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MINHA VIDA GAY

Amir Ashour é homossexual e teve de fugir do Iraque para não morrer.




Amir Ashour: "Se voltasse agora para o Iraque, ou era preso para o resto da vida ou era logo morto"

Amir Ashour é o primeiro ativista homossexual iraquiano. Foi preso duas vezes no Iraque, o país de origem, e procurou asilo político na Suécia. Agora dedica-se a dar conferências sobre direitos humanos e a denunciar episódios de discriminação da comunidade LGBT no Iraque. Um testemunho de vida que Amir diz ser muito dura devido à discriminação sexual.

Este jovem iraquiano explicou em entrevista exclusiva à RTP que muitos dos homens que são apontados como homossexuais são presos e mortos, muitas vezes, por membros da própria família.

Soube que era homossexual com "poucos minutos de vida" e descobriu logo a seguir que isso não era compatível com o país em que nasceu. Com 26 anos, Amir pode já contar ameaças de morte, duas temporadas na prisão e dois anos de asilo político na Suécia. 

Fundou o IraQueer, a primeira e única organização de direitos LGBT no Iraque. Não é o único membro da organização, mas é o único que mostra a cara e o nome. Todos comunicam entre si através de aplicações (apps) de segurança máxima que destroem as mensagens de texto, porque ser descoberto no Iraque significa, no mínimo, ser expulso de casa pela família e, no máximo, ser morto. 

Em entrevista exclusiva à RTP, Amir fala das "matanças anuais" no Iraque, revela as práticas do Estado Islâmico (ISIS) e explica a crença de que foram os EUA a deixar a "homossexualidade" no Iraque quando invadiram o país em 2003. Para o futuro, tem um desejo: ser primeiro-ministro do Iraque. 

Amir Ashour à direita, depois de participar numa conferência como orador sobre "Os direitos dos homossexuais iraquianos e curdos"

Quando é que teve a ideia de criar o IraQueer e porquê? 


Comecei a trabalhar na área dos Direitos Humanos quando tinha 20 anos (tenho 26 agora) e trabalhei com algumas organizações nacionais e internacionais, mas não havia nada na área das pessoas LGBT. Como se estivéssemos simplesmente à espera que aparecesse alguma ajuda. Pensei: em vez de estarmos com esta atitude passiva, temos de agir. Comecei a falar com algumas pessoas, trocámos ideias e decidimos que devíamos criar uma plataforma online de partilha de histórias. Depois de lançarmos o site, juntaram-se algumas pessoas e aí tornámo-nos uma organização de Direitos Humanos.

"Estamos a começar do zero. A palavra correta para 'homossexual' nem sequer existe em árabe e curdo

No site vocês respondem a questões como "O que é ser homossexual?" e "Porque é que algumas pessoas são homossexuais?". A falta de informação é um dos maiores problemas? 

Absolutamente. E essa é a parte mais difícil do nosso trabalho. Não há uma base a partir da qual possamos construir algo. Estamos a fazer tudo do zero. Não temos um passado de pessoas queer que seja visível, por exemplo. O IraQueer é a primeira organização deste género. Nós somos a única fonte de informação sobre estes assuntos. Por exemplo, vamos publicar um guia sobre saúde sexual em árabe e curdo nas próximas semanas, e esse guia é o primeiro do género de sempre no Iraque. Não há nada. A palavra correta para "homossexual" nem sequer existe em árabe e curdo. Nós é que estamos a introduzir estas palavras, as definições dos termos. Até inventámos algumas delas. 

Amir Ashour: "Se voltasse agora para o Iraque, ou era preso para o resto da vida ou era logo morto."Nasceu no Iraque e é homossexual. Saiu do país depois da pressão do Governo. Vai lançar agora um guia de saúde sexual em árabe e curdo, que diz ser o primeiro do género. "Estamos a começar do zero", refere à RTP.  Soube que era homossexual com "poucos minutos de vida" e descobriu logo a seguir que isso não era compatível com o país em que nasceu. Com 26 anos, Amir pode já contar ameaças de morte, duas temporadas na prisão e dois anos de asilo político na Suécia. 

Fundou o IraQueer, a primeira e única organização de direitos LGBT no Iraque. Não é o único membro da organização, mas é o único que mostra a cara e o nome. Todos comunicam entre si através de aplicações (apps) de segurança máxima que destroem as mensagens de texto, porque ser descoberto no Iraque significa, no mínimo, ser expulso de casa pela família e, no máximo, ser morto. 

Em entrevista exclusiva à RTP, Amir fala das "matanças anuais" no Iraque, revela as práticas do Estado Islâmico (ISIS) e explica a crença de que foram os EUA a deixar a "homossexualidade" no Iraque quando invadiram o país em 2003. Para o futuro, tem um desejo: ser primeiro-ministro do Iraque. 

