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DIREITOS

Os brasileiros não-binários que lutam pelo reconhecimento do gênero neutro.


Jinx, de 22 anos, se considerava um garoto bissexual, mas hoje se apresenta como indivíduo sem gênero definido.


"São pessoas que podem se sentir transitando entre os dois gêneros, sem necessariamente estar em um deles", explica a psiquiatra e educadora sexual Alessandra Diehl.

Os comentários sobre a aparência geravam desconforto em Jinx Vilhas, de 22 anos, durante a puberdade. “Nesse período, minha barba estava crescendo e isso me incomodava”, revela. Desde a infância, se perguntava sobre o modo como eram divididos os gêneros masculino e feminino. Na adolescência, os questionamentos se intensificaram. “Comecei a achar que não fazia muito sentido ter que se definir como homem ou mulher. Notei que havia algo errado na forma como o mundo se divide entre azul ou rosa”, relata à BBC News Brasil.

Até os 16 anos, Jinx se considerava um garoto bissexual. Depois, passou a se apresentar como indivíduo sem gênero definido. “Eu percebi que não conseguia me identificar como homem ou mulher”, explica. Uma das primeiras atitudes foi pedir que não o identificassem mais pelo nome de batismo. A partir de então, tornou-se Jinx. O nome, inspirado em uma drag queen do reality show norte-americano RuPaul’s Drag Race, foi escolhido por ser considerado de gênero neutro.

Também na infância, Cup, hoje com 22 anos, passou a notar que era diferente dos demais garotos da sua idade. “Sempre me senti desconexo. Me colocavam nessa definição de menino. Nunca entendi porque deveria haver essa classificação. Mas eu também não entendia o que sentia, então apenas vivia sem me importar com imposições de masculinidade”, comenta.

Apesar de não se identificar como pertencente ao gênero masculino, Cup também nunca se viu como mulher transexual. “Foi quando passei a pesquisar mais sobre o assunto e descobri que eu poderia ser uma pessoa sem gênero definido”, diz o estudante de publicidade, que tem os cabelos coloridos de azul e rosa.



Jinx e Cup se identificam como pessoas não-binárias. O termo, ainda pouco conhecido, é utilizado para denominar aqueles que não se classificam exclusivamente em nenhum dos gêneros binários – masculino ou feminino.


Cup diz que passou a notar que era diferente dos demais garotos da sua idade ainda na infância.



“São pessoas que podem se sentir transitando entre os dois gêneros, sem necessariamente estar em um deles. São os indivíduos que resistem à normalização de gêneros. São pessoas cujos corpos denunciam uma resistência à imposição de normas”, explica a psiquiatra e educadora sexual Alessandra Diehl, especialista em sexualidade humana.

A partir da década de 80, os estudos de gêneros passaram a abordar uma vertente que não incluía somente masculino ou feminino. Desde então, conforme especialistas consultados pela BBC News Brasil, surgiu o termo não-binários – também denominado por estudiosos como ‘genderqueer’.

Diehl ressalta que apesar de estudos recentes, indivíduos não-binários existem há séculos. “A diferença é que agora há estudiosos que abordam essa desconstrução do gênero.”

Em busca da própria identidade

Logo que passou a ser chamada de Jinx, a jovem pediu aos amigos que passassem a tratá-la no feminino. “Prefiro ser identificada assim, porque está fora do padrão que me impuseram”, argumenta. Cup não se importa com o gênero no qual é tratado. “Não tenho preferência. Cada pessoa se relaciona com isso de uma forma diferente. Não há um padrão”, explica o jovem.

Estudiosos afirmam que as definições sobre os gêneros dos pronomes que serão utilizados dependem de cada indivíduo não-binário. Uma das orientações é questionar a pessoa sobre o modo que prefere ser tratada.


Cup diz que não se importa com o gênero no qual é tratado e diz que “não há um padrão”.


Uma alternativa sobre o modo como tratar um indivíduo não-binário é o uso da linguagem neutra, utilizada para não especificar o gênero do interlocutor. Nela, são utilizados termos como “elu” – em vez de ele ou ela – e a vogal “e” se torna recorrente nas palavras com terminologias que denotam gênero. Amigo se torna amigue. Bonito se torna bonite.

