Slide 1 Slide 2 Slide 3

CONTOS DO LEITOR


Saudades
Um conto erótico de Marcos

 


Aquele dia certamente foi o dia mais triste da minha vida. Lembro-me como se fosse hoje. As folhas caiam das árvores. O vento era calmo e constante. Jom estava com a face mais fria do que sempre foi. E eu estava paralisado sem saber como agir. Eu soube de sua mãe que eles iam morar em outra cidade. Corri ao encontro de Jom e ele evitava olhar nos meus olhos.

Eu tinha 16 anos e ele 17. Ele precisava ir com sua família. Naquela época nós não tínhamos a tecnologia de hoje – internet, smartphones, essas coisas - e eu sabia que ia perdê-lo nessa viagem. Eu estudei com ele desde os meus 11 anos. E desde os 14 anos ele enfrentava os olhares tortos das pessoas porque foi nessa época que ele contou que era gay. Ele sempre me pareceu forte quanto a isso. Eu o admirava. Jom era um rapaz solitário, mas não se mostrava triste por isso.

Eu sou um garoto gordo e as crianças sempre zombavam de mim. Quando as crianças saiam do limite Jom vinha me ajudar. Lembro do dia que eu fui empurrado e bati meu joelho no brinquedo do parque da escola e Jom me levou nos braços até a enfermaria. Naquele dia eu percebi que não era somente admiração que eu sentia por Jom. Aos 15 anos eu contei para Jom que também era gay. Ele falou que já sabia. Eu fiquei sem jeito, mas logo depois ele me roubou um beijo. A partir dali Jom não era só o meu herói. Ele também era meu primeiro grande amor.

Esse filme passou pela minha cabeça. Meus olhos encheram-se de lagrimas que logo escorreram pelo meu rosto. Eu não sei se todo esse tempo ele se fingia de forte ou se realmente ele era alguém forte. Ele era um homem de poucas palavras. Mesmo assim eu gostava do jeito dele. Mas nesse dia eu queria ouvir tantas coisas dele, mas foi o dia que ele não falou uma só palavra. Ele parecia não querer chegar perto de mim. Ficamos parados por um tempo e nem eu sabia o que dizer naquele momento. Foi a despedida mais dolorosa da minha vida. Ele se virou e quando tentou dar o primeiro passo eu tentei interrompê-lo: “Não vá Jom!”. Ele parou por um instantes e já de costas para mim ergueu a cabeça e partiu. O meu mundo desmoronou. Eu passei anos para voltar à realidade. Eu tive que seguir em frente mesmo que as coisas não tivessem mais cores.




 

Hoje eu tenho 42 anos e sou casado com Bily. Bily é um homem adorável e gentil. Eu nunca contei para ele da minha primeira paixão. Eu não queria trazer o passado para um futuro que eu estava tentando construir. Mas a vida nos surpreende a cada esquina. Eu estava saindo de casa quando vejo Bily conversando com um homem. Me aproximo e o reconheço. Aqueles olhos castanhos claros, ombros largos, e pernas fortes não me deixaram duvidas. Era Jom! Mais uma vez eu paralisei diante dele. “Oi Jack, o padeiro disse que você morava aqui então resolvi ver como você estava.” A voz dele não mudou nada, continuava serena e firme. “Você por aqui?” Eu falei isso sem pensar muito, afinal eu achei que nunca iria vê-lo novamente. Acho que Bily notou um clima estranho no ar então ele resolve interromper: “Parece que vocês não se veem faz tempo. Amanhã é aniversário do Jack você gostaria de vir comemorar conosco?”. Jom tira os olhos de mim e responde a Bily dizendo: “Estou de passagem pela cidade. Vim resolver uns assuntos de trabalho, mas talvez eu apareça. Obrigado pelo convite”. Ele respondeu já se retirando. Me cumprimentou movimentando a cabeça e saiu.