Amir Ashour à direita, depois de participar numa conferência como orador sobre "Os direitos dos homossexuais iraquianos e curdos"

Quando é que descobriu que era gay?

Honestamente? Desde o minuto em que nasci (sorri). Desde que me lembro, sempre me senti atraído por rapazes. Não me lembro de uma única vez em que me tenha sentido atraído por uma rapariga. 

Como é que foi assumir a sua orientação sexual à sua família?

Nunca tive um momento de coming out, porque não queria tratar a minha sexualidade de forma diferente das outras. Nunca me sentei com a minha família para dizer: “Atenção, é para vos contar que sou gay”. O meu irmão, que é heterossexual, nunca fez isso. Porque é que eu havia de fazer? Sempre quis tratar a minha orientação sexual de forma natural. É o que é. Mais tarde, quando fui para o liceu, de vez em quando perguntavam-me se tinha namorada ou quando é que apresentava uma rapariga, e eu respondia: “As raparigas não me interessam”. No início pensaram que era passageiro: "Não está interessado em raparigas agora, mas vai estar”. E isso foi difícil. As pessoas tendem a ignorar a verdade.

Mas depois a sua mãe começou a apoiá-lo, certo?

Sim. Ela apoia-me muito. Posso dizer que a minha mãe teve uma atitude muito diferente da norma. Ela não fala com o meu irmão por causa de mim, por exemplo. Mesmo agora, que estou a trabalhar aqui na Suécia, ela está sempre a perguntar-me pelas coisas que tenho feito e pede-me para lhe enviar as entrevistas que fiz. E eu digo-lhe: "Mãe, tu nem sequer percebes sueco, porque é que queres que te envie isso?", e ela diz: "Não interessa, quero guardar na mesma" (risos). 

Mas ainda no Iraque, começou a receber algumas ameaças.  

Recebi ameaças de alguns amigos meus, de alguns primos e tios do lado do meu pai.

Que tipo de ameaças? 

No início era do género: “Tens de mudar isso, senão nós vamos tratar do assunto”. Entretanto comecei a fazer parte de alguns grupos de Direitos Humanos, fiquei mais ativo politicamente e o governo começou a controlar-me. Estive preso duas vezes, as duas durante alguns meses. E estava constantemente a ser vigiado pelo Governo. 

E quando é que decidiu deixar o Iraque? 

Não foi uma decisão. Aconteceu seis horas depois de sair da prisão pela segunda vez. Nessas horas percebi que não podia ficar lá de forma segura, porque iriam voltar a prender-me muito rapidamente. Isto foi em outubro de 2014. O curioso é que, quando saí, nunca pensei que não fosse voltar. Pensei: "Bom, vou-me embora, mas vou encontrar alguém que me ajude a arranjar uma maneira de voltar". Depois, já fora do Iraque, conheci várias pessoas, fui a vários sítios, mas ninguém se queria arriscar a ajudar-me, porque já era um "problema político" com o Iraque. Estava na Suécia quando esgotei a minha última chance para conseguir voltar. Por isso pedi asilo político aqui e agora sou um refugiado político na Suécia.

Mas o que é que o Governo lhe disse quando o prendeu?

Eles não tinham bem um crime específico para me apontar, queriam simplesmente assustar-me e mostrar-me que, se eu continuasse igual, iria haver consequências. Estavam mais preocupados com o meu ativismo político, porque eu comecei a denunciar algumas violações de Direitos Humanos que os membros do Governo cometeram.  Acusaram-me de manchar os valores do país, de ter comportamentos imorais, de promover a prostituição. 

"O ISIS atira homossexuais do topo de edifícios. E há matanças anuais, com base em listas de nomes coladas nas ruas"

Quais são as consequências de ser gay ou lésbica no Iraque?
 
O Iraque é um país muito complicado. Por um lado temos o ISIS, que está a matar publicamente pessoas LGBT, sobretudo homens gay. Atiram-nos de edifícios. Temos também o governo iraquiano, que controla grupos locais armados que são responsáveis por matar homossexuais e que torturam pessoas LGBT na prisão. 
A tortura inclui queimaduras no ânus e abuso sexual

Que tipo de tortura? 

Todo o tipo. No caso das pessoas transgénero, por exemplo, batem-lhes e chicoteiam-nas. Obrigam-nas a mudar para aquilo que eles querem. Algumas morrem depois desses episódios. 

Li que existem também "matanças anuais". É verdade?

Sim. Não temos conhecimento de nenhuma "killing campaign" em 2016, mas até 2015 havia uma campanha uma vez por ano. São matanças executadas por grupos armados controlados pelo Governo, em Bagdad e nas cidades à volta. 

