sexta-feira, fevereiro 22, 2019

POLÍTICA

Crise com Bebianno mostra que principal obstáculo à gestão Bolsonaro está em sua base.


Demora de Jair Bolsonaro na demissão de Bebianno do cargo de ministro-chefe da Secretaria-Geral inflou críticas de aliados. No início da crise, o líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (GO) disparou: "O presidente tem de ter bom senso". 


Rachas expostos no PSL frustraram a expectativa da bancada de crescer de 52 para 61 deputados e se tornar a maior da Câmara.

O governo do presidente Jair Bolsonaro enfrenta como principal oposição o próprio círculo de aliados. O impasse com os apoiadores se acirrou com a crise que envolveu a demissão do principal articulador da campanha de Bolsonaro à Presidência, Gustavo Bebianno, do cargo de ministro-chefe da Secretaria-Geral.

Nos últimos dias as principais críticas vieram do PSL, envolvido no escândalo de candidaturas laranjas. O ex-ministro, que presidiu o partido na campanha eleitoral, é acusado de ter viabilizado o esquema de desvio de dinheiro envolvendo as candidaturas. Integrantes da sigla tentam se dissociar do caso, pressionam por solução e batem cabeça na defesa do PSL.

Líder do partido na Câmara dos Depurados, Delegado Waldir (GO), garantiu na semana passada que Bebianno não seria demitido. Ele foi a público tentar tirar o então ministro do foco e defender a função de Bebianno enquanto presidiu a sigla.



“O presidente (Bolsonaro) tem de ter bom senso. O Bebianno elegeu ele, mais de 50 deputados, elegeu o Delegado Waldir e 3 governadores”, disse o líder. Segundo ele, “um debate mais apimentado com o filho do presidente não é motivo para ele (Bebianno) sair”.

Nesta segunda-feira (18), o deputado teve de voltar atrás. “O Bebianno vai ser demitido, foi isso que foi dialogado. (…) Ele quebrou a confiança do presidente, acabou”, disse à Reuters. (Leia mais sobre a demissão de Bebianno aqui.)

Desde quarta-feira (13), quando a divergência entre Carlos Bolsonaro, filho do presidente, e Bebianno foi parar no Twitter, com a publicação de um áudio que desmentia afirmação do ex-ministro de que a relação com Bolsonaro estava boa, outros integrantes do PSL passaram a pressionar o governo. A deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) foi uma delas. 

Racha na bancada

As notícias do racha interno se espalharam e afastaram parlamentares que negociavam migrar para o PSL. Segunda maior bancada da Casa, com 52 deputados eleitos em 2018, o partido esperava chegar a 61 e ultrapassar o PT, que tem 59. A siga chegou a 54. No Senado, a expectativa era passar de 4 para 6 parlamentares. O senador Capitão Styvenson (Podemos-RN), por exemplo, era um nome certo. O parlamentar, entretanto, trocou a Rede pelo Podemos.

As eleições para as presidências da Câmara e do Senado também deixaram marcas. Embora o governo tivesse afirmado que ia se manter fora, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, atuou nas duas Casas, com foco principal no Senado. Conseguiu eleger o aliado Davi Alcolumbre (DEM-AP), mas criou um embate com o senador Major Olímpio (PSL-SP), um dos principais articulares de Bolsonaro na Casa.

O senador considerou a interferência do ministro “imprópria” e diz que agora é momento do partido “curar as feridas”.

Problemas desde o Caso Queiroz

O cenário da oposição dentro da própria direita já tinha sido identificado por apoiadores do governo no período em que o escândalo com o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) dominava as páginas do noticiário. O filho do presidente tem a movimentação financeira investigada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. 

Ao HuffPost Brasil, o vereador Fernando Holiday (DEM-SP) considerou que  “as grandes divergências no governo foram com a direita”. 

"Acho que pode fazer bem porque é a direita tomando espaço de discussão que deveria estar sendo ocupado pela esquerda."

