sexta-feira, abril 26, 2019

MINHA VIDA GAY

Expulso por ser gay, drag queen vira pedreira da própria casa e bomba na web.


Igor William de Santana trabalha como pedreiro e constrói a própria casa, à noite ele faz show como Safira O’hara. 


'De manhã sou pedreiro, à noite drag queen', diz carioca que faz sucesso no teatro.

Igor William de Santana, de 29 anos, foi expulso de casa por ser gay quando tinha 19. A mãe do jovem não aceitava a orientação sexual dele. Da decepção com a progenitora, ele fez a promessa de que construiria seu próprio lar e começou a estudar teatro. Da dedicação, surgiu o interesse por personagens femininos.

“Para o ator, não há masculino ou feminino e sim os personagens. Eu usei o recurso do transformismo inspirado nas vilãs de novela”, explica Igor.


Igor William de Santana trabalha como pedreiro e constrói a própria casa, à noite ele faz show como Safira O’hara. 


Após estrelar inúmeros papéis em teatros pelo Rio e se apresentar como drag em uma casa noturna na Central do Brasil, Igor se consolidou como Safira O’hara. A personagem de sucesso na noite carioca, entretanto, trouxe a preocupação com a homofobia ainda mais presente para sua vida.

“Show de drags geralmente são à noite e temos que ser muito mais espertas. Eu não levo maquiagem na rua porque corro risco de ser roubada. Me maquio em casa, boto um boné e visto camisa de escola de samba. Quem me vê montada na rua vai achar que trabalho com carnaval e não fará nada. Eu moro em uma comunidade e volto de madrugada, nunca sofri agressão física, mas sempre ouço piadas. Como Sofia, eu tenho que andar mais rápido como forma de me proteger”, conta a drag que também trabalha como sushiman em um restaurante japonês.



Safira O’hara ficou famosa nas redes sociais ao mostrar outra habilidade: pedreira. Com o dinheiro das apresentações e outros trabalhos, Igor comprou um terreno na Pavuna, na Zona Norte do Rio, e está construindo sua própria cosa com o auxílio do amigo Severino, de 56 anos.

“De manhã sou pedreiro, à noite drag queen. Atualmente tenho uma relação saudável com minha mãe, mas precisava dar esse tapa na cara do passado e construir minha própria casa. Além disso, tenho um tio homofóbico que é pedreiro. Essa é uma forma de mostrar que posso ser o que eu quiser”, conta emocionada Safira.




A relação ruim com a mãe ficou no passado e Safira é elogiada pela matriarca. Porém, ela nunca viu nenhuma apresentação do filho.

“Ela vê fotos e elogia bastante. Mas nunca teve a oportunidade me assistir no palco. Do passado, ficou uma lição para mim. Muitos LGBTIs são expulsos de casa pelas pessoas que mais amam e eles podem sim dar a volta por cima. Ao invés de voltar para casa porque não construir a sua? Vamos atrás dos nossos sonhos e conquistamos o mundo com nossas mãos”, conta enquanto explica que não tem preferência de ser chamada de Igor ou Safira.

Gay dado como sumido em Brumadinho deixou de dar notícias após homofobia do pai.


Evandro, à esquerda, e Edemilson moram em Itaparica.


O catarinense Evandro Schwirkowsky, 23 anos, que foi dado como desaparecido após a tragédia de Brumadinho, disse em entrevista para TV Globo nesta segunda-feira (22) que foi morar com o namorado em Itaparica, na Bahia, e que decidiu deixar de dar notícias aos parentes por conta das ameaças que vinha sofrendo do pai, pelo fato de ser gay.

Evandro esteve em Brumadinho no dia do rompimento da barragem de rejeitos da Vale, mas deixou a cidade, para onde tinha ido em busca de emprego, horas antes da tragédia.

Ele conta que esteve em uma pousada que ficava bem próxima da Barragem. Foi o companheiro de Evandro, Edemilson de Jesus Silva, quem acionou as equipes de resgate, informando que o namorado teria ido a Brumadinho em busca de emprego.

Em fevereiro, o Instituto Geral de Perícias (IGP) chegou a fazer a coleta de material genético do pai de Evandro para comparação genética das vítimas. Na ocasião, o pai dele, o agricultor Mauricio Schwirkowsky, disse que estava muito chocado e que tinha falado pela última vez com o filho no Natal.

