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CONTOS DO LEITOR


CONTOS SÓRDIDOS

A OPORTUNIDADE FAZ O LADRÃO, ... E O PAGÃO TAMBÉM!


 


CAPÍTULO I

Existem diversos tipos de pessoas; pessoas com muita sorte, pessoas com muito azar; pessoas que se dão bem na vida, pessoas que nem tanto; pessoas para que a vida sorri apenas uma única vez e pessoas para quem o destino apenas tem um leve escárnio; enfim, não importa quantas pessoas exista, o que importa é que para cada uma delas o destino reserva um destino inesperado e, na maior parte das vezes, insólito.

De alguma forma, sob este aspecto, observa-se que a vida é uma experiência que deve ser apreciada – sim apreciada – em todos os sentidos e com todos os sentidos, sem se importar muito com as consequências, exceto é claro, quando essas forem danosas para si próprio, ou ainda para outros que não tem nada a ver com isso.

Vejam o caso de Afrânio que vamos contar agora. Desde muito pequeno este sujeito mostrou-se um indivíduo sem perspectiva, mais um daqueles que iria passar pela vida sem muita agitação. Apenas passaria como uma pessoa, um rosto desconhecido em meio a milhares, milhões que transitam diuturnamente pelas cidades, metrópoles e demais cercanias.

Assim seria não fosse certa dose de ironia do destino em relação ao dito cujo. Afrânio não era simpático, não tinha charme, sua educação era mínima: curso colegial completo como ele mesmo costumava dizer e ainda um “superior incompleto” que ele simplesmente se recusava a declarar em que especialidade, até mesmo porque, provavelmente, ele não se lembrava.

Tinha um emprego miserável, de encarregado de segurança em uma empresa multinacional, fato este que compensava toda a sorte de humilhações à quais era submetido tanto pelos colegas como pelo seu superior, um obeso médio de cara amarela e feições grosseiras, chamado Coutinho, supervisor de segurança, que também achava ótimo o emprego pelos benefícios e ainda pelo salário que não era ruim. Tanto Afrânio como Coutinho eram obrigados a manter contatos ocasionais durante o expediente, porém sempre dentro de um falso formalismo que se impunha pelo ambiente de trabalho e muito mais pelos olhares constantes do Diretor de Patrimônio.

Jefferson, ou simplesmente Jeff, era um sujeito pálido como cera (americano “of course”), de olhos azuis claros profundos e brilhantes com cabelos de cor platinada que, além de exercer o cargo de Diretor de Patrimônio da empresa e chefe mediato de Coutinho e Afrânio, também era homem de confiança da alta administração do grupo econômico sediada nos Estados Unidos da América. Este americano estranho mantinha uma constante vigilância sobre seus subordinados, pois além de conhecê-los pelos primeiros nomes sabia de tudo que acontecia à sua volta, tanto dentro da empresa como fora dela. As despesas pessoais de cada empregado eram objeto de sua constante observação e qualquer deslize ou excesso era imediatamente acusado e se tornava objeto de uma diligência particular em relação àquele funcionário, podendo este, inclusive, ser demitido se a sua justificativa não fosse adequada.

Diziam que o sujeito havia sido agente da C.I.A., razão pela qual tornara-se um especialista tão requisitado vindo a trabalhar naquela empresa a convite direto do CEO (Chef Executive Officer) que não aceitou qualquer escusa para ter Jeff em seus quadros; se bem que... Dizem à boca pequena que o interesse transcendia ao profissional.

Enfim. Voltemos ao nosso amigo Afrânio. A vida corria de forma discreta e medíocre para ele, e tudo parecia caminhar para um futuro totalmente previsível e sem sobressaltos. Parecia. Certo dia, não mais que de repente, Jeff anunciou que Coutinho ia ser promovido a seu assessor especial deixando vago o cargo que ocupava e, consequentemente, oportunizando a promoção de um de seus subordinados.

Afrânio, tomado inicialmente de sobressalto pela notícia, viu, no entanto a oportunidade de sua vida! Pela ordem natural das coisas, acreditava ele em seu raciocínio curto, que ele seria o mais indicado a ser o substituto de Coutinho e, assim seria.

Imediatamente, foi cumprimentar o colega de trabalho abraçando-o efusivamente sob os olhares argutos de Jeff. No mesmo momento sussurrou em seu ouvido se ele teria qualquer chance na promoção. “Vamos ver, vamos ver”, foi a resposta imediata de Coutinho que aproveitou o abraço e o sussurro para responder-lhe de forma próxima demais para qualquer gosto.

Seguiu-se um pequeno discurso de Jeff e outro de Coutinho, ambos repletos de ironia e sarcasmos característicos, ouvido avidamente por Afrânio que esperava naquele mesmo momento o anúncio de sua promoção para o cargo vago, fato este que não se concretizou, causando enorme mal-estar não apenas o interessado, mas também nos demais presentes que, de alguma forma subconsciente acreditavam que ele, Afrânio, seria indicado para a promoção. A não concretização deste evento, além de decepcioná-lo, frustrou-lhe expectativas, bem como tornou-se alvo dos comentários maldosos de seus pares.

