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CONFISSÕES DO DIVÃ







Os textos apresentados nesta seção buscarão ilustrar situações, angústias, problemas e experiências vivenciadas por alguns homens gays. Não existem experiências universais, comuns a todos os homens gays, cada um de nós é constituído e atravessado por diversas características que tornam a sua experiência única.  Nossa principal ideia aqui é pensar em possibilidades de enfrentamento para as questões aqui representadas, que em menor ou maior grau podem ser semelhantes com alguma das histórias vivenciadas por você. Essas histórias não são uma representação literal de histórias reais e sim textos fictícios.

O Dr. Alexandre é formado em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua como psicólogo clínico no Espaço Recontar na região de São José / SC. Fundamenta seu trabalho pelos princípios da Psicologia Sistêmica. Compreender os fenômenos psicológicos sistemicamente significa, literalmente, “colocá-los” dentro de seu contexto, estabelecendo a natureza das suas relações.

Você pode fazer perguntas e sugerir temas que nosso psicólogo responderá com todo prazer.

Bem, vamos ao tema de hoje:

Carnaval, Fantasia e Liberdade: Eu odeio e ele ama

Alexandre de Souza Amorim, Psicólogo
alexandresouza.psicologo@gmail.com


 

Estamos juntos fazem sete anos e todo ano brigamos pelo mesmo motivo: Carnaval. Eu simplesmente odeio e ele ama. Se dependesse de mim nem colocava a cara para fora de casa, mas precisamos sempre conversar e fazer alguma coisa que ele goste. Não entendo por que algumas pessoas gostam tanto, só vejo coisas ruins. Um excesso de liberdade que extrapolam todos os limites do aceitável. Eu apagaria tranquilamente essa data do calendário, onde pessoas fazem uso da fantasia e da liberdade para fazer o que não devem e durante o resto do ano ficam se desculpando. Gostaria que ele concordasse comigo, qual a solução para essa situação?
Célio, 34 anos

        
Célio durante todo o ano as pessoas costumam mesmo “puxar o freio de mão” devido às obrigações cotidianas, seja por conta dos compromissos familiares, escola, trabalho ou faculdade. Isso acontece por que as nossas atitudes são controladas por regras.        
        
Mas o que significa isso? Isso significa que em cada sociedade, cultura ou instituições (família, trabalho, faculdade, religião) existem uma série de regras ditadas de maneira direta ou indiretamente que seus membros precisam seguir para que possam ser aceitos e reconhecidos como pertencentes a aquele grupo ou ambiente. Nós também nos impomos algumas regras pessoais (não posso, não gosto, não quero…), enfim, vivemos grandes partes do nosso tempo buscando um equilíbrio entre todas as possibilidades de comportamento e nem sempre isso é possível. Acabamos nos encontrando frente a escolhas que levam a privações: tenho que escolher entre ir ao cinema ou estudar para o vestibular.

Privar-se de algo que lhe faz bem ou que você deseja, pode ser o mesmo que acender um pavio para desencadear alguns comportamentos e sentimentos bastante nocivos como: frustração, ansiedade, raiva, angustia…
        
Agora eu convido você a imaginar um espaço onde essas regras não existem ou podem pelo menos ser flexibilizadas. Se você pensou no Carnaval fica mais fácil compreender porque muitas pessoas adoram essa época do ano. Pois durante esse período elas podem “suspensão temporariamente” as regras que governam as suas vidas.
        
Há também no Carnaval dois elementos que ajudam a “suspender as regras”: A fantasia e a liberdade para utilizar de bebidas e outras drogas.

É claro que hoje a fantasia perdeu muito espaço para outras atividades e adereços do Carnaval, diminuindo o grupo que mantém viva a tradição original. A fantasia tem como um dos seus objetivos trazer à tona desejos que foram privados ou nunca realizados em outros momentos da vida. Ela se opõe à realidade, e, portanto, abre a possibilidade para que as pessoas se libertem das correntes que as prendem ao “mundo real”. Vivem com intensidade aquele momento que lhes permite transgredir as regras.

A utilização de bebidas alcoólicas e outras drogas durante o Carnaval só aumenta esse desejo de ser outra pessoa, de fazer diferente do que foi feito o ano inteiro. Essas substâncias, dentre outros efeitos, provocam uma diminuição da censura e um maior encorajamento para pular os muros dos controles pessoais e sociais.

É uma faca de dois gumes, ao mesmo tempo em que temos um espaço para extravasar e experimentar diferentes comportamentos e emoções, temos também um espaço propício para fazer algo do qual iremos nos arrepender depois e nos sentir culpados pelo resto do ano (ou da vida).

O jeito é tentar não perdermos de vista o nosso autocontrole e sempre pensar nas consequências que os nossos atos terão na nossa vida e na vida das outras pessoas.

Todos nós somos livres para fazermos o que quisermos, mas há um preço a ser cobrado ao fechar a conta. A solução ideal não existe. Assim como você gostaria que ele concordasse com sua maneira de pensar, certamente ele também gostaria que você concordasse com a dele. Acho que vocês estão no caminho certo, conversando para encontrar um equilíbrio que satisfaça os dois e as necessidades que ambos sentem. Relacionamento é isso, é troca, é ser generoso e saber ceder um pouco para alcançar o bem comum.



P.S. Esse texto foi escolhido por estar acontecendo Carnaval fora de época em várias cidades, como o FORTAL em Fortaleza.
 

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Postado por Mac Del Rey | (0) Comente aqui!

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