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CONTOS DO LEITOR


Corpos Colados

Esse conto maravilhoso contado em 3 partes, a primeira, publicado semana passada, pode ser lido em: http://www.homensquentes.com.br/2018/10/contos-do-leitor_31.html#more
tentem acompanha-lo que vale a pena.


CAPÍTULO IV
UM TEMPO
 

Depois daquela discussão meu pai não proibiu mais nada, mas também nunca mais falou com a gente, com a mamãe trocava palavras, vivemos anos e anos assim. Felipe cresceu, sem jogar futebol mais, apenas dedicado a um violão que ele guardava debaixo de sua cama, eu havia crescido o suficiente para ficarmos ainda mais próximos e maduros, mamãe era aquele tipo de mulher que tem uma gana de viver e manter o sorriso no rosto sempre, eu tinha 18 anos e Felipe 21, ele tocava seu violão, compunha algumas coisas e tinha uma mãe ao seu lado, minha mãe era essa pessoa, eu havia entrado na faculdade de música, eu nem sei se gostava disso, mas eu me sentia bem no meio daquele delírio todo, daquela gente toda diferente, apaixonada por algo diferente também, a maioria delas sairiam dali sem emprego algum, com muito menos talento que meu irmão, mas aquilo me distraia, minha mãe me apoiava sempre.
Nos domingos almoçávamos no três, eu, mamãe e Felipe, em um restaurante de frutos marinhos, na beira da praia:
-Eu tenho o maior orgulho desses meus filhos. Vocês ficaram lindos, sabia?
Ela não estava mentindo, éramos altos e fortes, namoraríamos fácil qualquer garota, Felipe tinha um sorriso misterioso, um cabelo jogado, trazia um pouco de rebeldia no seu olhar anárquico, era discreto e inteligente, eu havia crescido bastante, tinha o cabelo curto quase sempre raspado, tinha um senso humor inexplicável e era feliz apesar dos meus traumas infantis.
-Você que é maravilhosa mãe – eu disse sincero.
-Eu espero que nada do que o pai de vocês fizeram com vocês na infância, os proíbam de ser felizes, os tragam traumas – ela dizia seguro.
Depois de tanto tempo, era a primeira vez que nós três juntos ali tocávamos naquele assunto:
-Ele só fez mal a ele mãe – disse Felipe – era um laço que não ia se cortar nunca, era um laço de sangue, de amor, de sinceridade – ele pegou na minha mão.
-Nada do que ele temia ocorreu, somos felizes e nada traumatizados – eu disse apertando a mão do Felipe.
-Eu vou proteger ele eternamente – ele disse olhando nos meus olhos.
-Isso se chama amor. E não há como contestar o amor, não há – mamãe disse sorridente.
Nós abraçamos e tivemos o melhor domingo das nossas vidas.

Dois dias depois meu pai morreu, e ninguém imagina o quanto isso me doeu, me machucou, ele depois de tanto tentar nos magoar, havia se aposentado, uma cadeira de área havia se transformado em sua melhor amiga, ele ficava o dia todo sentado, ouvindo um rádio de pilha, havia envelhecido cem anos em três anos apenas, ele não ria mais, não falava muito, talvez a morte era a única coisa que ela aguardava, que ele esperava na vida. Fiquei preocupada de ser culpado por aquilo, eu, mamãe e Felipe, estávamos abraçados em volta daquele túmulo logo após o enterro, havia um acerto de contas com ele, que nunca fizemos:
-Quero pedir desculpas por tudo tio, a gente não entende nada do ocorreu, mas não tínhamos como fugir de algo que nem sabíamos o que era – disse Felipe chorando.
Mamãe se afastou dali, eu e Felipe nos abraçamos com uma força surreal, choramos muito e pela primeira vez, entendemos que nos amávamos mesmo, era um amor tão forte que doía, que machucava, podíamos ficar ali a vida inteira abraçados, chorando, isso bastava.
-Eu gosto tanto de você – disse Felipe.
-Eu também – eu chorava.
-Eu vou te proteger pra sempre – ele beijou a minha testa.
Fomos caminhando nós três novamente abraçados, sob nuvens que anunciavam chuva. Estávamos unidos e despedaçados.

