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MINHA VIDA GAY

Linn da Quebrada: 'Uso a música como arma. Como arma voltada para mim mesma'.


Aos 27 anos, Linn da Quebrada se declara "bixa travesti, preta, da quebrada, filha de empregada doméstica". 


"Não quero só pica. Eu quero o corpo inteiro. Nem vem com esse papo: Feminina tu não come? Quem disse que linda assim vou querer dar meu cu pra homem?"

Os versos acima são de Talento, música que abre Pajubá, primeiro álbum de Linn da Quebrada - que chega às lojas e plataformas digitais nesta sexta-feira (6). Realizado por meio de um financiamento coletivo, que ultrapassou a meta de R$ 45 mil, o disco traz letras transgressoras e debochadas sobre questões de gênero, sexualidade e desejo.
Uma combinação de funk, vogue e experimentalismo eletrônico dão o tom do álbum que tem direção musical da produtora BadSista, produção de Nelson D, Carlos NuneZ, Vincenzo e Diego Sants, responsável também pela mixagem do álbum que acolhe e evidencia a comunidade LGBT, em especial o T da famosa sigla.
Aos 26 anos, Linn da Quebrada se declara "bixa travesti, preta, da quebrada, filha de empregada doméstica". Criada em um lar religioso - primeiro no interior paulista, depois na zona leste de São Paulo -, ela abandonou a fé para questionar a própria identidade.
Na arte performática e no funk, ela encontrou novas possibilidades de expressão. E no convívio com outras "travestis, translesbichas e transviadas", forças para questionar a invisibilidade e a violência sofrida pelas pessoas transgênero, bem como reivindicar o direito de ser afeminada e refletir sobre os resquícios de heteronormatividade presentes na comunidade LGBT.

"Resolvi usar a música como arma. Como arma voltada para mim mesma. Olhando para os meus desejos, olhando para o meu desejo sempre voltado para um macho. Ao mostrar essas ideias para outras pessoas, percebi que muita gente se identificava", conta a artista.

As letras explícitas de Pajubá já são conhecidas dos fãs que frequentam os shows da de Linn da Quebrada. Além das novas roupagens das músicas, a novidade do álbum fica por conta das participações especiais de Liniker, Mulher Pepita e Gloria Groove - outras três representantes da nova cena queer da música brasileira. "Eu tive um grande prazer de trabalhar com pessoas que eu admiro e que estavam dispostas a produzir algo novo e a pensar esse material junto comigo", comemora.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a artista que reflete sobre estruturas sociais, o conceito de feminino e representatividade. Conta que seu trabalho é uma forma de legitimação da própria existência. E se mostra incerta em relação aos seus próximos passos, pelo menos na música.

"O meu prazer, o que me movimenta, o que me impulsiona é outra coisa, que eu nem sei exatamente o que é. Mas é justamente talvez o prazer de me destruir. Tem algo de sádico no que eu faço", afirma.


Capa de 'Pajubá'

Leia a entrevista completa:



HuffPost Brasil: Pajubá tem deboche, exaltação e críticas ao meio LGBT. Que mensagem você quer transmitir com esse álbum?

MC Linn Da Quebrada: Eu procuro um diálogo com o meio TLGB e um diálogo comigo. Eu sempre vi no funk uma grande potência no que diz respeito a produção de desejo e sexualidade. Eu quero produzir esse desejo em corpos que de alguma maneira estão em um contexto parecido com o meu. Quero mostrar como o desejo e a sexualidade não são coisas dadas e sim construídas principalmente por meios como TV, cinema e música. Eu quis fazer essa intervenção por meio das músicas. E a provocação que faço não é só para o outro ou para pessoas TLGB. É uma provocação para mim também.

As músicas tratam de questões ligadas ao feminino porque eu percebia que, quanto mais marcas do feminino eu trazia no meu corpo, mais isso me ligava à solidão, ao erro, a um corpo preterido. Faço música a fim de criar forças para sustentar esse feminino. Faço música para reinventar no meu próprio imaginário uma outra possibilidade de potência que existe nos corpos feminilizados.

Os indivíduos que são diagnosticadas como homens ao nascer e que transgridem marcando seus corpos com traços do feminino sofrem muita opressão. Quando percebi isso, resolvi construir uma rede de apoio. Me dei conta de que seria muito difícil me manter forte sozinha e de construir outras possibilidades de desejo. Para construir desejo, é preciso construir junto.

