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MINHA VIDA GAY

Mães de gêmeas contam sua história como um casal homossexual.


As mães Juliana e Priscila com suas filhas

As mães se conhecem desde a adolescência, época em que as duas namoravam com homens. Elas se reencontraram tempos depois quando davam aula na mesma escola. Em uma viagem entre amigos, elas se aproximaram e perceberam que sentiam algo diferente uma pela outra. Depois de dois meses, começaram a namorar.

Durante um ano, o casal ficou junto sem contar para ninguém, enquanto ambas ainda passavam por um processo de aceitação. “Foi um ano de rever preconceitos e entender o que estava acontecendo com a gente”, afirma Juliana. “Isso fortaleceu muito o relacionamento”. Após este período, começaram a contar para as pessoas mais próximas, incluindo amigos gays que não sabiam que as duas eram lésbicas .

Casamento.

Quando já estavam morando juntas, Priscila perguntou o que faltava para elas casarem oficialmente. Então, o casal decidiu fazer uma cerimônia religiosa e outra social. Juliana é umbandista, e o casamento religioso foi feito no centro que ela frequenta. Apesar de já estarem juntas há algum tempo, muitas pessoas só descobriram que elas eram um casal quando receberam o convite de casamento.



Para as duas, a importância de fazer uma cerimônia social era justamente poder se apresentar oficialmente para todos como um casal. A festa foi maior do que o esperado e muitas pessoas quiseram ajudar a organizar a festa: os pais de Juliana deram a comida da festa, amigos fizeram o cabelo e os vestidos das noivas e um amigo emprestou o espaço para a cerimônia. “Toda a nossa rede de amigos se envolveu de tal maneira que a festa foi de todos”, afirma Juliana.
De acordo com ela, a vida continuou praticamente a mesma depois da cerimônia. “Mudou que quando a gente fazia as coisas escondidas as pessoas percebiam que tinha algo errado e faziam fofoca. Quando nos assumimos, não tinha mais fofoca porque não tinha mais o que falar. A gente se assumir fez com que as pessoas nos respeitassem mais”.

As filhas.

Juliana afirma que sempre disse que queria ser mãe de uma menina chamada Luna e, apesar de Priscila não ter o mesmo sonho, as duas discutiam essa possibilidade.

Um dia depois de conversar muito sobre várias questões, Priscila entendeu que estava na hora de ser mãe. O plano inicial era cada uma engravidar de um bebê e, depois, adotar uma criança, assim elas teriam três filhos e as duas passariam pela experiência de engravidar.

Apesar de terem decidido ter filho, elas ainda faziam muitos questionamentos de como seria o futuro. “A gente conversava sobre como ia explicar a situação para as crianças. Tínhamos medo de como o mundo iria encarar isso e se colocaríamos uma criança no mundo para sofrer”, diz Juliana.
Elas foram desconstruindo essas ideias aos poucos e perceberam que todo mundo passa por algum tipo de preconceito durante a vida. “Não é porque elas são filhas de duas mulheres que elas vão sofrer por causa disso. Elas podem sofrer preconceito por outra coisa”, explica Juliana. A coisa certa a se fazer seria dar estrutura para as filhas superarem qualquer adversidade que aparecesse. 

Priscila foi a escolhida para receber o esperma de um doador anônimo parecido com Juliana.  Deu certo logo na primeira tentativa, e ela já engravidou de gêmeas. “A gravidez foi difícil porque eu não sei o que é estar grávida – assim como o marido não sabe. Eu conversava com amigos que eram pais e me identifiquei com eles”, afirma Juliana. “A Priscila sentia dentro dela e era uma coisa real. Para mim era uma ideia. Quando elas nasceram, eu percebi que era mãe”.

Registro das crianças.

Assim que as filhas nasceram, foi aprovada a união estável homoafetiva e o casal sabia que isso seria importante para o registro das meninas. Elas sabiam que era importante para as crianças terem as duas mães registradas no cartório para elas não ficarem desamparadas. “Imagina uma situação em que a Priscila fosse trabalhar e as meninas sofressem um acidente. Eu não poderia responder pelas crianças no hospital porque legalmente eu não seria nada delas”.

Elas foram ao cartório para tentar registrar as filhas com os nomes das duas, mas disseram que isso não poderia ser feito e que só Priscila poderia ser identificada como mãe.

Ainda assim, as duas queriam que o sobrenome de Juliana, Offenbecker, fosse passado às filhas. Para isso, Priscila teve de inventar que “Offenbecker” era o sobrenome de sua avó e que isso seria uma homenagem a ela. “Ela também disse que o sobrenome significava ‘luz divina’ para emocionar a moça do cartório. Mas, na verdade, significa padeiro em alemão”, confessa Juliana. Deste modo, as filhas conseguiram ter o sobrenome das duas.

O problema não fez com que elas desistissem de registrar as meninas com duas mães. O casal foi atrás de uma advogada que disse que a melhor opção seria desistir do caso. “Ela disse que eu gastaria no mínimo 70 mil reais. Eu saí arrasada”, diz Juliana. Ambas ficaram muito ocupadas cuidando das crianças e decidiram deixar isso de lado por um tempo.

Foi então que, em uma festa, uma amiga do casal perguntou a elas sobre o registro. Quando soube da história, a amiga chamou sua irmã advogada para ajudar no caso. “A irmã desta amiga assumiu o caso como se ela fosse uma mãe. Chorava nas derrotas e vibrava nas alegrias. Essa relação gerou uma amizade muito grande”, conta Juliana.

Elas sabiam que podiam tomar dois caminhos para alcançar o objetivo: adoção unilateral ou dupla maternidade. Elas eliminaram a adoção unilateral porque não era o caso de uma criança que já estava na vida de Priscila e Juliana tornou-se mãe dela depois. “Nós planejamos isso juntas e eu estava na inseminação e em todas as consultas. Se fosse um casal heterossexual, eles poderiam registrar a criança sem problemas porque eles não pedem exame de DNA”, explica Juliana. “Se a Priscila tivesse ido com um amigo, ela conseguiria colocá-lo como pai. Por ser mulher, eu não poderia.”

As mães decidiram lutar pela dupla maternidade porque, apesar de ser o caminho mais difícil, era a verdade. Depois de muitas adversidades, elas conseguiram marcar uma audiência com uma juíza, em que levaram provas e algumas testemunhas para provar que Juliana também era mãe das crianças. “Ela não tinha motivos para não dar para a gente a dupla maternidade. Conseguimos e foi uma grande alegria para a família”, completa Juliana.

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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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