terça-feira, janeiro 29, 2019

POLÍTICA/DIREITOS

Bolsonaros homenageiam militares, clube de tiro, idosa que baleou ladrão e até madrasta.


Os irmãos Flávio e Carlos Bolsonaro homenagearam ao menos 72 pessoas. 


Juntos, Flávio e Carlos Bolsonaro concederam títulos a 72 pessoas; Dois acusados de integrar milícias estão entre elas.

No Rio de Janeiro, os dois filhos do presidente Jair Bolsonaro que atuam na política local homenagearam ao menos 72 pessoas desde 2001. Os agraciados pelo ex-deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL) e pelo irmão, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC), vão desde envolvidos com milícias à própria madrasta.

A lista inclui ainda um clube de tiro, um militar denunciado por crime na ditadura, uma procuradora que enquadrou João Pedro Stédile, então dirigente nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), na lei de imprensa e uma senhora que baleou um assaltante. Também está entre os agraciados o ex-assessor Fabrício Queiroz, envolvido no escândalo do Coaf.



Carlos é o recordista de sugestões de condecorações, com 60 concedidas. Por indicação dele, a Câmara dos Vereadores homenageou, em 2006, com a Medalha de Mérito Pedro Ernesto a advogada Ana Cristina Siqueira Valle, sua madrasta na época.

A Medalha de Mérito Pedro Ernesto, segundo a Câmara de Vereadores, é o principal da cidade do Rio de Janeiro e se destina a personalidades que se destacam na sociedade brasileira ou internacional. Para conceder o título basta que a indicação tenha apoio de um terço dos vereadores, 17 de 51.

A segunda esposa de Bolsonaro, que foi funcionária no gabinete dele na Câmara dos Deputados, tem trajetória de atuação em órgãos públicos. O casamento entre os dois terminou em 2007, marcado por brigas conjugais, expostas em uma troca de acusações, revelada pela Folha de S.Paulo.

No mesmo ano em que homenageou a madrasta, enalteceu com a medalha o tenente coronel da Aeronáutica Marcos Pontes, atual ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Em 2016, foi a vez de o Clube de Tiro .38, de Santa Catarina, e do diretor da escola, Tony Eduardo Hoerhann - “único brasileiro com acesso às Forças de Segurança Nacional da China” -, serem condecorados por indicação de Carlos. Foi lá que ele e o irmão Eduardo fizeram no início do ano passado treinamento com um atirador da Swat. 

Também foi de iniciativa do parlamentar a concessão da insígnia a Maria Dora dos Santos Arbex. Em 2006, ela ficou conhecida como a idosa que baleou um ladrão para salvar um poodle.

Aos 67 anos, a enfermeira disparou um tiro na mão de um assaltante que teria ameaçado matar seu cachorro se ela não entregasse o telefone. Arbex chegou a ser indiciada por porte ilegal de arma. O revólver calibre 38 pertencia legalmente à filha mais nova.

Quando recebeu a honraria, a senhora defendeu ideias polêmicas em relação à população de rua - o assaltante era morador de rua. “Se não tem albergue ou não quer ficar no albergue, então fica no meio do mar. Bota num navio e descarrega longe. Na minha calçada, na minha rua, é que não vai ficar”, disse.

No dia, o vereador afirmou que ela era um exemplo à sociedade. “Mostra que o Estatuto do Desarmamento está errado”, disse. Por que não entregar a medalha a quem mostra que a segurança pública está cada vez mais falha?”, emendou.

O delegado Fernando Veloso, que investigava o caso, reclamou da homenagem por dizer que poderia estimular a reação a mão armada nas ruas. Ele não foi o único a contestar o critério da Câmara dos Vereadores. “Como você premia uma pessoa sem o seu histórico?”, questionou ao jornal Extra Pedro Ernesto Montagna, bisneto do ex-prefeito que dá nome à honraria.  

No Twitter, Carlos costuma criticar o currículo de indicados ao título. Já foram alvos do vereador a ex-presidente Dilma Rousseff, o deputado Marcelo Freixo e cantora Preta Gil. 

"Fui o único a votar CONTRA a concessão da Medalha Chiquinha Gonzaga p/ a TERRORISTA e ASSALTANTE DE BANCO  Dilma Roussef. Placar: 26x1".

-Carlos Bolsonaro

Carlos também é um dos autores de um projeto de lei que declara como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial da cidade do Rio de Janeiro a Família Gracie, precursora do Jiu-jitsu no Brasil. Segundo a justificativa da proposta, a família criou o Gracie Jiu-Jitsu, “também conhecido como Jiu-Jitsu Brasileiro”, que adaptou “a técnica japonesa original de modo que pessoas menores e mais frágeis dominassem adversários fisicamente superiores”.

Na Alerj (Assembleia do Rio de Janeiro), de 2003 até o ano passado, enquanto foi deputado estadual, o senador eleito Flávio Bolsonaro teve 12 pedidos de homenagem aceitos. 

Dominado por militares, o rol de homenageados de Flávio abarca o segundo militar denunciado pelo Ministério Público Federal por violações dos direitos humanos durante a ditadura militar. Em depoimento presente no livro O coronel rompe o silêncio, do jornalista Luiz Maklouf Carvalho, o tenente coronel da reserva do Exército, Lício Augusto Ribeiro Maciel,  afirmou ter sido o militar que mais matou na Guerrilha do Araguaia.




A medalha tem finalidade semelhante à concedida pela Câmara de Vereadores, pode ser dada a personalidades nacionais ou estrangeiras que, de qualquer forma, tenham serviços prestados ao Estado do Rio de Janeiro, ao Brasil ou à Humanidade. Para ser concedida, precisa contar com apoio de outros 10 parlamentares. Desde 2015, há um limite anual de 3 títulos por deputado.

Imprensa

Embora a família Bolsonaro esteja em guerra com a imprensa, há uma jornalista entre os condecorados com a Medalha Tiradentes: Roberta Trindade, especializada na cobertura de polícia e segurança pública.

Uma das crises dos Bolsonaros com a mídia brasileira gira em torno do escândalo do Coaf. Nesta semana, a história ganhou um novo episódio com a ligação entre o ex-assessor do parlamentar Fabrício Queiroz e alvos da Operação Os Intocáveis, que investiga a milícia de Rio de Pedras.

Além de Queiroz, foram condecorados dois dos acusados de integrar o Escritório da Morte, um braço da milícia de Rio das Pedras, investigada pelo assassinato da vereadora do PSol Marielle Franco,

O então deputado entregou a Medalha Tiradentes ao ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega e ao capitão da PM Ronald Paulo Alves Pereira. 

Adriano foi homenageado duas vezes, em 2003 e 2005. Na primeira, ele comandava um patrulhamento tático-móvel e foi agraciado “pelos inúmeros serviços prestados à sociedade”. Dois anos depois, Flávio destacou a atuação de Adriano em uma operação no Morro da Coroa, em 2001. A ação prendeu 12 suspeitos, apreendeu 4 fuzis, outras 3 armas de fogo, uma granada e munições.

Já Ronald foi condecorado em 2004. Na época, o então deputado destacou uma ação no Complexo da Maré, que deixou 3 mortos, apreendeu fuzis e granadas.

No dia 22, quando a notícia das homenagens veio à tona, o senador eleito afirmou que sempre atuou na defesa de agentes de segurança pública. “Já concedi centenas de outras homenagens”, disse.

A mãe e a mulher de Adriano, Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, foram funcionárias no gabinete de Flávio. O parlamentar se diz vítima de uma campanha difamatória com objetivo de atingir do governo do pai. 

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