Slide 1 Slide 2 Slide 3

DIREITOS

João Silvério Trevisan: 'Os problemas da comunidade LGBT são de um país inteiro'.


Para Trevisan, os problemas da comunidade LGBT continuam sendo colocados num compartimento. "Vocês viados, lésbicas, travestis que se virem", constata.


A literatura não é feita para curar, mas pode ajudar a cicatrizar feridas. A afirmação é do escritor João Silvério Trevisan, que acaba de lançar Pai, Pai, livro de memórias publicado pela editora Alfaguara. Aos 73 anos, um dos nomes de maior prestígio da literatura brasileira faz um acerto de contas com a figura do pai, José, morto em 1997 e, consequentemente, com os próprios demônios que estiveram à sombra do homem rude e frio - que não aceitava a homossexualidade do filho.
 

"Tive que mexer em coisas extremamente profundas, duras e frequentemente dolorosas que percorrem o mesmo caminho do processo analítico", conta o autor em entrevista por telefone ao HuffPost Brasil. Vencedor de três prêmios Jabuti, criador do primeiro grupo de liberação homossexual do Brasil (Somos) e cofundador, no final dos anos 70, do primeiro jornal voltado para a comunidade LGBT (Lampião da Esquina), Trevisan teve uma infância atormentada por abusos psicológicos, físicos e pela ausência de afeto do pai.
 

A dor que o escritor resolveu investigar é revelada logo no título do livro, uma referência ao trecho do evangelho de Matheus em que Jesus, antes de morrer crucificado, grita em agonia "Pai, Pai, por que me abandonaste?". Entretanto, segundo o autor, o ponto central do livro não é a dor, muito menos o desafeto pelo pai e sim o "processo extraordinário do perdão".
 

Na conversa que você lê a seguir, o filho mais velho de uma família média baixa de Ribeirão Bonito, no interior de São Paulo, fala não só de seu 14º livro, mas também de questões relacionadas à sua história como ativista pelos direitos da comunidade LGBT. Ele analisa as origens político-religiosas por trás da ideia de "cura gay" e afirma que não quer que seu livro vire uma ferramenta relacionada à questão.
 

Sobre a questão LGBT na atualidade, Trevisan se diz cansado de não ver uma adesão de todas as camadas da sociedade. E crava: "Os problemas da comunidade LGBT não são problemas só da comunidade LGBT. Eles são problemas de um país inteiro".





HuffPost Brasil: Você afirma que escrever Pai, Pai foi o equivalente a 10 anos de psicanálise. Como a literatura assumiu esse poder de cura para você?

João Silvério Trevisan: Eu coordeno oficinas literárias há mais de 30 anos e frequentemente surge esse tipo de questão. A produção do texto exige um mergulho profundo na vida pessoal e no psiquismo. Eu sempre digo nas minhas oficinas: "Não existe produção literária sem que a pessoa toque nos seus próprios demônios". É nessa sombra que está o caldo de onde resulta a nossa identidade ou, melhor ainda, o nosso mistério. Esses demônios estão todos inscritos nas sombras. A partir disso, existe uma questão a se pensar: "Será que o processo de meter o dedo na expressão literária não seria automaticamente um processo de meter o dedo nas feridas?". Frequentemente, é exatamente isso o que acontece. Mas eu não creio que a literatura possa se confundir com os recursos da psicanálise ou de terapias. São campos fronteiriços, mas completamente diferentes do ponto de vista do objetivo e do resultado.

A literatura não é feita para curar, mas pode resultar numa cura ou numa salvação. Acredito que se eu não fosse escritor, não teria sobrevivido. E se tivesse sobrevivido, teria ficado louco. Falo isso por conta do que conheço de mim, das minhas necessidades pessoais, dos caminhos que eu trilhei e da minha maneira de expressar - sempre muito apaixonada e radical. Quando eu afirmo que o livro equivaleu a dez anos de análise, digo não porque escrevi para suprir uma necessidade analítica. No entanto, o resultado acabou sendo esse. Tive que mexer em coisas extremamente profundas, duras e frequentemente dolorosas que percorrem o mesmo caminho do processo analítico.

