terça-feira, agosto 13, 2019

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'Nós usamos ciência, não balela de Twitter', diz ex-diretor do Inpe.


Nós usamos ciência, não balela de Twitter', diz ex-diretor do Inpe


SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) Durante bate-boca na Globo News, o ex-diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Ricardo Galvão, disse a Ricardo Salles (Ambiente), que "nós [do Inpe] usamos as publicações científicas, não a balela que vocês usam, coisa de Twitter". A fala é uma resposta às críticas do presidente Jair Bolsonaro aos dados de desmatamento do Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), que apontam para o crescimento do desmate da Amazônia em junho e julho deste ano, em comparação com 2018. 

O debate, que aconteceu neste sábado (10), abordou a preservação do meio ambiente, agronegócio e a repercussão da crise no Instituto, que culminou na demissão de Galvão em 2 de agosto.

Segundo Salles, os dados do Inpe não são mentirosos, como sugeriu Bolsonaro, mas dão margem para "interpretações sensacionalistas". 




"Eu não tenho dito que os números estão manipulados, mas que a forma de se apresentar os números está. A imprensa teve acesso a isso antes do Ibama, um repórter sabia dos dados antes do próprio órgão. Isso é inadmissível", disse.

O ex-diretor do Inpe, acusado por Bolsonaro de estar "a serviço de alguma ONG", aproveitou o momento para defender a si mesmo e ao Instituto. "O presidente da República chamou os dados do Inpe de mentirosos. Ele acusou todos os cientistas do Inpe de terem cometido crime de falsidade ideológica. Ele me acusa de estar a serviço de uma ONG internacional. Eu não sou uma criança, eu tenho uma respeitabilidade internacional enorme. O presidente da República me acusa. Não acha isso errado ministro?", questiona.

Salles defendeu o presidente e afirmou que Jair Bolsonaro é "uma autoridade política que tem liberdades". O ministro disse ainda que Galvão deveria ter tido autocontrole durante a entrevista, na qual afirmou que o presidente agia "como se estivesse falando em botequim". O ex-diretor do Inpe rebateu, alegando que, apesar de Bolsonaro ser uma autoridade, ele não tem "liberdade moral" para fazer acusações. 

Para acalmar os ânimos, a jornalista Renata Lo Prete, que comanda o programa, aproveitou a presença de Marcelo Brito, presidente da Abag (Associação Brasileira do Agronegócio) para apartar a discussão, passando a ele a palavra e encerrando o bloco em seguida. 

Na reta final do programa, os convidados assumiram um tom apaziguador e Galvão chegou a concordar com a sugestão de Salles em retomar o TerraClass, projeto do Inpe em parceria com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que visa acompanhar a regeneração de áreas desmatadas e emitir relatórios a cada dois anos.  

"O ministro tem uma crítica ao desmatamento que está correta. O Deter e o Prodes dão o dado de desmatamento da floresta nativa, mas não computam como foi a regeneração e utilização da terra depois. Nós deixamos de fazer [as análises do TerraClass] a partir de 2014 porque era um recurso do BNDES que deixou de ser passado ao Inpe. Eu, apesar das divergências com o ministro, considero muito boa a proposta dele de nós voltamos com o TerraClass", concluiu. 

Entenda a crise

A troca de acusações envolvendo o ex-diretor do Inpe, Ricardo Galvão, o presidente Jair Bolsonaro e seus ministros, Ricardo Salles (Ambiente) e Marcos Pontes (Ciência), começou no dia 3 de julho de 2019, quando dados do Deter, sistema de alertas de desmatamento do Inpe, apontaram que o desmate na Amazônia cresceu.

De lá para cá, o ex-diretor do Inpe e o presidente trocaram acusações, Galvão foi demitido e Marcos Pontes escolheu um militar - Darcton Policarpo Damião - como diretor interino do Instituto.

Além disso, em 6 de agosto, novos dados do Deter mostraram que a situação era pior do que se pensava e, devido a crise e a relação tensa entre o governo Bolsonaro e países europeus que dão recursos para proteção do ambiente, a Alemanha cortará o repasse de quase R$ 150 milhões para preservação da Amazônia. 

