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DIREITOS

A diretora transexual que apoia o debate sobre gênero nas escolas.




É um espaço que conhece muito bem. O grande portão azul de ferro, o pátio que se prolonga até o final do comprido terreno, o brinquedo ao fundo. A quadra logo ao lado, um pouco antes o refeitório. As salas um pouco acima, após um curto lance de escadas, com a mureta pintada de verde na frente das portas. Muitos recados nas paredes, placas coloridas. Amarelinha pintada no chão. Há 16 anos ela circula por ali com propriedade. Paula Beatriz de Souza Cruz, 48 anos, é diretora da Escola Estadual Santa Rosa de Lima, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Mora a dez minutos dali, no Campo Limpo. Faz parte da comunidade. E adora isso. Assim como o clima de escola. Desde criança já está acostumada. Lembra que a mãe, servente escolar, chegou a atuar como zeladora em uma unidade e ela se aproximou ainda mais desse ambiente. Ficava a noite na biblioteca. Organizava alguns livros – lia tantos outros. Já estava dado.




Hoje, após quase 30 anos de profissão, Paula se sente realizada. Recebe as crianças no portão da escola, dá algumas orientações, conversa com os pais, com o vendedor de sorvete que fica na entrada. Sorri, serena. Gosta de estar ali. Há alguns anos, recebeu também ex-alunas. “Algumas meninas, hoje travestis, quiseram vir aqui falar comigo. Tinham tido contato comigo quando crianças. Falam que sou uma inspiração. A gente sabe que nosso país é um dos que mais mata travestis e transexuais e você estar numa direção de escola abre caminho para novas gerações e até para atuais de que é possível”. Paula é a primeira mulher transexual a assumir esse posto na rede de ensino do Estado de São Paulo. “Acho que mostra que não é só ir para prostituição e a marginalidade, aquele rótulo histórico que a sociedade te coloca. Tem possibilidades”.

"A gente sabe que nosso país é um dos que mais mata travestis e transexuais e você estar numa direção de escola abre caminho para novas gerações e até para atuais de que é possível."


Paula Beatriz de Souza Cruz, 48 anos, é diretora da Escola Estadual Santa Rosa de Lima, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo.


Foi o que ela descobriu por meio da educação. Possibilidades. Pode parecer clichê – e talvez seja mesmo – mas foi assim. O sonho de ser professora ela realizou cedo. Depois se tornou coordenadora, formadora, diretora, atuou na supervisão de ensino e retomou a direção. Sua transição de gênero aconteceu no meio disso tudo, quando já era diretora. Resolveu mudar de área por um tempo para alterar outras coisas em sua vida. “Estava na direção, mas não queira dar aquele impacto de sumir um mês e aparecer com saia longa, maquiada [risos]. Aqui lidava com crianças de 6 a 11 anos e não queria causar esse impacto, mas na verdade sempre foi tranquilo. Mesmo antes [da transição] eles perguntavam se eu era mulher. E eu voltava: ‘o que você acha?’”. Cada um achava uma coisa. E tudo bem. Não influenciava em nada. “Essa voz da criança é direta, franca, sincera e acho isso muito bonito, elas não veem rótulo”.

Assim, como Paula, seguiu sua trajetória. Essa, aliás, era uma grande preocupação que tinha: não conseguir continuar em sua carreira. Ela conta que desde criança já se percebia de outra forma. “Me entendi diferente já na infância, via que não me enquadrava naquela figura biológica na qual tinha nascido, mas sem entender. Não vou falar que foi muito fácil me aceitar como Paula, tanto que levei 37 anos para isso. Gosto de brincar que tinha um irmão gêmeo antes porque foi ele que entrou, estudou, fez a pedagogia, ingressou como diretor e não posso também anular essa história. Este foi o caminho e porque tão tarde? Por medo. Eu tinha muito medo, porque não sabia como ia ser a reação das pessoas, como eu ia ser tratada e de repente perder justamente o ambiente que eu mais gosto de estar e não poder atuar”. Mas encarou buscar essa mudança. “Eu percebi e fui pedir ajuda para profissionais porque senti que não estava bem. Eu precisava ser”.

"Não vou falar que foi muito fácil me aceitar, tanto que levei 37 anos para isso. Este foi o caminho e porque tão tarde? Por medo. Eu tinha muito medo."