Um questão que se discute hoje é a masculinidade tóxica, que está relacionada ao homem que não consegue expressar sentimentos e fragilidades por conta de um padrão imposto pela sociedade. Você acredita que seu pai tinha esse perfil?

Meu pai era um macho típico da época e origem dele. Ele era de uma família de imigrantes italianos pobres. Esse quadro - que no livro eu me refiro como a "mentalidade Trevisan" ou seja, a mentalidade da família do meu pai em contraposição à família Aiello da minha mãe - estava presente com as suas insuficiências e suas contradições. A grande contradição do meu pai foi não conseguir responder às exigências do papel que lhe era determinado enquanto um macho típico. Ele teve que fazer uso do álcool para poder cumprir aparentemente essa função masculina estereotipada, a do macho durão. Em determinado momento do livro – principalmente quando descrevo meu processo de rebelião - eu faço um panorama do macho típico, "falocrático", do patriarcado. Essa figura adquire um contexto muito mais amplo, que é contexto social em que eu estava vivendo. Usei um ponto de vista da margem para encarar essa circunstância trágica do macho típico. O ponto de vista da minha homossexualidade. Eu não teria condições de fazer a crítica sobre tudo isso e me rebelar contra esse projeto social se eu não tivesse levado a minha homossexualidade como referência. Eu estava, obviamente, vivendo fora desse processo. E eu não aceitava esse processo.

“A literatura não é feita para curar, mas pode resultar numa cura ou numa salvação. Acredito que se eu não tivesse fosse escritor, não teria sobrevivido. E se tivesse sobrevivido, teria ficado louco.

Pai, Pai chega às livrarias em um momento que a discussão sobre "cura gay" está em voga no Brasil. Como você situa a obra nesse contexto?

Eu vejo de uma maneira muito dúbia. Por um lado, acredito que o livro vem a calhar no sentido de trazer uma questão que não dá para negar. Se as pessoas que acreditam na cura gay lerem meu livro, vão ter que repensar a questão. Elas vão perceber o massacre que eu vinha sofrendo. Se forem minimamente inteligentes, vão perceber que, eventualmente, se eu quisesse uma cura, não seria pelo fato do que eu era enquanto homossexual, mas por causa do massacre que eu estava sofrendo. Seria uma "cura" para escapar do massacre. Esse é o mais grave engano e a maior perversidade de toda essa ideia de "cura gay". É transformar o estuprado em responsável pelo estupro. O livro pode suscitar uma discussão interessante que é: a minha vida não foi uma mentira. A minha vida foi a minha vida e não poderia ter sido diferente – com todos os percalços que eu encontrei. Eu tenho uma verdade pessoal que muita gente pode não concordar, mas ela não pode ser negada. Trata-se de uma vivência muito profunda e crucial. Quem nega isso contrapõe uma vivência concreta a uma postura dogmática e abstrata.

Lá no fundo, a "cura gay" é baseada em um pressuposto bíblico interpretado de determinada maneira pelas pessoas que brandem a Bíblia a seu favor. Ela está estabelecida não por conta de alguma conclusão psicológica ou psicanalítica, mas por conta de uma questão religiosa. 'Deus condenou a homossexualidade, então a homossexualidade tem que ser curada'. E a discussão é exatamente anterior à cura: o que é que estão fazendo com a Bíblia? Porque se a Bíblia for levada até às últimas consequências, nós vamos ter que apedrejar quem trabalha no sábado e os pais vão ter que entregar suas filhas para seus visitantes, por exemplo.

A Bíblia tem uma série de determinações e orientações absolutamente datadas. E esses personagens que eu considero espertalhões e oportunistas escolhem o que é utilizável com uma finalidade que é basicamente de poder. Está lá o Crivella no Rio de Janeiro. Anos atrás, ele deu uma entrevista em que agradeceu o ex-presidente Lula de ter aberto caminho para para a igreja dele em Moçambique, na África, e dizia: "Um dia ainda teremos um presidente evangélico". Eu não tenho nada contra os evangélicos. Meu problema é o fanatismo dos neopentecostais, uma linha do protestantismo baseada numa postura integrista, fanática e de objetivos teocráticos, absolutamente autoritários – que não tem nada a ver com a vivência democrática na qual deveríamos estar inseridos num país como o Brasil.

