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DIREITOS

Entre a homossexualidade e a heteronormatividade: O que realmente precisa ser curado?

 
 
 
"Humilhação na sala, agressão na escola, primos me atormentando, tratando-me com desdém, o olhar do meu pai que se modificava".

Vinte e sete anos desde que a OMS retirou do CID (Código Internacional de Doenças) a homossexualidade e, nesta semana, um juiz do DF decidiu que é, sim, permitido aos "psicólogos" e "psicólogas" aplicarem terapias de "reorientação sexual", uma vez que o exercício livre de suas profissões deve ser garantido - mesmo que o próprio CFP (Conselho Federal de Psicologia) tenha dito que há limites para a prática.
 
Ainda que a homossexualidade não tenha retornado ao status de doença - oficialmente falando -, abre-se precedente para que um psicólogo atenda pacientes que, por "livre e espontânea vontade" - leia-se pressão social - queira se tornar heterossexual. Em outras palavras, abre-se espaço para a aplicação das terapias de "reorientação sexual". Pergunto, eu, num primeiro momento, se este tratamento também "ajudaria" pessoas heterossexuais a reverterem sua sexualidade para a homossexual. Pergunta retórica. O objetivo, no caso, está evidente.
 

 Esta interpretação por parte da justiça brasileira poderá permitir, por exemplo, sessões nas quais os pacientes são submetidos não ao entendimento que visa auxiliar no processo de autoaceitação e entendimento a respeito dos desejos e afetividades que possuem - além do fortalecimento de suas bases psicológicas para lidar com o preconceito -, mas sim a "reconfigurar" suas formas de sentir e ser, negando, entre tantos outros aspectos naturais da sexualidade humana, a bissexualidade (só para não resumir a questão apenas à homossexualidade).

O debate precisa ficar bem posto para que não hajam equívocos. De um lado, o CFP diz que não se deve prestar atendimento no intuito de tentar reverter a homossexualidade de alguém. Já a justiça do DF considerou que, não, não se deve impedir tanto o homossexual quanto o psicólogo de tentar "reorientar" a sexualidade em questão. Interessante seria se a justiça considerasse, por exemplo, os motivos pelos quais alguém "escolhe" abrir mão dos próprios desejos e afetivos em prol de uma mudança brusca em sua existência. Por que deixar de ser homossexual? Por que nunca vemos alguém querer deixar de ser heterossexual (repetindo, para enfatizar, o questionamento que fiz logo acima)? Muitas perguntas, mas vou me atentar a uma, apenas.
 
O que realmente precisa ser "curado"?

Sintomas.

Eu tinha sete anos quando na primeira vez que me chamaram de "bicha" e eu, de fato, prestei atenção na palavra e na entonação com que ela veio até o meio da minha cara. Um garoto chamou algumas meninas para irem debaixo da carteira da sala de aula com ele "brincar de médico". Uma das meninas disse para me chamar e o pivete soltou: não, ele não, ele é bicha.

Cheguei em casa com uma sensação estranha. Era como se tivessem me dito algo que se encaixava em quem eu era (ou nunca tinha pensado em ser), mas trazia carga negativa. Na dúvida, resolvi perguntar à minha mãe do que se tratava o termo.

- Quem te falou isso?!

- Um menino da sala.

- Se ele falar isso novamente, você conta para a professora. E se não resolver, eu vou lá na escola reclamar!

- Mas o que significa?

- Não é para deixar que te chamem assim, viu!?

Bastou para eu perceber que se tratava de algo "ruim". Pior ainda: algo ruim que existia dentro de mim e que já estava visível para outras pessoas. Daí em diante, só desgraça.

Humilhação na sala, agressão na escola, primos me atormentando, tratando-me com desdém, o olhar do meu pai que se modificava, a preocupação da minha mãe que desenhava marcas em seu rosto, meu irmão mais novo me chamando de "bicha" a cada desentendimento, adultos questionando meu pai quando me viam nos churrascos. Enfim, nada que pessoas LGBTs não tenham vivenciado em algum momento de suas existências.