Como é que funcionam?

Esses grupos publicam uma lista de nomes dos homens que eles acham que são gays. Até podem nem ser, mas esses grupos identificam-nos como homossexuais porque se vestem de uma determinada maneira ou porque têm um determinado estilo. Os alvos são identificados e, depois, são mortos. Na verdade, até há um número considerável de homens que são casados, têm filhos e acabam por ser mortos, simplesmente porque têm cabelo comprido. 

Mas essa punição não está inscrita na Constituição do Iraque. Não há nenhuma lei que criminalize os homossexuais.

Exato. Aí é que está. O Iraque tem uma constituição relativamente boa. O Governo assinou vários tratados internacionais de Direitos Humanos, que definem que esses países devem assegurar direitos iguais para toda a gente. O problema no Iraque é que as normas sociais têm mais força do que as leis. Apesar de a constituição iraquiana não criminalizar a homossexualidade, também não há uma única lei que proteja os homossexuais. Muitos das violações dos Direitos Humanos acontecem com a polícia a irromper pelas casas das pessoas e a arrastá-las para a prisão. No fundo, o governo iraquiano está a agir contra as suas próprias leis. 

E Saddam Hussein? Há relatos de que ele criou um grupo com o único propósito de matar pessoas LGBT. 

Não consigo confirmar isso a 100% porque eu tinha 13 anos quando ele morreu. Mas, tendo em conta as entrevistas que fiz às gerações mais antigas e às pessoas que cresceram no tempo do Saddam, sei que criou grupos específicos para identificar e atingir vários grupos e minorias, incluindo trabalhadores do sexo, homossexuais, etc. 

Há iraquianos que acreditam que foram os EUA a levar a homossexualidade para o Iraque. É verdade?

Sim. No geral dizem que o Ocidente levou vários valores imorais para o país. Mas defendem que foram especificamente os EUA a levar a homossexualidade para o país quando invadiram o Iraque em 2003.  

Quando é que teve a ideia de criar o IraQueer e porquê? 

Comecei a trabalhar na área dos Direitos Humanos quando tinha 20 anos (tenho 26 agora) e trabalhei com algumas organizações nacionais e internacionais, mas não havia nada na área das pessoas LGBT. Como se estivéssemos simplesmente à espera que aparecesse alguma ajuda. Pensei: em vez de estarmos com esta atitude passiva, temos de agir. Comecei a falar com algumas pessoas, trocámos ideias e decidimos que devíamos criar uma plataforma online de partilha de histórias. Depois de lançarmos o site, juntaram-se algumas pessoas e aí tornámo-nos uma organização de Direitos Humanos. 
"Estamos a começar do zero. A palavra correta para 'homossexual' nem sequer existe em árabe e curdo"

No site vocês respondem a questões como "O que é ser homossexual?" e "Porque é que algumas pessoas são homossexuais?". A falta de informação é um dos maiores problemas? 

Absolutamente. E essa é a parte mais difícil do nosso trabalho. Não há uma base a partir da qual possamos construir algo. Estamos a fazer tudo do zero. Não temos um passado de pessoas queer que seja visível, por exemplo. O IraQueer é a primeira organização deste género. Nós somos a única fonte de informação sobre estes assuntos. Por exemplo, vamos publicar um guia sobre saúde sexual em árabe e curdo nas próximas semanas, e esse guia é o primeiro do género de sempre no Iraque. Não há nada. A palavra correta para "homossexual" nem sequer existe em árabe e curdo. Nós é que estamos a introduzir estas palavras, as definições dos termos. Até inventámos algumas delas. 

Vocês também dão workshops sobre esses conceitos básicos, certo?

Sim, explicamos qual é a diferença entre orientação sexual e identidade de género, o que é que quer dizer o L, o G, o B e o T, por aí. Também demos workshops aos novos membros sobre documentação, como denunciar, como sensibilizar a população, e outros aspetos que podem ajudar o trabalho deles enquanto ativistas. E claro, vários módulos sobre segurança, tanto em termos físicos como em termos digitais. 

O Amir é o único que mostra a cara. Porquê?

Porque a maioria deles vive no Iraque e, para mim, o mais importante é a segurança deles. Eu decidi mostrar a minha cara porque... Bem, todos nós vamos morrer, sabe? Eu prefiro morrer a viver a vida que quero viver, do que morrer 20 anos depois mas sem ter vivido com a minha verdadeira identidade. Isto tem de dar em alguma coisa. Alguém tem de dar a cara e dizer: "Eu sou do Iraque. Nasci lá, fiz a escolaridade toda lá, a minha família é de lá, e ainda assim sou gay. Sou iraquiano puro e sou gay. Não sou um produto do ocidente, não fui criado nos EUA, e sou assim mesmo". Mais ninguém mostra a cara por uma questão de segurança. Cada um escolhe o que quer fazer, mas o que eles dizem é: "Como as coisas estão, não podemos mostrar a nossa identidade". 

