sexta-feira, junho 28, 2019

DIREITOS

As sequelas da homofobia e o sonho interrompido de jovem violentado e espancado.


Recuperação lenta: Jeff está há quase seis meses internado em Pernambuco.


Correspondente bancário criou abaixo-assinado e campanha online para pedir justiça e ajudar amigo brutalmente agredido em Pernambuco.

“Não é somente o Jefferson que está com sequelas, milhões de nós, LGBTTI, estamos feridos. Milhões de nós morremos em vida.” O desabafo é do escritor e correspondente bancário Robhério Limma, ativista e amigo de longa data de Jefferson Anderson Feijó da Cruz, violentado e espancado quase até a morte por ser gay. Jeff, como é conhecido pelos amigos, foi vítima de ataque homofóbico em dezembro do ano passado, na pequena cidade de Moreno (PE). Seis meses depois, permanece internado com prognóstico médico incerto, enquanto seu agressor, já identificado, segue impune.

Exausto de assistir a casos de agressão contra LGBTs, Robhério decidiu criar o movimento #lutecomoele em apoio às vítimas da homofobia e uma campanha online pedindo justiça para Jeff. A mobilização inclui um abaixo-assinado e uma vaquinha para os custos do tratamento. A petição, aberta há um mês na plataforma Change.org, acumula até o momento quase 65 mil assinaturas.

“Foi um grito de socorro, como se eu estivesse dizendo a cada segundo às pessoas ‘assinem’ e ajudem a Justiça a evitar que eles nos matem. Morremos todos os dias”, declara Robhério, que também já foi vítima de homofobia e relata ter sofrido abusos ainda na infância.




Dia 8 de dezembro de 2018. Era uma noite de confraternização entre amigos, em uma pracinha do município localizado a 28 quilômetros de Recife. Aos 22 anos, Jeff comemorava a aprovação em uma prova e os preparativos para entrar na faculdade. Entretanto, uma perseguição enquanto se distanciava dos colegas para ir ao banheiro, interrompeu os sonhos do jovem, que hoje se encontra em cima de uma cama de hospital, com graves sequelas neurológicas que comprometem a voz, os movimentos das pernas e a visão.

“Não se sabe se o Jefferson voltará a ser quem era antes”, lamenta Robhério, que lembra o quanto Jefferson é querido por todos. “Como pessoa é um ser incrivelmente humano, de um coração gigantesco cheio de amor. Um bom filho, um bom tio, um bom amigo”, descreve.

Dedicado, Jeff tinha feito entrevista de emprego em uma empresa conceituada e aguardava ansioso por um retorno. O feedback positivo chegou, por telefone, no começo deste mês. “A mãe dele atendeu o telefone do hospital e deu a notícia. A empresa lamentou muito”, conta o amigo.

O ataque que deixou Jefferson em estado vegetativo por um mês foi decorrente de agressões que causaram vários coágulos sanguíneos em sua cabeça. Segundo conta Robhério, o crime deve ter sido premeditado, já que o agressor rondava o grupo de amigos há horas. “Ele esperou o Jefferson ir ao banheiro para atacá-lo. Bateu muito”, comenta. “Deixou-o sem roupas e morrendo engasgado com o próprio sangue”, acrescenta. Além do coma inicial, a vítima segue em lenta recuperação.

A autoria do crime já foi identificada pela polícia. Porém, o acusado Robson da Silva Alexandre ainda não foi preso. O processo está desde o final de fevereiro na Justiça. “Neste país as leis não são ágeis. E quando se trata de um espancamento contra gays, lésbicas, transexuais, travestis, os funcionários públicos que operam nas leis são muitas vezes os primeiros a se calar”, indigna-se Robhério.

Mesmo angustiados pelo que consideram “letargia” da Justiça, amigos e familiares se revezam nas visitas e cuidados a Jeff no hospital, que se comunica com o piscar dos olhos. A mobilização conseguiu arrecadar mais de R$ 135 mil para o tratamento. “O quarto dele já está sendo montado com toda uma estrutura de enfermaria em casa, graças à vaquinha dos internautas. Porém, ele precisará muito de home care, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos e outros. A recuperação é lenta, um dia de cada vez”, explica o amigo de infância da vítima.