Acredito que a música tem esse poder de influência, então resolvi usá-la como arma. Como arma voltada para mim mesma. Olhando para os meus desejos, olhando para o meu desejo sempre voltado para um macho. Nesse processo, tentei perceber o que constrói esse desejo em mim e como eu poderia desconstruí-lo. Ao mostrar essas ideias para outras pessoas, percebi que muita gente se identificava. Acho que essas ideias só fazem tanto sentido porque são vírus e antídoto com efeito sobre o meu corpo. Eu não fiz algo voltado para apontar o dedo na cara de outras pessoas.

É uma verdade sua...

Que tem relevância e importância pra mim, me deixa mais fortes e ao mesmo tempo apontam minhas próprias fragilidades. Acredito que abordar as fragilidades, fragilidades do meu corpo, é um ponto importante do meu trabalho. Mas ao mesmo tempo transformo elas em potência, em força, resistência.

A minha música tem muito a ver com reinvenção de narrativa, um novo imaginário. Eu percebi que na música em geral, os termos delas se repetem. A estrutura do amor e dos afetos está consolidada. Minha tentativa na música é inventar novas estruturas, novos pensamentos, novas formulações. É pensar que eu posso fazer algo que seja gostoso de dançar, que diz respeito, por exemplo a "sentar, sentar, sentar", mas que não está necessariamente em função do macho. Pelo contrário, é daí que que me questiono e me volto contra esse macho. As músicas em geral sempre falam dela, é sempre o homem falando do feminino ou o feminino falando de si mesmo voltado para o macho. Poucas vezes o feminino fala de forma independente ou voltada para si.

Acho que minha tentativa foi de causar pequenas fissuras nesse imaginário. E fissura no duplo sentido da palavra: rompendo com as fissuras – com aquelas coisas pelas quais somos fissuradas, aquelas vontades que constroem nossos desejos, nossas vontades e paixões – e também fissuras que sejam verdadeiros rompimentos.





A religião é algo presente tanto na sua história quanto no álbum. Você foi criada em lar de Testemunhas de Jeová e em Pajubá há uma abordagem frequente de questões ligadas ao sagrado e ao profano. Como você vê essa relação?

Para mim, todas essas questões estão muito ligadas. São questões que mostram o culto ao falo. Elas mostram que, de uma forma ou de outra, nós estamos com os joelhos dobrados: ou diante da oração ou diante da ereção. E de qualquer forma, entre a oração ou a ereção, está ele. Ou Deus. Feito a imagem e semelhança do homem. Feito a imagem e semelhança de Deus. Tudo isso garante o império do macho. Tudo isso garante o império do homem. Porque foi construído um imaginário onde o sagrado está ligado ao masculino. Ele é universal, onipotente. Foi por ele que foram feitas todas as coisas. E a partir Dele, em função Dele, inclusive a linguagem, o pensamento, as ciências e os afetos. Tudo está em torno dele, com D maiúsculo, o homem. E o feminino sempre esteve ligado mais à questão do pecado.

Pensar e sentir todas essas estruturas me faz questionar esse conceito de Deus, esse conceito de sagrado. Eu trago isso nas minhas músicas porque vivi na pele. Mas acredito que todas nós - mesmo pessoas que não tenham pertencido a uma religião ligada ao cristianismo - fomos atingidos por essa estrutura. Acredito que isso está estruturado na nossa sociedade, está presente tanto nas questões políticas como nas questões afetivas.

Em todos esses cenários há um dedo do sagrado, há um dedo de Deus, que controla ou que tenta controlar. Foi preciso, no meu caso – como já tinha assumido esse lugar da expulsa do Éden, da que não vai ter direito a vida eterna - olhar para as coisas pelo que elas são, limpá-las um pouco das ideias que tinham sido colocadas na minha cabeça. Olhar e perceber o que está na minha frente. Tentando reconstruir esses termos, como você disse, de sagrado e profano. Reinventar o conceito de Deus, reinventar o conceito de corpo. Dando eu mesma sentidos ao meu corpo. Dando eu mesma sentido à sexualidade, às relações. Só que isso tem um grande risco que é o do caos. Deus dá uma tranquilidade para a maioria das pessoas pelo fato de que tudo se explica em Deus, "Se Deus quiser, vai acontecer". Tudo se explica e se conforma nele. A partir dessas reflexões, eu me assumo deusa e criatura. Criadora do meu próprio corpo.




A arte te ajuda a manter o controle sobre esse caos?

