terça-feira, abril 16, 2019

MINHA VIDA GAY

Sou cadeirante gay e resolvi contar à minha mãe que pago garotos de programa.


Andrew Gurza e a mãe dele, Sher.


O relato de deficiente físico queer que saiu de mais um armário.

Como deficiente físico queer que usa cadeira de rodas e curte sexo e ficar nu com homens, já tive que passar pelo processo de sair do armário várias vezes e de várias maneiras diferentes.

Saí do armário como gay pela primeira vez aos 16 anos. Na época eu estava sofrendo por ser cadeirante e morria de medo de que o fato de me abrir sobre minha sexualidade fosse apenas acrescentar mais um peso à minha vida de deficiente físico.

Depois de procurar por um termo que me coubesse mais autenticamente, aos 27 anos resolvi me definir como “queer”. Eu não me sentia mais à vontade me descrevendo como “gay”. Devido à minha deficiência física, não sou musculoso, “macho X macho”, nem qualquer outra das coisas que muitas vezes são culturalmente associadas a essa palavra. Eu me sentia seguro usando o termo “queer”. Com ele, não preciso subscrever uma narrativa que remete a determinadas ideias ou imagens que não correspondem à minha deficiência física.

Aos 30 anos, saí do armário como “aleijado queer”. Isso foi durante minha fase de “vá se foder! Sou deficiente físico. Se você não consegue encarar, vá se foder”. Eu sabia o que as pessoas pensavam de deficientes físicos e sexo. Queria pegar aquelas ideias equivocadas, virá-las do avesso e usá-las como distintivo de honra. Se eu reivindicasse a palavra “aleijado” e a pronunciasse primeiro, talvez aquele preconceito contra deficientes físicos com que eu me batia diariamente não doesse tanto, certo?

Ao longo da vida fui obrigado a revelar minhas diferentes identidades aos cuidadores profissionais que me ajudam com tarefas diárias tipo tomar banho e ir ao banheiro. Cada vez que eu saía do armário com um deles, torcia para minha franqueza não ofendê-los, já que dependo da ajuda deles. Houve muitas vezes que escondi quem sou deles, para não correr o risco de deixar de ser atendido.

"Tomei a decisão de pagar homens profissionais do sexo quase 2 anos atrás... Estava farto de me perguntarem se meu pinto funcionava e de receber mensagens dizendo que eu era "bonitinho demais para ser deficiente físico” ou que “você parece retardado – ninguém vai ficar a fim de você".

Também tive que sair do armário com membros da comunidade de deficientes. Para minha surpresa e consternação, sair do armário com eles muitas vezes tem sido o mais difícil. Me disseram algumas vezes que tudo o que eu precisava era uma garota fisicamente apta na minha vida e tudo ficaria bem. Cada uma dessas histórias de sair do armário moldou minha identidade de deficiente físico queer de maneiras importantes, mas creio que minha experiência mais recente na área de sair do armário foi a mais transformadora e poderosa na minha jornada como aleijado queer: contei à minha mãe que pago profissionais do sexo.

Tomei a decisão de pagar homens profissionais do sexo quase 2] anos atrás. Eu estava farto do preconceito contra deficientes físicos que enfrentava quando procurava alguém para um relacionamento passageiro. Estava farto de me perguntarem se minha genitália funcionava e de receber mensagens dizendo que eu era “bonitinho demais para ser deficiente físico” ou que “você parece retardado – ninguém quer saber de você”. A dor provocada por essas interações estava tendo um impacto negativo devastador, e eu não sabia o que fazer. Estava frustrado por não poder acessar meu corpo do jeito que eu queria e furioso porque outros homens queers não enxergavam meu corpo como sendo sexualmente viável.

Um dia fui para um site de garotos de programa gays e comecei a dar uma olhada. Eu não sabia direito o que estava fazendo, mas sabia que precisava experimentar algo novo.

Entrei em contato com alguns dos homens no site e perguntei se já tinham estado com um cliente deficiente físico. Alguns disseram que sim e muitos outros que não. Finalmente encontrei um garoto de programa que me agradava realmente. Ele tinha cabelo castanho, belos olhos azuis e peito peludo (meu ponto fraco!). Entrei em contato e falei que queria marcar um programa. Ele concordou. Começamos a nos encontrar regularmente.

Nossa primeira sessão foi marcada pelo nervosismo, ele e eu tentando encontrar um jeito de lidar com minha deficiência. Ele não queria me machucar e me disse mais tarde que estava com medo de me decepcionar. Eu estava fazendo o máximo possível para facilitar para ele as partes relacionadas à minha deficiência – ele me colocar na cama, eu colocar meu sling especial enquanto lhe dizia como se mexer comigo. Passei aquela primeira noite morrendo de medo de ele me dizer que não conseguia fazer e de ele ir embora, como já tinham feito tantos outros.

Mas ele não desistiu. Entramos em um ritmo que ficou cômodo para nós dois. Compartilhamos nossos corpos, nossas vulnerabilidades e muitas gargalhadas. Criou-se entre nós uma confiança que não tenho com mais ninguém e que eu não trocaria por nada. Ele me ajudou a trabalhar meu lado queer e minha deficiência física de maneiras que nem sequer consigo descrever. Sou incrivelmente grato por isso.


Gurza e sua mãe em Paris em 2013.


