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DIREITOS

Mulheres não são as únicas pessoas que procuram por abortos.


Jack Qu’emi Gutiérrez em sua casa em Los Angeles, 5 de junho de 2019.


Homens trans e pessoas não-binárias também procuram o procedimento. Mas ninguém discute como proibir o acesso ao aborto os afeta.

Jack Qu’emi Gutiérrez tinha 20 anos, estava na universidade e vivendo um relacionamento abusivo quando descobriu sua gravidez. Era 2011, e ela, uma pessoa não-binária ? que não se identifica com nenhum dos gêneros binários: feminino ou masculino ? teve de reunir todos os seus recursos para comprar uma pílula abortiva que, na época, chegava a custar 500 dólares nos EUA.

Apesar de Gutiérrez ter optado por um aborto médico, sem procedimentos invasivos mas com medicação, ainda teve de fazer dois ultrassons transvaginais antes de obter o remédio.




“Não queria um monte de gente em cima de mim”, disse ao HuffPost. “Mas me senti muito, muito sozinha. Eu não tinha nenhuma referência sobre aborto, e ponto. Sem falar o que seria um aborto para uma pessoa não-binária.”

Apesar de Gutiérrez ter procurado a Planned Parenthood ? organização sem fins lucrativos sobre planejamento familiar nos EUA ? frequentemente era tratada com pronomes de gênero, e não havia a opção de indicar os que ela preferia usar.

“Me chamavam de ‘senhora’ o tempo todo”, diz Gutiérrez. “E [a equipe] foi muito gentil comigo, mas eu estava com tanto medo que não consegui sentar para conversar e dizer: ‘Ei, meus pronomes são estes e minha identidade é esta, você pode parar de fazer isso?’ Estava pensando: ‘Puta merda, estou numa clínica e não sei o que esperar’.” Atualmente, Planned Parenthood oferece a escolha de pronomes e de identidade de gênero em seus formulários.




Gutiérrez conta que sentiu-se violada, com vergonha e, depois, com muita raiva. “Sempre acho que tenho de justificar minha existência e explicar por que quero ser tratado como ser humano.”

Depois da aprovação de restrições ao aborto em estados norte-americanos como Geórgia, Alabama, Missouri, e Ohio, Gutiérrez diz ter sentido raiva mais uma vez. “Ignorar completamente um grupo gigante de pessoas que precisa de acesso – e que já sofre ao procurar ajuda médica – é inacreditável. E muito frustrante.” 

É claro que a proibição do acesso ao aborto é um ataque contra as mulheres que se identificam com o gênero que lhes foi designado no nascimento. Mas essas proibições também afetam pessoas cm outras identidades de gênero.

Cazembe Murphy Jackson, um homem transgênero, diz que sua experiência com aborto foi semelhante à de Gutiérrez. Jackson foi estuprado no terceiro ano da faculdade e, seis meses depois, teve de fazer um empréstimo para abortar em uma Planned Parenthood. Jackson é do Texas, um dos estados mais conservadores dos Estados Unidos.

“Foi constrangedor, porque as pessoas não tinham competência para atender trans masculinos que faziam abortos. Uma das primeiras perguntas que fizeram foi: ‘[O aborto] é para a sua parceira?’”, disse.


Cazembe Murphy Jackson, homem transgênero, abortou no terceiro ano da universidade.


Na época, Jackson não se identificava especificamente como homem, mas, segundo afirmou ao HuffPost, já era abertamente homossexual e se apresentava de forma trans masculina. 

Jackson concorda que a Planned Parenthood era o lugar mais seguro para abortar. Ainda assim, médicos e enfermeiros tinham pouca prática em lidar com pessoas que se apresentavam como trans.

“Nossos profissionais de saúde precisam ser mais informados em relação a quem faz abortos”, disse. “As pessoas esperam um certo tipo de corpo, mas não é o caso. Nunca foi o caso.”

"Uma das primeiras perguntas que fizeram foi: ‘[O aborto] é para a sua parceira?"

-Cazembe Murphy Jackson

E este é o problema. Até mesmo organizações progressistas como a Planned Parenthood não estão preparadas para oferecer cuidados competentes para pessoas trans ou não-binárias. “Até mesmo as pessoas pró-aborto constantemente decidem ignorar minha existência”, diz Gutiérrez.

Um sistema desenhado para frustrar 

Krystal Redman, diretora executiva da entidade SPARK: Reproductive Justice Now, aponta que, historicamente, a legislação norte-americana foi criada por brancos cisgêneros. Para ela, isso cria uma “narrativa sistêmica de gêneros binários” baseada na linguagem que é usada.

“Só com base na história de como foram criadas essas leis, naturalmente a narrativa e as conversas por trás delas se tornam uma narrativa de quem está dentro da norma”, diz Redman. “Essas pessoas têm de entender que vivem com privilégios”, completa.

Em vez de: “Você é do sexo masculino ou feminino?” ou “Você tem seguro-saúde?”, a pergunta para a maioria dos não-binários ou pessoas trans é: “Que provedor de cuidados médicos realmente entende a dinâmica do meu corpo?”


Jack Qu’emi Gutiérrez, à esquerda, e Cazembe Murphy Jackson.


Uma pesquisa do Lambda Legal indica que 70% das pessoas trans sofrem sérios preconceitos na hora de buscar cuidados médicos. Segundo uma pesquisa de 2011 do National Center for Transgender Equality realizada com mais de 6.000 pessoas que têm identidades de gênero diversas, 19% afirmaram que já tiveram cuidados médicos por sua identidade de gênero.  

Além disso, 28% afirmaram ter adiado a procura por cuidados médicos por medo de discriminação, e 33% adiaram ou não buscaram cuidados médicos por causa de discriminações sofridas no passado.

“As vidas dessas pessoas estarão em risco por causa dessas restrições”, diz Gutiérrez.

“Você terá índices mais altos de todos os tipos de doenças nas comunidades transgênero e não-conformista, e imagino que o número de suicídios também aumente se abortos não forem acessíveis”, acrescenta Gutiérrez.

“Sei que, se tivesse sido forçada a levar aquele negócio [a gravidez] até o fim ... De jeito nenhum estaria aqui conversando com você.”

O aborto como questão das mulheres+

“Quem tem útero faz aborto. Pessoas cisgênero não podem determinar como essas pessoas se identificam”, diz Redman.

Tornando mais inclusivas as conversas sobre aborto, afirma Jackson, não estamos apagando as mulheres cis, que são a maioria entre as pessoas que abortam – estamos apenas abrindo espaço para outras.

“O aborto, para mim, pode ser questão das mulheres. Você pode falar de poder feminino e tudo o mais”, afirma. “Mas isso significa que você tem de incluir mulheres trans na conversa, porque elas também são mulheres. E você tem de incluir homens trans e pessoas não-binárias porque também somos afetados.”

Gutiérrez é mais assertiva e exige mais de um sistema que continua apagando sua condição humana. “Me pedem paciência desde que entrei para este movimento”, diz Gutiérrez.

“Me disseram: ‘Vamos chegar lá, vamos atender pessoas como você. Vamos tornar o aborto mais acessível primeiro para as mulheres, só as mulheres, e depois vamos incluir transgêneros’”, afirma Gutiérrez. “Mas não é assim que funciona. Porque não é liberdade se todos não forem livres.”

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Postado por Andy | (0) Comente aqui!

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