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CONTOS DO LEITOR


Felipe e Eduardo

(Parte I)

 


Puxei-o para mim e dei-lhe um beijo. O mundo pareceu derreter-se em volta. Ele ficou parado por uns momentos e chegou a corresponder ao meu beijo, mas desvencilhou-se de mim.
— Não podemos fazer isso, cara. Isso está errado. Eu não quero...
— Não pode estar errado, Edu. Você é meu melhor amigo, eu te amo, eu sei que você sente também...
— Eu não sinto nada, Felipe, você está enganado.
Eu não podia acreditar. Ele não queria reconhecer o que sentíamos um pelo outro.

Eu e o Eduardo crescemos juntos na mesma rua. Tínhamos a mesma idade, então participávamos das mesmas brincadeiras, do mesmo grupinho de meninos.

No começo brigávamos bastante, como quaisquer outros meninos da mesma idade. Com o tempo fomos descobrindo afinidades. Adorávamos animais. Eu tinha dois cachorros e ele três. Por conta disso deplorávamos quando alguém maltratava algum animal na nossa frente, fosse cachorro, gato, passarinho ou qualquer outro. Partíamos pra cima e, com isso, começamos a nos aproximar.

O Eduardo não era especialmente forte, eu sempre tive mais corpo que ele. Mas ele não tinha medo de enfrentar quem quer que fosse. Isso rendeu a ele alguns olhos roxos memoráveis. Eu, por minha vez, muitas vezes tive que partir em socorro do Eduardo para tirá-lo das garras dos meninos mais velhos. Nessa época, o que eu tinha de mais forte, tinha também de mais tímido, enquanto o Eduardo era quase o “relações públicas” da dupla.

Éramos inseparáveis. Fazíamos quase tudo juntos. Organizávamos campeonatos de videogame que varavam a noite, ora na casa de um, ora na do outro. Sempre ficamos na mesma turma da escola, participávamos dos mesmos grupos de estudo. Na sétima série eu estava muito mal nas notas e havia a ameaça séria de reprovação. O Edu ficou desesperado e ficávamos até tarde estudando. Com a ajuda dele consegui passar de ano e nos mantivemos na mesma turma. Éramos tão colados que ganhamos o indefectível apelido de Batman e Robin. Só não éramos muito sacaneados porque éramos bastante gaiatos e azarávamos todas as meninas bonitas da escola como qualquer garoto no começo da adolescência. Eu já estava bem menos tímido, mas o Eduardo me ajudava bastante a “chegar junto” nas garotas.

Nessa época os hormônios começaram a entrar em ebulição. Conversávamos muito sobre as meninas da rua, da escola, da TV, enfim, falávamos de garotas a maior parte do tempo. Eu nunca o havia visto pelado antes, no máximo de cueca ou de calção de banho, pois não fazíamos educação física no mesmo grupo, já que a turma era dividida em três grupos.

Ele preferia nadar e eu gostava mais de jogar vôlei e futebol.
Naturalmente, conversávamos sobre tudo. As mudanças em nossos corpos, a excitação constante, a vontade de perder a virgindade, qual garota seria a “felizarda” e coisas do gênero. Papo de adolescente.

Éramos ambos muito bonitos. Não tínhamos nenhuma dificuldade em chegar nas garotas nas festinhas. Mas ainda não tínhamos conseguido convencer nenhuma a liberar pra gente, e a nossa seca continuava.

Como seria de se esperar, antes de mim, o Edu conseguiu cercar de jeito uma menina e, depois de duas semanas de cinema, passeios e beijos no portão de casa, ele conseguiu convencê-la. No telefone, ele mal podia se conter.

— Cara, vai ser no sábado. Ela disse que a barra vai estar limpa na casa dela.
— Maneiro, cara. Tomara que dê tudo certo.
No sábado de manhã fomos os dois à farmácia comprar camisinhas. Ele estava mais agitado que o normal.
— Pô, meu, já não aguento mais esperar, ontem toquei umas 5 pensando na noite de hoje. Tô até meio esfolado.
— Era só o que faltava, esperar tanto e não conseguir porque esfolou o próprio pau.
— Não se preocupe. Hoje só não perco a virgindade se me arrancarem o bilau.

