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HOMOSSEXUALIDADE

Quem quer, dá um jeito.

 

 
Chega a ser até engraçado – para não dizer triste. O boy some, não te procura há dias, mas você ainda se apega firmemente naquela frase bonita que ele disse na primeira noite.

“Tô gostando muito de você….

Grave bem isso: palavras são apenas palavras, atitude é o que vale. Anote na geladeira, na parede, na testa, em qualquer lugar. Mas não esqueça!

Não, não adianta dizer que ama e não apresentar para família. Não adianta sentir saudades e não mover um passo na direção da pessoa. Não adianta querer casar e não se programar nunca para isso. Atitudes mudam histórias, palavras não.

Daí você se sabota, se ilude, se engana. Diz que ele demorou para responder porque estava muito ocupado, que desapareceu dias porque quebrou a tela do celular, que foi seco no WhatsApp porque estava estressado com o trabalho, que desmarcou o encontro de última hora porque teve que salvar a irmã de um assalto…

São tantas explicações e todas elas tentando justificar o óbvio: ele não está a fim de você.

A realidade é uma só: não existe pretexto para falta de interesse. Quem gosta se importa, sente falta, procura, liga, manda mensagem, sinal de fumaça, batuque de tambor.

Se parece que ele está te enrolando, te fazendo de segunda opção, te jogando para escanteio, muito provavelmente ele está mesmo.

Infelizmente, fantasiar justificativas para o bolo na sexta, para a mensagem ignorada no sábado e a foto duvidosa que apareceu no face dele no domingo não vai fazê-lo se apaixonar perdidamente por você.

Pelo contrário. Com tão pouco amor próprio, ele vai é continuar te deixando para a repescagem e te tratando como uma mera foda de segunda-feira.

Então, pare de se enganar, ok?

Ele NÃO quer e ponto final

Porque quem quer de verdade coloca o chip no celular do amigo quando fica sem bateria, paga o dobro para pegar um táxi e chegar a tempo, deixa para trás a festa de aniversário da melhor amiga, o chopp com os colegas de trabalho, o programa imperdível com os primos.

Quem gosta dá um jeito de incluir você nos planos, demonstra o que sente e abre mão do orgulho desnecessário. Te leva para jantar, para um cineminha e apresenta você para os outros sem nenhum tipo de constrangimento.

Quem quer mesmo deixa isso claro nas pequenas coisas. Pega na sua mão no meio da rua, te abraça forte, te beija na testa. Tudo sem olhar em volta, tudo sem olhar para trás. Quem gosta fixa os olhos em você como quem tem tudo o que precisa bem à sua frente.

Quem quer não se importa com passado, com traumas e medos. Se preciso, recomeça do zero, e quantas vezes forem necessárias.

Não tem complicação, nem confusão. É tudo muito simples, tudo muito óbvio.

Não é falta de tempo, é falta de prioridade.

Quem gosta dá um jeito, remarca compromisso, atrasa a entrega do último capítulo da monografia, joga para depois aquela reunião de família. Quem gosta escreve de noite para saber como foi o seu dia e reserva o melhor espaço na agenda para te ver.

Quem gosta faz o dia virar noite, o acaso virar objetivo e os dias da semana virarem sábados. Quem quer te ter por perto de verdade não te procura apenas quando dá vontade de transar, ou quando você posta uma foto sem camisa no Instagram.

Muito diferente disso! Quem tá a fim mesmo dificilmente coloca muitos obstáculos – e muitas vezes chega até a omitir certos problemas para não pagar de chato: eu, ocupado agora? que nada, posso trabalhar mais tarde para ficar mais um pouco com você.

Porque quem gosta não deixa para depois o que pode ser feito hoje. Quem quer ficar, fica sem que seja preciso implorar. Quem quer cuidar, simplesmente cuida.

Sim, você fez papel de trouxa.

Admita! Não precisa ter vergonha, não existe nada de constrangedor nisso.

As melhores pessoas são enroladas algum dia na vida, sabia? Isso até nos torna mais inteligentes, mais seletivos, mais fortes.

O problema é querer ficar eternamente na situação de vítima. É preciso reconhecer quando você está vivendo sozinho em uma relação e decretar o fim, mesmo que ela nem tenha começado de fato.

Sim, quem quer dá um jeito. E não, ele não quer você.

Então, priorize-se.

Afinal, tudo é uma questão de prioridade. Enquanto você estiver em primeiro lugar na sua própria vida, não vai precisar projetar essa posição na vida de ninguém.
 

PERGUNTAS & RESPOSTAS

 

“Eu não aguentei o tranco de namorar uma pessoa trans”.

