sexta-feira, maio 24, 2019

DIREITOS

Campanha “anti-doutrinação” contra professores eleva estresse em sala de aula.


Manifestantes a favor do projeto de lei sobre a Escola sem Partido protestam na Câmara.


A educação vem sendo transformada numa das principais trincheiras da guerra ideológica e cultural travada no país há cerca de três anos, quando o projeto Escola sem Partido, que prega o fim de uma suposta "doutrinação" de esquerda dentro dos centros de ensino, passou a conquistar corações e mentes e a tramitar em legislativos municipais, estaduais e federal. 

Com a acirrada disputada eleitoral no ano passado e a ascensão de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência da República, o ambiente escolar, já tenso, se deteriorou ainda mais em lugares como São Paulo. 

Mesmo sem constar na lei, o Escola sem Partido é uma diretriz da atual gestão federal e do Ministério da Educação. Seus apoiadores também formam uma extensa rede de deputados, influenciadores digitais e grupos (como o Movimento Brasil Livre) que estimulam, por exemplo, que alunos filmem e denunciem seus professores. No dia 28 de abril, o próprio presidente Bolsonaro compartilhou um vídeo que expõe uma professora chamando o escritor Olavo de Carvalho, guru do presidente, de “anta“ por “meter o pau em tudo”. “Professor tem que ensinar, e não doutrinar”, escreveu o mandatário em seu Twitter, em um gesto que propaga o clima de perseguição no país. 




"A desvalorização social de nosso trabalho já é antiga, mas essa perseguição e esse ódio são, de fato, mais recentes. Sempre houve conflito entre alunos e professores, mas a novidade é que isso se transformou em perseguição e violência, institucionalizadas pelo presidente e pelo ministro da Educação", argumenta a professora de Geografia Silvia Barbara, diretora do Sindicato de Professores de São Paulo (Sinpro).

Não existem dados oficiais que retratem essa recente deterioração da saúde dos professores ou essas tensões que acontecem em sala de aula. Porém, uma pesquisa feita pela Associação Nova Escola com 5.000 educadores entre junho e julho de 2018 mostra que 66% deles já precisaram se afastar do trabalho por questões de saúde. As cifras dão dimensão do ambiente no qual estão inseridos: 68% sofrem de ansiedade, 63% relatam estresse e dores de cabeça, 39% têm insônia, 38% possuem dores nos ombros e alergias e 28% apresentam ou apresentaram quadro de depressão. Além disso, 87% acreditam que o problema é ocasionado ou intensificado pelo trabalho. No ano passado, o Brasil já ocupava o último lugar num ranking internacional que mediu a valorização do professor em 35 países.

O EL PAÍS conversou com uma dezena de professores das redes pública e privada de São Paulo sob a condição de anonimato e de que não fossem revelados o lugar em que trabalham, já que temem ser demitidos ou perder outras oportunidades. Todos eles relataram um maior esgotamento mental desde as últimas eleições e apontaram para uma falta de perspectiva. Alguns já admitem a possibilidade de mudar de ocupação. "Pretendo continuar na área de Educação, mas agora como consultor e analista. Depois de cinco anos onde estou, acumulei uma série de desgastes pela forma como a escola lida com os pais e com os conteúdos. Depois de meu último desentendimento com a direção, decidi sair", explica André*, professor de História de uma rede privada com várias unidades na capital paulista.

As tensões sempre existiram na hora de abordar temas como a origem das religiões, sobretudo em uma comunidade majoritariamente evangélica que não aceita, por exemplo, discutir preconceito contra religiões de matriz africana. "A resistência vem dos próprios alunos, já que seus pais falam que o professor de História é um socialista que só fala besteira e que não é para escutá-lo". Explicar a história da Revolução Russa para o 9º ano também trouxe outros problemas. "Os alunos já vieram preparados para refutar qualquer tipo de argumentação ou afirmar que eu estava defendendo algum viés político. Eu não conseguia nem construir a narrativa histórica, eles já estavam cheios de armadilhas e questionamentos, criando uma série de situações", conta. Por causa dessas aulas, o pai de um dos estudantes acusou-o de estar tentando doutrinar seus filhos. A situação mais grave não aconteceu com ele, mas sim com uma professora homossexual que foi usada como exemplo por uma aluna na hora de se assumir para sua família. "Essa colega acabou afastada da turma e viu sua grade ser reduzida drasticamente. Ficou insustentável e ela teve de deixar a escola".

