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DIREITOS

A cidade de São Paulo, a justiça e a morte de Luiz Carlos Ruas.




Conhecemos em São Paulo todos os dias histórias reais de dor, de batalhas e injustiças. Em algumas conseguimos intervir, com outras só lamentar e sofrer junto. Me lembro da história de um homem pedindo ajuda para pagar R$3,80 na condução para voltar para casa depois de um dia sem sucesso de busca por um emprego. A história da mulher que apanha, não consegue emprego, engravidou e chora de desespero pensando no futuro. Do trabalhador ambulante negro que batalha todos os dias para sobreviver, é solidário com uma travesti e é assassinado na noite de natal pela estupidez humana.

Para a maioria, São Paulo é uma cidade cara, injusta, é uma máquina de moer gente nas distâncias de três horas de transporte lotado e sucateado. A cidade nos destroi física e psicologicamente. Sempre que vejo um gesto ríspido e mal humorado de alguém no empurra-empurra do metrô, penso sobre como não deve ter sido o dia, a semana ou a vida daquela pessoa. Muitas vezes o mal humor, a estupidez e o individualismo são consequência de dias de batalha e de sofrimento invisíveis a olho nu. Morar nessa cidade pode ser uma guerra individual. Criar uma casca de individualismo é uma consequência inconsciente diante dessa guerra. Talvez seja por isso que um gesto de solidariedade em São Paulo signifique muito e nos comova tanto. Não perder a capacidade de se indignar e lutar é uma das maiores virtudes humanas. 



Acredito que a história de Índio tenha nos comovido além do comum justamente por todas as simbologias e significados sobre o cotidiano de barbárie que nela se expressam. Luiz Carlos Ruas era imigrante, trabalhador, negro, ambulante. Como milhões nessa cidade, era um invisível que vive de seu trabalho mal remunerado, sem direitos, sob riscos da ação do rapa, da violência urbana, da crise e dificuldade nas vendas, da indiferença dos milhares que passam pela estação D. Pedro II. Hoje temos relatos de seus conhecidos de que era um homem generoso, afetuoso e solidário. Diante de uma de cena de ódio e intolerância, diferentemente da maioria, resolveu intervir, mas dois homens o espancaram até a morte por isso. Assistimos atônitos ao vídeo da cena terrível, à ausência de seguranças de um metrô cada vez mais sucateado pelo governo do estado, à indiferença dos transeuntes e nos perguntamos: de onde vieram esses dois homens agressivos, desumanos, portando soco inglês, assassinos de um ambulante solidário com uma travesti na noite de natal? É a dureza dessa cidade e desse mundo que forma indivíduos assim? 

Era noite de natal. Em todos os lugares nos ensinam o significado do nascimento e da vida de Jesus Cristo - fazer o bem, ser justo, solidário, acolher os mais necessitados. Assim fez Luiz Ruas. Não o conhecia, mas certamente Índio ainda não tinha criado a casca do individualismo que São Paulo nos faz desenvolver. Sua condição de vida precária, as dificuldades que enfrentava, nada disso o fez perder o sentimento de solidariedade. Era uma travesti. Quase ninguém se importa com travestis. 90% delas se prostituem para sobreviver. Todos os dias pelo menos uma delas morre em São Paulo, tantas outras são pisadas, xingadas, agredidas, expulsas de casa, expulsas da escola, não aceitas por nenhum empregador, moram na rua. 

Precisamos lutar por justiça para Luiz Carlos Ruas, por este homem que virou herói, evitando que mais uma travesti virasse estatística. E precisamos lutar contra a LGBTfobia. Esse clima de ódio e desesperança não pode nos fazer desistir de almejar políticas públicas de acolhimento e geração de oportunidades, dignidade e renda à população LGBT, de ensino à tolerância e respeito das escola, formação de servidores, campanhas e todo tipo de ação necessária. Homofóbicos e intolerantes devem se sentir envergonhados, não mais encorajados, como vemos nas ruas e na internet todos os dias. Endosso a campanha para que a estação D. Pedro II passe a chamar Luiz Carlos Ruas, para lembrar a todos que o ódio e a intolerância não podem ser maiores que a força da solidariedade.

Fico imaginando se o que aconteceu com Índio, e o que quase aconteceu com aquela travesti, não poderia ter sido comigo ou com muitas pessoas que conheço, que também se indignam e se movem diante de injustiças. Mas era noite de natal, nós estávamos em paz, acolhidos em casas com mesas fartas. Não estávamos morando na rua ou trabalhando como ambulantes na noite de natal. A insegurança e a LGBTfobia também são questão de classe. 

Luiz Carlos Ruas, presente! Que seja feita justiça e todas as homenagens que esse herói merece.

Sâmia Bomfim - Feminista e vereadora de São Paulo eleita pelo PSOL.

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