CAPÍTULO V
SOBRE NÓS DOIS

 
Os momentos tristes e que trazem transtornos em nossas vidas, são os que mais nos fazem aprenderam, e parecia que a calmaria enfim chegava após a tempestade. Minha mãe era um ser supra, maior que todos os outros do planeta, era verdadeira, humana, feliz e não se importava nunca com o que os outros pensavam:
-É o mal da mulher de quarenta – ela dizia sorrindo – muita segurança.
Felipe e eu ficamos mais próximos do que nunca, respirávamos o mesmo ar, dávamos os mesmos passos, riamos das mesmas coisas, éramos o mesmo respiro, a mesma vida. Eu só podia agradecer a Deus de forma egoísta, pela tragédia que tiraram o pai dele da vida dele e havia trazido ele pra mim, não havia nada, nada que as mentes sujas como a do meu pai pensavam, nada até o momento, existia amor, um amor incondicional, aquele amor que dói por dentro, machuca só de pensar nele, era o meu amor, e o dele recíproco.
Fomos andar á tarde pelas ruas, precisávamos ficar sozinhos, haviam coisas que todos haviam dito por nós, dito sobre a nossa vida, sobre o nosso sentimento, havíamos vivido sob a custa do pensamento dos outros a vida inteira, desde criança quando nem sabíamos o que pensar, precisávamos agora nós mesmos respirar nosso ar, falar nossa língua, tirar nossas próprias conclusões, nós dizermos sobre nós...
Ficamos sentados em um local alto, às luzes se acendiam era quase noite, respirávamos o ar puro da noite em silêncio, mudos, havíamos uma intimidade tão absurda, tão divina, que nós comunicávamos  pela nossa respiração, pelos nossos batimentos cardíacos:
-Eu fiquei com medo quando o pai nos separou, achei que jamais eu poderia te proteger – disse Felipe com seu cabelo esvoaçante e sua barba por fazer.
-Eu nem entendia o que eles diziam.
-Eram preocupados porque nos amávamos, nos gostávamos de um jeito que eles jamais entenderão – ele disse com verdade.
Não precisou demais nada para que déssemos um abraço, regado por lágrimas de alegria, de convicção, de crença em um futuro melhor, estávamos aliviados pois a vida havia nos dado a chance de viver nossa história, abraçados, sob a luz noturna da cidade, com o vento nos refrescando. Ele simplesmente me pegou pelo pescoço e eu já sabia o que viria a seguir, ainda bem que viria aquilo, eu esperei minha vida toda pelo beijo, salgado de lágrimas, molhado e forte. O beijo do amor da minha vida. Depois do beijo nos olhamos e rimos muito, enxugando nossas lagrimas, rimos desvairadamente e descemos pela ladeira como dois bêbados ou drogados, de mãos dadas e rindo, rindo compulsivamente.


CAPÍTULO VI
O QUE É O AMOR?
 

Chegamos em casa eufóricos, riamos muito descontroladamente, aquele nó preso em nossa garganta por todos os dias de nossa vida foi desfeito com a força de um beijo. Subimos as escadas juntos e tentando manter o silêncio apesar da euforia, pois mamãe dormia, entramos no mesmo quarto e ficamos ali abraçados na mesma cama, lembrando da nossa vida, dos nossos sonhos, dos nossos desejos.
Ele sentou-se ao meu lado, pegou o seu violão e começou a tocar uma daquelas canções bobas, mas que fazem todo sentido quando se está sozinho com alguém, enquanto fazia isso, ele acariciava meus cabelos, me fazia rir e chorar ao mesmo tempo, aquilo só podia ser um sonho. Eu sabia, em algum lugar dentro de mim, que ele jamais me rejeitaria, que ele nunca me deixaria, mas nunca imaginei que iríamos estar juntos ali da forma que sempre quisemos, esse amor dói, pensei mais uma vez, quando senti meu coração ser atingido por uma dor lancinante, eu olhava os olhos dele, eu ouvia sua voz suave, nos beijamos mais uma vez, com mais força, mais vontade, mais desejo e então descobrimos o que era o amor.
Felipe tirava minha camiseta, como se estivesse tirando um plástico do fogo, com delicadeza e vagareza, ele tirava minha roupa e via minha pele arrepiada, fiquei só de cueca e rimos daquela cena íntima tão esperada, depois foi minha vez de tirar as peças dele, peça a peça, sua pele arrepiada os sorrisos sinceros, os gestos a delicadeza que só um ato de amor pode ter, sem cuecas ambos, estávamos desejáveis, lindos, e potentes, éramos ambos apaixonados, me deitei de bruços e deixei com que ele fosse meu pela primeira vez, eu não tinha dúvida alguma que era aquela dor que eu iria sentir, que era aqueles sussurros que invadiriam meu ouvido quando ele me penetrasse, seu pênis estava em mim, éramos um só como sempre sonhamos, íntimos e únicos, como todos sempre pensaram, ele entrava e saía de mim e eu só podia agradecer por aquilo tudo, existia carinho, força, vontade, uma sede enorme. Eu e ele éramos um só, suados e felizes, ele então vibrou ao gozar em mim.
Dormimos abraçados, de conchinha, rindo como bobos, quase patetas, diante da realização amorosa, ele me apertou com força contra o corpo dele:
-Você não vai escapar daqui nunca mais.
-É só o que eu quero.
Eu disse emocionado.
-EU TE AMO! –ele disse.
Aquelas palavras penetraram em mim como a força de um tufão, eu o amava com uma força quase abrupta:
-EU TAMBÉM TE AMO MUITO – disse beijando-o.
Depois de enxugar uma lágrima que escorria em seus olhos, ele me disse:
-Eu seria capaz de morrer por você.
Poderia ser um conto de amor desses antigos e cheios de idealizações amorosas, mas era um conto de amor desses modernos, onde homens beijam homens, e eles podem se amar eternamente, amarem-se sem apenas desejar o sexo, ou a libido, amarem-se no sentido literal do amor, o amor verdadeiro escrito com letra maiúscula, era esse o tipo de amor que sentíamos.


