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MINHA VIDA GAY

Me descobri diferente - e está tudo bem.


O cantor Yann encontrou na música a força que precisava para sua aceitação.


Cresci escutando outras pessoas me "acusando" de ser gay. Isso começou tão cedo, mas tão cedo, que lembro que nem sabia o que significava.

Um dia na escola, um garoto mais velho veio agressivamente me dizer que eu era "isso". Olhava pra ele em dúvida, devia ter por volta de seis anos. Quando ele retrucou rindo: - Você é que nem o Miguel Falabella! Na hora, lembro de ter pensado: "Nossa que coisa boa. Ele é um artista superfamoso e reconhecido".

E eu agradeci a ele.

Logo essas acusações e "piadas" se intensificaram, e rapidamente descobri o que significavam. A minha escola não fazia nada. Lembro de ano após ano ter conversas com a diretoria a respeito do bullying sistemático que lidava (mesmo sem saber na época o termo para isso), e nada foi feito.

Chegar na escola era aterrorizante. Existia um longo trajeto entre o início do pátio e a sala de aula - e me sentia como se estivesse entrando em um corredor polonês. À medida que ia caminhando, diversos garotos me sacaneavam. Bicha. Viado. Boiola.

Durante todo o ensino escolarfui alvo desses grupos de meninos mais velhos– um ou outro que hoje em dia até se assumiu gay. Era pública essa humilhação diária: a escola inteira testemunhava, todos se calavam e isso fazia que me sentisse cada vez mais sozinho.

Lembro de uma tarde, na casa de minha prima, em que ela me chamou e disse:

- Você precisa escutar essa música. Ela começa com uma risada.

Ela deu o play no CD. Era a música Wannabe das Spice Girls. Lembro-me de escutar e, com o tempo, ir conhecendo aquele grupo, encontrando naquela música uma fuga. Elas pareciam ser felizes sendo diferentes. Elas tinham sucesso sendo diferentes. E era isso que queria; me aceitar e ser aceito naquela diferença.

Nesse pop adolescente eu encontrei um oásis, um ponto de alívio. Um lugar onde o externo não me afetava. O que me fez tomar uma decisão: se isso me salvou, é o que vou fazer na minha vida. Decidi aos oito anos de idade, para mim mesmo, que iria ser cantor.

Ao longo do tempo, fui me deparando com desejos que me faziam acreditar que eu poderia ser aquilo que sempre me "acusaram" de ser. E tinha medo de ser gay. Era algo que escutava de forma pejorativa, humilhante. Não queria ser aquilo. Queria provar que a opinião daquelas pessoas sobre mim estava errada e sentia que se isso acontecesse, eu venceria.

Lembro-me de um jantar com meu pai e sua ex-esposa quando tinha por volta de 15 anos. Eles me falavam o quão humilhante seria ter um filho gay, repetindo isso diversas vezes. Como sempre tivemos uma relação conturbada, eu escutei naquilo uma mensagem: "se você quer ter um pai que possa se orgulhar de você, não ouse ser gay".

Foi difícil me assumir para mim mesmo. Foi um longo e doloroso processo que percorreu toda minha adolescência. Lembro que me sentia tão mal nas primeiras vezes que beijei outro homem, que ficava imediatamente com febre. Era uma reação quase que automática. Uma culpa que consumia minha saúde não só mental, mas também física.

A descoberta mais difícil veio em seguida: perceber que apesar de terem acertado que sou gay, eles cometeram o maior erro de todos em tentar fazer disso algo depreciativo. A minha salvação foi compreender que minha sexualidade não é uma falha, é uma parte natural do meu ser.

Quando estava pronto para realmente fazer a minha verdadeira estreia como cantor, sabia que precisava honrar aquela criança de oito anos que encontrou nas Spice Girls um refúgio. Sabia que para deixar o pequeno Yann orgulhoso, precisava contar minhas experiências através da música.

Demorou para ter essa coragem. Talvez até hoje existam aspectos da exposição de minha homossexualidade que estou em processo de aceitação. E talvez fazer este post tão público contribua para isso.

Por isso decidi: esse EP contaria a minha história, e parte dela é essa descoberta. Cada faixa teria um clipe. Cada clipe contaria uma etapa diferente da minha experiência. Em Até Te Encontrar, estava anestesiado acordando em uma praia e sendo carregado por emoções femininas até o afogamento.

Agora, em Futuro Ex, me salvo dessa morte. Encaro essa "água" e revelo os primeiros momentos em que me deparei com esse conflito. Se não tivesse aprendido a me aceitar, talvez teria de fato me afogado emocionalmente na vida. Escolhi não mostrar o ápice do beijo neste clipe – já que os primeiros beijos que tive foram mais uma luta interna comigo mesmo do que momentos de prazer.

Para mim, o papel da arte é o da catarse. E sinto que foi o que consegui. Criar esse clipe é a minha forma de olhar lá para aquela criança e dizer: obrigado por ter sido tão forte. Tudo deu certo.



Fall in Love: Capa da Elle Brasil com casal gay ganha elogios no exterior.



A Elle Brasil, revista da editora Abril, a mesma que publica VEJA, lançou três capas especiais para a edição de maio, mês em que comemora o seu aniversário. Explorando a diversidade, a revista recebeu elogios de publicações internacionais que ressaltaram a importância de trazer um casal do mesmo sexo logo na capa.

om o título “Fall in Love” (Apaixone-se, em português), a edição de maio da revista celebra o amor. “As capas mostram o apoio da Elle Brasil para a comunidade LGBTQ, apesar da atual epidemia contra essa população no país. A publicação já colocou dois modelos brasileiros transgêneros em suas capas, incluindo Valentina Sampaio (que recentemente foi capa da Vogue Paris) também”, escreveu a revista Refinery29 sobre a revista.

“As imagens e a mensagem são particularmente importantes, considerando que, no ano passado, gays, lésbicas e transexuais no Brasil foram vítimas de ataques violentos. A maior parte das mortes nem sequer envolvia roubos, e a polícia não conseguiu identificar suspeitos”, completa a publicação americana.

A revista Allure foi outra que elogiou a iniciativa da publicação brasileira. ”Há incontáveis capas de livros e revistas com imagens heteronormativas românticas, mas repetitivas de um homem e uma mulher se abraçando. Então, ver este casal do mesmo sexo é refrescante. E não parece que eles estão objetificando as mulheres para o espectador — o olhar nos lembra os doces momentos no começo de um relacionamento e seus sorrisos indicam esse tipo especial de alegria.”

O site de notícias americano Yahoo também frisou a violência contra os LGBT no país. “A capa aparece durante um período turbulento para a comunidade LGBT no Brasil. O país está no meio de uma epidemia anti-gay, com quase 1.600 mortes como resultado de crimes de ódio nos últimos quatro anos e meio. Nesta nação, com uma população de 200 milhões de habitantes, a verdade é que uma pessoa transgênero é morta todos os dias”, diz a publicação.

A foto foi feita pelo fotógrafo Will Vendramini, que, ao divulgá-la em seu Instagram, escreveu: “Afeição’ foi o tema e é o que sinto quando vejo isso hoje! Obrigado a todos que fizeram parte desse projeto!”.

Ao divulgar a capa nas redes sociais, a editora chefe da Elle Brasil, Susana Barbosa, descreveu a imagem da seguinte forma: “Mais do que nunca, é preciso amar: uns aos outros, a si mesmo, o diferente, o igual…”

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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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