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DIREITOS

OPINIÃO: Se você acha que direitos transexuais são uma distração, você é parte do problema.


Será que os direitos das pessoas trans não passam de algo que desvia nossa atenção das questões realmente importantes?


É fácil ver os direitos trans como uma questão frívola até perceber a profundidade da oposição à mera existência de pessoas trans.

O diretor e roteirista de séries e musicais, Aaron Sorkin, foi entrevistado recentemente pelo jornalista Fareed Zakaria, da CNN, sobre política. Ele aproveitou o momento também para divulgar o sucesso de sua produção, The West Wing, que é quase uma fantasia presidencial da era Bush. Seguindo a tradição de seus personagens, que gostavam de repreender as pessoas, Sorkin fez uma recomendação em tom de bronca à “safra de gente jovem” que chegou ao Congresso norte-americano recentemente:

“Acho que agora, mais que nunca, há uma grande oportunidade para os democratas serem o partido que não é estúpido”, ele disse a Zakaria. “Não se trata apenas de banheiros para transgêneros. Isso é apenas uma questão que os republicanos inventam para desviar nossa atenção [do que é realmente importante].”



Na mesma noite da entrevista de Sorkin a Zakaria, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez (democrata de Nova York) ― cujo humor ágil no Twitter e declarações ideológicas francas vêm lhe valendo atenção especial entre os parlamentares eleitos recentemente ― aderiu a uma corrente para levantar fundos para uma entidade beneficente que apoia crianças transgênero.

Seria difícil imaginar um contraste como esse entre gerações ou uma questão mais própria para dividir as gerações. Será que os direitos das pessoas trans não passam de algo que desvia nossa atenção das questões realmente importantes, como disse Aaron Sorkin? Ou são uma questão mais fundamental em uma guerra amarga travada entre esquerda e direita pelo coração e a cabeça das pessoas?

"A obsessão da direita com os transgêneros é 50x o que a gente imagina que seja."

-Katelyn Burns, redatora transgênero

É fácil encarar os direitos trans como uma questão irrelevante, algo que não vem ao caso para um partido “que não é estúpido” – até nos darmos conta de como é profunda a oposição à simples existência dessas pessoas e como é enorme o apoio jurídico e financeiro à discriminação concreta contra elas. Isso foi ilustrado muito claramente quando a Suprema Corte dos EUA, de maioria conservadora, votou pelo restabelecimento do decreto discriminatório do presidente Donald Trump proibindo transgêneros nas forças armadas, enquanto a medida é contestada em tribunais de instâncias inferiores.

Um certo segmento da esquerda frequentemente faz pouco caso dos direitos trans, tratando a questão como algo frívolo, de pouca importância, algo que está no limite da chamada “política de identidade”. Esses direitos também são contestados com veemência por conservadores – com um grau de rancor que pode chocar qualquer pessoa que nunca tenha se deparado com a profundidade espantosa da aversão a eles.

Como disse no Twitter a redatora trans norte-americana Katelyn Burns, “a obsessão da direita com os transgêneros é 50x o que a gente imagina que seja. Eles encaram isso como uma guerra cultural que eles podem vencer e estão muito perto de vencer a briga legalmente. Não vejo uma energia correspondente na esquerda em favor dos transgêneros.”

Um olhar rápido sobre os veículos de comunicação conservadores revela como é forte a oposição aos direitos dos transgêneros na psique conservadora. No site de comentários conservadores The Federalist, uma busca por “transgênero” rende 697 artigos, sendo os três mais recentes intitulados “30 transgêneros arrependidos saem do armário”, “Batismos de transgêneros na Igreja Anglicana abrem caminho para três outros ritos blasfemos” e “O movimento transgênero não está interessado em chegar a um acordo”. Uma busca pelo mesmo termo no site Breitbart rende dezenas de páginas de conteúdos antitransgêneros.

Mas o rancor não se limita a comentários culturais furiosos – tampouco a calúnias, erros propositais em tratamento de gênero e uma fixação intensa sobre o binário de gênero no discurso público. Ele assume a forma de restrições legais impostas à vida de pessoas transgênero, da permissão federal da negação de atendimento médico a transgêneros, além de outras iniciativas que revelam o sentimento hostil real e a força real por trás da aversão a transgêneros.