Após corte, governo manda resposta para a Alemanha sobre a Amazônia;




A Alemanha vai suspender um aporte de 35 milhões de euros, o equivalente a cerca de R$ 155 milhões, a projetos de proteção e preservação da Amazônia enviados ao Brasil pelo Ministério do Meio Ambiente alemão. O argumento é a preocupação com a alta do desmatamento na região amazônica. As recentes divulgações pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe) seriam a causa da retenção dos recursos. 

Dados do Inpe apontam que o desmatamento cresceu 88% em junho e 278% em julho, ambos comparados com o mesmo período do ano passado. O governo nega as informações e atribui as elevadas taxas de crescimento à inserção de informações anteriores ao mês de referência. No entanto, o argumento exposto pelo ministro do Meio Ambiente brasileiro, Ricardo Salles, não convenceu sua contraparte na Alemanha, a ministra Svenja Schulze, em entrevista ao jornal Tagesspiegel. 

A ministra do meio ambiente alemã não comentou os dados divulgados pelo Inpe, mas questionou a política ambiental brasileira na Amazônia. “A política do governo brasileiro na região amazônica deixa dúvidas se ainda se persegue uma redução consequente das taxas de desmatamento”, declarou Schulze ao jornal alemão. A publicação sugere que, somente com dados claros sobre o combate ao desmatamento, a cooperação poderá continuar. 

O governo alemão investe em projetos de proteção à Amazônia há mais de uma década. A publicação alemã informa que, desde 2008, foram disponibilizados 95 milhões de euros, cerca de R$ 425 milhões. Apesar da suspensão de verbas, Schulze manifestou que o bloqueio não atingirá o Fundo Amazônia, o maior projeto de cooperação internacional para preservação da área florestal, de cerca de 4,1 milhões de quilômetros quadrados (km2).

A decisão do governo alemão foi desdenhada, neste sábado (10/8), pelo ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Para ele, o mundo cobiça a Amazônia, mas nenhum país europeu pode dar lição ao Brasil de preservação do meio ambiente. “O país, quer no bioma Pampa, quer no Cerrado, quer no Semi-Árido, quer no Amazônico, ensinamos o mundo como se protege o meio ambiente. Eu desafio qualquer mandatário europeu ou qualquer ONG europeia comparar o que eles têm hoje de mata nativa e o que tem o Brasil. Então, vamos com calma. E também não vamos ser ingênuos de achar que não tem toda uma ação em cima do meio ambiente que significa travar o desenvolvimento brasileiro”, declarou. 

Enfrentamento

O discurso de enfrentamento de Onyx é alinhado ao do presidente Jair Bolsonaro. Na terça-feira, quando participou de uma cerimônia de abertura do 29º Congresso da ExpoFenabrave, em São Paulo, alfinetou a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da França, Emmanuel Macron, sobre a questão ambiental. Disse que os dois “não se deram conta de que o Brasil está sob nova direção”. Bolsonaro se reuniu com os dois na cúpula do G20, em junho, em Osaka, no Japão.

A tendência, agora, é de que a suspensão de recursos pelo governo alemão dê ainda mais forças para a decisão de Bolsonaro em ser o primeiro a ter acesso aos dados do Inpe sobre desmatamento antes de autorizar suas publicações. Na quarta-feira, garantiu que faria isso. “Ele (Darcton Damião, novo diretor do instituto) vai apresentar os números para mim que forem alarmantes. Vai preparar para eu responder para vocês. (É algo que) tem reflexo no mundo todo”, destacou. Os números, defende, devem ser “precisos”.

Senadores estão divididos sobre indicação de Eduardo Bolsonaro para embaixada dos EUA.




Filho do presidente, no entanto, conta com o presidente da comissão como aliado. Senador Nelsinho Trad só vai pautar a indicação quando o governo tiver maioria no colegiado.

Divisão e constrangimento. Essas são as duas palavras que descrevem o clima no Senado Federal com a aprovação pelos Estados Unidos da indicação de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a embaixada em Washington. Após o presidente Jair Bolsonaro oficializar a indicação do filho para o posto, a responsabilidade por dar aval ao nome caberá aos senadores.

Ao HuffPost, senadores, inclusive alinhados ao presidente, afirmaram que há um “mal-estar pela indicação do filho do presidente”. Para eles, o caso é uma questão de cunho pessoal de Bolsonaro e há preocupação sobre como dizer “não” ao mandatário. “Como ele [Jair Bolsonaro] vai encarar isso?”, desabafou um senador. 

