sexta-feira, março 15, 2019

POLÍTICA

'Tenho fotos com milhares de policiais', diz Bolsonaro sobre imagem com ex-PM preso no caso Marielle.




Escândalos recentes sugerem proximidade da família Bolsonaro com milicianos, mas investigadores têm cautela sobre caso Marielle.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) teve que responder nesta terça-feira (12) sobre uma foto em que aparece ao lado de Élcio Vieira de Queiroz, ex-policial militar preso horas antes por suposto envolvimento com a morte da vereadora Marielle Franco, em 2018.


"Não conhecia ela apesar de ela [Marielle] ser vereadora lá com o meu filho no Rio de Janeiro. E também estou interessado em saber quem mandou me matar”, disse Bolsonaro.



“Eu tenho fotos com milhares de policiais, do Brasil todo”, disse a jornalistas.



A foto tinha sido publicada em um perfil no Facebook atribuído a Queiroz, e que foi deletado ao longo do dia. Segundo a revista Veja, a imagem é de 2011, antes da expulsão de Queiroz da PM, em 2015, e faz parte do material em poder da polícia.

A família Bolsonaro se viu recentemente envolvida em escândalos que expuseram a proximidade do clã com ex-policiais associados a milícias (leia mais abaixo), mas os investigadores têm sido cautelosos para não dar um passo além com relação a uma possível ligação entre a família e os suspeitos da morte da vereadora.

Além de Queiroz, que, segundo o Ministério Público do Rio, dirigia o Cobalt prata usado na emboscada, também foi preso nesta terça (12) o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa, suspeito de ter disparado a arma que matou Marielle e seu motorista, Anderson Gomes.

Lessa foi preso em sua casa, no condomínio de Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, onde o presidente Jair Bolsonaro também tem casa - mas isso não passa de uma coincidência, segundo o Ministério Público. 

“Não há nenhum fato que diga que tem alguma vinculação. Muito pelo contrário, não temos controle dos nossos vizinhos. Até esse momento, o fato foi coincidência”, disse a coordenadora do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP-RJ, Simone Sibílio.

Em entrevista coletiva, o delegado responsável pela investigação do assassinato de Marielle, Giniton Lages, disse que que uma filha de Lessa teria sido namorada de um dos filhos do presidente.

“Isso tem [namoro], mas isso, para nós, hoje, não importou na motivação delitiva. Isso vai ser enfrentado num momento oportuno. Não é importante para esse momento”, afirmou Lages, segundo o Valor Econômico, em resposta a um jornalista. Não ficou claro, na declaração do delegado, quem seria o filho de Bolsonaro que namorou uma filha de Lessa.

Nesta terça, Bolsonaro disse esperar “realmente que a apuração tenha chegado de fato a esses [dois presos], se é que foram os executores, e o mais importante: quem mandou matar”.

O presidente, no entanto, aproveitou o momento para dizer que também “está interessado em saber quem mandou” matá-lo. Bolsonaro foi alvo de um atentado a faca em setembro, durante a campanha e correu grave risco de vida. O autor do crime, Adélio Bispo, tinha sido filiado ao PSol, mesmo partido de Marielle, e não raro Bolsonaro e os filhos sugerem envolvimento do PSol com o atentado. 

“Eu conheci a Marielle depois que ela foi assassinada. Não conhecia ela apesar de ela ser vereadora lá com o meu filho no Rio de Janeiro. E também estou interessado em saber quem mandou me matar”, disse.

Proximidade dos Bolsonaro com milícias

Em janeiro, foi revelado que a mãe e a esposa do capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, alvo do Ministério Público pela suspeita de chefiar o Escritório do Crime, foram empregadas no gabinete do senador e ex-deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). A organização, especializada em assassinatos por encomenda, é investigada pela morte de Marielle.

Nóbrega foi homenageado duas vezes por Flávio, então deputado estadual. Na primeira, em 2003, o filho de Jair Bolsonaro ressaltou o “brilhantismo e galhardia” do ex-integrante do Bope. Em 2005, Flávio indicou Nóbrega para receber a Medalha Tiradentes por sua atuação em uma operação no Morro da Coroa, em 2001.

O próprio Jair Bolsonaro já defendeu abertamente a atividade das milícias. Em 2003, na tribuna da Câmara, disse que “enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio será muito bem-vindo”. Em, fevereiro de 2018, já em campanha, disse à rádio Joven Pan que “na região onde a milícia é paga, não tem violência”. 

Delação premiada

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, disse, nesta terça, que os suspeitos do assassinato de Marielle presos poderão fazer delação premiada.

Ele explicou que a Polícia Civil utilizou métodos criados pela Operação Lava-Jato para poder chegar aos nomes dos dois presos.

“A Lava-Jato tem sido um exemplo. A investigação tem de ser fragmentada para que resultados apareçam. Tenho certeza de que nós avançamos muito e vamos avançar mais ainda”, disse o governador durante a entrevista coletiva no Palácio Guanabara.

A operação batizada de Operação Buraco do Lume também apreendeu documentos, telefones celulares, notebooks, computadores, armas, acessórios, munições e outros objetos.