Mas por outro lado, tem uma coisa mais sutil. Eu não quero que meu livro sirva de instrumento para que as pessoas deixem de fazer as suas análises e joguem sobre meus ombros a responsabilidade de responder questões que estão sendo colocadas numa estrutura política muito mais ampla. Eu não quero ser um substituto da voz das pessoas. Isso me preocupa muitíssimo. Eu quero engrossar o clamor da multidão que está descontente e preocupada com o que está acontecendo no Brasil. Mas eu não gostaria que utilizassem meu livro como boi pra piranha. Porque me preocupa que transformem meu livro numa ferramenta meramente relacionada com a briga entre "cura gay" e "vivência homossexual". O meu livro parte de toda a questão da vivência homossexual, mas é um livro que chega em um ponto muito mais ampla que é a questão da paternidade e do perdão.




A questão do perdão é algo muito central em Pai, Pai, correto?

Exatamente. Acredito que esse é o grande ponto do livro. É o cume do desdobramento de uma reflexão. O perdão é um processo extraordinário no qual você mete o dedo na sua ferida e puxa raízes do mais profundo da sua alma e da sua psique. Mas quero deixar claro que não estou ensinando ninguém sobre como perdoar. O perdão é um processo interior prolongadíssimo e complexo que não depende de uma decisão racional. Eu próprio perdoei meu pai várias vezes e não acredito esses momentos de perdão tenham sido suficientes.

Tendo em vista a sua história como ativista pelos direitos da comunidade LGBT, o que você acha que é urgente hoje no Brasil nesse cenário?

E tenho 73 anos e estou cansado de ver os problemas nas costas da comunidade homossexual. Os problemas da comunidade LGBT não são problemas só da comunidade LGBT. Em todas as instâncias – desde saúde até direitos, passando pela sua participação na sociedade brasileira. Eles são problemas de uma democracia. Portanto são problemas de um país inteiro. Isso jamais foi tratado como tal. É mais ou menos assim: 'Vocês estão num gueto, vocês se virem'. Há problemas sérios de saúde relacionados com a comunidade homossexual que nunca foram abordados. Há problemas sérios do ponto de vista de direitos legais que o Ministério Público nunca se interessou em abordar.

Quando as paradas começaram a acontecer, eu respirei fundo e disse: 'Finalmente nós vamos começar a olhar para o universo LGBT de um modo que não seja compartimentalizado'. Ledo engano. Ainda que as paradas aconteçam em inúmeros lugares do Brasil, ainda que aconteçam com uma monumentalidade, como é o caso de São Paulo – e só quem participa das paradas pode ter uma ideia clara do que aquilo significa – nem assim nós conseguimos aprovar as leis que são absolutamente básicas e fundamentais para que possamos dizer que a comunidade faz parte da sociedade brasileira.

Basta olhar para o Congresso. Os problemas da comunidade homossexual continuam sendo colocados num compartimento. 'Vocês viados, lésbicas, travestis que se virem'. Na hora H, é isso o que acontece. Inclusive, não só neste governo reacionário. No período da [ex-presidente] Dilma nós tivemos isso, no período do Lula nós tivemos isso. Na hora H, nós somos usados como moeda de troca cruel. Porque a bancada evangélica, religiosa e conservadora sabe onde dói o calo. E, nos momentos cruciais, ela diz: 'Ou vocês tiram da pauta as questões relacionadas com leis a favor de homossexuais – diga-se de passagem, o aborto está na mesma linha – ou nós não aprovamos elementos que são considerados mais importantes pelo governo'.

Eu me lembro da época em que a Dilma teve uma reunião com a bancada evangélica e veio a público dizer que o governo dela não ia apoiar nenhuma 'opção sexual'. E tirou de vista o que ficou conhecido como kit gay, que estava sendo proposto pelo Ministério da Educação. Ou seja, o governo dela estava naquele momento a serviço da bancada evangélica e não do lado dos direitos de uma comunidade que pertence à vida democrática do Brasil.

Poderá gostar também de:
Postado por Andy | (0) Comente aqui!

0 comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...