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DIREITOS

Homens asiáticos enfrentam racismo em aplicativos de namoro.




Parem de escrever “sinto muito, nada de asiáticos” em seus perfis nos sites de relacionamentos.

Lee Doud, um ator e produtor de origem racial mestiça, está acostumado a ouvir referências pejorativas casuais à sua origem chinesa. Isso lhe acontece até em encontros românticos. De todas as experiências frustrantes que ele já viveu, uma ocasião se destaca em sua memória. Foi um primeiro encontro que não deu nada certo.

Durante boa parte da noite pareceu que o outro rapaz estava curtindo Doud, elogiando o ator por seu sorriso enquanto os dois batiam papo. Mas então alguma coisa mudou.

"Ele me perguntou se eu era latino. Falei que não, que na realidade sou metade caucasiano e metade chinês", Doud contou ao HuffPost. "De repente ele começou a me tratar com frieza. Eu continuei a flertar, mas ele disse que não estava mais curtindo."

Doud perguntou diretamente se a falta de interesse tinha alguma coisa a ver com o fato de ele ser asiático-americano.

"O sujeito ficou sem jeito, mas negou enfaticamente, dizendo que não teve certeza de estar interessado desde o início e retirando os elogios que havia feito antes."

Doud entende que todo o mundo tem seu tipo ideal, "mas, pela reação dele quando soube de minha raça, ficou muito evidente que ele me achou sexy e exótico como latino, mas que, como asiático-americano, de repente virei indesejável."


Experiências como a de Lee Doud são coisas que os homens asiático-americanos solteiros vivem corriqueiramente. Estereótipos emasculadores perpetuados em filmes e séries de televisão às vezes deixam homens asiáticos em desvantagem no cenário do namoro e romance. Basta pensar nas farpas lançadas por Steve Harvey contra homens asiáticos no ano passado, num incidente que fez manchetes, para ver como os americanos podem desprezar a atratividade dos homens de origem asiática.

Rindo histericamente, o apresentador de TV ironizou a premissa de um livro de 2002 intitulado How to Date a White Woman: A Practical Guide for Asian Men (Como sair com uma mulher branca – um manual prático para homens asiáticos).

Segundo Steve Harvey, o livro só podia ter uma página. " 'Com licença, você gosta de homens asiáticos?'. 'Não.' 'Obrigado.'", disse Harvey. Ele imaginou o que diria uma mulher negra, indagada se gosta de homens asiáticos: "Garoto, nem de comida chinesa eu gosto. Não como coisas que não consigo pronunciar."

A brincadeira depreciativa de Harvey tem raízes numa realidade frustrante: enquanto as mulheres de origem asiática são vistas como desejáveis e são fetichizadas, os homens asiáticos têm dificuldade em ser tratados justamente no cenário dos encontros e namoros.

Um estudo de 2014 da OkCupid concluiu que, no aplicativo, os homens asiáticos são vistos como menos desejáveis que outros homens. Em um estudo sobre speed-dating realizado pela Universidade Columbia, os homens asiáticos foram os que tiveram a maior dificuldade em conseguir que as mulheres saíssem com eles para um segundo encontro. E, em 2018, é chocantemente comum topar com perfis que dizem "sinto muito, nada de asiáticos".

A terapeuta Nicole Hsiang, de San Francisco, que trabalha com asiático-americanos de segunda e terceira geração, contou ao HuffPost que seus clientes muitas vezes ficam duvidando se são desejáveis ou "bons o suficiente" quando procuram romance ou namoro.

"Ser rejeitado como candidato a ficante ou namorado pode ser traumático, porque reafirma essas crenças arraigadas que eles têm em relação à sua virilidade e atratividade sexual", ela disse. "Muitos homens asiáticos que cresceram em um ambiente de maioria branca me disseram que se sentem pouco atraentes quando se comparam ao ideal masculino branco."

Quando se trata de quem é visto como sensual, nossa sociedade tende a se pautar pelos padrões ocidentais e eurocêntricos (nariz estreito, olhos grandes, não amendoados, pele pálida) – em parte porque somos pouco expostos à beleza e ao charme dos homens asiáticos.

Mesmo homens asiáticos que são modelos não se saem bem com os aplicativos de namoro. O modelo e instrutor de fitness Kevin Kreider, americano de origem coreana que foi adotado e cujos pais são de origem irlandesa e alemã, ficou tão perturbado com o que enfrentou no Tinder que deixou de usar esse app.

"Aquilo começou a prejudicar minha autoestima. Sei que sou um cara bonito, mas eu não estava recebendo respostas de mulheres interessadas. Então abaixei meus padrões e abaixei de novo, até finalmente suscitar um pouco de interesse", ele disse ao HuffPost. "Percebi que isso estava tudo errado, especialmente porque outros caras brancos não tinham problema algum em combinar encontros com garotas bonitas e cultas."




