sexta-feira, junho 21, 2019

MINHA VIDA GAY

O ator espanhol que se descobriu gay em papel na TV e hoje quer inspirar jovens LGBT.




O autoconhecimento de Javier Calvo


MADRI, ESPANHA – O autoconhecimento pode ser uma jornada solitária – ou algo extremamente compartilhado. Não há meio termo. Para Javier Calvo, ela aconteceu diante de milhões de pessoas na televisão espanhola.

Quando ele tinha 15 anos, foi escolhido para fazer o personagem principal da série de TV Física o Química (Física ou Química, em tradução livre), que virou um sucesso nacional e referência para toda uma geração de jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer ou intersexo.

À medida que seu personagem, Fer, foi descobrindo sua sexualidade, Javier foi tomando consciência da dele também. A série “me despertou, sob muitos aspectos”, ele explicou ao HuffPost Espanha. “A transição de Fer foi a minha transição também.”

Javier chegou a seu escritório no centro de Madri, para a entrevista, em uma noite usando um suéter amarelo da grife ASIF, que ele fundou com seu noivo Javier Ambrossi. Sua filosofia de vida pode ser lida na tatuagem que ele ostenta no braço: “Lo hacemos y ya vemos”, ditado popular que se refere à coragem de sempre se arriscar e tentar fazer algo diferente da norma.

O ator de 28 anos  que não para quieto ? acendeu um cigarro e pegou uma cerveja da geladeira. Eram 21h30 e ele ainda tinha muitas horas de trabalho pela frente.

Em uma parte do escritório sua equipe ainda estava trabalhando na terceira temporada de Paquita Salas, uma comédia tremendamente bem-sucedida que Javier criou com Ambrossi e que apresenta todos os percalços de uma agente de talentos que vive mergulhada em problemas. A série foi lançada na web em 2016, mas acabou sendo comprada pela Netflix posteriormente.

Conhecer Ambrossi mudou a trajetória da vida pessoal e profissional de Javier Calvo. Ele se revelou gay para seus pais, e, com Ambrossi, criou o musical La Llamada (A Chamada, em tradução livre), que estreou em 2013 e acabou vendendo mais de 800 mil ingressos e levando para casa 13 prêmios da Broadway World. O musical também foi transportado para o cinema, e o filme recebeu cinco indicações ao prêmio Goya, o Oscar espanhol.

La Llamada foi reconhecido como Melhor Filme na edição de 2018 dos Prêmios Feroz, a segunda mais importante premiação de cinema na Espanha, e Javier dedicou o prêmio às crianças e adolescentes LGBTQ de seu país.

Com a voz embargada, ele disse: “Se alguém que está me vendo aqui está se sentindo assustado e perdido, pensa que não será amado, essa pessoa deve saber que será amada, que vai encontrar seu lugar, que vai realizar seus sonhos e que Javi e eu vamos escrever histórias para deixá-la inspirada”.




Para Javier, essa é a parte mais importante de ser um astro ou estrela: usar sua fama e sua voz para promover a justiça, igualdade e tolerância na sociedade.

A Espanha tem fama de ser um dos países do mundo mais abertos às pessoas LGBTQ; o casamento e os direitos de adoção de casais homossexuais foram legalizados no país em 2005. Mas Javier disse que, quando era garoto, tinha poucos modelos de comportamento a seguir. Apesar de ser uma pessoa perfeita para ser vista como exemplo, ele hesita em assumir essa posição.

“Ser um modelo de comportamento dá a entender que você não é capaz de errar. Mas eu cometo muitos erros, estou aprendendo. A única coisa que faço é contar histórias que me representam e representam outras pessoas como eu.”

Ativista gay enfrenta os haters do Japão: 'Quero ser escudo das pessoas vulneráveis'.




Uma luta por reconhecimento

TÓQUIO, JAPÃO — Quando 13 casais LGBTQ+ moveram uma ação judicial contra o governo japonês no início deste ano, pedindo o reconhecimento legal do casamento entre pessoas do mesmo sexo no país, manchetes em todo o mundo apontaram que este poderia ser um momento histórico para o Japão.

Mas a jornada foi longa para os casais envolvidos. E juristas dizem que ela pode se arrastar por muitos anos ainda. Soshi Matsuoka, de 24 anos, é o fundador da organização de defesa dos direitos humanos “Fair” e um dos ativistas que trabalham nos bastidores da ação judicial. 

"Quero atuar como escudo das pessoas vulneráveis para transformar a sociedade."