Uma coisa que eu também percebi durante o processo [de realização do álbum] é que a música dá ordem ao caos. Dá ordem ao caos de ideias que eu tenho na minha cabeça e dá ordem ao próprio processo da música. Porque ficar organizando sons, colocando volume, arrumando as coisa no lugar é completamente esse processo de dar ordem ao caos. O processo de realização do álbum foi desesperador nesse sentido. Em pensei que não ia dar conta.

Você é uma artista que sabe o momento de parar? Durante a realização do álbum, você percebeu com clareza quando as músicas estavam concluídas?

Eu sou muito desorganizada. Daí, eu tento dar alguma ordem para a minha desorganização. Aprendi com o DJ Pininga, que me acompanha, o processo de mixagem. Mas quanto mais opções eu tinha a minha disposição, mais enlouquecida eu ficava. Eu poderia pensar em mil e outras coisas a partir disso.

Ter prazos e e me concentrar, ser mais objetiva foi ótimo porque me fez entender que esse processo do álbum diz respeito a esse momento, às possibilidades que eu tive até então. Diz respeito ao presente. Eu poderia ficar mexendo nesse álbum por muito tempo pra chegar em outros lugares. Mas acredito que foi preciso encerrar ele para que dialogasse com o meu tempo hoje. Eu sinto que o álbum dialoga extremamente com o presente e com as pessoas nesse tempo. E ele faz sentido agora.

A informação hoje circula com muito mais velocidade. A teoria, e música também é teoria, está aí para ser ultrapassada. Pensamento se renova, se transforma. E a música também. A questão é que a gente consolidou uma hegemonia artística onde determinado pensamento musical permaneceu. E foi se repetindo por muito tempo. Um pensamento quem tem não só uma estrutura na música, mas um pensamento que protege o macho, pensamento que fala do amor romântico, pensamento que exalta a família, que diz respeito a moral e bons costumes.

Em todas as instâncias artísticas, políticas e educativas, todas elas foram muito bem consolidadas pra proteger essa estrutura. E acho que existem outras estruturas que colocam elas em xeque. Hoje, outras pessoas acessam a academia, as instâncias do direito, da legalidade e a instância da saúde, por exemplo. Todas essas coisas vão botando ema estrutura consolidada em xeque e fazendo com que a gente passe a pensar diferente. Isso não é diferente também na música e nos meios artísticos. E vai além de mim. Porque Linn da Quebrada é maior que eu e maior do que as minhas vontades. Linn da Quebrada se tornou um movimento. São todas essas pessoas que trabalham e atuam e são parceiras junto comigo. Sem essas pessoas, eu não teria chegado aonde cheguei, com esse alcance e nessa potência. O importante agora é soltar esse vírus no mundo. O vírus da dúvida que traga um pouco de incerteza para tantas verdades.

Você costuma dizer que a sua arte na verdade representa o que precisava ouvir no passado. Como você conseguiu chegar onde chegou?

Acredito que algumas pessoas e alguns corpos já estão destinados a uma certa forma de solidão. Por isso eu tive que inventar forças eu mesma. Muito do que eu falo e canto é justamente por isso, porque eu precisava ouvir. Eu precisava inventar em mim força de vontade e pulsão para acreditar na diferença. Nesse processo, eu aprendi a olhar para o meu entorno e formar com pessoas próximas a mim redes de apoio - outras travestis, translesbichas e transviadas que estavam próximas a mim.

Percebi no convívio com todas essas pessoas que ali tinha tanto poder e sabedoria quanto nas coisas acadêmicas. Porque eu aprendia muito mais ali, conseguia elaborar mais pensamentos - e de forma mais acessível - do que quando eu lia determinados textos ou apenas teorizava sobre a vida. Acho que esse foi um ponto importante de quando eu resolvi fazer música. Porque eu lia muita coisa. Só que eu percebia que parte do que eu lia tinha pouco alcance se eu fosse falar com a minha mãe, por exemplo. E eu já tinha entendido algumas coisas pra me livrar, inclusive, de questões ligadas à culpa e ao medo medo. Questões que me davam legitimidade pra ser quem eu sou. Eu já tinha entendido.

Como eu poderia dialogar ou trocar isso com a minha mãe? Ou com outras pessoas próximas a mim sem parecer preprotente, falando em uma linguagem acadêmica, sobre teorias queer ou algo do tipo? Eu precisava traduzir isso de alguma forma pra um vocabulário acessível.