Eu estava contente por ele. Eu também já estava quase na reta final com uma garota que havia conhecido há uns dois meses.
— Você é que deve jogar mais charme pra cima da tua mina, cara. Daqui a pouco vocês ficam noivos e ainda não transaram.
Ele falou isso rindo e me deu um empurrão. Eu o empurrei de volta e assim fomos a caminho de casa. De fora, ninguém entendia as nossas brincadeiras. De tão violentas, às vezes, parecia que estávamos brigando.
No outro dia ele chegou em minha casa esbaforido, irrompeu em meu quarto como um trovão e bateu a porta.
— Caralho, Lipe. É bom demais! Não quero mais saber de outra coisa!
— Conta, cara. Como foi?


E umas duas horas se foram, enquanto ele descrevia, com minúcias de detalhes, tudo o que eles tinham feito na noite anterior. Eu me senti meio esquisito, mas achei que era de vontade de passar por tudo aquilo também.
Duas semanas depois chegou a minha vez. Estava nervoso pra caramba, mas o Edu me deu todas as dicas e me deu um pacote de camisinhas de presente.
— Vai fundo, cara. É hoje!

Quando cheguei em casa já devia ser umas duas da manhã. Estava contente, tinha dado tudo certo. Tinha sido a primeira vez da garota também e, mal sabia eu, o fato de eu ter tido que usar as duas camisinhas que ela tinha também, me garantiria uma enorme reputação no colégio. No entanto, parecia que faltava algo mais. Não sabia o que era.

 

Quando abri a porta do meu quarto tomei um susto. O Edu estava deitado na minha cama. Ele devia ter ficado curioso e veio saber como foi e provavelmente adormeceu me esperando. Não estava preparado para aquela cena. Como eu já disse, o Eduardo é um cara muito bonito. Mais baixo que eu, ele deve ter cerca de 1,75m e tem o corpo esguio de nadador. Lá estava ele, de bermuda e camiseta, deitado meio desajeitadamente sobre minha cama. Ele já tinha dormido várias vezes na minha casa, e eu na dele. Mas naquele momento havia algo diferente. Vê-lo daquela forma, à luz do abajur, respirando calma e pausadamente me deixou momentaneamente sem ar. Sentia um aperto no coração, algo que não sabia direito como lidar.
Enquanto estava perdido em meus pensamentos ele abriu os olhos e sorriu pra mim. Eu sorri de volta.

— Faz tempo que chegou, Felipe?
— Não, acabei de chegar.
— Desculpe, eu estava curioso pra saber dos detalhes e vim pra cá esperá-lo. Acabei pegando no sono, já deve ser tarde.
— É, são 2 horas.
— Caramba, demorou, hein? Como foi?
— Putz cara. Foi muito bom. Exatamente como você falou.
— Mas você não parece muito entusiasmado...
— Sei lá. Foi legal...muuuuito legal, quero dizer. Mas acho que esperava mais da coisa toda. Fiquei meio chateado em ter que sair logo depois. Queria ter ficado um pouco mais de tempo... sei lá...
— Porra, o problema é que você é romântico pra caramba. Já demorou esse tempo todo transando, deve ter dado umas três...
— Cinco.
— O que?
— Foram cinco vezes.
— Caralho! Cinco?! E ainda tá reclamando? Eu só consegui dar três a muito custo, porque a mina não queria mais. Você deu cinco e ainda tá ai de nhenhenhem?

Eu ri. Era verdade o que ele dizia. Mas apesar do número, não estava plenamente satisfeito. Ficamos ainda trocando impressões até bem tarde e fomos dormir quase com o dia raiando.

Quando tínhamos por volta de 16 anos, começamos a malhar numa academia próxima de nossas casas. No primeiro dia o professor montou nossas séries e ficamos nos ajudando para que nenhum de nós fizesse os movimentos erradamente. Quando terminamos fomos para o vestiário tomar banho. A academia estava vazia naquela hora. Conversando sobre os exercícios, os pesos e pensando nos objetivos a alcançar com a malhação, fomos tirando as roupas e, quando eu me dei conta, estávamos completamente pelados.

