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CONTOS DO LEITOR


A Floresta Negra

(Uma linda história de amor)



A chuva batia tão forte na janela do meu quarto que fiquei com medo que ela se quebrasse. Os relâmpagos que cortavam o céu clareavam o quarto que estava dominado pela escuridão da madrugada. A floresta que rodeava a casa gemia com os ventos fortes da tempestade. Ouvi barulhos de passos se aproximando da porta do meu quarto. Ela se abriu e meu irmão mais velho Jacke acendeu uma lanterna.

- Jacke? O que foi? – Perguntei me sentando na beirada da cama.
- A tempestade cortou a energia. Provavelmente só irá voltar pela manhã. – Ele respondeu. – Não estou conseguindo dormir...
- Quer conversar? – Perguntei. Eu sabia da situação que ele enfrentava.

Ele deitou ao meu lado. Voltei a deitar também e ficamos nos entreolhando. Todas as camas da casa eram de casal, então havia espaço suficiente para umas três pessoas ali.
- É irônico, não é? Nos mudamos para cá por que não estávamos acostumados com o frio da nossa antiga cidade. Dizem que aqui é um lugar quente, mas desde que chegamos só tem chovido. – Ele murmurou desdobrando uma parte da minha coberta e jogando sobre o seu corpo. – O que você acha que vai acontecer amanhã?
- Eu não sei... Não consigo esperar muita coisa desse lugar. Com o número de habitantes que tem, o que poderíamos esperar?
- Com certeza não teremos que nos preocupar com segredos. – Ele disse sorrindo. – E poderemos saber da vida de quem quisermos. De qualquer garota. Só precisamos perguntar para qualquer fofoqueiro.

Havíamos nos mudados para uma casa que ficava a menos de um quilômetro de uma pequena cidade do Canadá que não chegava a 3.000 habitantes. Uma cidade pacata onde todos provavelmente sabiam completamente da vida dos outros. Não tinha como haver segredos por ali.

- Mas você não quer conhecer outra garota. – Afirmei. Era a verdade.
- Não. – Ele demorou quase um minuto para continuar. – Deixar Anne foi a coisa mais difícil que tive que fazer. Quando eu disse a ela que precisava terminar por que iriamos embora... Aquele olhar me cortou o coração e não consigo parar de pensar nisso.
- Eu diria que sinto muito, mas não entendo em que isso ajudaria. – Disse pegando em sua mão. Nem a escuridão pode esconder os seus olhos cheios de lágrimas. – Sabe que não deve culpar a mamãe por causa disso, não é?

Eu havia notado desde que chegamos na casa nova que Jacke olhava nossa mãe como se ela fosse uma desconhecida qualquer.
- Eu sei. É só uma fase difícil para mim. Para todos nós, mas vai passar. – Ele respondeu. – Sabia que não nos mudamos apenas por causa do mal tempo... A mamãe estava com dificuldade para manter a casa desde que o papai morreu. Eu tentei arrumar um emprego para poder ajuda-la, mas ela não deixou. Acho que é por isso que estou tão magoado com ela. Se ela não tivesse recusado minha ajuda, eu ainda poderia ver a Anne.
- Tayler... Jacke? Estão aí? – Ouvimos um resmungo curioso abrir a porta e entrar. Era a nossa irmã caçula de oito anos Sofie. Jacke lançou a luz da lanterna para iluminá-la. – Eu posso ficar com vocês também? A casa ainda me assusta e os trovões não me deixam dormir...
- É claro. – Disse. – Está frio. Vem logo para cá.

Ela se deitou entre nós dois. Às vezes eu achava que nossa família não era normal. Não éramos como os outros irmãos que víamos nos filmes. Éramos unidos, e tínhamos orgulho de ter o mesmo sangue. Ali comigo estava os melhores irmãos que alguém poderia ter... E os melhores amigos. Sofie fez com que cessássemos a conversa, mas ela logo adormeceu. Eu e Jacke também.

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- Tayler! Acorda Tay! – Ouvi a voz animada do Jacke me chamar do sono profundo. Ele balançava meu braço enquanto eu ainda me despertava aos poucos. – Olhe lá fora! Está perfeito! Vai se arrumar, vamos sair em menos de uma hora!

A luz invadia todo o quarto. As árvores estavam luminosas com o brilho do sol que batia nelas. O cheiro de terra molhada predominava no ar. Eu e Jacke apostamos corrida até o banheiro para quem iria tomar banho primeiro, mas como sempre ele venceu.
- Bom dia querido, preparei uns bolinhos para vocês comerem antes de irem. – Disse minha mãe. – Primeiro dia de aula na cidade nova, como se sente? Ansioso?
- Muito. – Disse sendo sarcástico. – Somos tecnicamente os intrusos no colégio mãe. Como acha que vai ser?
- Ah querido deixa de neura! Vai ser legal! É uma vida nova, casa nova, cidade nova... No meu caso, emprego novo e vocês devem fazer amigos novos. – Ela continuou mantendo o sorriso. – É bom se acostumarem.
Jacke saiu do banheiro enrolado no seu roupão. Ele passou por nós carrancudo. Minha mãe o encarou até que desaparecesse completamente pelo corredor.
- Ah meu deus que horror. – Ela murmurou parecendo ofendida. – Não sei mais o que eu faço...
- É temporário. Ele só está chateado... Vai passar. – Disse entrando no banheiro para tomar um demorado banho.

