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DIREITOS

'A questão da nudez na arte é universal', diz curador do MAM sobre polêmica.

Museu de Arte Moderna São Paulo foi criticado por interação de criança com uma exibição de nudez.


O homem nu trata-se do artista carioca Wagner Schwartz e a obra era uma releitura da série Bicho, considerada um clássico da artista Lygia Clark. 

**(Leia tambem abaixo: 'Contra a censura e a difamação': A resposta de Caetano e outros artistas ao conservadorismo no mundo das artes.)**



Em uma sala, um homem está deitado no chão completamente nu. Uma criança, acompanhada de uma mulher adulta, se aproxima do corpo e começa a tocar os pés e a canela do homem. Ao redor, homens e mulheres observam a cena.
 
A descrição pertence à performance La Bête que inaugurou a Mostra Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. O homem nu trata-se do artista carioca Wagner Schwartz e a obra era uma releitura da série Bicho, considerada um clássico da artista brasileira Lygia Clark.
 
Mas a performance se transformou em um debate público.

Em um vídeo compartilhado na última quinta-feira (28) nas redes sociais, o museu foi acusado de pedofilia por parte de usuários que não consideraram positiva a exposição da criança à cena de nudez.
 
Para o curador do MAM Filipe Chaimovich, é posição do museu abrir o diálogo com a sociedade. "A compreensão do que é a arte, da história da arte, é parte da missão do museu. E para isso ser transmitido é preciso existir diálogo", explica em entrevista ao HuffPost Brasil.

Alavancadas por páginas do Facebook, como a do Movimento Brasil Livre (MBL), as críticas à performance consideraram a cena "contrária aos valores da sociedade brasileira". No Twitter, a hashtag #PedofiliaNaoEArte foi um dos assuntos mais comentados desta sexta-feira (29).

Em nota, o MAM esclareceu a repercussão. De acordo com o museu, a mulher que acompanhava a criança era a mãe dela. Ainda, a instalação possuía as devidas orientações sobre nudez.

"A sala estava devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística, seguindo o procedimento regularmente adotado pela instituição de informar os visitantes quanto a temas sensíveis. O trabalho apresentado na ocasião não tem conteúdo erótico e trata-se de uma leitura interpretativa da obra Bicho, de Lygia Clark, historicamente reconhecida pelas suas proposições artísticas interativas."

Demian Grull presenciou a performance. Em entrevista ao O Globo, ele afirmou que não houve constrangimento em relação à participação da criança.

"Toda boa performance é surpreendente. Não percebi constrangimento, por ser uma criança. Primeiro, porque ela estava acompanhada da mãe, e a performance não tinha conotação sexual ou algo impróprio. Era apenas um corpo nu", compartilhou em entrevista ao jornal carioca.

Ao G1, o desembargador Antônio Carlos Malheiros, do Tribunal de Justiça, considerou "histeria coletiva" a classificação da performance como pedofilia. Malheiros, contudo, chama atenção para a importância de preservar integralmente as crianças de conteúdos inapropriados.

"Chamar qualquer episódio mais insinuante de 'pedofilia' virou uma histeria coletiva. Isso precisa ser afastado. Agora, de fato, a criança não poderia estar presente. Não considero pedofilia, mas é uma ação absolutamente inconveniente para uma criança. Ou seja, esse artista e a própria mãe da criança que estava com ela podem ser advertidos. Mas não vamos chegar ao exagero de achar que era um comando pedófilo", argumenta o desembargador.


O que é pedofilia, de acordo com a lei?

A pedofilia é classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um dos transtornos de preferência sexual. De acordo com o órgão, pedófilos são pessoas adultas, homens ou mulheres, que têm preferência sexual por crianças.

O código penal brasileiro considera crime a relação sexual ou qualquer ato de satisfação do desejo e apetite sexual praticado por um adulto com crianças ou adolescentes menores de 14 anos.

O artigo 241-B do Estatuto da Criança e do Adolescente, ainda, considera como crime "adquirir, possuir ou armazenar, por qualquer meio, fotografia, vídeo ou outra forma de registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente."


3 pontos para entender a posição do MAM


Filipe Chaimovich é curador e responsável pelo Museu de Arte Moderna. Em entrevista ao HuffPost Brasil, ele esclarece três questionamentos sobre o posicionamento do museu.

HuffPost Brasil: Quem define o que é um conteúdo apropriado para crianças em exposições do MAM?

Filipe Chaimovich: O nosso advogado sempre nos esclarece os tipos de advertências que devem ser colocadas de forma transparente para o público. Na entrada da sala tinha uma menção sobre a cena de nudez. Foi uma abertura pública como todas as outras e e politica do Museu fazer as inaugurações abertas a todos os públicos.

O museu já passou por algum caso que teve uma repercussão similar?

O MAM é uma instituição de cultura conhecida e reconhecida. A instituição sempre estará sujeita a ser alvo de reflexões.

Como o público brasileiro consome a nudez na arte?

A questão da nudez na arte é universal. Ela está presente em todos os museus. É parte inclusive do nosso patrimônio de arte pictórica. Temos pinturas com pelo menos 12 mil anos em que a nudez está presente. A nudez faz parte da história da arte.

O MAM vai proibir exibições como a performance 'La Bête'?