Passei o dia desconcentrado. Eu não sabia o que sentia. Uma mistura de sentimentos me invadiu. Uma pergunta pairava sobre minha mente “Porque somente agora ele voltou?”. Eu me senti sufocado. Meus colegas de trabalho me perguntavam se eu estava bem. Eu acho que preenchi vários formulários de forma errada. Na volta para casa o por do sol me convidava para o passado. Eu lembrei de quando nós conversávamos a beira da praia. Sentados, esperávamos o sol sumir e a noite tomar o céu. A brisa da praia e o som da água do mar nos fazia esquecer do mundo. Somente havia nós dois ali. Eu dobro para a direita bruscamente quase causando um acidente e vou em direção ao mar. Ele podia estar lá agora. Chegando lá ele não estava.

Eu acho que exagerei. “Ele deve ter alguém na vida dele assim como eu”. Aceito esse fardo, pego meu carro e vou para casa. Eu estava atrasado para terminar de organizar as coisas para o meu aniversário. Poucas pessoas foram convidadas. Meus dois irmãos e os amigos de infância de Billy e o Jom. A maioria dos meus familiares a mediada que o tempo passou foram morar em outros lugares. Quando cheguei em casa já havia anoitecido. Bily estava preocupado porque eu havia me atrasado e assim inventei um desculpa. Poucas horas depois todos cantaram parabéns para mim e depois começaram a beber e conversar.

Todos já estavam alterados pela bebida menos eu que decidi não beber naquele dia. Jom não marcou presença. Já estava tarde e o pessoal começaram a ir embora aos poucos. Estavam apenas Bily e Tony na mesa. Esses dois bebem cerveja come se estivessem bebendo água. Ambos estavam bêbados, mas eu não queria interromper a diversão. A campainha toca e eu vou atender. Ao abrir a porta vejo Jom. “Parece que me atrasei um pouco”. Meu coração ficou acelerado. Mas eu me contive. “Entre, ainda tem bolo” Ele dá um sorriso tímido e entra. Bily e Tony estavam falando sobre baseball e não deram tanta atenção para a visita então convido Jom para entrar na cozinha e provar o bolo. Jom envelheceu bem. Agora ele tinha uma barba que preenchia seu rosto. Seu cabelo de castanho escuro se tornou castanho claro com alguns fios desbotados. Ele estava mais maduro e mais bonito do que antes. Acho que não consegui esconder meu olhar examinador.

“Sente-se”. Ele senta e prova do bolo. Diz que está bom. E pede desculpas pelo atraso. Nenhum de nós tocou em assuntos sobre nossa infância, sequer do dia da despedida. Eu pergunto se ele quer beber cerveja e ele não aceita alegando que ia trabalhar amanhã. Então ofereço um suco. Mas quando estendo a mão para entregar o copo, a jarra fica frouxa na minha mão e para não derrubar ela eu trago o copo para junto de mim derrubando suco na minha camiseta. Era limonada então eu tinha que tirar a camisa, para amenizar as manchas que iriam surgir nela. Jom ficou sem jeito e tenta me ajudar. Ele pega a jarra e o copo da minha mão e coloca sobre a mesa. Eu o agradeço e logo depois tiro minha camiseta. Dessa vez eu notei que ele quem estava me examinando. Ele estava parado sem reação. Eu finjo que não notei e pego um pano para limpar o suco derramado. Me curvo para enxugar o chão e quando subo eu vejo que Jom está de costas. Ao se virar ele diz para mim: “Não faça isso”. Eu demorei alguns segundos para entender. Ele estava me desejando. Depois de tantos anos eu achei que ele não sentia mais nada por mim. “Eu preciso ir.” Jom fala isso e caminha em direção a porta da cozinha.

Eu não podia deixar ele fugir novamente. Peguei na mão dele e assim ele vira seu rosto em minha direção. “Não vou deixar você sumir como da outra vez”. Quando terminei de dizer isso, percebo que Bily vem em direção à cozinha. Eu solto a mão de Jom e nós dois fingimos que nada estava acontecendo. “Já provou do bolo Jom?” Bily já não estava falando direito quando fez essa pergunta, mas mesmo assim notou que eu estava sem camiseta e acrescenta: “O que aconteceu com você Jack?”. Eu expliquei para ele sobre a limonada. “É melhor você vestir uma camisa, está fazendo frio” Bily diz isso ao pegar um abridor de latas e volta para sala. Já com o clima mais tranquilo eu pergunto para Jom porque ele não veio me ver antes.