Enquanto eu me aventurava nesse novo mundo, estava escondendo essas experiências de minha mãe, e isso me deixava muito mal. Minha mãe já me viu – e viu meu corpo – nos meus melhores e piores momentos. Sempre fomos incrivelmente abertos e francos um com o outro em relação a tudo. Mas eu não tinha coragem de falar a ela que estava pagando um garoto de programa para transar comigo.

Uma parte de mim sentia uma vergonha enorme por estar fazendo isso, e eu não queria que ela também se envergonhasse. Além disso, eu não queria que ela se preocupasse pensando que seu filho, um homem fisicamente vulnerável, tinha enveredado por um caminho sombrio, não queria que ela se preocupasse com o que essa escolha poderia significar para mim e meu futuro. Então não falei a ela sobre o que eu vinha fazendo (com grande prazer) até... Até duas semanas atrás.

Era uma noite de terça-feira. Minha mãe e eu estávamos conversando pelo telefone, como fazemos todo dia. Não me lembro do que estávamos falando – era algo totalmente sem importância. De repente eu mergulhei fundo e falei para ela: “Sabe de uma coisa, mãe, eu contrato garotos de programa”.

Fiquei morrendo de medo de qual seria a reação dela. Fiquei até ofegante ao dizer aquilo. Minha mãe esperou uns 10 segundos antes de falar, e durante esse tempo fiquei imaginando todas as respostas possíveis. Ela estaria furiosa. Me criticaria amargamente. Sentiria vergonha de mim. E então, depois daquela pequena pausa (que para mim pareceu se arrastar por 100 anos), ela falou algo que nunca vou esquecer: “Acho muito bom”.

Senti uma onda imediata de alívio. Respirei fundo. Quando fico assustado, empolgado ou sinto qualquer tipo de emoção, todos meus músculos ficam retesados (obrigado, paralisia cerebral!). Naquele momento, porém, meus músculos se descontraíram e afundei confortavelmente na cadeira de rodas. De repente me senti livre – acho que nunca havia me sentido tão livre. Eu podia ser totalmente eu mesmo com minha mãe: cadeirante, queer, deficiente físico, um cara que contrata garotos de programa para satisfazer suas necessidades.

O fato de contar à minha mãe sobre essa parte de minha vida me ajudou a abraçar e festejar a autonomia que tenho sobre meu corpo, meu tempo e meu dinheiro. E isso me ajudou a alterar o modo como encaro a intimidade, o sexo e o amor.

"Agora sei que posso verdadeiramente compartilhar com ela tudo sobre minha vida de deficiente físico queer, e isso significa tudo para mim. Além disso, agora podemos ter uma amizade ainda maior como duas pessoas, e não apenas exercer nossos respectivos papéis de mãe e filho."

Uma das coisas mais poderosas que minha mãe me disse depois do nosso papo foi: “Andrew, sexo não é uma coisa errada”.

É uma afirmação tão simples, mas é incrivelmente poderosa quando você a ouve da boca de uma pessoa que você respeita, ama e quer que sinta orgulho de você. Minha mãe me falou também: “Você pode fazer apenas sexo se quiser – não precisa ser sexo com amor”.

Uma parte tão grande da narrativa sobre sexo e deficiência física está ligada ao amor romântico, a encontrar alguém que consiga te amar, “passando por cima de sua deficiência” (aargh!). Por essa razão, o fato de minha mãe me reconhecer e apoiar como sendo um aleijado queer, puramente sexual, quando e como eu quiser, foi maravilhoso.

O mais importante é que o fato de eu ter assumido perante minha mãe que pago garotos de programa fortaleceu nossa relação. Agora sei que posso verdadeiramente compartilhar com ela tudo sobre minha vida de deficiente físico queer, e isso significa tudo para mim. Além disso, agora podemos ter uma amizade ainda maior como duas pessoas, e não apenas exercer nossos respectivos papéis de mãe e filho.

Sair do armário nunca é fácil. Sempre existe um risco muito real de você ser rejeitado e ficar ferido. Se você é deficiente físico, pode perder muito mais ainda. Mas, quanto mais contamos nossas histórias e compartilhamos aquilo por que estamos passando – e as razões por que tomamos as decisões que tomamos ?, mais rompemos as barreiras entre as pessoas que amamos e o mundo.

Infelizmente, em 2019 contratar um garoto de programa ainda é algo fortemente estigmatizado em nossa sociedade, mas não deveria ser. O que acontece entre 2 adultos que consentem deveria ser da conta deles e apenas deles. Para pessoas como eu – aleijado queer com desejo sexual saudável ?, isso me permite acessar meu corpo e minha sexualidade de uma maneira que me faz sentir poderoso, sexy e importante, todas coisas que normalmente não associamos à deficiência física.

Tenho a sorte de ter uma mãe que me aceita por inteiro. Sei que nem todos têm a mesma sorte que eu nesse ponto, mas talvez, quem sabe, pelo fato de compartilhar minha história e revelar quem eu sou, eu possa ter dado a outra pessoa a coragem de conversar com seus entes queridos e se abrir com eles.


Se eu puder ter feito isso, terá valido totalmente a pena!



Como é ser deficiente no mundo LGBT?!



SOBRE SER GAY E DEFICIENTE | com GUILHERME PINTTO




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