Não há nenhuma medida no sentido de proibição. O museu tem uma vocação pedagógica, é preciso esclarecer o público em casos que suscitem debate. É posição do museu abrir o diálogo com a sociedade. A compreensão do que é a arte, da história da arte, é parte da missão do museu. E para isso ser transmitido é preciso existir diálogo.

'Contra a censura e a difamação': A resposta de Caetano e outros artistas ao conservadorismo no mundo das artes.


Nomes como Marisa Monte, Vik Muniz, Adriana Varejão e outros artistas lançaram resposta à onda conservadora contra exposições pelo País.

Um mês após a exposição Queermuseu, no Santander Cultural, em Porto Alegre (RS), ser censurada e acusada de promover "zoofilia e pedofilia" e dez dias depois da polêmica envolvendo a performance "La bête", no MAM de São Paulo, cerca de 100 personalidades do cenário cultural brasileiro são os protagonistas da campanha "#342 artes — Contra a censura e a difamação", lançada nas redes sociais neste fim de semana.
 
Entre os que aderiram ao protesto estão nomes como Adriana Varejão, Caetano Velloso, Marisa Monte, Vik Muniz, Beatriz Milhazes, Gaudêncio Fidélix e Paula Lavigne. Segundo o jornal O Globo, do Rio de Janeiro, a decisão não é de apenas fazer uma movimentação contra a censura: artistas que se sentiram difamados em vídeos de políticos e grupos na internet irão à Justiça.

No primeiro vídeo da hashtag #342artes, o curador da mostra Queermuseu, Gaudêncio Fidélix faz uma crítica aos últimos acontecimentos e afirma que "está bem claro a partir de agora que isso é um processo de criminalização da arte e dos artistas e que nós teremos que enfrentar com bastante veemência".
 
Em seguida, no mesmo vídeo, Fidelix aparece ao lado do cantor e compositor Caetano Veloso, que faz uma crítica ao Movimento Brasil Livre (MBL): "Esse negócio de MBL, sinceramente... Só quem é idiota para acreditar que aquilo é para valer, cara...", afirma Caetano.

O curador também critica a postura de Marcelo Crivella (PRB-RJ), bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e prefeito do Rio de Janeiro e do senador Magno Malta (PR-ES) que, segundo ele, o convocou para a CPI dos maus-tratos contra crianças e adolescentes para "armar um circo midiático".

A atriz Fernanda Montenegro também se pronunciou na campanha. Em vídeo, ela faz um apelo para que os políticos saiam do "silêncio acovardado" em que estão e afirma que "só há um tipo de cultura que realmente constrói um país" e que "não existe nação sem liberdade".

Já os artistas plásticos Vik Muniz e Beatriz Milhazes, em entrevista ao El País Brasil, lembraram que "toda vez que alguém esteve contra a arte ou na repressão da expressão artística, esteve do lado errado da história" e que, neste caso, "conseguiram colar a tarja de pedofilia e zoofilia e agora temos que combater algo que não existe".


Arte x política




"Saiu no jornal que [a mostra] ia ser no MAR, só se for no fundo do mar", afirmou o prefeito do Rio de Janeiro nas redes sociais sobre as negociações para a mostra Queermuseu ser exibida no MAR (Museu de Arte do Rio). "Não é legal estimular uma criança a tocar em um homem nu em 'nome da arte'. É preciso respeitar a família, vamos cuidar das nossas crianças", continua Crivella.

Após a declaração do prefeito, o MAR cancelou as negociações para realizar exposição Queermuseu na cidade. "Lamentamos o modo como este debate tem sido inflamado por intensas polêmicas, que levaram a Prefeitura do Rio de Janeiro, por ser este um museu de sua rede municipal de equipamentos culturais, a solicitar a não realização de Queermuseu - cartografias da diferença na arte brasileira no MAR", diz parte do texto divulgado pela instituição.

"Eu compreendo que a arte é uma manifestação muito aberta, muito ampla, mas tudo tem limite", afirma João Doria, prefeito de São Paulo, em vídeo também divulgado em suas redes sociais. Segundo ele, "a exposição do MAM, não pode, em nome dessa liberdade, permitir que uma cena libidinosa que estimula uma relação artificial e imprópria seja colocada para o público."

"Crivella e Doria estão difamando profissionais sérios e enganando a população", disse Paula Lavigne, ao Globo. Lavigne disse, em entrevista ao jornal, que o conteúdo disseminado por movimentos conservadores na internet e políticos brasileiros "estão sendo usados por políticos para criar uma cortina de fumaça sobre os reais problemas do país".

“Por isso também vamos entrar com ações contra eles e contra grupos (o Movimento Brasil Livre é um deles) que usam a difamação como forma de enganar a população. É um movimento para dizer que exigimos respeito.

Procurados pela imprensa, a assessoria do prefeito Marcelo Crivella informou que a prefeitura do Rio de Janeiro não irá se posicionar sobre o caso. O Movimento Brasil Livre (MBL) também não se pronunciou sobre o assunto. Já a assessoria do prefeito João Doria disse em comunicado que "Paula Lavigne está desinformada. Ao referir-se à performance "La bête", (o prefeito) apontou que houve desrespeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente e manifestou uma opinião crítica em relação a seu conteúdo, o que ele reafirma". 


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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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