Na Comissão de Relações Exteriores, composta por 18 senadores, quatro ainda estão indecisos. Os demais estão divididos, com um placar de sete favoráveis e sete contrários. “O clima é de equilíbrio”, disse ao HuffPost o presidente do colegiado, Nelsinho Trad (PSD-MS). 

"Para usar o jargão das pesquisas eleitorais, sem margem de erro alguma, há realmente um empate nesse momento."

-Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da CRE

De acordo com o senador, responsável por escolher o relator da indicação na Casa, quatro pares já o procuraram para falar no assunto: dois para dizer que não querem assumir o posto; outros dois para pedir a relatoria. “Como posso falar nisso se a mensagem [presidencial com a indicação] ainda nem foi enviada [ao Senado]?”, afirmou. 

Nos bastidores, o mais cotado para o posto é Chico Rodrigues (DEM-RR). Ele é conhecido da família Bolsonaro. Viajou com o presidente para Israel, em abril, e emprega um primo dos filhos de Bolsonaro. Eduardo Leonardo Rodrigues de Jesus, conhecido como Léo Índio, ocupa o cargo de assessor parlamentar. Ele foi contratado em abril, com salário bruto inicial foi R$ 5,3 mil, mas já saltou para R$ 22,9 mil, de acordo com a folha de pagamento de julho disponível no portal da transparência do Senado.

Líder do PSL no Senado, Major Olímpio (PSL-SP) é um dos que tem interesse na relatoria. Nesta sexta-feira (9), ele reafirmou que assumiria o posto e que se manifestará favorável ao nome de Eduardo de qualquer forma. “Não é nepotismo, não tem nada de errado.”

Vice-presidente do colegiado, o senador Marcos do Val (Cidadania-ES), foi um dos que solicitou a relatoria. Mas recebeu de Trad uma resposta negativa. Ele é publicamente contra a indicação de Eduardo. 

“Já disse isso ao Flávio [Bolsonaro, irmão do deputado], já disse aos líderes do governo. Tanto que ninguém tem vindo mais a mim para tentar me convencer. Dar aval a ele é como dar um diploma de médico a quem não fez medicina. É um cargo que precisa ser ocupado por alguém da carreira”, desabafou o senador. 

Para ele, a temperatura real só poderá ser medida no dia da votação. “Há quem me diga que está contra, há quem diga que é favorável. Tem quem acredite que ele será aprovado, e os que garantem que o nome dele não passa de jeito nenhum.”

Independentemente da escolha o relator, o presidente da comissão avisou aos colegas que só pautará o assunto quando sentir que há maioria favorável ao filho do presidente da República. O mesmo ocorre com o presidente do Senado, que vem trabalhando nos bastidores por Eduardo. 

Convencimento

Para garantir a atuação de Alcolumbre, o governo está fazendo o possível. Esta semana, o presidente abriu espaço no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) para afagar o democrata. 

Para abrir espaço para o senador, Bolsonaro retirou duas indicações feitas em maio, uma pelo ministro da Economia, Paulo Guedes (Leonardo Bandeira Rezende), e outra pelo ministro da Justiça, Sergio Moro (Vinícius Klein). Elas estavam travadas no Senado desde então e corriam risco de serem rejeitadas na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos). A expectativa é que Alcolumbre indique os novos nomes. 

O trabalho de convencimento também tem sido feito pelo próprio Eduardo.Esta semana, ele deu início a andanças pelo Senado. O que chama a atenção é que este trabalho de convencimento tenha começado antes mesmo de formalizado seu nome. 

Durante todo o processo, que pode durar poucas semanas, ou até meses, não apenas Eduardo Bolsonaro, mas também seu irmão e senador Flávio, bem como aliados, e interlocutores do Palácio do Planalto seguirão atrás dos parlamentares para juntar a maior quantidade de apoio possível na hora da votação no plenário. O tempo que o trâmite entre a CRE e a votação final levará depende do grau de aceitação da indicação entre os senadores.

Deputado federal mais votado, Eduardo Bolsonaro quase não dá as caras aqui.


O filho Zero Três: oito vindas a São Paulo neste ano


Nascido e criado no Rio de Janeiro, fã de praia e das ondas, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) viu em São Paulo um nicho interessante para expandir a franquia eleitoral da família do presidente da República. Ao ser eleito em 2014 com 82 000 votos, o Zero Três — seus irmãos Flávio e Carlos receberam do pai, Jair, os apelidos de Zero Um e Zero Dois, respectivamente — morava em um apartamento na Lapa, na Zona Oeste, próximo à sede da Polícia Federal, onde trabalhava como escrivão.