A partir daí, tentei elaborar nas músicas essas questões que estavam ligadas a como eu me sentia: à transição, a ser bicha, a questões raciais, a questões econômicas. Eu acho que todas essas coisas de uma certa forma me fizeram ter mais força. Pois elas eram a tentativa de eu conseguir acreditar que era possível existir sendo assim. Eu via que isso era possível nas pessoas que estavam próximas a mim – desde as travestis que trabalhavam na pista, às travestis que eram mais próximas, as que pensavam diferente de mim, as bichas, as drags.

A realização de Pajubá por meio de um financiamento coletivo mostra seu trabalho tem uma grande adesão do público. No passado você precisava de referências e hoje você é uma referência. Como é estar nesse lugar e ter o alcance que você tem?

É muito louco isso. Acredito que a gente tem que criar novas referências. E acho importante assumir esse papel, mas de uma certa forma é preciso também sabotar, hackear. Eu costumo falar que a representatividade tem um perigo muito grande que é o perigo do conforto. Em vez de nos colocar numa zona de confronto, ela pode também nos colocar numa zona de conforto, onde: "Eu já me sinto aliviada porque ali tem uma viada que vive e que expressa o feminino, que é muito corajosa e que vive coisas que eu não tenho coragem de viver, mas que eu já vivo através dela. Só por ela estar vivendo, eu já fico mais aliviada". E eu acho que não é necessariamente esse o ponto.

As referências tem de nos servir como impulso pra nos colocar em xeque. Esse processo da construção de mitos, novas imagens e um novo imaginário social tem que ser orgânico. Mas é preciso que haja trânsito. Essas imagens e referências não devem ser fixas. Porque foi isso o que aconteceu: os mitos e arquétipos do homem, da mulher, da mãe, do pai, do anti-herói, eles existem há muito tempo e precisam ser destruídos para que outros arquétipos e possibilidades de sociedade possam surgir.

É importante que a transviada seja um novo arquétipo, uma nova referência como possibilidade de vida, porque ela nunca foi. Ela só foi exemplo a não ser seguido. Não que eu seja a pioneira ou que somos as primeiras a fazer isso, mas certamente esta é uma das poucas vezes em que esse cenário se repete historicamente. E isso vem ganhando força e a possibilidade de permanência que pode resultar em um alcance ainda maior.

Nós já tivemos pessoas que já fizeram grandes transformações na cena: Dzi Croquettes, Claudia Wonder, Jorge Lafond... Figuras que começaram a construir algum tipo de imaginário social. Mas a cena vem ganhando uma força onde os teóricos e formadores de opinião estão se vendo obrigados a olhar para o que estão produzindo no presente e admitir que talvez eles estejam errados. São obrigados a admitir que um outro tipo de pensamento e um outro tipo de vida é possível, sim. Isso é muito interessante e mostra o que as nossas figuras são capazes. Mas a gente não pode consolidar nessas figuras a ideia de que são as novas detentoras da verdade.

A música é um caminho que você pretende trilhar?

Não sei. Eu não tenho certeza. Por que isso tudo é muito encantador. Acredito que fiz tudo isso porque eu queria existir, eu queria legitimar a minha existência. Poder existir sendo assim, existir mudando de ideia, existir mudando a minha estética. Poder existir me sendo por completo, me assumindo enquanto dúvida, me assumindo enquanto o que me disseram que era imperfeição.

Estar nesse lugar hoje é muito encantador porque você recebe uma frequência de afeto que é muito boa. Só que ao mesmo tempo eu acho que preciso me manter atenta para que isso não se torne uma distração. Porque não faz sentido pra mim fazer coisas só pra continuar sob os holofotes ou só pra continuar ocupando esse papel de diva.

Eu não conseguiria fazer música só por fazer. E isso não é desmerecer. Fazer música é uma arte. E cantar, por exemplo, tem gente que tem o prazer de cantar. Eu tenho prazer de cantar essas coisas. Eu tenho vontade de dizer essas essas palavras, esses pensamentos. É isso que faz sentido pra mim e me impulsiona a fazer o que estou fazendo. Eu não sei se eu teria a mesma vontade de cantar qualquer coisa só para produzir música. Tem gente que já faz isso e tem prazer em fazer isso. O meu prazer, o que me movimenta, o que me impulsiona é outra coisa, que eu nem sei exatamente o que é. Mas é justamente talvez o prazer de me destruir. Tem algo de sádico no que eu faço. É o que me coloca em xeque.

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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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