CAPÍTULO VII
CONCRETIZAÇÕES
 

E foi assim que concretizamos nosso ato de amor, da maneira mais bela possível, mais carinhosa, mais romântica, como realmente merecíamos, estávamos entregues um ao outro de uma maneira tão supremo, que qualquer comentário jamais afetaria a nossa existência.
Acordei no meio da noite, estávamos abraçados como dois amantes, aquela cena era linda demais para ser descrita com qualquer palavra, Felipe dormia sereno ao meu lado, e eu sereno ao lado dele, tínhamos os corpos frescos e duros, estávamos lindos, na flor da juventude perdidamente apaixonados, não aquilo não era uma simples paixão, era AMOR.
Acordamos e ficamos a noite todas abraçados, nus embaixo do lençol, rindo da nossa própria felicidade, estávamos em deleite, em estado supremo de alegria, eu era dele, ele era meu e era inevitável que isso um dia acontecesse, havíamos sido prometido um pro outro pelo destino, pela força do destino, algumas pessoas tentarão mudar isso, mas não conseguiam entender a força que aquilo tinha:
-Ninguém nunca vai separar nós dois! – dizia Felipe.
-Eu nunca fui tão feliz, em toda a minha vida.
Tomamos banho juntos pela manhã e enquanto a espuma branca escorria pelo nosso corpo, nossas mãos deslizavam um sobre o outro, nos beijávamos, nos abraçávamos, fazíamos amor, eu estava entregue a ele, aquele era um dos atos mais respeitosos que eu havia visto em minha vida, o desejo vira renuncia na medida certa. A água caía sob meu corpo encostado na parede e sob ele colado em mim, me penetrando, dizendo coisas lindas em meu ouvidos, estávamos eretos, molhados, cheios de espuma e amor, arrepiados e se desejando. Mais um ato, ele treme, gememos e gozamos, era maravilhoso sentir aquele homem em mim.
Enquanto ele brincava de pentear meu cabelo, eu batia o dele e deixava bagunçado. Quando abrimos a porta do quarto e saímos sorridente vimos minha mãe, por mais liberal que ela fosse, sentimos uma ponta enorme de vergonha, que logo foi dissipada pelo sorriso dela:
-Bom dia meus amores.
-Oi mãe, a gente... – tentou Felipe se explicar.
-Estava mais do que na hora de vocês dividirem o mesmo quarto. Preparei um café delicioso, vocês devem estar com fome – ela disse sorridente.
Descemos e o café da manhã daquele dia tinha um gosto especial, estávamos todos na mesa felizes, rindo, falando bobagem, mesmo que fosse um absurdo dizer isso, a morte do papai, trouxe uma atmosfera de alegria para a casa, qualquer coisa, o balançar de uma folha nós fazia rir.
Aquilo era a concretização de uma vida inteiro, de um ciclo que girou e girou, mas foi parar no mesmo lugar, a felicidade nunca se esqueceu da gente, ela nunca se esquece de quem é realmente bom.

(Continua na próxima semana - Final)

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Postado por Mac Del Rey | (0) Comente aqui!

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