terça-feira, abril 09, 2019

DIREITOS

Por que Tifanny e seu desempenho no vôlei ainda são vistos como um problema?


Em meio às críticas que recebe, a atleta segue respaldada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e pela FIVB (Federação Internacional de Vôlei).


Atleta tem níveis hormonais semelhantes a colegas e é respaldada pelo COI e pela Federação Internacional de Vôlei.

“Leio que a militância a favor de trans no esporte feminino e contra as mulheres atacou Bernardinho por ele ter dito a verdade (...). Minoria barulhenta que quer empurrar a todo custo que sentimentos são mais importantes que fatos e biologia. Não são.”

A frase acima é da ex-jogadora de vôlei Ana Paula, medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de Atlanta de 1996. Nesta semana, a ex-atleta voltou a questionar a participação da jogadora Tifanny Abreu, primeira atleta trans do esporte no Brasil, em competições femininas. Atualmente, Tiffany está em quadra pelo Sesi/Bauru na Superliga feminina.

Tanto a fala de Ana Paula quanto o fato de Bernardinho, técnico do time adversário Sesc-RJ, ter se referido a ela como “homem” ao reclamar de um lance durante um jogo, reacendeu o debate sobre fatores biológicos que poderiam trazer uma suposta vantagem para Tifanny em quadra.

A repercussão já foi levada até mesmo às assembleias legislativas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Os deputados Altair Moraes (PRB-SP) e Rodrigo Amorim (PSL-RJ) apresentaram projetos de lei que estabelecem o sexo biológico como único critério para a definição de gênero de atletas nos estados.

Em meio às críticas, a atleta segue respaldada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e pela FIVB (Federação Internacional de Vôlei). Ambos têm normas que permitem a participação de mulheres trans no esporte, desde que cumpram requisitos específicos, como ter um nível específico de testosterona.




Tifanny tem vantagem biológica por ser uma mulher trans?

“Um homem. É foda!”, foi a frase dita por Bernardinho, ao reclamar de um lance da ponteira Tifanny no jogo contra o favorito Sesc-RJ, time do qual é comandante. A expressão do técnico foi flagrada pela transmissão da TV e exposta por grupos LGBT nas redes sociais.

Bernardinho se desculpou e explicou que se referia à técnica usada pela atleta que, no início da carreira, jogou em times masculinos. “Peço desculpas a todos. Não foi minha intenção, de forma alguma, ofendê-la. Me referia ao gesto técnico e ao controle físico que ela tem, comum aos jogadores do masculino.”

Tifanny aceitou as desculpas do técnico e, em entrevista ao Globo Esporte, afirmou ter percebido “que ele mencionou sobre o meu gesto técnico, que isso eu aprendi e não tem como esquecer, eu vou sempre fazer esse movimento”. 

Ela também ponderou que é treinada por um especialista que, durante muito tempo, treinou a seleção masculina e as ensina a “fazer esse movimento mais forte, para usar a mão de fora.”


Um dos principais argumentos contra o direito de Tifanny jogar em um time feminino é o suposto ganho de performance por ser uma mulher trans.


Um dos principais argumentos contra o direito de Tifanny jogar em um time feminino é o suposto ganho de performance por ser uma mulher trans e ter jogado, no passado, em um time masculino.

Uma pesquisa de 2015, publicada pela revista Science, mostrou que mulheres trans que passaram por tratamento para baixar os níveis de testosterona não tiveram melhor desempenho em disputas de atletismo contra mulheres do que quando disputavam com homens.

Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero do Hospital das Clínicas da USP disse ao HuffPost Brasil que o que pode vir a diferenciar Tiffany no esporte é exatamente a técnica citada por ela.

“É uma falácia que a força muscular dela ou de qualquer outra mulher trans no esporte é diferenciada”, diz Saadeh. “A crítica biológica e hormonal não se fundamenta. Ela está hormonizada há algum tempo e, esse processo, como bloqueia produção de testosterona, pode colocá-la até em desvantagem.”

Essa desvantagem a qual ele se refere é em relação à perda muscular. Saadeh explica que, após seis meses de hormonização ? quando hormônios femininos são ministrados, no caso do organismo de uma mulher trans, e os chamados bloqueadores de testosterona são aplicados ?, esta perda de força é uma das consequências. O que fica, então, é memória celular.

Tifanny iniciou o processo de transição aos 29 anos e só voltou a jogar profissionalmente aos 31, na segunda divisão da Itália. Antes, chegou a jogar em times na Holanda e Bélgica. De volta ao Brasil, com forma física recuperada, ela foi contratada pelo Sesi-Bauru e, hoje, aos 34 anos, ocupa o lugar de “ponteira”, apelido de quem ocupa lugar de atacante de ponta.