Ou o quê? 

Ou isso vai afetar a vida deles. Podem até morrer. 

Mas como é que as famílias iraquianas reagem se o filho for gay ou a filha lésbica?

Apesar de algumas famílias não serem realmente homofóbicas, os vizinhos e os conhecidos esperam que o sejam. Por isso, quer queiram quer não, têm de ter uma reação violenta contra os filhos. Muitas famílias abandonam os filhos, põem-nos fora de casa. Algumas até matam os filhos. Na maioria das vezes nem é a família mais chegada que faz isso. São os tios, os primos  e as figuras masculinas da família.

Alguns dos membros da equipa IraQueer. Só Amir coloca a sua fotografia e nome corretos. 

Então mas se não mostram o rosto nem se identificam, como é que sabe quem está do outro lado?

Pois. Nós encontrámo-nos agora todos pela primeira vez no Líbano, mas até aí não os conhecia. De alguns nem sabia o nome verdadeiro. Falava com eles online, mas nunca lhes tinha visto a cara. Nem sabia se eram mesmo LGBT ou não. Foi um risco que corri, porque alguém podia estar a fazer-se passar por LGBT para saber coisas sobre nós e sobre os nossos projetos. Mas teve de ser.

Como é que garantem a segurança online para não serem descobertos?

Usamos aplicações (apps) muito seguras. Por exemplo, usamos uma ferramenta de mensagens de texto que se autodestroem. 30 segundos depois do envio, a conversa é completamente destruída. E às vezes é difícil porque tu mandas um parágrafo e 30 segundos é mesmo muito pouco tempo para ler (risos). Por isso têm de mandar outra vez, lês outra vez, eles mandam outra vez... Também usamos e-mails encriptados. E apagamos sempre o conteúdo todo do e-mail depois de enviarmos mensagens. Usamos apps muito exclusivas, que o Governo à partida não consegue aceder. É claro que isto não significa que o risco não esteja lá, mas nunca consegues eliminá-lo a 100%.

"Todos nós vamos morrer, sabe? Eu prefiro morrer a viver a vida que quero viver, do que morrer 20 anos depois mas sem ter vivido como queria"

Já pensou que provavelmente já não vai usufruir os frutos de todo o trabalho que está a fazer agora? Acha isso injusto?

(Sorri) Acho que isso é garantido. Alguns membros da equipa às vezes ficam frustrados porque pensam precisamente nisso. Algumas pessoas LGBT escrevem-nos e dizem: "Vocês têm de fazer alguma coisa por nós, têm de nos proteger!". Bom, é óbvio que é esse o nosso objetivo. Mas temos de aceitar a realidade: não vamos ser nós a ver a mudança.  Vai levar muito tempo. Nós estamos a criar as bases a partir do zero. Quem vier a seguir, vai referir-se ao trabalho feito pelo IraQueer como o primeiro. E é nisso que temos de pensar. 

Como é o seu dia-a-dia agora?

Bom, continuo a trabalhar para termos mais conteúdo, mais membros, melhorar o discurso. Por exemplo, submetemos um "relatório-sombra" às Nações Unidas, a descrever as violações de Direitos Humanos cometidas contra pessoas LGBT no Iraque. E isto é incrível, porque é algo nunca antes feito por uma organização iraquiana. Temos membros a trabalhar todos os dias no Iraque, que estão a pôr as vidas deles em risco. E só de pensar que, há pouco menos de dois anos, não havia nada... Nada. E agora conseguimos ter à volta de 11 mil leitores no site por mês. 

E a sua família? Conseguiu vê-los neste tempo? 

Não os vi durante dois anos. Consegui encontrar-me com a minha mãe há dois meses, fora do Iraque. Foi muito emocionante. 

Se o Amir voltar agora ao Iraque, o que é que acontece? 

Ou vou para a prisão o resto da minha vida ou vou ser morto. 

Mas, no futuro, quer voltar ao Iraque? 

Eu vou voltar ao Iraque. É só uma questão de tempo. Tenho até ambições políticas. Quero concorrer ao cargo de primeiro-ministro. 

E um dia vai ser o primeiro primeiro-ministro gay do Iraque. 
(Sorri) Espero que sim. Vou concorrer ao cargo quantas vezes forem precisas, até conseguir. Se não conseguir, não consegui. Mas vou dar tudo o que tenho. 

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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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