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CONTOS DO LEITOR


Corpos Colados

 Esse conto maravilhoso vai ser contado em 3 partes, publicados em semanas seguidas, tentem acompanha-lo que vale a pena.

CAPÍTULO I
TRAGÉDIAS E MUDANÇAS

 
Era duas da manhã quando o telefone da sala tocou desesperadamente, como se anunciasse uma desgraça, meu pai desceu correndo pela escadaria, que levava pro primeiro andar, no mesmo momento eu levantei da minha cama e encontrei minha mãe no corredor. Só ouvimos o sussurro triste do meu pai, era uma desgraça:
Mamãe chegou junto dele no andar debaixo, abraçou-o e ele disse algumas palavras que eu nem consegui entender, era algo triste, muito triste.
 
Talvez a minha inocência dos 5 anos de idade impediram que eu entendesse a profundidade do que haviam acabado de descobrir, só fui sentir a pressão do momento, quando no dia seguinte fui para uma cidade distante com meus pais e avistei dois caixões e um menino um pouco maior que eu que chorava desesperadamente.


Hoje eu entendo tudo, era o meu tio (irmão do meu pai), que havia morrido em um acidente de carro, e junto dele fora sua esposa, havia ficado apenas meu primo o Felipe, ele tinha sete anos na época, mas havia sentido-se desnorteado órfão. A notícia daquela madrugada, aquela fatalidade, daria rumos novos a todas as nossas vidas e trariam mudanças eternas.
Felipe chegou à minha casa, na manhã seguinte com algumas malas e um coração dilacerado, mal conhecia minha família, apesar do vinculo forte que o meu pai tinha com o pai dele, ele tinha olhos tristes e cabelos negros, era uma nova pessoa no meu lar, um estranho no ninho, não sei se me adaptaria àquela novidade. Felipe tomou conta das casas em poucos dias, era vivo, sorridente, apesar de uma tristeza perturbando seu olhar, tornou-se rapidamente um filho pros meus pais e eu me perguntei porque até hoje não havia pedido um irmão.
 
A convivência era algo fundamental na minha vida, sentar à mesa com meus pais e com meu novo irmão, assistir TV, dormir, tudo isso era novo, mas fazia da minha vida melhor, muito melhor. No meu aniversário de 6 anos Felipe me presenteou com um abraço forte pela manhã, haviam laços extremamente fortes sendo construídos em nossas vidas, algo que jamais seria quebrado, era o amor pulsando, a liberdade pedindo licença, era uma fraternidade forjada, mas bem sucedida.

Felipe era dois anos mais velho que eu, era meu “irmão” mais velho e trazia em si todo o cuidado e amparo que esse tipo de irmão traz, ele cuidava de mim, me ajudava nas tarefas e sempre estava ao meu lado mesmo que eu estivesse errado.
Ninguém percebia, nem mesmo nós, mas dia após dia, os laços que nos uniam se tornavam mais fortes e verdadeiros, ele era a pessoa que eu queria que me protegesse eternamente, e ele desejava o mesmo. Costumávamos brincar muito, correr pela casa, subir e descer as escadas correndo e gritar o tempo todo por todos os cantos. Em uma tarde quente fomos assistir Felipe jogar futebol no campinho da escola, ele era excelente no esporte, fez três gols e saiu ovacionado por uma platéia que me incluía. Eu e meu pai fomos buscá-lo no vestiário, senti-me perturbado ao ver tantos garotos nus, tantos corpos suados e bem delineados, éramos todos crianças, mas a minha pele ficou rubra, eu percebi que a inocência se esvaia na flor dos meus 7 anos. Felipe me abraçou fortemente, tirou a medalha do pescoço e me disse sorridente:
-Eu ganhei ela pra dar à você.
Choro ainda hoje ao lembrar essa cena.

Mudanças fortes romperiam nossa vida como uma tempestade, e eu tinha medo de nunca mais chegar a calmaria.