O primeiro sintoma da doença foi: "você não pode ser quem é".

Diagnóstico.

Percebi que "precisava" tratar da "bicha" em mim. Ela, que por dentro parecia crescer rapidamente e ocupar vários espaços até então nunca percebidos, tornou-se realidade.

Parei de falar, pois uma vez atendi o telefone na casa de minha tia e a pessoa do outro lado da linha falou: "moça, você pode chamar a Maria?". Parei de correr, porque diziam que eu parecia uma "gazela". Parei de jogar bola na escola porque, a cada erro, alguém falava bicha. Parei de usar canetas coloridas porque diziam que era coisa de menina. Parei de caprichar na letra porque diziam que era letra de menina. Parei de dançar, porque fui proibido de "passar vergonha em público" - era coisa de menina. Parei de confiar nas pessoas. Parei de chorar. Parei em mim.

Comecei a partir dos outros.

Aquele diagnóstico acabou com essa primeira fase da infância e pré-adolescente. Eu me fechei de uma maneira que nem mesmo minha família conseguia adentrar. Por outro lado, busquei formas de sobreviver sem mais danos do que os que eu já tinha sofrido. Tornei-me cada vez mais "invisível".

Na rua, onde "me criei", aprendi a ser mais ardiloso, estratégico, fazer alianças, demarcar territórios, ser correria mesmo, tudo para garantir minha sobrevivência e aprender como o mundão seria dali pra frente - e pra fora.

Lembro que fervia a cabeça pensando em maneiras de não ser humilhado. Tudo porque a sensação era terrível. Só que tão terrível quanto ela, era a energia que eu despendia para seguir o padrão estabelecido. Para "virar homem", como tantas vezes escutei.

- Descruze estas pernas!

- Fale direito!

- Segure esse garfo com firmeza!

- Pare de falar "ai``
- Nem pense em dançar na frente de casa!

- E esse colar no pescoço? E essas pulseiras?

Exausto. Todo dia o ritual de sobrevivência se repetia. Não tinha sossego. Chegava à escola e precisava ficar atento tanto às aulas quanto às pessoas ao meu redor. Qualquer expressão, fala ou olhar já desencadearia uma série de xingamentos e agressões. Na 7ª série, não aguentei mais.

Estava na sala e desenharam uma caricatura minha. Como se não bastasse, colaram ela na lousa. O responsável não aguentou e soltou uma gargalhada bem daquelas rasgadas. Lembro que caminhei até o quadro, retirei o desenho, fiz uma bola de papel, fui caminhando até ele e enfiei dentro de sua boca. Quando ele tentou se levantar para me bater, peguei a carteira e arremessei nele. Todo mundo ficou em choque. Eu estava vazio. O nervosismo havia passado. Era uma sensação que há anos eu não sentia. A "bicha", além de tudo, era violenta.

Comecei a partir os outros.

O diagnóstico ficou evidente pela primeira vez: eu sofria de uma vida que não era a minha. Eu sofria de uma normatividade compulsória que tentava destruir corpo e mente.

Eu sofria por conta da heternormatividade que me era imposta como única perspectiva para meus desejos e afetos.

Tratamento.

Homossexual. Lembro-me da última vez que rezei. Perguntei a "deus": "É isso mesmo? Jura que é comigo? Tsc, jura mesmo que eu sou homossexual?". Ao invés de me fazer sofrer, depois da reza, o silêncio do criador foi a única prova concreta de sua existência em minha vida.

Eu queria silêncio, eu queria ouvir minha pergunta e eu mesmo respondê-la. "Sim, é isso mesmo". E como vai ser daqui pra frente? Vou guardar o melhor de mim pra hora certa. Mas que bom que eu sou assim, eu sou diferente mesmo, não tem jeito. Era meu, o jeito.

Nunca senti vergonha de quem eu era. Eu sentia vergonha em decorrência da forma que me travavam e me expunham. Vergonha de envergonhar meus pais. Mas de mim mesmo? Nunca. Calei o desejo por anos. Atração, sexo, tudo isso teve que se manter guardado.

