terça-feira, agosto 20, 2019

DIREITOS

O que lésbicas pensam sobre a correção do algoritmo de busca do Google.


Empresa reconheceu que buscas mostravam resultados "abaixo das expectativas". 


Há um mês, maior buscador do mundo consertou algoritmo para que o termo 'lésbica' deixasse de ser associado a pornografia.

Há um mês, o Google consertou o algoritmo de buscas relacionado à palavra lésbica e deixou de exibir o que aparecia em páginas e páginas de pesquisa: conteúdo relacionado à pornografia. A mudança ocorreu após iniciativa do grupo ativista francês SEO Lesbianne. A alteração foi vista de maneira muito positiva e como uma vitória para a comunidade LGBT.




“Acreditamos que o Google pode nos ajudar a tornar a palavra ‘lésbica’ em todos os idiomas mais respeitada e, por consequência, todas as lésbicas podem ser tratadas da maneira que merecemos”, avaliou Fanchon Mayaudon-Nehlig, criadora do SEO Lesbianne ao HuffPost após a conquista.

Desde o dia 19 de julho é que esta correção está ativa. Antes, o mecanismo de busca mais famoso do mundo trazia em seus primeiros resultados conteúdos ligados a sites pornô, mesmo se a pesquisa fosse por um conteúdo de cunho educacional ou informativo, o que contribuía para a sexualização de mulheres.

A partir de agora, na pesquisa pelo termo “lésbicas” no Google, você encontrará a página da Wikipédia e outros conteúdos informativos. No Brasil, logo na primeira página é possível chegar à Wikipédia.



Com a mudança em vigor desde pouco antes deste mês da visibilidade lésbica, o HuffPost Brasil conversou com algumas mulheres e perguntou como elas se sentiram com essa alteração e qual a importância dessa mudança para a comunidade LGBT e para a sociedade como um todo.

Veja a seguir os depoimentos:

“Legitimação”, Marina Fagali, 32 anos, relações públicas


É mais aceito porque ronda muito o fetiche masculino."



“Eu, particularmente, fiquei muito feliz com esse movimento de uma das maiores empresas do mundo. Ela é uma super referência que pauta muitas conversas hoje em dia, e a principal ferramenta de busca e a referência das pessoas; então, esse movimento é muito importante para a legitimação da homossexualidade feminina.

O que eu sinto é que até então, em diversas frentes, a gente acaba sofrendo com uma ‘fetichização’ de uma sociedade machista. Então, ao mesmo tempo que teoricamente é mais aceito, é entre aspas. É mais aceito porque ronda muito o fetiche masculino, tem muita relação com estar ligado a conteúdo pornográfico porque era dali que vinha uma aceitação, porém não legitimação.

"Saímos do fetiche, da ideologia machista e extremamente fantasiosa, e entramos em uma realidade de que existe um lugar para essa relação homoafetiva entre mulheres."

E acho que a gente está em um movimento de conquistas muito importantes para legitimação dessa categoria, digamos assim; porque falta ainda olhar para esse tipo de relação como uma relação normal. Eu acho que os homens gays enfrentam outras batalhas e que a homoafetividade feminina entra em um lugar do fetiche.

Entender que são duas mulheres que se curtem e que não vão realizar os seus [dos homens] desejos sexuais e que também é importante gerar conteúdos relevantes sobre isso ― porque as próprias meninas lésbicas, toda a questão do descobrimento da homossexualidade e como lidar com isso tanto para as meninas quanto para as famílias ― por que é uma forma de a sociedade aprender a lidar com isso.

Saímos do fetiche, da ideologia machista e extremamente fantasiosa, e entramos em uma realidade de que existe um lugar para essa relação homoafetiva entre mulheres.”

“Reparação social”, Juily Manghirmalani, 29 anos, cineasta


"O pornô é tão enraizado na nossa sociedade que é frustrante só agora, em 2019 (...) que a plataforma mais importante do mundo tenha feito essa reparação social."


“Olha, pra ser sincera foi uma novidade, mas infelizmente não foi nenhuma surpresa saber que os algoritmos do Google [funcionavam assim].

Apesar de tantos movimentos em prol dos movimentos sociais e identitários, nossa cultura ainda é organizada em muito através da perspectiva e agenciamento masculino. O olhar do homem sobre todas as esferas, inclusive e, principalmente, erotismo e expressões sexuais.