Passei quase meia hora em frente ao espelho arrumando meu cabelo e mesmo assim estava me sentindo completamente ridículo. Antes de partir, comi alguns bolinhos da minha mãe enquanto ela se arrumava decentemente para nos levar para a escola.
- Está bonito. – Disse Sofie á mim. – Aposto que está pensando em outra coisa além de apenas estudar...
- Exatamente! Para quem não gosta muito de chamar atenção, você realmente está ótimo. – Disse Jacke rindo. – Mas você tem que ignorar as garotas que são populares... E as que te encararem.
- E por que eu devo ignoraria as que me encararem? Isso não é algo bom? – Perguntei curioso.
- Por que são apenas olhares de intenções. São essas que vão te decepcionar. Procure por aquela que não te olha quando estiver andado pelos corredores. A conquiste e ela te fará feliz. – Disse Jacke.
- Isso não faz nenhum sentido. – Disse rindo. – Sério. É uma opinião sem completamente sem sentindo.
- Ainda não entendo por que as outras garotas da minha antiga escola queriam crescer logo. – Disse Sofie devorando um bolinho. – Os adolescentes são complicados... E esquisitos.
- Vamos crianças. – Disse minha mãe. – Já estamos atrasados.
- Mãe?! Eu tenho quase 16 anos e o Jacke tem 17. A única criança aqui é a Sofie, sem ofensas maninha.
Sofie revirou os olhos.
- É só um modo carinhoso de dizer querido. – Ela protestou. – Não vou discutir isso. É desnecessário. Então, como não queremos nos atrasar mais, é melhor irmos crianças.

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A cidade era completamente diferente de como havíamos pensado. As casas não eram velhas e assustadoras, os comércios não pareciam ser limitados e o colégio não era antigo e mal estruturado.
- Que porra de escola é essa?!... – Murmurou Jacke impressionado ao ver o enorme edifício.

O prédio tinha três andares, onde os dois de cima tinham as paredes da frente completamente feitas de vidro e aço. Um arco de metal enfeitado com um símbolo no centro cruzava o portão de entrada. Havia vários carros luxuosos no estacionamento onde os grupinhos de adolescentes maconheiros faziam a festa em volta deles. Minha mãe estacionou o carro próximo da entrada.
- Agora preciso confirmar a matricula de vocês dois e depois correr para levar sua irmã no outro colégio. – Minha mãe disse enquanto saíamos do carro. Sofie reclamou por não poder estudar ali.

O sino bateu enquanto estávamos na secretaria ouvindo burocracias e regras do coordenador. Minha atenção foi atraída por uma garota que estava na sala ao lado. As divisórias eram feitas de vidro, o que facilitava a identificação dela.
- Estamos combinados senhor Tayler? – Perguntou o coordenador. Me assustei.
- Que? Claro... Está tudo perfeito. – Resmunguei. Jacke pareceu querer debochar.
- Certo, vou pedir para a secretária informá-los de suas salas de aula. Espero que gostem da cidade e da nossa escola. É sempre um prazer receber alunos novos de fora. – Ele disse pedindo para que sua secretária nos levasse para nossas salas. Depois se despediu da minha mãe com um aperto de mão gentil.

Minha mãe entregou alguns trocados para mim e Jacke, caso precisássemos. Me despedi dela e acompanhei a mulher que levou primeiramente Jacke a sua sala. Depois seguimos para o andar de cima, onde me levou até a porta da minha sala. O professor me recebeu na porta. Achei que ele iria me pedir para ficar em frente a turma enquanto fazia um questionário sobre mim, mas tudo o que ele perguntou foi o meu nome.
- Certo classe, esse é o Tayler. Ele irá nos acompanhar durante esse ano letivo. Espero que o tratem bem. – Ele disse.

Eu não estava acostumado com tantos olhares... Eram tantos que apenas um aluno da classe não me encarava. Ele era o único que se sentava sozinho, e talvez por uma coincidência, o único lugar que ainda estava vago era ao seu lado.
– Sente-se ali, com o nosso colega Luke.

Ouvi risinhos e murmúrios se espalharem pela sala. Aquilo não importava, apenas me sentei ao lado dele, que continuou de cabeça baixa. O professor prosseguiu com a aula. Luke era branco, tinha a aparência de um garoto que gostava de rock pesado. Seu cabelo negro era arrepiado e uma parte dele caía ao lado direito do rosto. Ele usava um bracelete de couro e um anel escuro no dedo, ambos eram completamente descentes.
- Oi. Então, parece que vamos estudar juntos até o fim do ano... – Tentei puxar assunto.
- E isso é legal? – Ele me interrompeu com uma pergunta.
- Bem... Eu não sei. Se você deixar podemos ser... – Mas percebi que ele não estava afim de conversar então desisti. Parecia que meu primeiro dia de aula estava melhor do que havia imaginado.