Sou filho da periferia, fruto das quebradas. Ser "homem" e ser "homem homossexual" e ser "homem preto homossexual" nestas regiões, durante os anos 1990, era outra fita. Outros 500 - motivos para não conseguir ser.

Eu só tive um referencial na infância e adolescência. Negro, homossexual, afeminado, Fábio* apareceu na minha frente com um monte de pulseiras coloridas. Morávamos na mesma rua. As pessoas riam dele e o tratavam com alguém que não fosse de verdade. Uma presença efêmera que durava pouco tempo e, se insistisse em ficar, era apagada.

Começaram a me chamar de "Fabinho" e alguns pais alertaram para que não deixassem os filhos conviverem comigo na rua. Ser homossexual para mim não tinha esse nome, essa categoria, explicação ou palestra sobre - roda de conversa e glossário. Ser homossexual era ser eu, sentindo-me bem comigo mesmo e com meus desejos e afetividades - ainda que não pudesse expressar absolutamente nada por questões de segurança. E ser em mim e não para os outros.

Eu só sabia disso e foi nisso que me agarrei pra aguentar o tranco. Nisso e na raiva que sentia - e ainda sinto. Agradeço a ela, inclusive, por ter me dado condições de sobreviver. Hoje, a ela dedico minhas preces - e não mais fico em silêncio.

Aos poucos, comecei a ter mais conhecimento a respeito de minha condição no mundo. Um processo doloroso de crescimento que estoura os joelhos e muitas vezes me fez parar de caminhar. Mas não deitei. Nenhum dia, nem nos dias em que eu ficava preso no quarto, olhando para o nada, sem tomar banho, sem conseguir falar, sem conseguir pedir ajuda, no fundo, eu não estava deitado.

Encontrei pessoas que me ajudaram a compreender o processo de cura, gay. Na minha realidade, na realidade que é, de fato, a que contempla a existência que aqui retratei, cura, gay, foi justamente o fator que me livrou da real enfermidade: a heteronormatividade compulsiva.

A única cura que aceito e reconheço é a que partiu de mim, do meu corpo, da minha mente, da minha raiva, dos meus amores que guardei para não vê-los destruídos, dos meus ódios que liberei para não me ver consumido. A cura sempre esteve em mim porque eu era a solução, sempre fui.

Quando me chamaram de "bicha" pela primeira vez, foi a cura que reagiu dentro de mim, tentando preparar os anticorpos para a bateria de vermes, parasitas e outros seres que só aumentariam o efeito da doença que me contaminou por anos.

Essa heterossexualidade virulenta e violenta tirou muito de mim. Só não conseguiu retirar o principal: eu mesmo. Ninguém, absolutamente ninguém tem mais de mim do que eu mesmo.

A tal cura, gay, que conheci foi aquela que eu usei para exaltar, reconhecer e vivenciar minha homossexualidade. Uma cura contra a heternormatividade branca, cheia de religiosismos, machismos, untada no psicoticismo que se disseminou feito praga ao redor do mundo, colonizando mentes e corpos, tirando deles a naturalidade do desejo, dos afetos, dos quereres. A naturalidade da vida nas suas mais diversificadas formas.

Prognóstico.

Minha homossexualidade é saudável.

Precisei dela para me curar do preconceito e da imposição de uma realidade psicossocial que não era a minha. Penso muito na população transgênera, no quão sufocante é ter sua identidade de gênero tida como transtorno.

Meu tio iniciou seu processo de transição. Vejo de perto como é pesado, cansativo, mas ao mesmo tempo revigorante para ele vislumbrar a expressão de sua real identidade: a masculina. É o começo do fim do peso de viver em um mundo que deslegitima a própria noção que temos de nós mesmos e do que sentimos.

Daqui pra frente, não sei bem o quão diferente será de tudo o que passei. A única certeza que tenho é que desde a primeira vez em que ouvi palavra "bicha" sendo disparada contra mim, eu me fiz uma pergunta: essa palavra que me machucou, um dia cura?

- Cura, gay.

Cura dessa heteronormatividade, sim.

*Nome foi alterado para preservação do personagem.


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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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