Em um passado recente, a letra X chegou a ser utilizada para grafar o gênero neutro em alguns textos. Era comum ler palavras como “bonitx” ou “simpaticx” para não especificar se eram termos masculinos ou femininos. A consoante, porém, entrou em desuso em razão da dificuldade para ser pronunciada no fim das palavras.

Entre pessoas não-binárias, há aquelas que somente querem ser tratadas no gênero neutro. “Não aceito que me tratem como ele ou ela. Pô, não é difícil usar a linguagem neutra. Dá pra aprender em uns cinco minutos. Puro preconceito de quem se nega a usá-las”, diz Julian Cosmo Kahalia, de 21 anos.

“Puxa, é algo que ando refletindo há um tempo. Percebi que me incomoda demais ter de escolher o pronome masculino ou feminino para as pessoas se referirem a mim. Não me identifico dessa forma. Sou uma pessoa não-binária. Hoje, peço para me chamarem pelo gênero neutro. Só relevo quando não vale a pena explicar, como, por exemplo, quando só vou ver aquela pessoa por alguns minutos da vida, como motoristas de ônibus ou enfermeiros”, completa.


Julian Cosmo Kahalia, de 21 anos, não aceita que te tratem “como ele ou ela.


Julian, que é artista e trabalha criando ilustrações, passou a se identificar como pessoa não-binária aos 17 anos. “Quando conheci o assunto, vi que me encaixei naquilo. Tudo fluiu de forma natural e me senti como se isso sempre fizesse parte da minha identidade”, comenta. Desde 2015, deixou o nome de batismo para trás. “Passei a me chamar Cosmo apenas. Há um ano, adotei Julian, porque o cantor dos Strokes se chama Julian Casablancas. Eu tinha uma quedinha nele e sempre achei o nome belíssimo”, diverte-se.

Cup, Jinx e Julian são nomes sociais. Nos documentos deles ainda constam informações com as quais foram identificados ao nascer. Cup, ao menos por ora, não pensa em mudar o nome com o qual foi registrado pelos pais. “Peço apenas que as pessoas me chamem pelo nome social, que surgiu como um apelido, quando eu frequentava fóruns virtuais sobre ilustração.”

No futuro, Jinx e Julian pensam em alterar os nomes. Em relação ao gênero que consta nos documentos, não cogitam mudanças. “Não sinto vontade de alterar o gênero nos documentos, porque o masculino também não me representa. Se tivesse uma terceira opção, eu mudaria”, comenta Julian.

Em alguns lugares do mundo, os documentos possuem uma terceira alternativa para que o indivíduo se identifique, além de masculino ou feminino. Na Austrália, há o gênero neutro, adotado desde 2014. Na Alemanha também existe o terceiro gênero nos registros, conforme aprovado pelo governo alemão no fim do ano passado. No Brasil, ao menos por ora, não há discussão sobre o tema.

Trans

Grande parte dos indivíduos não-binários se identificam como travestis ou transexuais. Isso porque não se enquadram no gênero com o qual foram identificados ao nascer. Julian, Jinx e Cup não fogem à regra.

“Uma pessoa trans é aquela que não se identifica 100% com o gênero que lhe foi imposto. Dentro disso existem as pessoas trans binárias, que se identificam como homens ou mulheres transgêneros, e as trans não-binárias, que não se veem como homem ou mulher”, diz Julian.


Julian toma testosterona há um ano e meio, em busca de uma aparência mais masculina.


Segundo Alessandra Diehl, é importante levar em consideração que cada indivíduo não-binário define sobre si. “Na construção do gênero, quem se considera algo ou alguém deve ser a própria pessoa portadora daquela identidade. Por isso, é importante ter em mente sempre que esta identidade construída socialmente é atribuída pelo sujeito e não por terceiros”, diz.