Em um país onde o preconceito ainda predomina, Soshi atua para divulgar a ação judicial e criar novas diretrizes para nortear o modo como questões relativas à população LGBT são difundidas na imprensa.

Até 60% dos estudantes que pertencem a essa comunidade no Japão relatam ter sofrido violência verbal ou física na escola, e muitos optam por não revelar publicamente sua identidade.

Soshi encontrou o HuffPost Japão em um café no bairro de Harajuku, em Tóquio, e falou de como é ser jovem, gay e alguém que fala abertamente o que pensa em um país conservador. Leia a entrevista completa:

HuffPost Japão: Como você se envolveu com ativismo LGBTQ+?


Soshi Matsuoka: Quando comecei a assumir minha sexualidade abertamente, na faculdade, havia uma linha divisória clara entre meu grupo LGBTQ e meus outros amigos. Eu queria acabar com essa divisão. Descobri uma ONG que promove palestras em escolas sobre ser LGBT e comecei a trabalhar com ela.

Por que você fundou a “Fair” e o que vocês fazem?


Dar palestras era ótimo, mas eu sabia que nas periferias das cidades havia outros problemas, como o assédio nos locais de trabalho. Por isso eu quis lutar por proteções legais, porque no Japão ainda não temos dispositivos legais que protejam a comunidade LGBTQ.

O que incentivou você a se posicionar publicamente como gay?

Os gays são exatamente como você ou eu – são gente como a gente. Eu queria que as pessoas entendessem isso. De modo geral as pessoas nos têm dado apoio, mas há quem expresse ódio, especialmente online. Muitas pessoas na comunidade LGBTQ são muito vulneráveis. Eu não me esquivo de responder a esses comentários negativos, nem de contestar os haters. Quero atuar como escudo das pessoas vulneráveis para transformar a sociedade.

"No Japão ainda não temos dispositivos legais que protejam a comunidade LGBTQ."

Quando você próprio percebeu que era gay?


Na época do ensino médio, eu já sabia que era gay, mas ainda não tinha “saído do armário”. Eu não queria mentir, mas não tinha coragem de dizer a verdade. A única saída era caçoar de mim mesmo, porque quando eu era adolescente, os gays eram ridicularizados ou retratados como engraçados. Então ou eu tinha que recorrer ao humor ou me esconder.

Eu saí do armário mesmo logo depois de terminar o ensino médio, primeiro para meus amigos íntimos. Não foi algo que eu tivesse planejado, eu não havia me preparado. Simplesmente aconteceu. Eles me perguntaram diretamente. Achei que eu estava preparado para contar a eles, então contei. A reação foi calma. Eles falaram “nada demais, cara, você é você”.



E para sua família?


Eu estava na faculdade. Um dia minha mãe me perguntou se eu tinha namorada. Quando tentei mudar de assunto, ela perguntou: “Então você tem um namorado?” Fiquei chocado porque ela já sabia. Mas ela estava esperando eu lhe dizer a verdade. Ela me disse: “É importante você ter alguém ao seu lado quando está doente. Não importa se é um rapaz ou uma menina”.

Depois que saí do armário, minha mãe começou a se envolver com questões LGBT, e agora ela própria é ativista, procurando maneiras de conscientizar as pessoas ainda jovens. Eu não contei a meu pai sozinho. Minha mãe fez isso por mim. Ela achou que ele talvez já soubesse, mas ele não sabia e ficou muito chocado.

Durante uns seis meses mais ou menos, ele não ficava à vontade quando ouvia falar de meu trabalho com a comunidade LGBT. Mas um dia ele começou a me aceitar. Disse que se acostumou com o fato de eu ser gay.

Antigamente ele pensava que ser gay seria um fardo pesado para eu carregar. Mas, à medida que minha mãe ficava contando minhas notícias para ele com tanta alegria, ele começou a pensar: “Talvez não seja um problema tão grande assim”.

Hoje eu levo meu namorado para visitar meus pais ou fazer viagens curtas com minha família. Sou muito abençoado. Muitos de meus amigos passam por situações bem mais difíceis.

Você tem algum conselho a dar às pessoas da comunidade LGBTQ que ainda sofrem?

É muito fácil dizer “simplesmente seja quem você é”. Isso é lindo, mas é muito difícil de fazer. Se você se acha estranho porque é diferente, quero lhe dizer uma coisa: não é estranho, nem um pouco.

Não se negue, não negue suas dificuldades. Em vez disso, valorize as provações pelas quais passa. Um dia elas lhe darão força. Converta esse sofrimento em ações positivas e seja gentil com outras pessoas.

