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MINHA VIDA GAY

A Primeira Pedra: Eu, Padre Gay, e a minha revolta contra a hipocrisia da Igreja.




Depois de ter sido notícia devido ao seu coming out no Vaticano, em Outubro de 2015, um ano depois o Padre Charamsa lançava o livro em que conta o seu percurso de vida, que o trouxe a Portugal no final do ano passado.O dezanove leu A Primeira Pedra e deixa aqui algumas notas aos leitores.
O Padre Charamsa começa por falar de como, já padre, conheceu o seu atual companheiro, a quem dedica o livro. Depois traça um percurso pela sua vida, iniciando na sua infância num meio conservador da Polónia comunista, da sua enorme fé e da vocação para o sacerdócio, que o levou ao seminário até ao trabalho na Santa Sé. Na terceira parte reflecte acerca dos estereótipos e do preconceito na sociedade, sempre em relação também com a Igreja, mas sobretudo do seu caminho interior de fé e de descoberta de si mesmo e da sua identidade.

No meio de um longo e complexo percurso de vida, e da sua experiência dentro e fora do meio religioso, destacamos a constante luta interior entre aquilo que é a fé pessoal e a visão deturpada que a religião organizada nos dá, uma normalmente em conflito com a outra, sobretudo em questões tão sensíveis como esta. Este é o dilema em que vivem muitos cristãos homossexuais, mas não só, pois, como nos diz o Padre Charamsa, “Quando nos incutem a necessidade de mentir sobre questões fundamentais da nossa vida, chegamos a um ponto em que já não sabemos quando estamos a dizer a verdade e quando mentimos. Deixamos de saber quem somos. Porque, efetivamente, já não existimos. Até então, a lavagem cerebral convencera-me de que os gays não existiam.” (p. 22). “Com o medo, com a mentira, habituamo-nos a tudo e, surpreendentemente, tomamos-lhe o gosto, deixamos de ver qualquer outra possibilidade.” (p. 21).

Foi neste contexto “sem gays” que ele cresceu, mas ainda hoje muitos jovens são criados num mundo em que as pessoas LGBT são não só uma minoria, mas tidas como tendo uma orientação “intrinsecamente desordenada”, ou simplesmente promíscuas e com uma vida de algum modo condenável. Por isso, tal como alguns querem “curar-se” ou tentam acabar com a vida, outros rezam para que o “problema” desapareça. “Mas Deus não escutou a minha oração, talvez porque não gosta quando rezamos para obter algo que vá contra a nossa natureza, ao invés de nos esforçarmos por compreendê-la juntamente com ele.” (p. 58). Charamsa conta-nos como foi aprendendo que a sua orientação era um dom, mais que a cruz que aparentava. “Deus não me arrancou o desejo, o prazer nem os sentimentos homossexuais, mas naqueles momentos dava-me paz. Voltava da igreja franciscana sempre mais sereno, como se aquele ‘problema’ interior fosse temporariamente colocado de lado, isto é, como se a Deus não importasse minimamente mas sim lhe interessassem outros valores que eu possuía.” (p. 58). “Dos outros herda-se a homofobia; a homossexualidade é concedida. É o dom para um homossexual, tal como é a heterossexualidade para um heterossexual. É um dom do meu Deus, o dom da natureza, o dom da vida. É a energia positiva oferecida e diversificada entre as pessoas. A energia positiva só pode ser contaminada pela homofobia.” (p. 31).

Ao longo da obra há uma profunda reflexão acerca da forma como a Igreja tem lidado com esta questão, feita por umas das poucas pessoas que esteve no interior da Congregação para a Doutrina da Fé, o coração doutrinal do catolicismo. A certa altura conclui que a questão não se resume à homossexualidade, pois “O problema da Igreja não é apenas a perseguição dos homossexuais, mas também da sexualidade de toda a humanidade. Defendendo-se os direitos das minorias defende-se os direitos de todos. Penso muitas vezes que, antes ainda dos gays, são os heterossexuais a serem feridos pela Igreja, indicados como sãos mas, na verdade, igualmente humilhados e ofendidos na sua dignidade pela imposição de diversos preceitos irrealistas.” (p. 123).

Ficam aqui algumas ideias gerais e citações deste livro, de que aconselhamos a leitura completa, até porque há esperança de que as coisas mudem. E essa esperança vem de pequenos acontecimentos como quando o Papa Francisco participou num evento promovido por uma facção conservadora, em defesa da “família tradicional”, no qual devia ler um discurso previamente preparado, mas, no momento, decidiu improvisar e dizer que “Hoje em dia não se pode falar de família conservadora nem de família progressista: a família é família! Não vos deixeis qualificar por este ou outros conceitos de natureza ideológica. A família possui uma força em si mesma.” (p. 147; discurso de 17.11.2014).

Krzysztof Charamsa, A Primeira Pedra. Eu, padre gay, e a minha revolta contra a hipocrisia da Igreja, Lisboa, Planeta, 2016. Ed. orig.: Milão, Rizzoli Libri, 2016.

O Pai do Meu Amigo me Beijou



Em brincadeira homem acaba beijando outro na boca




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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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