Em uma cultura tão militarista quanto a americana, excluir pessoas trans das forças armadas transmite uma mensagem inconfundível de desprezo.


Um desses momentos especialmente assustadores para pessoas trans se deu quando Trump – de modo repentino e sem ouvir a opinião de seus assessores militares – anunciou que militares transgêneros, homens ou mulheres, não seriam mais aceitos nas forças armadas.

O presidente alegou que sua decisão se deveu ao custo proibitivo da assistência médica prestada aos militares trans. Essa alegação foi totalmente desmentida: pesquisadores apontaram que o custo da assistência médica dada a transgêneros representa uma parcela infinitesimal do orçamento inchado do Pentágono. O Washington Post destacou que as Forças Armadas desembolsam dez vezes mais para tratar disfunção erétil do que gastam com assistência médica a militares transgêneros.

A premissa citada pelo presidente é totalmente fictícia, e a iniciativa é assustadora. Em uma cultura tão militarista quanto a dos EUA – que adora festejar suas tropas em clima de patriotismo farisaico ―, excluir pessoas trans das forças armadas transmitiu uma mensagem inconfundível de desprezo, a mesma mensagem enfrentada por gays e lésbicas antes da revogação da política “não pergunte, não conte” relativa ao serviço militar deles. Na prática, a iniciativa de Trump foi uma declaração de que os transgêneros seriam cidadãos de segunda classe. E essa iniciativa agora foi endossada pela Suprema Corte, pelo menos temporariamente.

"A esquerda precisa combater a hostilidade aos transgêneros, algo que se manifesta como ódio visceral e discriminação concreta, com uma onda forte de proteção."

Quanto às “leis de banheiro” anti-trans ironizadas por Sorkin, longe de serem apenas uma questão para ser debatida pela direita, essas medidas, adotadas em 18 estados americanos, representam um pânico moral movido a falsidades e um perigo concreto à vida de transgêneros.

Segundo a Conferência Nacional de Legislaturas Estaduais, apenas em 2017, 16 estados americanos ― Alabama, Arkansas, Illinois, Kansas, Kentucky, Minnesota, Missouri, Montana, Nova York, Carolina do Sul, Dakota do Sul, Tennessee, Texas, Virginia, Washington e Wyoming – estudaram projetos de lei que restingiriam o acesso a banheiros, vestiários e outras instalações segregadas por gênero. As restrições seriam baseadas numa definição de sexo ou gênero consistente com o sexo atribuído no nascimento, ou “sexo biológico”.

Banheiros e vestiários são espaços tensos, espaços de vulnerabilidade física. Essas iniciativas discriminatórias pedem que as pessoas transgênero coloquem suas vidas em risco para acalmar o medo e o ódio de outras pessoas. É revelador que alguém que se diz de esquerda encare como frivolidade o direito de outros americanos de executar funções corporais básicas em segurança.

Na realidade, a hostilidade antitrans vem ganhando espaço cultural precisamente pelo fato de promover tanto o medo vil do pânico moral e a apatia daqueles que deveriam estar defendendo os direitos das pessoas trans. Há uma ausência de força concomitante para defender as pessoas trans: não há marchas nas ruas que mobilizem milhões de pessoas em defesa dos direitos desta parcela minúscula da população que é objeto de ataques tão perigosos e exagerados. “Os atos públicos em defesa dos direitos dos transgêneros nos quais já estive tiveram a participação quase única de transgêneros”, escreveu Burns.

É precisamente o ponto de vista de Sorkin – uma visão centrada em homens brancos e cisgêneros – que os democratas jovens possuem o poder de colocar de escanteio. É hora de reconhecer que focar sobre as necessidades daqueles que possuem o menor capital social e que são mais marginalizados é algo que protege a todos nós. Quando estamos divididos, somos conquistados facilmente; quando nos posicionamos em solidariedade, viramos adversários mais temíveis.

A esquerda precisa combater a hostilidade aos transgêneros, algo que se manifesta como ódio visceral e discriminação concreta, com uma onda forte de proteção que demonstre sem ambiguidade a justiça que nosso movimento busca.

*Talia Lavin é redatora e pesquisadora residente no Brooklyn.

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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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