- Eu não pude vir te visitar – ele falou isso se esquivando do meu olhar.
- Eu te esperei por tanto tempo – meus olhos começaram a encher de lagrimas nesse momento.
- Não chore! – Jom disse isso usando a mesma voz de consolo que usava quando éramos jovens.
- Você podia ter enviado uma carta – nesse momento uma lágrima escorreu em meu rosto.
- Me desculpe – Jom me consola levando seu dedo ao meu rosto para enxugar a lagrima. – Eu preciso ir Jack. - Ao terminar de falar Jom vira-se e vai embora.

Já na cama eu não conseguia dormir. Um fantasma veio me atormentar. Agora eu estava casado. Bily não merecia aquilo. Eu confesso que foi o meu melhor aniversario. Rever Jom me encheu de alegria. As coisas voltaram a ter cor. Mas eu resolvi viver minha vida sem Jom. Por mais que eu gostasse de ver ele eu não podia tê-lo novamente. Minhas emoções ondulavam entre alegria e tristeza.

No dia seguinte já no trabalho eu tomei umas broncas do meu chefe. Eu realmente tinha errado alguns formulários. Eu me desculpei e os refiz. De volta para casa eu resolvo ir à praia novamente. Dessa vez eu não tinha esperança de encontrá-lo lá. Eu só queria limpar minha mente e refletir um pouco. Eu confesso, eu fui até o mesmo local que costumávamos sentar e observar o mar. Eu consegui sentir a mesma sensação só que dessa vez eu estava sozinho. Á água do mar parecia uma música calma. Eu estava leve. Eu conseguia sentir minha respiração ao fechar os olhos. “Eu sabia que te encontraria aqui” a voz de Jom quebrou o silencio e fez meu coração disparar. Eu abri os olhos e o vi do meu lado. Ele sentou ao meu lado. E sem que eu perguntasse algo ele me disse várias coisas.

 

- Eu não sou bom com despedidas. Eu te amava muito naquela época. Na verdade eu ainda te amo. – dessa vez ele estava olhando em meus olhos – Eu senti que se eu falasse com você às palavras que eu dissesse iriam me perseguir pro resto da vida. Assim como você eu já encontrei outras pessoas, mas não amei nenhuma como amei você. A sua imagem sempre me visitou em meus sonhos. Você era um gordinho lindo e ainda continua bonito. Bily é um cara de sorte. Eu não queria atrapalhar sua vida é por isso que não escrevi para você. Eu não queria que você sofresse com a minha distancia. Me esquecer talvez fosse a melhor forma de não sofrer tanto. Eu não estou aqui a trabalho. Eu vim para te ver eu confesso. Eu fiquei feliz por você está com Bily, ele é um cara legal. Mas não posso negar que você nunca saiu da minha cabeça.

Nesse instante eu já estava chorando muito. Ele me abraçou e parou de falar. Eu queria muito beijar ele, mas as circunstâncias não permitiam isso. Ouvir dele que ainda me amava foi terrível. Nós estamos em estradas diferentes que do nada resolvem se cruzar. Eu não podia trazer de volta aquela paixão adormecida.
É difícil lutar contra o amor. A minha vida está conectada a ele e presa a outro coração. Noite após noite eu tentei esquecê-lo isso não foi fácil. Eu não esqueci ele. Eu o transformei em um ser místico, como o papai Noel. Essa foi a forma que encontrei para enganar meu coração. Ele era só uma figura que nunca existiu e de repente ele está do meu lado. Eu posso senti-lo. Ele é real. Eu só consigo chorar e pedir para que o tempo passe lentamente. Eu queria viver eternamente esse momento. Dessa vez eu não quero que o sol se ponha. Eu fechei meus olhos e esperei um milagre.

 

Poderá gostar também de:
Postado por Mac Del Rey | (0) Comente aqui!

0 comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...