O pornô é tão enraizado na nossa sociedade que é frustrante só agora, em 2019 e através de obviamente uma mulher, que a plataforma mais importante do mundo tenha feito essa reparação social de pesquisa informativa sobre uma palavra que não é ofensiva, não é para satisfação do olhar masculino, e sim, na verdade, uma orientação sexual que os exclui.”

“Grande passo”, Jessyca Ferrari, 28 anos, comunicadora social

“Eu sempre fui uma consumidora ávida de produtos ligados a identidade lésbica, sobretudo filmes e séries. Com 14, 15 anos eu já buscava coisas com as quais eu pudesse me identificar, histórias que pudessem servir de exemplo e as buscas eram sempre as mesmas. Toda vez que eu buscava filme lésbico ou filme transexual ― até filmes gays, mas menos ―, sempre o resultado eram páginas e páginas de pornografia. É muito frustrante ter a sua identidade fetichizada 24 horas, é insuportável.

A gente acaba aprendendo a burlar isso de certa forma. No meu caso, em questões de filmes, eu aprendi alguns sites mais sérios e específicos que eu poderia recorrer ou às vezes ou continuava a pesquisa até achar alguma coisa que pudesse ser útil. Até recentemente essa dificuldade permaneceu.

"É muito frustrante ter a sua identidade fetichizada 24 horas, é insuportável."

Eu esqueci ― acho que a gente esquece ― estamos em 2019 e esperamos que as coisas tenham mudado, e fiz uma busca de ‘roupas lésbicas’ e percebi que tudo, todas as buscas traziam páginas e páginas de pornografia e depois, parando para pensar, talvez na cabeça de outras pessoas seja claro que lésbica é pornografia, mas não deveria.

Para mim, eu só queria lojas especializadas em roupas com cultura LGBT. Você vai tentando mudar os mecanismos, termos em inglês... até que eu desisti. Recentemente refiz a busca e está bem diferente. É um grande passo. É triste que para algumas pessoas a primeira associação que se faça quando se pensa em lésbica não seja uma pessoa ou uma identidade, mas um fetiche. 

“Reconhecimento como ser humano”, Lívia Lanzoni, 31 publicitária


"É um passo muito importante."


“Eu acho que, por muitos anos, o mundo LGBT foi fetichizado; onde homem com homem e mulher com mulher era uma coisa extremamente sexual no sentido pejorativo e a internet de certa forma potencializou muito todas as vontades do ser humano.

Então eu acho que esse lado aflorou de modo muito ruim pra gente. E saber que agora o maior buscador do mundo resolveu fazer alguma coisa em relação a isso, é um passo muito importante. É um reconhecimento como ser humano e não como um corpo, não como um fetiche e nada nesse sentido, mas como pessoa, respeito, sentimento e acredito que é um momento muito importante.”

“Respeito”, Bruna Ferreira, 29, recursos humanos

“Quando a gente fala do grupo minorizado LGBT e quando a gente entra no L, a mulher ela ainda está em uma marginalização até mesmo quando a gente fala da indústria pornográfica, onde o L vai muito pela linha do fetiche e quando a gente começa a ter esse reconhecimento como um grupo minorizado que tem uma representatividade de mulheres grande no mundo onde a gente tem lutado cada vez mais pelo nosso espaço e isso não diminui o ser humano que a gente é, isso trás uma força muito forte para todas as causas, e não só do L mas do LGBT como um todo.

"Nesse reconhecimento de que somos mulheres e não somente mulheres lésbicas."

Acho que esse reconhecimento é um sinal de respeito e mais um espaço que estamos conquistando na própria sociedade, na própria comunidade e nas discussões em todos os debates, além da linha sexual que hoje é o que, infelizmente, a cabeça mais conservadora acaba pensando.

A gente tem um lugar de voz, um espaço de discussão muito mais aberto que é o que a gente precisa hoje em dia. Nesse reconhecimento de que somos mulheres e não somente mulheres lésbicas, mas mulheres que estão em uma luta muito maior do que [o papo de que] “hoje a gente só fala disso”. 

“Aliviadas”, Lola, 38, e Iza, 33, do Pantynova, sexshop criado especialmente para mulheres

“Nós ficamos imensamente aliviadas. São grandes conquistas e me assusto ao saber disso em pleno 2019. Imagina quantas crianças e adolescentes que se depararam com esse “conhecimento” advindo do Google?. E, na verdade, penso nas milhares de pessoas que digitaram essa palavra no google “lésbica” e aceitaram como verdade essa realidade vinda da pornografia."