Não há conselhos práticos a dar às pessoas sobre como viver a vida como pessoa LGBT, porque cada pessoa é diferente. Mas uma coisa que quero ressaltar é que é importante ter aliados que lhe deem apoio. Você não está só.

A mulher trans que desafiou a máfia e luta por direitos LGBT na Itália.




A mulher trans que desafiou a máfia e luta por direitos LGBT na Itália


NÁPOLES, Itália — Para o filho mais velho de um temido chefão da Camorra, no sul da Itália, as expectativas eram cruéis, mas claras: um dia acabaria comandando os negócios da família. Mas Daniela Lourdes Falanga desafia as expectativas desde sua infância.

Daniela tem 41 anos e cresceu na década de 1980 em Torre Annunziata, perto de Nápoles. Pouco depois de nascer, seu pai largou a família para ficar com outra mulher, com quem teve outras quatro filhas. Mas, ainda assim, sua família tinha que se reunir na residência do chefão para os almoços de domingo. Apesar de ter uma nova família, o pai tinha planos para Daniela, “como seu único herdeiro homem”: esperava que o sucedesse na liderança da Camorra. 

O mundo das famílias criminosas napolitanas não era um ambiente em que fosse possível discutir facilmente as estruturas patriarcais, a sexualidade ou a identidade de gênero. Daniela disse que sua mãe reagia mal quando ela manifestava qualquer interesse ou emoção que pudesse ser visto como feminino. “Minha mãe me apavorava”, disse ao HuffPost Itália. Para o seu pai, ela “era como um objeto inanimado”. “Ele nem sequer me enxergava.”

Outras crianças zombavam dela na escola e na rua, chamando-a de “bicha” ou “filho do chefão”. Daniela pensou muitas vezes em se suicidar.

Mas uma noite a atriz e cantora transgênero Eva Robin’s se apresentou na TV. Para Daniela, foi um momento de revelação. Ela diz que, naquele momento, enxergou “a vida que me tinha sido negada até então”. Então, ela começou a ir à escola usando roupas de menina, embora sua família tentasse impedi-la.

Com 20 e poucos anos de idade, Daniela fez uma cirurgia de redesignação sexual no hospital San Camillo, em Roma, e mudou seu nome oficialmente, em todos os documentos, para Daniela Lourdes Falanga. Ela diz que o nome evoca santos que a protegem e foi inspirado por sua fé em Deus.

A cirurgia também marcou o início de sua militância em apoio a mulheres trans que trabalham com prostituição. “Nápoles tem um dos maiores números de mulheres transexuais no mundo, e encontrar trabalho não é fácil para nós”, diz. “Muitas são forçadas a se prostituir porque não encontram oportunidades de trabalho. Mas o trabalho é o elemento fundamenta.




Seu pai foi preso em meados da década de 1980. Hoje ele cumpre pena de prisão perpétua no presídio de Rebibbia, em Roma, mas Daniela prefere que ele não seja mencionado para não ser associado à sua história. As vendetas violentas entre as famílias napolitanas lançam sombras e, segundo ela, ainda é possível que haja alguém à procura de vingança.

O ativismo de Daniela a levou até seu pai novamente. Eles se encontraram por acaso depois de 25 anos sem se ver.

Ambos tinham sido convidados para um evento antiviolência em Nápoles: ela como presidente da Arcigay Napoli e ele como ator em uma peça sobre discriminação e violência, juntamente com outros atores presidiários.

Não está claro se o pai de Daniela renunciou a seu passado criminoso. Mas o fato de ele ter indicado aceitação à identidade dela, depois de tanto tempo, ajudou a restabelecer o relacionamento deles. Conforme o relato de Daniela, ela e seu pai se reconheceram e acabaram se abraçando no evento.

Ela disse que teve mais um encontro com seu pai desde então e acha que ele finalmente a “reconheceu como mulher”.

A família teve muitos significados diferentes para Daniela ao longo dos anos, e hoje significa esperança para o futuro. Seu companheiro, Ilario, tem 24 anos e é um homem transgênero. Eles querem ter um filho, e Ilario não pretende passar pela cirurgia de readequação sexual.

Daniela o apoia. Ela é contra quaisquer mudanças feitas “em nome de uma concepção binária de corpos que em muitos casos foi incorporada inconscientemente, mesmo por pessoas trans”. “Somos homens e mulheres trans com peculiaridades diferentes – e possibilidades extraordinárias.”

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