Evandro se mudou de Santa Catarina para a Bahia com o namorado no dia 4 de janeiro. Como não conseguiu arrumar um emprego logo de início, Evandro decidiu ir sozinho para Minas Gerais para ver se encontrava alguma vaga — o companheiro ficou na Bahia.

O catarinense conta que após a tragédia de Brumadinho, retornou de Minas para Salvador, mas ficou incomunicável para que a família pudesse “se livrar” dele e parar com as ameaças. Ele ficou sem falar até com o companheiro. Disse que ficou vagando pelas ruas, pois não queria voltar para casa e prejudicar Edemilson, com medo que a família de Corupá os encontrasse.

“Eu fui para Minas Gerais e fui passando por várias cidades, entre elas Brumadinho. Sou apaixonado por queijo, por cidades tranquilas e foi por isso que fui até lá. Depois da tragédia, eu tive a ideia de não me comunicar com ninguém para me ver livre da minha família e eles também se verem livre de mim. Na hora do desespero, a gente faz qualquer coisa. Eu também fiquei sem falar com ele [o companheiro] porque eu estava com medo de que acontecesse algo com ele. Eu estava pensando mais no próximo do que em mim mesmo”, conta.


Evandro manteve contato com a família na terça-feira (16) após ser dado como desaparecido em Brumadinho.

Evandro só avisou ao companheiro que estava bem e que tinha retornado à Bahia na última segunda-feira (15). Durante o tempo que ficou em Salvador sem se comunicar com Edemilson e com os parentes, ele disse que foi ajudado por algumas pessoas.

Assim que soube que o companheiro estava em Salvador, Edemilson avisou aos familiares de Evandro que ele estava bem e que não tinha sido uma das vítimas de Brumadinho. Evandro entrou em contato com a família em Corupá na terça-feira (16). Na sexta (19), ele deixou de fazer parte da lista de desaparecidos.

Ele conta, no entanto, que ninguém da família o procurou.

“Eu não queria que eles ficassem sabendo de mim, porque eles não mereciam. Depois que ficaram sabendo que eu estou bem e onde eu estou, não querem saber de mim. Meu pai disse que não quer saber de mim. Somente uma prima entrou em contato comigo. Depois de tudo, eu achei que meu pai iria mudar e entrar em contato, mas isso não aconteceu”, destacou.

Ameaças

Evandro e Edemilson estão juntos há seis anos. Eles moravam em Corupá, no norte catarinense, onde trabalhavam em uma plantação de bananas. Evandro conta que, após a morte dos avós, deixou a casa onde morava por conta das ameaças do pai. A mãe biológica morreu há seis anos.

“Meus avós paternos cuidavam de mim e me aceitavam do jeito que eu sou e, quando eles morreram, meu pai começou a me ameaçar e também a ameaçar meu companheiro. Tinha ameaça verbal e ele queria me bater. Uma vez, ele invadiu minha casa com uma foice, e minha cachorra me protegeu. Foi então que eu decidi ir para Florianópolis”, disse.

Edemilson já tinha ido para Florianópolis em busca de emprego, quando a produção de bananas teve uma queda. Na capital catarinense, os dois decidiram se mudar novamente, desta vez para a Bahia.

“A gente saiu de Santa Catarina e veio para Salvador, porque eu já tinha vindo uma vez e achava um estado bom para viver. Foi uma ideia minha vim para cá”, disse Edemilson.

Arrependimento e futuro

Evandro diz que se arrepende de ter ficado incomunicável e afirma que, mesmo tendo dificuldades para se manter atualmente na Bahia, por não terem emprego fixo, não pretende voltar com o companheiro para Santa Catarina.

“Eu me arrependo do fundo do meu coração, mas naquela situação em que eu estava, isso foi necessário. Eu me arrependo porque não gosto de mentira. Foi uma besteira o que eu fiz e sei que não tem perdão”, destacou.

“A gente conta com ajuda do povo da nossa rua aqui. Eles estão me apoiando bastante. Se não fosse isso, a gente não teria o que comer e nem onde morar. Não pretendo sair daqui da Bahia. Ou a gente continua aqui ou vai para Salvador, porque o povo aqui é muito acolhedor”, diz Evandro.

“Está sendo meio complicado, porque a gente não conseguiu emprego fixo ainda. A gente está em busca de emprego, para fazer qualquer coisa. As vezes consigo freelancer, e é caro pagar aluguel. Estamos numa quitinete e contamos com ajuda de amigos que conhecemos há pouco tempo”, afirma Edemilson.

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