"Quantos homens se sentiram “beneficiados” com esse estereótipo e entenderam isso como verdade absoluta?

Quantos homens se sentiram “beneficiados” com esse estereótipo e entenderam isso como verdade absoluta? Realmente revoltante entender toda essa extensão do patriarcado nos algoritmos. Espero que o mesmo siga adiante com outras palavras como travesti que ainda está conectado a violência na primeira página do Google Home Brasil.”

Vítimas de Ulstra relatamn tortura e criticam Bolsonaro.


VIOLÊNCIA Entre 1970 e 1974, Ustra aterrorizou, atacou, feriu e facilitou a morte de centenas de presos políticos


A marca da maldade

O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015), chamado de herói nacional pelo presidente Jair Bolsonaro, foi um torturador incansável, um estrategista da crueldade. Em 2008, ele foi o primeiro militar condenado pela Justiça brasileira pela prática de tortura durante a ditadura. 

Coordenando o DOI-Codi de São Paulo, órgão de repressão, entre setembro de 1970 e janeiro de 1974 (sob a presidência de Emilio Garrastazu Médici), aterrorizou, atacou, feriu e facilitou a morte de centenas de presos políticos. Pelo menos 50 pessoas morreram sob seu comando. Ustra foi um sujeito odioso que se regozijava com o sofrimento alheio. Nos tempos em que esteve à frente do DOI-Codi, controlou tudo com mão de ferro, supervisionou sessões de tortura e, quando necessário, assumia as agressões.

Normalização da barbárie

Uma de suas vítimas, o vereador Gilberto Natalini (PSOL-SP), lembra que Ustra chegou a levar a filha, ainda criança, para passear no DOI-Codi e brincar entre paus de arara e cadeiras do dragão — cadeira eletrificada em que se colocavam as vítimas molhadas para aplicar-lhes choques. A atitude sugere que, para ele, a violência contra seres humanos era algo banal e corriqueiro: o burocrata cumprindo ordens superiores. É a chamada normalização da barbárie, a banalidade do mal formulada pela filósofa Hannah Arendt . ISTOÉ conversou com três torturados sob as ordens de Ustra, um dos maiores vilões da nossa história. Ele jamais será preso porque morreu, mas se fosse vivo provavelmente responderia pelos seus crimes, como vai acontecer com o sargento reformado do Exército Antônio Waneir Pinheiro de Lima, o “Camarão”. Na semana passada, ele se tornou réu sob a acusação de sequestro qualificado e estupro de Etienne Romeu, em 1971, na “Casa da Morte”, em Petrópolis.


 GILBERTO NATALINI Torturado no DOI-Codi durante 30 dias, o atual vereador do PSOL define Ustra como um ser perverso e bestial


“Fui preso em 1972. Na época, eu era estudante do terceiro ano de medicina na Escola Paulista e não pertencia a partido algum. O Ustra comandava o Doi-Codi e tinha a patente de major. Seu nome de guerra era doutor Tibiriçá. Nós tínhamos um grupo de 20 estudantes e nos organizamos para ser oposição ao regime militar. Nosso trabalho não tinha nada de guerrilha, era oposição política. Nunca usei uma arma contra ninguém. A atividade clandestina que fazíamos era nos organizar para receber pacientes doentes que estavam na luta armada. Mas tínhamos um colega de turma cuja irmã pertencia ao Movimento de Libertação Popular (Molipo) que nos dava o jornal da organização. Prenderam um estudante para quem eu tinha passado um exemplar desses e ele entregou meu nome à polícia. Resolveram me prender, me levaram ao Doi-Codi e começaram a me bater para saber que diabo de jornal era aquele. Queriam o nome de quem o entregava, que era a irmã do Paulo Horta. Apanhei durante 30 dias. Eles me deram tantos choques nas orelhas que perdi a audição no ouvido esquerdo. 

Essa história de dizer que Ustra não torturava é mentira. Eu vi o Antonio Benetazzo (1941-1972) saindo morto de lá.