“Essa voz da criança é direta, franca, sincera e acho isso muito bonito, elas não veem rótulo."


Além de apoio profissional, Paula destaca a principal base que teve em todo o seu processo. O acolhimento da família. Foi isso que a ajudou a continuar nos espaços que já ocupava e a enfrentar momentos de preconceito. “É fundamental essa base. Quando a família está próxima para acolher, estar junto, minimiza muitas outras situações. Por isso eu era empoderada desde jovem, eu tinha apoio e diálogo com a minha família, eles tinham entendimento de que eu era diferente”.  Isso fez com que Paula tivesse força para ir atrás de quem ela realmente era em um momento difícil e complexo de aceitação. “Começam muitas angústias... por que sou assim? Por que vim dessa forma? O que acontece comigo? E se você não tem essa base em sua volta...”

Por isso hoje faz questão de oferecer o que sempre teve. Acolhimento. E se esforça para fortalecer os laços e o papel da escola em uma comunidade, como um personagem atuante daquela vida. Paula acredita que muitas vezes é na escola que há possibilidade para diversas discussões, aprendizados, momentos de lazer e de questionamentos. É o que ela procura manter sempre ali, tanto com as crianças quando com quem trabalha na instituição. “Tem que dar formação para os profissionais e não digo só os professores e sim desde quem abre o portão, quem prepara a merenda, quem limpa o banheiro porque nesse espaço todos educam. O ofício de ensinar é do professor, mas todos educam. A escola é uma eterna pesquisadora e não tenho responsabilidade só com os 1008 alunos matriculados. Por trás deles tem muitas outras pessoas. Não podemos ficar isolada, a escola está dentro de um contexto”. 

"Quando a família está próxima para acolher, estar junto, minimiza muitas outras situações. Por isso eu era empoderada desde jovem, eu tinha apoio e diálogo com a minha família."


Paula fala de sua profissão com paixão e brilho nos olhos, quase ansiosa por um problema para encarar.


É nisso que ela acredita. E faz sua parte nessa construção. Busca ser uma diretora não autoritária, aberta ao diálogo e com uma gestão participativa, sempre com essa máxima de fazer o bem. “Eu tenho essa coisa de agregar. Essa coisa do amor, isso vem da religião. Eu sou de formação católica, fui coroinha, catequista e hoje sou umbandista, mas todas as religiões valorizam o ser humano, o amor ao outro e temos que respeitar todas, assim como também o ateu. Porque ele tem a crença em alguma coisa e tem que ser respeitado. Se eu quero respeito, sendo Paula, mulher transexual, negra, professora, que mora na periferia, também tenho que respeitar”.  O objetivo é quase romântico – e não por isso menos verdadeiro . “Acho que a gente precisa de um mundo melhor, que a gente propague mais o amor, a paz, essa união, o fortalecimento sem segregar grupos”.

Pensa assim. Hoje, está a poucos anos de se aposentar, mas ainda não sabe se realmente vai conseguir sair do ambiente escolar. Por enquanto não é uma grande preocupação. Seu foco continua o mesmo. “Tenho que estar nesse movimento de buscar informações novas, valorizar a aprendizagem para a escola estar viva. Ela não pode estar morta. Ela parada, nem gosto muito, fico preocupada. Gosto do barulho, dá aquela mexida provocante, são os conflitos que fazem a gente repensar como vamos lidar, como vamos resolver”.

"Tem que dar formação para os profissionais e não digo só os professores e sim desde quem abre o portão, prepara a merenda, limpa o banheiro porque nesse espaço todos educam."


Ela busca ser uma diretora não autoritária, aberta ao diálogo e com uma gestão participativa, sempre com essa máxima de fazer o bem.


Fala disso com paixão mesmo e brilho nos olhos, quase ansiosa por um problema para encarar. Coisa de quem vive com prazer aquela rotina. Tanto que na entrada da escola, enquanto recebe os alunos, uma das crianças é questionada por ela: “foi você que eu levei embora ontem, não foi?”. O garoto acena que sim com a cabeça. Ela explica discretamente que já era tarde e ninguém havia ido buscar o menino. Foi com um funcionário leva-lo para casa, já à noite. Faz parte de seu trabalho. Assim, pode ela também ir embora tranquila, certa de que está no melhor lugar que poderia. Aquele que ela escolheu - e que a acolheu tão bem. Não poderia ser diferente.


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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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