Quatro anos depois, reeleito com 1,8 milhão de votos, um recorde para o Congresso, Eduardo deu baixa não só no cargo da PF e no apartamento, mas também no estado. O parlamentar veio apenas oito vezes a São Paulo entre janeiro e junho deste ano, seis delas saindo de Brasília, segundo dados da Câmara.

De volta à capital federal, foram apenas quatro voos partindo de aeroportos paulistas, contra seis do Rio de Janeiro. Na declaração de bens à Justiça Eleitoral, Eduardo afirmou possuir dois apartamentos, um em Botafogo, avaliado em 1 milhão de reais, e o outro, mais simples, em Copacabana. Em processos judiciais, seu endereço é a capital fluminense.

Para não dizer que o deputado tem vínculo zero com os paulistas, ele mantém duas salas, de cerca de 70 metros quadrados no total e que custam 4 574 reais mensais, pagas com a verba de gabinete, em um prédio comercial no Paraíso, na Zona Sul. Segundo vizinhos, as portas vivem fechadas e o político não costuma dar as caras no pedaço.

“Às vezes vejo apenas um homem solitário, mas ainda assim é raro”, afirma um empresário que possui um escritório no mesmo andar. Na última segunda (5), um funcionário identificado como Rubens estava no local, mas não permitiu a entrada da reportagem. As prestações de contas corroboram as alegações. Em 2018, o gasto anual das duas salas com energia elétrica foi de 668 reais, uma média de 27 reais por mês em cada uma. Em um escritório próximo, que tem cinco funcionários e é equipado com aparelho de ar condicionado e geladeira, a despesa mensal com luz não sai por menos de 150 reais. Procurado, o deputado não respondeu aos questionamentos.

A lei não obriga o parlamentar a morar no estado pelo qual foi eleito nem determina a obrigatoriedade da instalação de escritórios. “Mas o uso indevido de dinheiro público pode resultar em cassação do mandato e responsabilização na Justiça por ato de improbidade administrativa”, afirma o advogado Arthur Rollo. “O dinheiro não é dele, é público. É a mesma coisa que um prefeito alugar um prédio para a instalação de uma secretaria e deixar o lugar às moscas”, completa o especialista em legislação eleitoral.


Prédio onde o deputado mantém duas salas: apenas um funcionário


Mesmo quando tem a possibilidade de atuar em prol dos paulistas, com a distribuição das chamadas emendas parlamentares, Eduardo Bolsonaro perde de lavada na comparação com outros campeões das urnas. Recordista em 2014, com 1,5 milhão de votos, Celso Russomanno (PRB) liberou 3 milhões de reais neste ano. Mais votado de 2010, com 1,3 milhão de votos, Tiririca (PR) destinou 1,7 milhão de reais. Já Eduardo não liquidou um centavo sequer de emendas aos paulistas em 2019 — havia liberado 9,4 milhões de reais entre 2015 e 2018. Na apresentação de projetos de lei, o filho do presidente empata com o palhaço: cinco para cada um neste ano. Um deles (de autoria de Eduardo) declara a princesa Isabel patrona da abolição da escravatura no Brasil.

Seu primeiro mandato também não teve produção marcante. Apresentou 37 projetos em quatro anos, nenhum aprovado. Um deles visava a inscrever o falecido deputado federal Enéas Carneiro (sim, o do “Meu nome é Enéas!”) no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. “O deputado é eleito para representar o local e reconhecer seus problemas. O Eduardo ganhou pelo sobrenome, e não por ter ligações históricas com os paulistas”, diz o cientista político Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getulio Vargas. “O suplente dele, da região de Sorocaba, pode exercer um melhor papel”, afirma, referindo-se ao médico Vinicius Rodrigues (PSL), que obteve 25 900 votos, o equivalente a 1,4% do que recebeu o titular. Entre as viagens internacionais recentes do deputado, que nada têm a ver com diplomacia, houve férias de julho na Indonésia (ele até postou um vídeo pegando onda por lá) e sua lua de mel, em maio, nas ilhas Maldivas, no Oceano Índico. Para os paulistas, a mudança de Eduardo para Washington pode ser um bom negócio.


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