Eu senti uma coisa estranha. Não sabia definir bem o que era. Já tinha visto muitos caras pelados na minha vida, mas ver o Edu, meu amigo, nu em pelo ali na minha frente estava produzindo em mim um coquetel de sensações que eu não fazia ideia do que era.
De repente, ele olhou pra mim e falou:
— Caralho, cara! Que troço enorme você tem.

 

Eu não sabia onde enfiar a cara. Minha timidez parecia ter voltado com toda força, meu rosto parecia que ia ferver. Podia sentir as ondas de rubor me deixando cada vez mais vermelho. Fiquei sem voz. Rapidamente vesti meu short, calcei meu tênis, joguei tudo na mochila e sai dali deixando-o meio assustado, antes que ele pudesse falar mais alguma coisa.

Ao chegar em casa estava mais confuso ainda. Primeiro, não entendia que sensação era aquela que me invadiu quando vi o Edu pelado, ainda estava desconfortável com aquilo. Depois, estava fulo da vida comigo mesmo. Afinal, o que fora aquilo. O Edu era meu melhor amigo, sempre falávamos sobre qualquer coisa. Ele só fizera uma brincadeira boba, pensei. Eu é que exagerei ao sair correndo daquele jeito.
Tomei um banho e fiquei ouvindo música. Uns minutos depois, alguém bateu na porta do meu quarto.
— Posso entrar, Felipe?
Era o Eduardo. Não costumávamos pedir licença pra entrar um na casa do outro.
— Claro, Edu. Entra ai.
Ele entrou em silêncio e colocou sua mochila no chão, junto à minha.
— Lipe, eu queria me desculpar. Eu não pretendia irritar você. Só fiquei impressionado com o tamanho do seu... desculpe, lá ia eu de novo.
— Não precisa pedir desculpas, cara. Eu não sei o que deu em mim pra sair correndo daquele jeito. A gente tem liberdade pra falar qualquer coisa um com o outro. Uns caras no colégio até já tinham brincado comigo por causa disso, mas com você foi diferente.
— Diferente por que?

Eu senti que ia ficar vermelho de novo. Havia escorregado nas palavras. Não queria dizer a ele que tê-lo visto pelado havia me perturbado. Nem eu mesmo sabia direito do que se tratava.
— Por nada, Edu. Só fiquei sem jeito na hora. Você sabe como sou tímido.
Ele chegou mais perto e me abraçou.
— Foi mal, cara. Eu não queria deixar você sem jeito...

Eu retribuí o seu abraço carinhoso com alegria. Não queria deixar nenhum mal-entendido entre nós. Enquanto o abraçava, porém, o seu cheiro invadiu minhas narinas e pareceu me atingir como um cruzado de direita. Ele nem tinha passado perfume, só tinha acabado de tomar banho. Ele tinha um cheiro natural que parecia exalar por todos os poros e que estava me deixando embriagado. Ele começou a afagar minha cabeça enquanto me abraçava e eu, do êxtase passei para o pânico, comecei a ficar excitado.
Ele se afastou de repente. Fiquei com medo que ele tivesse percebido alguma coisa, mas ele não falou nada, me olhou por uns momentos e depois disse:

— A gente tem que parar com essas coisas entre nós, certo? Afinal você é meu melhor amigo e não tem nada a ver a gente ficar de cerimônias ou inibições um com o outro. Ok?
— Com certeza, Edu. Você me desculpe...
— Você não precisa se desculpar. Fui eu que fui bobo e mencionei o seu...
Falou isso e olhou na direção do meu pau que ainda estava visivelmente excitado. Ele desviou o olhar imediatamente e fingiu olhar para a janela enquanto eu tornava a ficar vermelho. Olhei para ele e vi que ele parecia estar excitado também, o que me deixou ainda mais confuso.
— Bem, eu vou indo. Tá tudo bem, né?
— Claro, Edu. Amanhã a gente se vê.

E assim o tempo foi passando. Nós nos víamos todos os dias, praticamente. Passamos ambos pra mesma Universidade. Eu pra engenharia civil e ele pra mecânica. Estudávamos Cálculo juntos. Desta vez era eu quem o ajudava mais.

(CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA)

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Postado por Mac Del Rey | (0) Comente aqui!

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