A boa notícia é que Jefferson pode ter alta médica no próximo sábado (29). Essa é a expectativa de seus pais que precisaram mudar de cidade, alugando uma casa no município de Olinda para montar toda a estrutura de internação domiciliar.


No hospital, Jeff recebe a visita de sua mãe, Etiene Melo, e de amigos.


Criminalização da homofobia

Ocorrido antes do Supremo Tribunal Federal (STF) decidir que homofobia e transfobia são crimes semelhantes a racismo, o delito do qual Jefferson foi vítima foi capitulado pelas autoridades como estupro e roubo (a vítima teve o celular levado pelo agressor). O abaixo-assinado criado por Robhério Limma também pedia pela criminalização da LGBTfobia. “A importância da homotransfobia ser caracterizada como crime em um país onde mais mata-se LGBT no mundo é para nós uma conquista grandiosa. Significa que conquistamos um passo importante”, diz.

O amigo de Jeff entende que, em última instância, a medida não impede “pessoas ocas, vazias e intolerantes” de agredirem homossexuais, mas valoriza a importância da punição e detenção dos agressores de acordo com o que a lei determina agora.

Segundo estudo do Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2018 o Brasil teve 420 mortes de LGBTs decorrentes de homicídios ou suicídios causados pela discriminação. O relatório “População LGBT Morta do Brasil” mostra, ainda, um aumento dos casos desde 2001, quando houve 130 mortes. No mês passado, o grupo divulgou nova pesquisa que aponta 141 vítimas entre janeiro e o dia 15 de maio deste ano. De acordo com o relatório, ocorreram 126 homicídios e 15 suicídios, o que dá uma média de uma morte a cada 23 horas decorrentes de homofobia.

#Lutecomoele


Robhério Limma, o autor do abaixo-assinado e criador da página Lute Como Ele


Preocupado com os casos de suicídio e com transtornos e traumas que os homossexuais enfrentam por conta do preconceito, Robhério Limma criou a página @lutecomoele no Facebook, usando sua própria história para ajudar outras pessoas que também foram vítimas da homofobia. Nascido em Pernambuco, o agora ativista conta ter sido estuprado pelo tio dentro de sua própria casa, dos 8 aos 12 anos.

“Tive as mãos amarradas dezenas de vezes, só não tive a língua cortada porque silenciei, até criar coragem e sair de casa. O agressor me amordaçava sempre para ter relação sexual, enquanto falava ‘viado tem que ser estuprado para aprender ser homem’”, lembra. Na página, o também escritor usa a hashtag #lutecomoele para criar um movimento de apoio a casos como o de Jeff. Nela postará vídeos sobre as doações recebidas e a montagem do quarto do amigo.

Em um dos posts, o escritor compartilha parte de sua história e fala sobre seu agressor da infância: “O que ele não deve saber é que eu me tornei o homem mais feliz deste país e continuo sendo gay. Sou um melhor filho, um melhor pai, um melhor amigo, um melhor companheiro, um melhor ser humano. Tudo o que o ódio dele tirou de mim, o amor implantou com mais vigor”. O joem tem uma filha de 10 anos.

Resposta da Justiça

A equipe da Change.org entrou em contato com a Assessoria de Comunicação do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) para saber o andamento do processo judicial, se o caso será enquadrado como racismo e se a prisão do acusado será pedida.

Entretanto, a assessoria do TJ enviou uma nota dizendo apenas que “por se tratar de processo envolvendo crime de estupro, o referido processo corre em segredo de justiça”. O comunicado acrescenta, ainda, que por conta do segredo, nenhuma informação poderia ser repassada.

Também foi tentado contato com o Ministério Público de Pernambuco, porém, a informação é de que as equipes encontram-se em recesso.


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