Fiquei o resto da aula em silêncio. De vez em quando escutava uma fofoca da dupla atrás de mim. Eles não falavam de mim, e sim do arrogante garoto ao meu lado. O professor se aproximou.
- Taylor, como estamos na metade do bimestre e você perdeu trabalhos e atividades importantes, vou passar um único trabalho para que você possa recuperar a nota na minha disciplina. – Ele disse. – Vai ser um tema grande e complicado, mas talvez o Luke possa te ajudar, afinal ele tem nota mais do que suficiente comigo. Vou deixar que me entregue na próxima semana.

- Obrigado senhor. – Agradeci pegando a folha com as instruções do trabalho da mão dele. O sino bateu logo em seguida. Embora as outras duplas não paravam de conversar entre si, eu e Luke permanecemos em silêncio pelos próximos dois tempos, até que chegou o momento do intervalo.

Uma aluna da minha própria classe se ofereceu para me apresentar ao colégio. Depois que ela terminou, agradeci e peguei meu lanche na cantina. Procurei Jacke nas mesas do refeitório, mas ele estava rodeado pelos seus novos amigos, então não quis atrapalhar. Todas as mesas já estavam quase ocupadas, embora algumas ainda havia espaço, eu não queria me juntar a quem não conhecia. Olhei para a única mesa vazia no fundo do refeitório. Quase vazia. Luke era o único que estava nela. Acho que eu não teria escolha.

- Posso me sentar? – Perguntei. Talvez fosse uma pergunta idiota por que nem resposta obtive. Me sentei mesmo assim.
- Licença... – Disse uma voz feminina. Me virei para ela que me lançou um sorriso gentil. – Me chamo Neyce. Como você é novo por aqui e provavelmente não conhece muita coisa, eu e os meus colegas gostaríamos que se sentasse conosco.
Ela mostrou a mesa em que estavam. Um grupinho de adolescentes me encarava.
- Eu acho que...
- Por favor, podemos não ser os melhores da classe, mas nos importamos com os novatos... Não queremos eles indo para o mal caminho. – Ela disse de uma forma estranha, como se fosse para debochar de Luke. – Talvez possamos até lhe ajudar em algo que precisar.

- Então Neyce, eu estou muito bem aqui. Talvez uma outra hora. – Disse. – Mas agradeço pelo convite.
Ela se retirou desapontada. Luke sorriu.
- O que? – Perguntei.
- Recusar um convite para se juntar ao grupo de Neyce Witch... Vão pensar que você é louco. – Ele disse.
- O que você vai pensar?
- Que é um dos poucos alunos da escola que tem um pouco de inteligência na cabeça. – Ele respondeu. – Aquele grupo não passa de patricinhas e jogadores valentões.
- Parece que você é meio rejeitado por aqui. Por que? – Perguntei curioso. Afinal ele não era tão estranho quanto parecia e era muito mais bonito e atraente do que eu e muitos garotos por ali.
- Isso não importa.

- Por que não gosta de conversar? – Insisti nas perguntas.
- Por que não.
- É satanista?
- Isso é sério?! Claro que não!
- Então por que é rejeitado e não gosta de conversar?
- Por que não gosto de conversar e por que também não quero.
- Por que não tem amigos?
- Essa palavra não existe. – Ele respondeu. – É apenas uma ilusão que as pessoas criaram. O termo correto seria colegas.
- Olá meninos. – Disse outra voz feminina se aproximando. A reconheci imediatamente. Era a garota que me chamou atenção quando estava na sala do coordenador. – Que bom que conheceu um amigo novo Luke, estava precisando. Talvez assim pare de ser tão rabugento.

- Não somos amigos, nem colegas. E com certeza não quero falar com você hoje. – Ele disse. Não consegui saber ao certo se era uma brincadeira ou se era sério.
- Arg!! Não tem jeito mesmo. Guri chato! – Ela se afastou zangada.
- Você parece se dar muito bem com as garotas...
- Foda-se as garotas, foda-se todo mundo.
- Acho que estou condenado só por estar aqui falando contigo. – Disse reparando que os outros olhavam e fofocavam entre si.
- Não pedi que se sentasse aqui. Você que se ofereceu. É só sair. – Ele respondeu sério.
- Sabe de uma coisa, nem ligo se os outro estão falando mal. – Ignorei suas palavras. – Preciso da sua ajuda para fazer o trabalho do professor.
- Sem chance.
- O professor que sugeriu você. – Disse.
- Sugerir não é uma ordem.
- Então que tal você me ajudar por livre espontânea vontade?
- Que tal você se afastar de mim enquanto ainda pode? Minha sugestão é muito melhor. – Ele disse.
- Preciso de ajuda para fazer o trabalho, e o professor deixou claro que você é bom com essa matéria. – Insisti. – Que tal hoje as duas da tarde na minha casa? Minha mãe gosta de visitas e ela faz uns bolinhos muito bons.
- Não gosto de bolinhos.




(CONTINUA)

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Postado por Mac Del Rey | (0) Comente aqui!

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