O fato de a pessoa se considerar trans, conforme especialistas ouvidos pela reportagem, está ligado à forma como ela se identifica. Tal classificação não está ligada ao fato de a pessoa utilizar hormônios ou recorrer à cirurgia de redesignação sexual – a popular mudança de sexo.

Cup não toma hormônios, nem cogita passar pela cirurgia de redesignação sexual. Jinx pensa em utilizar bloqueadores de testosterona. “Mas não sei se os efeitos desejados condizem com o que quero para a minha aparência no momento. Já tive algumas experiências com hormônios, mas tive um problema no fígado e tive de parar de utilizá-los”, pondera Jinx.

Já Julian toma testorona há um ano e meio, em busca de uma aparência que considera mais masculina. “Mas isso não me faz mais transgênero que aqueles que não tomam hormônio. Isso também não significa que me identifico como homem trans. É apenas uma escolha pessoal e estética”, explica.

A cirurgia de redesignação sexual não faz parte dos objetivos de Julian. “Meu corpo não me incomoda. Só queria remover os seios, porque prefiro essa estética para mim”, diz.

Orientação sexual

Não existem padrões sobre a orientação sexual – que define por quem cada pessoa se interessa – entre os não-binários. “São equivocadas definições ou regras nesse aspecto. Esses casos dependem de cada indivíduo”, argumenta João Manuel de Oliveira, doutor em psicologia social e pesquisador em estudos de gêneros.

Entre os não-binários, assim como em casos de pessoas binárias, pode haver aqueles que se identificam como heterossexuais, homossexuais ou bissexuais. Esta última é a orientação sexual de Jinx e Julian. “Me considero assim porque não faço distinção de gênero em meus relacionamentos”, revela Jinx.

A motivação política, ou seja, as bandeiras que quer defender em meio à sociedade, segundo Alessandra Diehl, é uma das principais motivações para que uma pessoa não-binária defina a sua orientação sexual. “Por exemplo, ela pode se classificar como lésbica, em razão da visibilidade lésbica e para se definir como uma trans feminista”, pontua a psiquiatra.

Alguns não-binários se definem como assexual – característica que, conforme estudiosos, também pode ser considerada uma orientação sexual. Cup se classifica desta forma. Ele afirma que nunca beijou na boca. “Até hoje não me envolvi romanticamente com ninguém. Para mim, desenvolver esse interesse romântico ou físico é mais difícil. Não tive interesse pelas pessoas que se interessaram por mim. As que já me interessei, ou não foi recíproco ou não tive coragem de tentar algo”, relata.

Há ainda aqueles que afirmam não definir a orientação sexual. “Penso que seja melhor não me classificar nesse aspecto”, declara o estudante de medicina Ian Mendes, de 22 anos, que há menos de um ano se identifica como pessoa não-binária.

Aparência ambígua

O visual de pessoas não-binárias pode ser considerado ambíguo. Isso porque muitos mesclam acessórios considerados masculinos com itens tidos como femininos. “Há dias em que me visto com roupas e acessórios considerados de meninos. Em outros dias, opto por itens que podem ser considerados de meninas “, revela Ian.


Ian diz que há dias em que usa objetos considerados de meninas e em outros que usam itens tidos como masculinos. 


Há três anos, ele se identifica como homem trans. No ano passado, deixou de se considerar pertencente ao gênero masculino e passou a se classificar como não-binário. “Percebi que não ter gênero é ter a liberdade de ser quem eu sou, de forma completa. Não quero reforçar as amarras do gênero, que são construídas socialmente”, declara o jovem, que planeja mudar o nome nos documentos em um futuro próximo.

Para Ian, usar roupas consideradas como destinadas ao público masculino ou feminino é uma das formas de liberdade que conquistou desde que passou a se entender como indivíduo não-binário. “Meu visual não tem mais definição de gênero.”

Cup revela que há anos usa roupas e acessórios sem se preocupar se são considerados itens masculinos ou femininos. “Não coloco em pauta a leitura social do que uso. Não me importo com o gênero para o qual determinada roupa é designada. Não tento parecer mais masculino ou feminino. Simplesmente uso o que me agrada, aquilo que tenho vontade, seja uma saia ou um short”, comenta.