 
 
 
Para quem não é íntimo do assunto, é difícil falar sobre a transição de gênero de alguém. Sai de tudo: “A pessoa virou trans”, “A pessoa virou mulher”, “A pessoa mudou de sexo”. As palavras mudam, mas a ideia de que a pessoa passou por uma grande transformação permanece.

— “Você é meu homem!”
 — “Eu sou, eu sou teu homem. E você é o quê?”
 — “Eu sou sua mulher.”

Leonardo e André moravam comigo, na mesma república e na mesma falta de grana. Formavam um casal bonito e desinibido. Os dois trocavam amassos na lavanderia quando escutei esse diálogo. Não dei muita atenção. Cada um com suas fantasias…

André fazia uma linha mais heteronormativa: ativo convicto (fazia questão que todos soubessem disso), futebol com os amigos, cavalinho de pau com o carro na rua; Leonardo era mais ousado: tentava a carreira de cabeleireiro (com o patrocínio de André para fazer os cursos), afeminado, voz e gestos delicados.

Quando íamos ao supermercado, Leonardo ia direto para a seção de vestuário e calçava os saltos mais altos que podia encontrar no seu número. Fazíamos as compras com ele desfilando orgulhoso, cuidando para nenhum segurança da loja ver.

Na hora de ir embora, os sapatos voltavam para a estante. André parecia fazer esforço para não se importar.Às vezes, entrava na brincadeira e botava um salto também, e andava desajeitado pelo supermercado, exagerando na macheza. Falava grosso, tirava sarro, ria. Outras vezes, baixava a cabeça e pedia para o Leonardo focar nas compras. Nem sempre isso funcionava.

A primeira grande briga dos dois foi quando Leonardo apareceu em casa com um aplique imenso nos cabelos, até a cintura. “É por causa do meu trabalho”, gritava Leonardo.

“Você parece uma mulher!”, retrucava André. Nunca vi o Leonardo tão triste quanto no dia que apareceu em casa com o cabelo curto novamente, resignado.

Perdi o contato com os dois, até o dia que encontrei um rosto conhecido ao caminhar por uma praça da cidade. “Leonar…da?”,  perguntei, surpreso.

Ela estava toda arrumada. Saia curta de couro, um decote imenso, botas de salto alto muito mais bonitas que as do supermercado, o cabelo impecável e comprido novamente.

“Oi”, ela disse, com um sorriso tímido, e continuou andando, com pressa e sem mais nenhuma palavra. A praça era um famoso ponto de prostituição da cidade. Algo que me diz que ela não conseguiu seguir carreira sem a ajuda de André.

Ainda assim, ela me pareceu bem mais confortável consigo mesma. Encontrei André no Facebook e tentei sondar a situação: “Sim, agora a Leonarda está vivendo como mulher”, ele respondeu, sério e seco.

Ele me confidenciou que não se importava com as expressões femininas de Leonarda enquanto elas ficavam no quarto. Leonarda também tentava ceder o quanto podia, mas as diferenças foram ficando maiores e maiores.

“Você sabe como é ruim chupar o pinto de alguém que tem pavor que encostem ali?”, me disse. Mesmo com tudo isso, seu amor só balançou mesmo quando Leonarda resolveu abrir sua transexualidade publicamente.

“Eu tentei, Flávio, eu tentei assumi-la, mas eu não consegui. Eu gosto de homem”, disse ele, com um tom de voz que soava culpado.

Leonarda não saía de minha cabeça. Tentei procurar e contatá-la de todas as maneiras possíveis para entrevistá-la para este texto, mas não tive sucesso. Lembro do seu rosto na rua, entre o orgulho de poder viver com a expressão de gênero com que se identifica e uma triste e solitária resignação.

Certamente Leonarda pagou o preço mais alto nesse rompimento, mas André também sofreu.

Como julgar alguém que deixa de amar uma pessoa que não exibe mais o gênero com se identificava quando se conheceram? Ainda mais André, que brigou tanto com sua família religiosa para poder viver sua homossexualidade?

Ainda assim, sua vida saiu muito mais intacta do que a de Leonarda. Depois desse relacionamento, André namorou com outro garoto, que depois também revelou ser uma mulher transexual. Ficou um tempo sem namorar com ninguém.

Hoje, está em um novo relacionamento. Dessa vez, com um homem trans. Por amor, claro, mas talvez para ter um pouco de certeza de que as escolhas ali já foram tomadas. Talvez ele não queira ser pego de surpresa por mais uma pessoa que muda tão drasticamente no meio de um relacionamento.

Mas, honestamente, quem não muda?
 

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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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