“Ela jogou na liga masculina quando começou, então ela tem memória celular e uma percepção de jogo da época que ela não tinha feito essa transição. Mas, hoje, ela tem padrões hormonais femininos. O que pode ter diminuído a base muscular. Ela perde força, mas tem técnica, tem altura. Isso não muda”, diz Saadeh.

O que a norma internacional diz sobre jogadoras trans?

Tiffany cumpre todos os requisitos exigidos pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) e pela Federação Internacional de Vôlei (FIVB) para praticar o esporte de alto rendimento. Eles são baseados em estudos científicos em diversos níveis e englobam análises fisiológicas, bioquímicas, e anatômicas.

Recentemente, o COI alterou regras sobre atletas transexuais em competições oficiais. Desde então, homens trans podem participar de competições sem restrições alguma, enquanto que mulheres trans precisam seguir quatro regras - e, a principal delas, é manter a quantidade de testosterona controlada. 


Tifanny está dentro dos requisitos do COI para poder seguis sua carreira de atleta, mas mesmo assim é alvo de críticas e preconceitos.


O ideal é que o nível do hormônio esteja abaixo de dez nanomol por litro de sangue nos 12 meses anteriores ao primeiro jogo e mantido durante o período de competição. Atletas podem ser submetidas a testes de monitoramento. Exigência anterior, hoje a cirurgia de mudança de sexo não é mais necessária.

O requisito de os níveis de testosterona estarem abaixo de “dez nanomol por litro de sangue” parte de uma uma referência internacional para o hormônio em mulheres, que varia de 0,21 a 2,98 nanomol/L.

Tifanny costuma apresentar 0,2 nanomol/L de testosterona em seus exames, cumprindo os requisitos e as normas da organização.

Qual é o desempenho atual de Tifanny?

Tifanny é considerada um furacão dentro e fora das quadras. Isso porque já bateu o recorde de pontos em uma só partida no Brasil e foi a melhor, em média de pontos por jogo, em 2017 na Superliga. O desempenho gerou até críticas das próprias jogadoras.  

Um levantamento recente do UOL Esportes, no entanto, apontou que Tiffany pontua menos e oscila mais que outras jogadoras. No jogo contra o time de Bernardinho, por exemplo, ela foi a principal jogadora, com 27 pontos marcados. Na partida seguinte, ela fez apenas 8 pontos. Ao longo de toda a temporada, ela apresentou números inferiores ao seu desempenho em 2017 e 2018.

Em entrevista, Tifanny já afirmou ter um esgotamento físico mais rápido e uma recuperação mais demorada comparada às outras jogadoras. “O meu nível de hormônio é tão pesado que acaba afetando a saúde. Às vezes, penso que queria jogar mais 5 ou 6 anos, mas pode ser que eu não aguente.” 

Pensando em outras formas de manter seu ativismo caso sinta necessidade de deixar a carreira de atleta, Tifanny se candidatou, no ano passado, ao cargo de deputada federal por São Paulo, pelo MDB. Ela obteve 3.889 votos totais (0,02% dos votos válidos) e não conseguiu se eleger.

Por que Tifanny, uma mulher trans e atleta, incomoda?

Para especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil, questionar o desempenho de atletas transexuais como Tifanny vai de encontro a regras internacionais e reforça o preconceito e a exclusão.

“Este caso diz muito sobre a concepção do que a sociedade entende sobre o que mulheres e homens podem ou não fazer no esporte, independente de serem trans ou cis [pessoa que se identifica com o sexo biológico], e a própria experiência da transfobia”, diz Jaqueline Gomes de Jesus, doutora em psicologia social e professora do IFRJ (Instituto Federal do Rio de Janeiro).

Segundo a psicanalista e coautora do livro Transexualidade - O corpo entre o sujeito e a ciência (Zahar, 2018), que também é membro do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT, Natália Pereira Travassos, “reduzir um sujeito a uma questão biológica é uma violência”.

“Na cultura machista e violenta em que vivemos, o fato de alguém ter nascido biologicamente homem e abrir mão desse lugar masculino na sociedade, se colocando num lugar feminino, é entendido como assustador, incompreensível. Ainda temos um longo caminho de aceitação.”

Para Gomes de Jesus, ainda não houve uma discussão nos esportes, dentro da área de alta performance, sobre o direito que pessoas transexuais têm de atuação digna nesse universo.

“Quando chega-se ao ponto de questionar uma norma internacional, a gente só reafirma o preconceito”, diz. “Todas as críticas parecem ser justificadas pelo fato de ela ser uma mulher trans. Ninguém questiona o desempenho de outras jogadoras que tem tônus semelhante. Isso é reforçar a transfobia e a exclusão.”

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