-Fernando Holiday (DEM-SP), vereador

No fim de janeiro, quando fez a declaração, ele citou como exemplo a oposição direitista quando o presidente assinou o decreto sobre as armas, em que uma parte da direita queria uma flexibilização maior e outra defendia o decreto como foi feito. Também listou caso de Flávio Bolsonaro, em que parte da direita defendia que ele não tivesse questionado ao Supremo sobre a possibilidade de ter foro privilegiado.

Na época, entretanto, o vereador considerou positivas as divergências. “Acho que pode fazer bem porque é a direita tomando espaço de discussão que deveria estar sendo ocupado pela esquerda.”

‘O senhor está bem envenenado’, disse Bebianno a Bolsonaro em áudio divulgado pela Veja.




Áudios divulgados pela Veja mostram que Bebianno e Bolsonaro conversaram.

Mas afinal: áudio de WhatsApp configura ou não uma conversa?

Áudios de WhatsApp trocados entre o presidente Jair Bolsonaro e o então ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, e divulgados nesta terça-feira (19) no site da revista Veja mostram que os dois conversaram no dia 12 de fevereiro - o que o vereador Carlos Bolsonaro e o próprio presidente negaram no dia seguinte. Bebianno foi exonerado do cargo na última segunda (18).

Pelo Twitter, Carlos divulgou na última quarta (13) que era “mentira absoluta” que Bebianno havia conversado com seu pai na véspera, enquanto ele ainda estava no hospital. Isso tudo ocorreu em meio à revelação de um escândalo de candidaturas laranja do PSL durante as eleições, que envolve Bebianno.

“Há várias formas de se falar. Nós trocamos mensagens ontem três vezes ao longo do dia, capitão”, diz Bebianno num áudio enviado a Bolsonaro depois que foi chamado de mentiroso por Carlos.

Os três áudios a que Bebianno se refere foram publicados pela Veja. No primeiro, Bolsonaro critica o então ministro por ter programado receber no Planalto o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet Camargo. “Trazer o inimigo para dentro de casa é outra história (…) Cancela, não quero esse cara aí dentro, ponto final”, diz o presidente.

No segundo e no terceiro, Bolsonaro questiona uma viagem de Bebianno e dos ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) ao Pará, para discutir projetos na Amazônia. A viagem foi antecipada em nota pelo O Antagonista. “Essa viagem não se realizará, tá OK? Um abraço aí, Gustavo!”, finaliza o presidente.

Do dia 12, não foi revelado nenhum áudio gravado por Bebianno.

‘O senhor está bem envenenado’

Os demais 9 áudios publicados pela revista mostram já a discussão que se seguiu depois que Carlos e Bolsonaro disseram publicamente que Bebianno mentiu.

“Falamos da questão do institucional do Globo. Falamos da questão da viagem. Falamos por escrito, capitão. Qual a relevância disso, capitão? Capitão, as coisas precisam ser analisadas de outra forma. Tira isso do lado pessoal. Ele [Carlos] não pode atacar um ministro dessa forma”, disse Bebianno em um deles.

Bolsonaro então responde: “[Dizer] que usou do Whatsapp para falar três vezes comigo, aí é demais da tua parte, aí é demais, e eu não vou mais responder a você”.

O presidente também acusa Bebianno de ter passado ao Antagonista uma nota sobre Bolsonaro não atender ao então ministro enquanto estava no hospital.

“Eu sabia qual era a intenção, era exatamente dizer que conversou comigo e que está tudo muito bem, então faz o favor, ou você restabelece a verdade ou não tem conversa a partir daqui pra frente”, disse o presidente em outro áudio.

Nos áudios que vazaram, Bebianno parece não se alterar e questiona várias vezes a razão dos ataques de Carlos a ele, acrescentando que está vendo que Bolsonaro “está bem envenenado” pelo filho.

“Eu tento proteger o senhor o tempo inteiro. Por que esse tipo de ataque? Por que esse ódio? O que é que eu fiz de errado, meu Deus?”, diz o então ministro.


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