Assim que Kreider deixou de usar os apps e começou a procurar mulheres com quem tinha algo a ver na vida real, começou a conhecer mulheres que eram mais do tipo que ele buscava e que também se interessavam por ele.

"Aprendi que preciso abraçar minha identidade de homem asiático. Se você mesmo não gosta de sua identidade, como pode querer que outras pessoas gostem?", ele disse. "A gente atrai aquilo que é ou que quer se tornar. Se você é negativo e ressentido, só vai atrair negatividade e ressentimento, e essa vai passar a ser sua realidade. A negatividade e o ressentimento nos envenenam."

As experiências dos homens asiáticos com o namoro têm sua origem em estereótipos culturais negativos. Hoje em dia os asiático-americanos são categorizados como nerds "que entendem tudo de tecnologia e são subordinados por natureza", pessoas que "nem em um milhão de anos representariam uma ameaça a você ou poderiam roubar sua garota", como disse Eddie Huang, criador de "Fresh Off the Boat", em artigo no "New York Times" no ano passado.

Ainda no início do século 19, seus antepassados eram retratados pela maioria branca como "outros", homens assexuados ou feminilizados, disse Chiung Hwang Chen, professora de comunicação e mídia na Universidade Brigham Young no Havaí.

Enquanto eram promulgadas leis de imigração xenofóbicas, como a Lei de Exclusão de Chineses de 1882, os imigrantes asiáticos eram vistos pelos brancos como "bizarrices humanas", escreveu Chiung Hwang Chen em tese acadêmica de 1996. Isso se devia em parte à sua aparência (eles eram relativamente magros e usavam túnicas estrangeiras de seda) e em parte devido aos trabalhos no setor de serviços que eles faziam depois da corrida ao ouro (cozinheiros, lavadores de pratos, trabalho em lavanderias).




A cultura pop perpetuou essa ideia. Em filmes anteriores à decada de 1970, os personagens masculinos asiáticos ou eram caracterizados como o "perigo amarelo", homens que viviam perseguindo mulheres brancas (em "A Máscara de Fu Manchu", de 1932, o personagem-título exorta seu exército asiático a "matar o homem branco e roubar sua mulher"), ou como " 'a minoria modelo' inofensiva, feminilizada", escreveu Chiung Hwang Chen.

Vinte e dois anos depois de escrever aquela tese, a professora disse ao HuffPost que hoje é um pouco mais otimista em relação à percepção da atratividade dos homens asiáticos. Ela apontou para a base de fãs, quase todas mulheres, das telenovelas sul-coreanas e das boy-bands de K-pop, que ela vê como sinal positivo para os homens asiáticos que anseiam ser vistos como o "tipo" de alguém.

"As pessoas da geração do milênio podem ter crescido assistindo a filmes de Jackie Chan e Jet Li, mas esses caras estavam mais interessados em derrotar seus inimigos que em conseguir os telefones de mulheres."

"Acho que a cultura pop da Coreia do Sul talvez mude as coisas um pouco", ela disse. "Tenho um artigo em processo de revisão intitulado 'A Masculinidade Asiática na Era da Mídia Global'. Ele trata da correlação entre o consumo de telenovelas coreanas e a percepção que as mulheres têm dos homens asiáticos."

Ser representados na cultura popular tem importância, especialmente quando se trata de ampliar o rol dos símbolos sexuais asiáticos para que não se limite a Bruce Lee. As pessoas da geração do milênio podem ter crescido assistindo a filmes de Jackie Chan e Jet Li, mas esses caras estavam mais interessados em derrotar seus inimigos que em conseguir os telefones de mulheres.

Quando trabalha com clientes em San Francisco, Nicole Hsiang recomenda que eles procurem assistir a filmes modernos e séries de TV produzidas na Ásia, com protagonistas que se pareçam com eles. (Se você quiser ver um galã asiático sofisticado que se veste como Don Draper, mas é dez vezes mais cool que ele, recomendamos Tony Leung em "Amor à Flor da Pele", de 2001).




"Para reforçar sua autoconfiança na hora de procurar romance, aconselho os homens asiático-americanos a assistir a programas com personagens e histórias asiáticos. E a ampliar suas definições de masculinidade, para não se limitarem ao ideal branco", disse Hsiang.

Segundo Doud, simplesmente falar de como definimos masculinidade já ajuda.

"Existe um medo inato de que, por mais que tentemos combater esses estereótipos, essas imagens e ideias estão profundamente arraigadas em nossa cultura, tanto que falar disso ou tentar combater isso pode parecer um esforço inútil", ele disse. "Mas precisamos de mais consciência e mais informação. Precisamos continuar a ter essas discussões importantes abertamente e sem julgamentos, para não perpetuarmos nossos erros no futuro."

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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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