Embates com as famílias, que hoje em dia se comunicam entre si em grupos de WhatApp, também se tornaram mais frequentes. Em uma ocasião, Pedro*, que dá aula de inglês e literatura em duas escolas particulares, teve de enfrentar em uma delas um pai que estava exaltado. Dizendo-se representante de outras famílias, acusava os professores de estar falando mal de Bolsonaro e garantia que outros pais queriam aparecer armados no colégio. Aconteceu logo depois do primeiro turno das eleições. "Eu cheguei e os alunos estavam muito agitados e muito felizes, cantando a vitória. Eu tentava começar a aula e eles não deixavam. Tentei conversar e argumentar de que vivemos num país democrático, mas eles gritavam que queriam ditadura", conta ele. "Nesse contexto, tentei perguntar se eles sabiam o que estavam falando. E eles gritavam mais. Qualquer coisa que eu dizia eles rebatiam com 'ah, seu comunista!'. Tive que pedir para aluno sair de aula, e mesmo assim tendo o maior cuidado de que não falassem que tirei por questões políticas". A mesma situação ocorrera em outras salas de aula, despertando a ira de familiares.

Há resultados práticos dessa patrulha ideológica que vão além do desgaste mental. Um deles é que a própria direção da escola emitiu uma ordem no ano passado pedindo para que assuntos políticos não fossem abordados com os alunos. Outro é que Pedro decidiu diminuir sua grade horária por causa da "quantidade de abusos", limitando-se a dar aula apenas para o Ensino Médio. Além disso, já não se aprofunda em determinados temas e ensina apenas gramática. "É muito difícil controlar o celular, sempre ficamos na dúvida se estão filmando. Eles tiram foto da lousa, e isso gera muita insegurança", explica.

A autocensura também virou regra, como também afirma o professor de Física João*. "Eu trazia para a sala de aula questões como as mulheres na ciência, que modelo Einstein defendia para a sociedade... E isso desagradava os pais", conta. Ele também propunha e participava de projetos interdisciplinares com seus colegas. "Neste ano decidi não me envolver em nenhum".

"Maior isolamento dos professores"

A psicóloga Renata Paparelli, professora da PUC-SP, atende educadores na Clínica do Trabalho da universidade, sobretudo os da rede municipal — mas também alguns da rede privada —, e estuda os transtornos relacionados à carreira docente. Em escolas particulares, alunos e pais muitas vezes buscam ser tratados como clientes e exigem que suas vontades sejam atendidas, inclusive que conteúdos sejam tirados das apostilas. "Escuto muitas queixas sobre a perda de autonomia pedagógica e a interferência da direção e dos pais", conta. Já na rede pública, ressalta, a violência sempre fez parte da rotina do professor. "Todo esse estímulo ao não-diálogo e essa desvalorização do conhecimento promovida pelas autoridades têm incrementado essa violência", garante. Ela também fala de um maior "isolamento" dos professores, o que "impede a construção de projetos coletivos" e estimula a desistência de muitos deles. Há também aqueles que "apelam para as práticas quixotescas e vão sozinhos contra tudo e todos, mas acabam esgotados".