CAPÍTULO II
SOFRIMENTO

 
Quando eu fiz 10 anos e Felipe fez 12, ele viajou para a casa da avó por parte da sua mãe no interior, e eu fiquei passando as férias sozinho, foi nesse período que percebi que não conseguiria nunca viver sem ele, sem sua presença ao meu lado. Existia uma tristeza gigante em mim e quase uma depressão profunda tomava conta do meu ser.
Quando ele chegou ao início do ano, pouco antes de começar as aulas, eu fiquei exultante de tão feliz, me senti embasbacado, um sentimento que nem eu mesmo sabia explicar tomou conta de mim, enquanto ele descia do ônibus, eu lembro que minhas pernas criaram vida própria e eu saí desesperado por aquele corredor, tombando nas pessoas, derrubando as revistas da banca, só havia ele na minha frente, ele me abraçou com força, me ergueu no colo, rimos muito e ele disse:
-Nunca mais vou ficar longe de você.
Eu o abracei com mais força.
Então pela primeira vez, vi que meus pais nos olharam de um modo estranho, não éramos mais os filhos crianças que eles cuidavam com igualdade, havia um olhar tendencioso neles, um olhar que abominava algumas atitudes nossas, eles ficaram um pouco perplexos com aquelas promessas, com aqueles olhares, com aquele desespero da saudade, eles riram depois, mas a semente da desconfiança já estava plantada ali.
Só hoje pude entender o que aquilo significou, na época não achei nada demais, estava tão possuído pela felicidade de tê-lo de volta, tão possuído por saber que ele nunca ficaria longe de mim mais e ainda era inocente não via nada por trás das ações.
Vi que existia algo constrangedor no ar, quando meu pai nos separou de quarto, nos proibiu de tomar banhos juntos, nos privou de ficarmos deitados um no colo do outro, ou de brincadeiras próximas, ele nos mudou de colégio e do horário das aulas, eu estudava de manhã e Felipe à tarde, se víamos pouco e quase não nos falávamos.
Existia uma dor dentro de mim, que me explodiria em minutos se eu não o visse, se eu não estivesse na convivência dele, às vezes eu ouvia o Felipe acordar gritando após ter mijado na cama após um pesadelo, privar-nos um do outro era um terror, algo demoníaco, quase um pecado que meu pai estava fazendo, separando os dois irmãos, os dois melhores amigos, eu não tinha consciência para entender o porquê daquilo, o porquê daqueles atos:
-Mãe o que está havendo – eu dizia desesperado.
Eu emagreci 5 quilos e virei um pedaço de pau, Felipe chorava e mijava na cama todas as noites, mesmo com seus 12 anos. Um dia ouvi a conversa dos meus pais:
-Você vai matar essas crianças!
-Eu não posso permitir que essa intimidade deles se transforme em algo mais sério.
-Eles são irmãos, eles se amam nessa condição – dizia minha mãe nervosa.
-Sempre foram muito próximos, ligados. Um fazia o outro dormir, eles tomavam banho juntos, um defendia o outro na escola, eles quase enlouqueceram por ficarem separados. Eu não posso permitir uma relação dessas debaixo do meu teto.
-Você está transformando a vida de todos em um inferno. Eles são masculinos demais, para ameaçarem virar o que você está imaginando.
-Existe muito afeto, muito afeto.
-Afeto é saudável.
-Não desse modo. Um dia eles vão me agradecer por isso. Eu não posso deixar que meus filhos se tornem viados.
Emudeci. Aos 10 anos eu entendia um pouco o mundo, mesmo que de maneira leviana, papai tinha medo que nos amassemos demais, que ficássemos próximos como ele e a mamãe eram próximos, era essa a proximidade.
Um dia de madrugada, eu fui para o quarto do Felipe, ele estava acordado, mais magro que eu, mais desesperado que eu, ele havia mudado muito em pouco tempo. Ele me deu um abraço longo e foi inevitável ver as lágrimas:
-Ele não pode fazer isso com a gente Dú.
-Ele tem medo que a gente se goste muito.
-A gente se gosta muito Dú.
-Mas de outra maneira.
Ele ficou mudo, havia entendido aquilo, mais do que eu até.
-Nada vai nos separar nada – ele disse.
-Você não vai deixar isso acontecer? – eu disse chorando, não aguentava mais a dor daquilo.
-NÃO – ele quase gritou.
Se abraçamos e choramos muito, mas fui pro meu quarto mais aliviado.



