicas de Natal, Ano Novo ou aniversários. Não que eu tenha raiva dele, por ter abusado de mim quando eu tinha oito anos, e por ter proposto sexo quando eu tinha mais de vinte. Eu apenas não consigo olhar para ele sem lembrar de todos os momentos difíceis que passei depois do primeiro ato.

Um abuso vem de várias formas. Pode ser sexual, escancarado, explícito, sutil. Pode se dar em atos ou palavras. E a única coisa que todas estas formas têm em comum é a dor. O sofrimento. É o medo em se relacionar, em transar com desconhecidos ou com quem você começou a amar, com quem você quer amar. O abuso não é chocante apenas no momento em que acontece, mas em todos os outros momentos que se seguem depois do que aconteceu.

Desculpem-me mais uma vez pelo anonimato. Este desabafo não é uma forma de denúncia e muito menos uma justificativa para os meus problemas. E mesmo sendo anônimo, foi a forma que encontrei para dizer que sim, abusos são bem mais comuns do que você pode imaginar. E os estragos podem ser maiores e mais dolorosos do que você pode suportar.

Meu desabafo vem para falar com aqueles que, assim como eu, sofreram ou sofrem calados. Vem para dizer que a melhor arma para enfrentar o problema é a paciência. É respeitar seu tempo, se sentir seguro e confiante para abrir o coração, seja com um amigo, um diário ou um psicólogo. É um processo lento e conturbado, mas é algo que você pode e deve enfrentar.

Se você sofreu algum tipo de abuso e até hoje vive com a dor, tenha calma! A vida anda e isso vai se amenizar, desde que você se permita amar de novo. Amar seus amigos e, mais importante: se amar. É como se você fosse uma formiga que precisasse dar a volta ao mundo. Você vai sofrer, se cansar, chorar, odiar tudo, todos. Mas aos poucos você vai descobrindo neste longo caminho que toda a vergonha pode ser substituída pelo apoio de quem te ama de verdade, e que certamente irá te apoiar, te suportar e te apresentar um mundo de respeito e superação.

Para finalizar, se você sofreu qualquer tipo de abuso, faça o que o seu coração mandar. Denuncie, grite, guarde seu segredo se for o caso. Mas permita-se olhar ao seu redor: todos temos problemas, todos temos medos e traumas. E o que nos faz humanos é a oportunidade de nos aproximarmos de pessoas certas, de pessoas que nos pegam pela mão e nos mostram que o melhor da vida é tentar não pensar nas coisas ruins. Elas continuarão a voltar na nossa cabeça, mas você deve se apegar às melhores coisas do mundo, aquilo que desliga sua cabeça por alguns momentos, aquilo que te faz bem.

Tenha força. Você ainda não sabe o poder que tem. E só você sabe a melhor forma de lutar.

Poderá gostar também de:
Postado por Andy | (0) Comente aqui!

0 comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...