“Eu gosto de muitas coisas consideradas femininas, como pintar as unhas e de ter cabelos coloridos e grandes. Também adoto coisas consideradas do gênero masculino (como a barba cerrada). O que me importa é poder me expressar do modo mais sincero possível”, declara.

Outros não-binários, porém, tendem a adotar visual que pode ser considerado relacionado a um único gênero. Tal característica, conforme especialistas no tema, não altera o fato de o indivíduo considerar que não pertence ao gênero masculino ou ao feminino.

Jinx, por exemplo, acredita que possui aparência que pode ser considerada masculina, sob diversos aspectos. “Mas em contrapartida, em algumas épocas do ano, pinto as unhas ou o cabelo. No entanto, não associo essas coisas a um gênero específico”, diz a estudante de ciências sociais.

A sociedade

Após se identificar como indivíduo que não pertence ao gênero masculino, nem feminino, as pessoas não-binárias passam a viver uma nova situação. Na nova fase, passam a enfrentar o preconceito na sociedade, conforme relatam as pessoas entrevistadas para a reportagem.

“No cotidiano, muitas pessoas pensam que sou um homem e, para elas, isso basta. Para os mais próximos, explico que sou não-binário. Os meus pais reagiram positivamente a isso. Acredito que eles não entendam totalmente o assunto, mas a verdade é que você não precisa compreender tudo para ser capaz de respeitar”, diz Cup.

Ele tem um canal no YouTube, no qual trata sobre diversos temas, inclusive curiosidades sobre pessoas não-binárias. Segundo o estudante, a internet é o lugar em que mais sofre preconceito. “Muitos negam por completo a minha identidade. Falam que tenho algum problema mental ou que invento isso para ser moderno. Por entender essa dificuldade de muitas pessoas em respeitar os trans não-binários, tenho receio em usar roupas que sejam totalmente fora do padrão em alguns lugares. Em vários momentos me sinto inibido e não me expresso do modo que quero. A sociedade nos trata como invisíveis”, declara.


“Sempre gritam ou me assediam de todos os tipos, geralmente homens mais velhos”, diz Julian. 


Para Jinx, a ausência de informações sobre o assunto faz com que as pessoas estranhem a existência de alguém que não pertença ao gênero masculino ou feminino. “Muitas pessoas não conhecem essa possibilidade de existência. É comum lidarem com surpresa, descrença ou estranheza”, lamenta.

Julian enfrenta dificuldades com a família, que não aceita o fato de ser uma pessoa não-binária. “Nenhum familiar me apoia. Moro com minha mãe por questões econômicas, mas cortei contato com outras pessoas, por vontade própria. Eu me importo muito mais com laços que fiz por vontade própria e amor, com pessoas que me dão carinho e não tentam me mudar”, conta.

Nas ruas, Julian costuma ouvir comentários maldosos. “Sempre gritam ou me assediam de todos os tipos, geralmente homens mais velhos. Além dos olhares constrangedores. Já me seguiram no caminho para casa. Certa vez, tive que pegar o primeiro ônibus que apareceu, porque um cara começou a gritar: ‘você é homem ou mulher?'”, relata.

Uma das estratégias para diminuir o preconceito contra as pessoas não-binárias é ensinar sobre as diferenças ainda no período escolar, diz o mestre em saúde reprodutiva e estudioso sobre a sexualidade humana, Jaime Alejandro Parra Vilarroel.

“Temos que avançar neste assunto. É importante melhorar as estratégias de políticas públicas, legislação e educação sexual em uma idade precoce, para assim eliminar o preconceito que existe em nossa sociedade. Assim, as pessoas não-binárias poderão se expressar em todos os espaços de desenvolvimento”, assevera.

A psiquiatra Alessandra Diehl frisa que as pessoas não-binárias precisam ser vistas com base nos estudos feitos sobre o tema, não em “achismos” ou crenças. “Pode ser bastante complicado dialogar se as pessoas entenderem que o mundo é apenas das meninas que vestem rosa ou dos meninos que vestem azul.”

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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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