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DICAS DE SAÚDE



A homossexualidade sob a lupa da ciência

(Artigo originalmente publicado no jornal Folha da Região, Araçatuba, SP)


 


O que faz alguém ser homossexual? É uma simples opção individual nascida do livre-arbítrio? É uma alteração patológica do comportamento? É algo que deve ser tratado, como se fosse uma disfunção hormonal? É o meio? São os genes? Independentemente da enorme dificuldade de encontrar uma resposta para essas perguntas - e da enorme facilidade que têm alguns em dar respostas apressadas -, o fato é que ser homossexual não é nada fácil. A perseguição e a intolerância têm sido o padrão geral de tratamento para essas pessoas.

Assumir a homossexualidade ainda é um passaporte para a rejeição social e até familiar. Difícil saber onde ela nasceu. Nossas raízes religiosas não têm ajudado em nada. Frases bíblicas como “Com varão te não deitarás, como se fosse mulher: abominação é” ou “Quando também um homem se deitar com outro homem como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue é sobre eles”, provavelmente não devem contribuir para minorar esse clima de perseguição, mas provavelmente não justifiquem completamente a histórica situação de rejeição social e intolerância.

Desde o ponto de vista científico, nos últimos anos pesquisadores vêm tentando responder se existem ou não diferenças entre o cérebro de homossexuais e heterossexuais, que possam influenciar na preferência sexual. Esses estudos ganharam na última década ferramentas valiosas como a fMRI (ressonância magnética funcional) e a PET (tomografia de emissão positrônica), que permitem ver com clareza estruturas cerebrais, medir seu volume, e analisar como essas estruturas funcionam “ao vivo e a cores”.

Em um estudo publicado este mês, os cientistas Ivanka Savic e Per Lindström, do Instituto Karolinska, da Suécia, selecionaram 90 indivíduos de idade semelhante, sendo 25 homens heterossexuais, 20 homens homossexuais, 25 mulheres heterossexuais e 20 mulheres homossexuais, e os submeteram a uma série de análises utilizando fMRI e PET.

Os resultados mostraram que homens heterossexuais e mulheres homossexuais têm características cerebrais semelhantes, e a mesma coisa aconteceu entre mulheres heterossexuais e homens gays. Por exemplo, o hemisfério cerebral direito, que controla as capacidades espaciais e senso de orientação, é maior que o esquerdo nos homens heterossexuais e mulheres homossexuais, já entre mulheres heterossexuais e homens homossexuais os hemisférios direito e esquerdo têm o mesmo tamanho. Esse fato poderia explicar dados obtidos anteriormente, que mostravam que homens gays e mulheres heterossexuais apresentam, em média, um senso de direção inferior que o apresentado por homens heterossexuais.


Além do volume cerebral, os pesquisadores observaram que o funcionamento do corpo amigdalóide, uma estrutura cerebral que joga um papel fundamental nas respostas emocionais, é semelhante entre mulheres heterossexuais e homens homossexuais.

 


Imagens de ressonância magnética funcional do cérebro de homens heterossexuais (HeM), mulheres heterossexuais (HeW), homens homossexuais (HoM) e mulheres homossexuais (HoW). Observar as semelhanças do padrão de ativação do corpo amigdalóide, fundamentalmente entre HeM e HoW.

Esses resultados são importantes porque foram avaliados sistemas cerebrais não relacionados com o comportamento sexual. Em estudos anteriores, ao mostrar rostos atraentes os pesquisadores tinham observado que estruturas cerebrais relacionadas com o comportamento sexual reagiam de forma semelhante entre mulheres heterossexuais e homens homossexuais (respondiam a fotos de homens bonitos) e entre mulheres homossexuais e homens heterossexuais (respondiam a fotos de mulheres bonitas). Mas semelhanças entre estruturas cerebrais relacionadas com o comportamento sexual podem ser resultado da opção sexual e não causa dela. Assim, quando comparamos características neutras desde o ponto de vista sexual (tamanho do cérebro, funcionamento emocional ante estímulos não sexuais), fica difícil acreditar que essas diferenças sejam a consequência de ter assumido determinada preferência sexual. Mas para ter mais certeza sobre isso, o grupo da pesquisadora Savic está estudando agora assimetrias cerebrais em recém nascidos, na tentativa de ver se essas diferenças podem ser utilizadas para prever a orientação sexual futura.

De concreto, o que temos é que há sim diferenças entre o cérebro de homossexuais e heterossexuais do mesmo sexo. Essas diferenças podem ser tanto o fruto de alterações genéticas, como de fatores que agem em nossa vida intra-uterina. Nessa fase, alguns estudos mostram que uma maior ou menor exposição do feto aos hormônios sexuais circulantes no sangue pode ser responsável por essas mudanças. Essa característica biológica, associada ao meio, pode participar de forma importante na opção sexual, mas até que ponto é determinante, ainda é uma incógnita.

O mais intrigante é que quanto mais nos aprofundamos em entender o cérebro, cada vez mais a noção do livre-arbítrio fica comprometida. Embora perturbador, se essas suspeitas sobre o fundamental papel do cérebro sobre nossos comportamentos, crenças e decisões se confirmarem, justificarão ao menos uma visão mais tolerante e compreensiva sobre nossas atitudes, vaidades e fraquezas.

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Postado por Mac Del Rey | (0) Comente aqui!

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