Antônio*, o professor de português das redes estadual e municipal de São Paulo, afirma que "a vantagem e a desvantagem do setor público é que não há controle rígido por parte da gestão da escola". Isto é, "são ambientes muito maiores, com dezenas de salas e professores. É mais estressante por outras questões". Ainda assim, embates com alunos fazem parte do cotidiano. "Tento conduzir para uma discussão mais saudável. Quando você coloca questões ao invés de afirmações, o debate se estabiliza. Para o Ensino Médio tento levar mais reflexões, mas tenho muito cuidado. Já no Ensino Fundamental os alunos trazem muitas coisas que aprendem dentro de casa", explica.

"Eu tenho liberdade de cátedra e continuo trabalhando com feminismo, questões LGBT e raciais... Ainda não repensei minha abordagem", conta Giovana*, professora concursada de uma escola estadual no extremo sul de São Paulo. Contudo, as tensões com a comunidade local, bastante religiosa, e os atritos com professores conservadores estão mais frequentes — algo também identificado por Paparelli em suas consultas. "Já tive medo da minha lousa. Eu nunca apago quando acaba a aula, deixo sempre ali. Mas sabe quando você fica com medo de registro?", afirma.

Giovana trabalha em uma escola pequena. Acompanha seus alunos do 3º ano do Ensino Médio desde a antiga 5ª série do Ensino Fundamental. "Temos muito cuidado com formação, mas não sei se vou conseguir continuar fazendo esse trabalho. A gente faz um planejamento anual, mas já não temos perspectiva. Verbas são cortadas, matérias são tiradas... A impressão é que querem que os alunos sejam apenas o chão de fábrica", destaca. "Mais do que estresse, existe uma insegurança", acrescenta ela, que começou a fazer terapia depois das eleições e já começa a pensar em outras alternativas.

Ministro da Educação defende corte e é criticado por falta de propostas.


O Brasil está no limite de entrar numa roda de insolvência fiscal", disse Abraham Weintraub.


“A gente não quer monocromia. A gente quer o arco-íris. A gente quer todas as cores lá dentro. Quer dizer que até uma pessoa como eu pode entrar na universidade e dizer o que eu penso”, disse Abraham Weintraub.

Uma semana após manifestações contra cortes orçamentários, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que o País está próximo à insolvência fiscal e que escolhas são necessárias. Além de ser questionado por restringir recursos, ele também foi criticado por não detalhar propostas da pasta, em audiência pública na Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (22). 

A reunião foi encerrada às 14h, após um tumulto porque a Mesa queria deixar estudantes fazerem perguntas ao ministro, mas havia parlamentares à espera. Um estudante chegou a ser retirado do plenário. Deputados do PSL, como Dayane Pimentel (PSL-BA) e Delegado Waldir (PSL-GO) foram à Mesa, presidida pela deputada Professora Marcivânia (PCdoB-AP), que encerrou a sessão.

Em abril, o Ministério da Educação (MEC) anunciou o corte de R$ 1,7 bilhão para todas as universidades e institutos federais. A medida foi divulgada antes como restrita à Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade Federal da Bahia (UFBA), consideradas ambientes de “balbúrdia”, segundo o ministro.

O valor representa 30% do orçamento discricionário, que é o que sobra para as instituições depois de descontada a folha de pagamento e as emendas parlamentares. Comparado ao orçamento total destinado às universidades, o percentual é de 3,5%.

Em audiência nas comissões de Educação, e de Trabalho, Administração e Serviço Público, o economista fez um apelo aos parlamentares sobre a situação das contas públicas. “O Brasil está no limite de entrar numa roda de insolvência fiscal (…) quando vai para insolvência fiscal, contratos que temos como consagrados, são rediscutido. Esse Congresso nunca se furtou a acender a luz quando o Brasil esteve à beira do abismo. A gente está muito próximo disso”, afirmou.

Essa restrição financeira que obriga o governo a decidir onde alocar recursos, de acordo com o ministro. “Os recursos são finitos e nossos desejos são infinitos. Ninguém vai questionar que é importante dar faculdade para todo mundo, dar creche para todo mundo. A gente tem que fazer escolhas”, completou.