Ustra entrava na sala nas horas chave da tortura e, às vezes, ia até as celas. Era uma personalidade dupla: ao mesmo tempo que queria ser agradável, justificava a tortura. Batia pessoalmente. Era perverso, bestial, um monstro. Um domingo ele apareceu levando pela mão a filhinha de cinco anos, circulando entre paus de arara e cadeiras do dragão como se estivesse passeando no zoológico. Para nos torturar, não havia uma rotina fixa. Às vezes nos pegavam no meio da madrugada, às vezes pela manhã. Davam muita pancada, telefone (tapas nos ouvidos) e choques. Tinha a cadeira do dragão e o pau de arara. Quando o cara era importante na organização eles batiam até matar. Achei que não sairia vivo de lá. Ninguém defende a tortura, a não ser um insano ou um ser que se afastou da raça humana. Tortura é um crime ignóbil, abjeto.”


 ARLETE LOPES DIOGO A socióloga, presa em 1973 no DOI-Codi, diz que o coronel, além de violento, possuia foco e controle das emoções


“Eu fazia ciências sociais na USP e atuava no movimento estudantil, que era um caminho de apoio para algumas organizações armadas. Formei-me em 1972 e, em março do ano seguinte, fui presa junto com meu companheiro, Adriano Diogo, que estudava geologia. Fomos presos por causa da nossa relação com a Ação Libertadora Nacional (ALN). Fizemos algumas atividades de pichação contra a ditadura militar e acolhemos pessoas que estavam sendo perseguidas, como o Alexandre Vannucci Leme (1950-1973), que foi morto no Doi-codi um dia antes de sermos presos. Morávamos na Mooca e me detiveram em plena Avenida Paes de Barros. Levaram-me direto para o Doi-Codi. Fiquei numa cela onde estavam 18 mulheres do PC do B. As torturas começaram no dia seguinte. Queriam saber nomes de companheiros que participavam da luta armada. Ustra pessoalmente nunca me torturou, mas assistia às sessões e me interrogava. Sofria com choques elétricos em todas as partes do corpo e me batiam nos ouvidos. Sua frieza era impressionante. Interrompia a sessão e dizia que eu estava mentindo. Além de violento, tinha foco e controle impressionante das emoções. Era bastante objetivo no que queria: acabar com os comunistas e com a esquerda. Não fiquei com sequelas físicas, mas psicológicas. A defesa do Ustra é abominável. Falar que é um herói nacional passa do deboche. Estamos em 2019 mas o Bolsonaro parece que vive em 1973.”


EMILIO ULRICH Por causa das torturas, o publicitário ficou com sérias sequelas psicológicas, passou a beber e nunca mais conseguiu dormir sossegado


“Era estudante e militava em Porto Alegre. Estava ficando muito conhecido na cidade e em 1969 decidi viver em São Paulo. Entrei na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e um ano depois fui preso por causa de minha proximidade a Yoshitane Fujimori (1944-1970), comandante da organização. Cheguei no Doi-Codi, na rua Tutóia, às 5h30 da manhã. Imediatamente me mandaram sentar numa mesinha redonda e não perguntaram nem o meu nome. Colocaram um fio na orelha esquerda e outro na direita. Foi uma sessão de três ou quatro minutos de choque. Me perguntavam sempre a mesma coisa: onde é que está o Fujimori. Eles não se mostravam preocupados com a minha militância, com o que eu fazia na organização, nada disso interessou. Só queriam saber onde estava Fujimori. Do dia 20 de novembro até 5 de dezembro de 1970 fui torturado direto. Os horários eram os mais diversos e o Ustra participava de todas as sessões. Dava orientações e, quando achava que os torturadores estavam sendo moles, ajudava na palmatória e na máquina de choques. Eu sofria tortura dobrada porque servi o Exército em 1967 e ele considerava uma traição o fato de eu ter entrado numa organização contra o regime. Quando não me espancava, me mandava para a cadeira do dragão para que eu voltasse a respeitar o Exército. Ele que decidia se batia mais ou se batia menos, se mandava o médico examinar. Ustra que decidia, junto com um médico, se o cara iria aguentar mais um pau. Nunca sorria. Era imutável, sério, causava medo. Eu não conseguia contar isso que estou contando para você hoje. Choque no ânus, no pênis, noite e dia, como é que você fala sobre isso? Tomei muito telefone, choque na orelha, mas a minha seqüela, na verdade, foi mental. Nunca mais dormi sossegado. Depois que saí da cadeia comecei a beber. Fazem seis anos que parei. Tenho uma coleção de quase 1,5 mil poesias que escrevi sobre o Doi-Codi, a tortura e o perfil do torturador Ustra.”


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