O GAECO/MPRJ pediu ainda a suspensão da remuneração e do porte de arma de fogo de Lessa, além de indenização por danos morais aos familiares das vítimas e a fixação de pensão em favor do filho menor de Anderson até ele completar 24 anos.

Na denúncia, as promotoras Simone Sibilio e Leticia Emile afirmam que o crime foi “meticulosamente” planejado três meses antes do atentado, de acordo com o jornal Extra. “A barbárie praticada na noite de 14 de março de 2018 foi um golpe ao Estado Democrático de Direito”, escreveram.

Negra, feminista, lésbica e nascida na Favela da Maré, Marielle atuava no combate à desigualdade social, racial e de gênero.

Ainda segundo o jornal, a principal prova colhida que permitiu a operação desta terça foi acessada a partir da quebra do sigilo dos dados digitais do PM.

De acordo com os investigadores, o suspeito monitorava a agenda de eventos que Marielle participava. A polícia e o MP também colheram depoimentos de informantes, inclusive presos no sistema carcerário.

O inquérito está desmembrado em duas partes. A primeira, transformada em denúncia, identifica os atiradores. A segunda, em andamento, busca os mandantes do crime. De acordo com o Extra, os investigadores sabem que havia três pessoas dentro do veículo.

PSol quer CPI das milícias após prisão de suspeitos de matar Marielle.


“Não é aceitável que as pessoas, até hoje, façam política negociando com o crime", disse Marcelo Freixo (PSol-RJ).


Pedido é diferente do apresentado pelo PT, que, além das milícias, incluía investigações sobre Flávio Bolsonaro.

Após a prisão de dois ex-policiais militares envolvidos na execução da vereadora Marielle Franco (PSol-RJ), nesta terça-feira (12), o PSol propôs uma CPI (comissão parlamentar de inquérito) na Câmara dos Deputados para investigar milícias. São necessárias 171 assinaturas de parlamentares para aprovar a criação.

Apesar de reconhecer as prisões como um avanço, o deputado e amigo de Marielle Marcelo Freixo (PSol-RJ) destacou que o mais importante é encontrar os mandantes do crime e descobrir se há ligação com grupos paramilitares.

“Se nós não descobrimos a razão, a motivação da morte da Marielle, a gente não tem democracia nesse País. Não é porque Marielle era de esquerda, não é porque Marielle era do PSol. É porque há um grupo político no Rio de Janeiro, no século 21, capaz de matar como forma de fazer política. Isso é inaceitável”, disse Freixo a jornalistas.

Pela manhã, a Delegacia de Homicídios (DH) da Capital no Rio de Janeiro e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ) prenderam o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz por envolvimento na execução da vereadora e do motorista Anderson Gomes. Na próxima quinta-feira (14) a morte dos dois completa um ano.

Alvo de ameaças desde que presidiu a CPI (comissão parlamentar de inquérito) das milícias, em 2008, Freixo lembrou que Marielle o assessorou na época. “Marielle trabalhava comigo. E a CPI conclui dizendo que crime, polícia e política não se separam no Rio de Janeiro”, disse.

O parlamentar, que há 10 anos é acompanhado por seguranças por ter sofrido ameaças de morte, cobrou o fim das milícias.

"Não é aceitável que as pessoas, até hoje, façam política negociando com o crime. Isso deve ser cobrado independente de ter ou não vínculo com a [morte da] Marielle."

-Marcelo Freix

Amiga da vereadora e sua colega na Câmara Municipal de Niterói, a deputada federal Talíria Petrone (PSol-RJ) afirmou que o crime “faz parte de uma tentativa de silenciamento de uma mulher eleita parlamentar que usou todo tempo que pode para denunciar as sistemáticas violações cometidas pelo Estado”.

Negra, feminista, lésbica e nascida na Favela da Maré, a vereadora atuava no combate à desigualdade social, racial e de gênero. “Marielle mulher num país que é o quinto com maior índice de feminicídio. Marielle negra num país em que o Estado sistematicamente mata jovens negros. Marielle mulher de favela num país onde o Estado chega com militarização nas favelas. Algum motivo tem para tentar silenciar essa representante do povo”, disse Petrone a jornalistas.

Milícia e família Bolsonaro

De acordo com Freixo, o pedido será diferente do apresentado pelo PT em fevereiro, que, além das milícias, incluía investigações sobre o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, e empregou parentes de um miliciano em seu gabinete quando era deputado estadual no Rio.

“O PT mistura assuntos que não devia, com todo o respeito que temos ao PT como parceiros na oposição. A gente quer investigar as milícias”, disse o socialista.

O parlamentar destacou que o presidente já defendeu a legalização das milícias, mas minimizou o fato de um dos presos nesta terça-feira ser vizinho de Bolsonaro e de outro aparecer em fotos com ex-deputado.

No plenário da Câmara, petistas demonstraram apoio às investigações e reforçaram as críticas ao presidente e seus filhos. “As condições da família Bolsonaro com as milícias deve ser motivo de uma CPI”, cobrou Maria do Rosário (PT-RS).

A deputada Érika Kokay (PT-DF), por sua vez, anunciou que assinou o pedido de CPI e também destacou a proximidade da família presidencial com integrantes de grupos paramilitares.

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