Em resposta a questionamento do deputado Glauber Braga (PSol-RJ), Weintraub negou ter mantido os cortes por pressão do mercado financeiro. “Não vou dizer que o senhor é um capacho, mas queria citar um episódio para saber se é verdadeiro porque se aconteceu, é um ato de capachismo”, disse o parlamentar, antes da pergunta.


“Os recursos são finitos e nossos desejos são infinitos. Ninguém vai questionar que é importante dar faculdade para todo mundo, dar creche para todo mundo. A gente tem que fazer escolhas”, disse ministro da Educação.


Propostas do MEC

Na apresentação no início da reunião na Câmara, Weintraub não detalhou propostas da pasta, apenas informou linhas gerais, como o slogan “mais Brasil e menos Brasília”, repetido pelo presidente Jair Bolsonaro, para defender a descentralização de recursos para estados e municípios.

Entre os destaques, também foi citada uma “gestão técnica orientada à entrega de resultados” e a “construção de um sistema de educação orientado pelo mérito e para o mérito”. 

O ministro concordou com a proposta de ampliar as verbas do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), mas defendeu “cobrar metas” de estados e municípios como contrapartida. Ele também disse que a realização do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) está garantida e que é contra cobrar mensalidade de aluno de graduação em instituições públicas, mas a favor da medida na pós-graduação.

Apesar do discurso ideológico, entre as diretrizes citadas pelo ministro, está o respeito à liberdade e à diversidade de pensamento. “A gente não quer monocromia. A gente quer o arco-íris. A gente quer todas as cores lá dentro. Quer dizer que até uma pessoa como eu pode entrar na universidade e dizer o que eu penso”, afirmou.

Como professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o economista já disse se sentir discriminado por defender ideias liberais no ambiente universitário. 

Ao responder a questionamentos de deputados, Weintraub disse que diferente de ministros que “preferem dar aula em universidade de rico”, ele tem uma postura mais popular. “Eu não gosto de playboy. Eu ando com o povo. Me identifico com o povo”, disse.

A falta de propostas do MEC, foi criticada pela oposição. “Não tem só 5 meses de governo. Já tem 5 meses de governo. Já está atrasado, ministro (...) Coloque à frente das suas convicções ideológicas fanáticas a da responsabilidade pública com a educação (...) A nossa crise é muito profunda”, disse Marcelo Freixo (Psol-RJ).

Filho de professores, o parlamentar exigiu um pedido de desculpas. “Na minha casa, educação pública nunca foi sinônimo de balbúrdia. Preciso que o senhor peça desculpas e reveja seus posicionamentos de tamanho despeito a educadores do País (...) Eu me senti ofendido pelo senhor. Tenha grandeza, admitia que o senhor errou, que não pode tratar os educadores dessa maneira porque não compete a quem está numa pasta tão grande  esse comportamento”, disse.

Weintraub não pediu desculpas, mas disse estar aberto ao diálogo com a oposição. Quanto às propostas, respondeu que estão sendo ouvidos parlamentares, secretários de Educação e especialistas. Ele citou também Política Nacional de Alfabetização, lançada por seu antecessor, Ricardo Vélez Rodriguez, e ainda não implementada.

A deputada Tabata Amaral (PDT-SP), por sua vez, criticou a falta de transparência do governo, com a divulgação de “dados incertos” e “manipulação da população”. “Só não vai ser corte se tiver crescimento acima do esperado para economia brasileira, que não é o que as projeções estão mostrando”, disse.

A parlamentar também rebateu informação de que as universidades estão com as contas pagas até setembro. “Se alguma informação for mentira, tem CGU (Controladoria-Geral da União), TCU (Tribunal de Contas da União), todo mundo pode me pegar”, respondeu Weintraub.

O ministro esteve no plenário da Câmara na última quarta-feira (15), mesmo dia  em que houve manifestação contra a redução de recursos da Educação em pelo menos 220 cidades pelo Brasil.

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