De qualquer maneira, Afrânio não podia se dar por vencido; ele tinha que tentar convencer o seu superior geral que ele era a pessoa indicada para o cargo. Ademais, seria seguir “a ordem natural das coisas”, pensou com aquela obviedade que macula a inteligência humana nas horas mais inapropriadas. E ainda teria que ser naquele dia, pois caso esperasse mais, ou o caso iria “esfriar”, ou, pior do que isso: alguém poderia sair atirando na frente.

No final da tarde, quando Afrânio já havia decidido que aquele ia ser o momento de “dar o bote no chefe”, foi informado que iria rolar uma comemoração num restaurante próximo, verdadeira “boca livre financiada pelo boss”, como todos diziam evento que confirmou as intuições estúpidas daquele indivíduo pobre de espírito e de espiritualidade, dando-lhe aquela certeza característica dos falsos vencedores de uma oportunidade imperdível. “Vamos ao ataque”, pensou Afrânio que, ao contrário do que fazia habitualmente, não deixaria de aproveitar a oportunidade que se descortinava na comemoração que estava por vir.

E a festa rolava solta, com tudo a que tinham direito. Risos histéricos de alguns, malícia no olhar de outros, e muita, muita bebida alcoólica para satisfazer todos os desejos incultos e incautos que naquele ambiente fervilhavam em corações e mentes, desde as mais pervertidas até aquelas que se consideravam acima de tudo e de todos.

Afrânio, com algumas cervejas na cabeça, acompanhadas de outras doses de uísque de boa safra, lá pelo adiantado da hora, decidiu que era chegado o momento de conversar com o chefe e expor-lhe os motivos “relevantes e significativos” para que ele fosse o novo supervisor de segurança, achando que as bebidas a mais, o cheiro insuportável de álcool somado com aquele odor arrastado de fim de expediente, seriam mais que suficientes para convencer Jeff de que ele era a pessoa certa para o lugar certo.

Com passos meio incertos, mas constantes, caminhou na direção da mesa onde estavam Coutinho, Jeff e outros integrantes da “cúpula” da empresa. Caminhava e pensava, caminhava e treinava as palavras que iria dizer; pensava com firmeza nas assertivas que fariam com que aquele “gringo dos infernos” se convencesse do óbvio, concordando docilmente com o pedido (grande final de sua eloquência paupérrima) de promoção. Afinal, era seu direito, ele merecia aquele gesto de reconhecimento por aturar as brincadeiras sem graça de Coutinho, os comentários maledicentes de seus colegas sobre sua capacidade limitada de cidadão “pouco esclarecido, mas esforçado”, e as observações mais acuradas dos mais próximos que não “lhe davam um centavo furado de credibilidade”. Tudo isso seria vencido ali, naquele momento.

Estava muito próximo de atingir seu objetivo quando percebeu que Coutinho – como sempre mais rápido e mais esperto – levantou-se de onde estava e caminhando em sua direção abraçou-o pelo pescoço fazendo ambos girarem na direção oposta àquela em que Afrânio caminhava com relativa determinação e, afastando-o da mesa onde estava o pessoal da diretoria, forçou a caminhada em acompanhamento, mais parecida comum páreo empatado de cavalos de fraco desempenho.

“Eu sei o que você quer malandrão!”, disse Coutinho com um tom de voz totalmente embargado pelo excesso de álcool que já havia consumido. Afrânio fez expressão de espanto, mas ele também percebeu que Coutinho não havia chegado aonde chegou se não fosse um pouco mais esperto que a grande maioria dos que o cercavam no ambiente de trabalho.

“O que você quer dizer com isso?”, perguntou o sujeito tentando fazer ares de despercebido da situação. Antes que houvesse qualquer resposta por parte do seu companheiro, ambos entraram no banheiro masculino do restaurante, e na mesma sequência insólita, viu-se lado a lado com um individuo que abria o zíper das calça e começava a tentar acertar o coletor de urina fixado na parede, mas que acabava por mijar em seu próprio sapato.

“O negócio é o seguinte, bonitão, estou sacando qual a sua e se você quer tanto assim uma promoção vai ter que entrar no esquema”, disse Coutinho com uma expressão embargada e um hálito tão carregado que Afrânio pensou que ia desmaiar quase de imediato.

“O que você está tentando insinuar? Que eu não sou o indicado?”, retrucou Afrânio com a certeza de que dava as cartas daquele jogo meio desconhecido para ele. E antes que pudesse esboçar qualquer outro comentário, enfrentou o olhar direto de Coutinho que enquanto tentava em são fechar o zíper da calça disse demonstrando muito mais autocontrole do que seria esperado de um bêbado. “O cargo é seu. Eu o indiquei. Não que você merecesse, mas porque eu quero que você o ocupe. Mas, como você bem sabe a vida não é mole para quem é leso; então, meu chapa, o negócio é o seguinte”, e neste momento enfiou a mão no bolso do paletó e sacou de um papel onde se via um endereço anotado.


 


“Esse é o endereço de um lugar onde podemos conversar melhor. Te espero lá após esse bundalelê terminar. E vê se não vai dar pra trás! Eu conto com você”. Na mesma sequência, Coutinho voltou-se em direção à porta e desapareceu daquele banheiro onde o que restou foi apenas o odor forte da sua urina e o rosto estupefato de um sujeito que não havia entendido nada daquela conversa estranha.


CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA


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Postado por Mac Del Rey | (0) Comente aqui!

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