CAPÍTULO III
UM POUCO DE MIM

 

Suponho que depois daquela visita noturna, me tornei um ser mais seguro, mais crente de que tudo aquilo passaria. Eu sabia muito bem que Felipe havia entendido, muito mais as palavras do meu pai do que eu, isso o deixou irritado, eu não podia perceber o que aquilo dizia mesmo, mas não era bom, definitivamente não era.
Decidi ficar mais ameno, para que minha mãe sofresse menos com tudo aquilo, eu sabia que ela sofria o suficiente.  No dia do meu aniversario de 12 anos, presenciei uma discussão enlouquecida.
Fazia dois anos que eu e Felipe estávamos nos vendo raramente no horário do almoço, a ditadura imposta pelo papai estava durando muito, eu ainda sentia falta das brincadeiras dele, do sorriso dele, do amparo dele, mas não desisti de esperar, pois ele gostava muito de mim.
Depois de cortar o bolo e entregar o primeiro pedaço a ele, senti um pouco de ira no olhar do meu pai e um desesperado contido em minha mãe, os convidados foram embora e então a confusão começou:
-Eles não deixaram de ser as mesmas pessoas. Foram dois anos inúteis – dizia meu pai a minha mãe na sala.
-Você transformou nossas vidas em um inferno verdadeiro, eles se adoram, são irmãos. Você está enlouquecendo – minha mãe disse chorando.
-Eu não vou permitir que eles se transformem nesses monstros que vemos por aí – meu pai disse raivoso.
-Amar agora é monstruosidade? – mamãe perguntou aflita.
-É uma mutação ver dois homens beijando na boca – disse ele.
-Não seja idiota não pense assim.
-Eu vou matar o Eduardo por causa daquele bolo, matá-lo.
Meu pai tirou o cinto, eu havia ouvido tudo, mas antes que ele pudesse dar um passo. Foi surpreendido por Felipe, que avançou contra ele, sem força para contê-lo, mas empurrou-o:
-Você não vai fazer nada com ele.
Meu pai ficou irado e começou a surrar o Felipe, mamãe gritava, eu desci do quarto aos prantos:
-Solta ele papai, solta ele.
A cinta veio de encontro ao meu rosto:
-Eu não vou aceitar esse amor masculino, no meu teto não.
Fomos surpreendidas por uma mulher irada, que jogou meu pai no sofá e nos separou dele, uma mulher que era uma leoa defendendo suas crias:
-Sua casa? Essa casa eu herdei do meu pai, era o nosso lar, mas você destruiu. Que tipo de louco você é? Você está acabando com a vida de duas crianças, dois garotos, sem maldade alguma – disse minha mãe gritando.
-Eu nunca fui tão próximo de um amigo.
-Eles não devem ter te suportado.
-Eu e meu irmão, seu pai – ele apontou pro Felipe –nunca nos comportamos assim.
-Eu quero só proteger o Dú, só isso – disse o Felipe correndo para abraçar-me.
Meu pai desistiu de gritar ou discutir, minha mãe mandou irmos para o quarto, eu estava aliviado ou desesperado, eu não sabia ao certo o que sentir, Felipe me amparou na escadaria, havia uma irmandade ali que jamais seria quebrada, nem pelos atos sinistros do meu pai.
Entrei no meu quarto, ele foi ao dele, ainda respeitávamos as regras. Ouvi minha mãe soluçando aflita.
Depois daquela cena, dos meus 13 anos, eu amadureci o suficiente para entender o drama que estávamos vivendo, talvez eu e meu primo-irmão estivéssemos realmente apaixonados, e fôssemos nos amar em algum momento de nossas vidas, mas aquilo nunca havia acontecido, só percebi através do meu pai que seria um pecado mortal se algo acontecesse, mas não podia permitir aquele tipo de sentimento, eu havia conhecido nos 13 anos de minha vida uma leoa, um ser capaz de matar para defender os seus, ela era a minha mãe, ela sabia ser muito maior do que a força masculina do meu pai, muito mais gigante que todo aquele preconceito exorbitante, havia aprendido com ela que a vida oferece caminhos e que devemos lutar com todas as forças por aquilo que desejamos, minha mãe era iluminada e eu aprendi com isso que nada no mundo me faria desistir de um amor verdadeiro, podia nem ser esse amor carnal, eu nem havia experimentado isso ainda... Mas ele era de verdade!

 (CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA)

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Postado por Mac Del Rey | (0) Comente aqui!

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