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DIREITOS

Não tenha medo de conhecer os refugiados que vivem no Brasil.




Passando a maior parte dos meus dias pelo centro de São Paulo, ouço muitas coisas sobre os africanos que têm se multiplicado nessa região da cidade. Previsivelmente, os comentários são preconceituosos, em sua maioria. Do tipo "esse povo não para de vir pra cá, porque aqui a vida é fácil" (não sei para quem, né!?) ou "não sabe nem falar e ainda quer vender!" (esse é especial para aqueles que trabalham como camelô ou vendedor ambulante, como preferir).

Isso me tem feito perceber que, até o presente momento, não vi um refugiado sírio ser hostilizado ou ter virado motivo de chacota em nossas ruas tupiniquins. Não que isso seja um problema! É um alívio saber que não adquirimos o "padrão-hemisfério-norte" de preconceito com os falantes de língua árabe. Por outro lado, o racismo forte se fez pai da ignorância quanto a verdadeira situação dos refugiados africanos.

Apesar da maior comunidade de refugiados reconhecidos pelo governo brasileiro ser síria (2.298), a totalidade de refugiados reconhecidos, ou pessoas em situação de refúgio, vinda de países africanos é maioria (2.765). Isso sem levar em consideração que eles também predominam as solicitações de refúgio que ainda estão pendentes na Receita Federal.



Hoje, o Brasil só reconhece 8.863 refugiados em seu território (bem menos do que anunciou o presidente Michel Temer, durante seu micão na Assembleia Geral da ONU). Servimos de abrigo para apenas 0,013% dos cerca de 65 milhões de refugiados do mundo. Eis a parte boa disso: não é tanta gente assim, a ponto de não tem como dar atenção para essas pessoas ou conhecê-las melhor. 




Dito isso, é bom lembrar que existem 54 países africanos e, logo, juntar todo mundo no mesmo balaio como acabamos fazendo (incluindo eu mesma nesses primeiros parágrafos) não é o mais adequado. Cada um tem seus idiomas, dialetos, suas crenças, suas danças, suas comidas... Falando em comida, para a turma de refugiados que ensino português, cuja maioria é de origem africana, a preferência pela banana frita (sim, é banana não é batata) é quase unânime. Quase. Há quem prefira fufu (algo parecido com angu), outros o makayabu (tipo bacalhau). É importante respeitar as peculiaridades culturais de cada país, de cada pessoa. Afinal, cada um de nós é um ser único, certo? Isso inclui os refugiados.

Outro preconceito, para aproveitar esse embalo: ao passar pelo africano vendendo óculos escuros, ninguém pensa que o cara pode ser um piloto de avião. Ou um engenheiro mecânico, um contador, um professor... estou citando exemplos no masculino porque 72% dos refugiados no Brasil são homens, tá? Jamais imaginamos que estamos diante de um poliglota! Na Angola, por exemplo, existem seis idiomas africanos reconhecidos nacionalmente, fora o português e o francês (sim, não é só português que falam por lá). Não trabalhamos com a hipótese do cara que mal fala português ter algum estudo. Como se o nosso idioma fosse o termômetro da erudição. Precisamos melhorar. 



Não importa o tamanho da comoção que o Comitê Olímpico Internacional (COI) tenha causado ao criar uma delegação de refugiados para competir sob o escudo dos cinco continentes. "Foi bonito, foi. Foi intenso, foi". Mas quando o refugiado é o "preto-pobre" andando pelas ruas do centro, parece que o cérebro liga o piloto automático e ninguém lembra da guerra no Congo. Aliás, vou fazer o Duvivier: precisamos falar sobre a guerra no Congo. Mais de 6 milhões morreram nas últimas décadas e tem gente que nunca ouviu falar. Por quê?

Historicamente, nossa compaixão tem pele clara. Se preocupar com o que acontece na África não é pop, não rende filtros nas fotos do Facebook ou campanhas #somostodos. É nosso dever procurar conhecer aqueles que abrigamos em nosso país, sem medo. Até porque, poderia ter dito o poeta; a dor é inevitável, o preconceito é opcional.


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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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